Conforme se constatou na revisão da literatura, os conceitos referentes a dado, informação e conhecimento são geralmente tratados em um sentido hierárquico, estando inter- relacionados, mas diferenciados normalmente por uma questão de grau, em função do seu valor e sua utilidade, onde os dados são simples fatos que se tornam informação, se forem combinados em uma estrutura compreensível; ao passo que a informação torna-se
conhecimento, se for colocada em um contexto, podendo ser usada para fazer previsões. Por sua vez, uma informação é convertida em conhecimento quando um indivíduo consegue ligá- la a outras informações, avaliando-a e entendendo seu significado no interior de um contexto específico. (DAVENPORT; PRUSAK, 2003).
Analisados isoladamente, o termo “dado”, comumente usado na literatura referente à área de Ciência da Informação e de Informática, é definido por Miranda (1999, p.285) como um “[...] conjunto de registros qualitativos ou quantitativos conhecido que organizado, agrupado, categorizado e padronizado adequadamente transforma-se em informação". Dentre os ativos informacionais disponíveis nas organizações, os dados permitem apenas inferências baseadas em informações complementares que poderiam estar relacionadas àquele dado, desta forma, se transmitido ou registrado fora do seu contexto, pouco ou nada pode representar em termos de significado. Coadunando com este entendimento, Davenport e Prusak (2003, p. 2) afirmam que, no contexto organizacional, “[...] dados são descritos como registros estruturados de transações [...]”, mas “[...] não fornecem julgamento nem interpretação e nem qualquer base sustentável para a tomada de decisão”.
Quanto ao termo informação, Miranda (1999, p.285) conceitua como sendo "[...] dados organizados de modo significativo, sendo subsídio útil à tomada de decisão". Concepção análoga têm Davenport e Prusak (2003, p. 2) quando entendem que a informação, diferentemente do dado, tem significado, e “[...] está organizada para alguma finalidade [...]”.
Sob a ótica da Ciência da Informação, Prado (2014, não paginado) afirma que:
A informação é um recurso indispensável para todos os aspectos da natureza humana. É insumo vital do conhecimento e ameniza incertezas na tomada de decisão. Portanto, é ingrediente que agrega valor à compreensão das possibilidades de ação do sujeito, proporcionando ao homem [...] a transformação da condição de mero indivíduo coadjuvante para sujeito protagonista dos eventos do seu meio social. (PRADO, 2014, não paginado).
Em sua visão holística da utilização da informação nas organizações, Choo (2003, p. 29) afirma que “[...] as três arenas de uso da informação – criar significado, construir conhecimento e tomar decisões – são de fato processos interligados, [...] que se alimentam mutuamente [...]”. Em resumo, podemos considerar a informação como um conjunto finito de dados que já possuem uma determinada carga semântica, estando a sua significação ligada ao contexto do agente que a interpreta ou capta e de fatores como tempo, forma de transmissão e suporte utilizado.
implicações, faremos uma abordagem mais ampla, a respeito de como é compreendido e gerido, no contexto das organizações, a partir da concepção dos autores mais destacados.
Para Davenport e Prusak (2003, p. 6),
O conhecimento é uma mistura fluida da experiência condensada, valores, informação contextual e insight experimentado, que proporcionam uma estrutura para a avaliação e incorporação de novas experiências e informações. Ele tem origem e é aplicado na mente dos conhecedores. Nas organizações, costuma estar embutido não só em documentos de repositórios, mas também em rotinas, processos, práticas e normas organizacionais. (DAVENPORT; PRUSAK, 2003, p. 6).
Ainda na percepção desses autores (DAVENPORT; PRUSAK, 2003, p. 7), conhecimento provém da informação da mesma forma que esta deriva de dados, no entanto, “[...] é mais amplo, mais profundo e mais rico, sobretudo por estar mais próximo da ação, conduzindo às decisões ou tomadas de ação”. Afirma o mesmo entendimento Drucker (1991, p. 214), na medida em que define conhecimento como sendo “[...] informação que modifica algo ou alguém – seja inspirando ação, seja tornando uma pessoa (ou uma instituição) capaz de agir de maneira diferente e mais eficaz”. Ainda para Drucker (1999b, p. 32), conhecimento “[...] é o insumo mais importante da produção humana. São dados interpretados, dotados de relevância e propósito” (DRUCKER, 1999, p. 32). Sveiby (1998) também relaciona conhecimento à capacidade de agir.
Nonaka e Takeuchi (1997, p. 63), por sua vez, observam que “[...] o conhecimento, diferentemente da informação, refere-se a crenças e compromisso”, pois os valores e crenças determinam, em grande parte, o que um indivíduo vê, apreende e conclui a partir das suas observações. Crawford (1994) apresenta-nos quatro características fundamentais do conhecimento, que o evidenciam como o recurso mais importante da atual economia baseada em ativos intangíveis, sendo elas: 1) O conhecimento é difundível e se auto reproduz, expandindo-se e aumentando à medida que é utilizado, em oposição à finitude dos insumos da economia industrial; 2) O conhecimento é substituível, podendo substituir a terra, o trabalho e o capital; 3) O conhecimento é transportável, movendo-se sem limites e sem fronteira, por intermédio dos fluxos de informação providos pelas tecnologias da informação e da comunicação; 4) O conhecimento é compartilhável, sem que haja impedimento de uso ou redução de quantidade, para o detentor original que o transfere.
Por fim, revelando o caráter multidimensional do conhecimento, de acordo com Alavi e Leidner (2001), o conhecimento pode se referir a um objeto, a um estado cognitivo, ou a uma capacidade; ele pode residir em indivíduos, grupos, documentos, processos, políticas,
configurações físicas, ou repositórios computacionais; e também pode ser classificado como tácito ou explícito.
Considerando a importância do conhecimento tácito e do explícito para os processos da Gestão do Conhecimento, aprofundaremos a análise sobre esses dois tipos de conhecimento, utilizando-nos, preferencialmente, dos referenciais teóricos oferecidos por Nonaka e Takeuchi (1997; 2008). Segundo Nonaka e Takeuchi (1997), o conhecimento explícito é o que pode ser articulado na linguagem formal, expresso em palavras, números ou sons, facilmente transmitido, sistematizado e compartilhado entre os indivíduos, na forma de dados, fórmulas científicas, recursos audiovisuais, especificações de produtos ou manuais.
Examinando o conhecimento tácito a partir de três dimensões, a epistemológica, a cognitiva e a técnica, Nonaka e Takeuchi (2008) preconizam que, em sua dimensão epistemológica, o conhecimento tácito é compreendido como não facilmente visível e explicável. Está profundamente enraizado nas ações e na experiência corporal do indivíduo, assim como nos ideais, valores ou emoções que ele incorpora, tornando-se, assim, de difícil comunicação e compartilhamento.
A dimensão cognitiva do conhecimento tácito deriva dos modelos mentais, crenças, paradigmas e pontos de vista, que ajudam os indivíduos a perceberem e definirem o mundo à sua volta. Por sua vez, os elementos técnicos englobam as habilidades e competências informais e de difícil detecção (know-how), pois são desenvolvidas com a prática, os insights altamente subjetivos e pessoais, as intuições, os palpites e as inspirações derivadas da experiência.
Em relação ao conhecimento tácito e explícito, Alavi e Leidner (2001) suscitam a discussão de um aspecto potencialmente problemático entre os estudiosos do assunto, que é a compreensão sobre qual dos dois tipos de conhecimento é mais importante ao processo da Gestão do Conhecimento. Para essas autoras (2001), os dois estados do conhecimento são essenciais, uma vez que não são dicotômicos, mas mutuamente dependentes, o que implica dizer que o conhecimento não é explícito ou tácito, é tanto explícito quanto tácito. Nesta perspectiva, o conhecimento organizacional constitui-se pela somado conhecimento dos indivíduos que compõem a organização, como resultado de uma interação contínua e dinâmica entre o conhecimento tácito e o conhecimento explícito, onde, o conhecimento tácito constitui o contexto necessário para atribuir a estrutura, desenvolver e interpretar o conhecimento explícito.
Quanto ao conhecimento explícito, Zack (1999) nos traz uma interessante e pragmática compreensão sobre sua importância e funcionamento, que pode servir de base para
que seja efetivamente comunicado e compartilhado nas organizações. Em seu entendimento, o conhecimento explícito pode ser dividido em três categorias, sendo elas: conhecimento declarativo, conhecimento procedural conhecimento causal.
Por meio do conhecimento declarativo ou representacional, busca-se saber o que são as coisas, o mundo circundante e o que é preciso ser feito para representar a informação em nossa mente, de modo que nos seja possível compreendê-la, armazená-la e utilizá-la posteriormente. A partir do conhecimento procedural, procura-se identificar como utilizar e manejar a informação. O conhecimento causal, por sua vez, é o que nos permite compreender sobre por que algo ocorre, possibilitando às organizações coordenarem estratégias para atingir objetivos ou resultados.
Para que a organização possa ser enriquecida pelo conhecimento de seus membros, tornar-se imprescindível que aprenda a distinguir conhecimento tácito do explícito, dominar formas de capturá-los e registrá-los, de modo a que não ocorra a perda desse valioso referencial, do qual depende em favor da melhoria do seu desempenho e desenvolvimento de vantagem competitiva sustentável. É preciso, portanto, a adoção de um novo paradigma de gestão, mais apropriado para o enfrentamento das turbulências, incertezas, inconsistências, contradições e paradoxos, próprios desses novos tempos. Segundo Nonaka e Takeuchi (2008) este novo paradigma é baseado na criação do conhecimento.
Nesse cenário, as empresas bem sucedidas serão as que criarem, de forma sistemática e consistente, novos conhecimentos, disseminando-os amplamente pela organização e incorporando-os rapidamente em novas tecnologias, produtos e serviços. “Essas atividades definem a empresa criadora do conhecimento, cujo negócio principal é a inovação constante”. (NONAKA; TAKEUCHI, 2008, p. 39).