9 Resultat
10.1 Dimensjonering 64
regularidades em determinados períodos, e certas sequências de regularidades, que podemos, com abertura de espírito,
considerar épocas históricas ou sucessão de épocas históricas, sem com isto pretendermos dizer que a evolução do jornalismo aponta para uma certa direcção ou que essa evolução é perfeitamente linear, no que concordamos com Hoyer (1994).
A distinção de épocas, ou períodos, na história do jornalismo ocidental contribui para a compreensão da forma como o sistema mediático evoluiu no Ocidente, pois permite reconhecer que em determinados períodos de tempo, com certa estabilidade, as acções dos actores históricos e os acontecimentos que estes protagonizaram partilharam determinadas características comuns, tão ou mais relevantes do que as acções individuais dos actores históricos e cada acontecimento em si. A ideia básica é, assim, a de que uma época na história do jornalismo produziu, necessariamente, determinados tipos, formas e conteúdos jornalísticos, de acordo com as circunstâncias (culturais, económicas, tecnológicas, sociais, nomeadamente institucionais e políticas) que a rodearam, independentemente da maior ou menor relevância dos acontecimentos particulares e das acções individuais.
Habermas (1981; 1984) foi um dos autores que propôs a existência de épocas na história do jornalismo, quando, como vimos em capítulos anteriores, procurou descrever a evolução do espaço público desde os tempos da Antiga Grécia. Porém, Habermas tem uma perspectiva algo “dirigida” e “idealista” da história do jornalismo, pois o seu propósito foi mostrar como o espaço público tem vindo a decair e deteriorar-se irreversivelmente ao longo do tempo por causa de uma alegada perda da significância social do jornalismo e da destruição da racionalidade e profundidade do discurso na esfera pública, por causa dos objectivos essencialmente comerciais da comunicação social contemporânea, o que serviria o interesse dos poderosos, que assim assegurariam a manutenção do seu domínio. Para procurar provar a sua tese, Habermas serve-se da ideia de uma espécie de “espaço público ideal”, o das discussões racionais e aprofundadas sobre as ideias, a política e a governação que ocorriam na Ágora grega e no Fórum romano, replicadas nos salões literários, cafés e clubes de cavalheiros que apareceram na Europa a partir do século XVII e teriam atingido o zénite no século XVIII, onde os jornais eram lidos e os seus conteúdos discutidos. É de salientar, porém, que as teses de
Habermas são problemáticas. Alguns autores, como Hoyer (1994: 6), discordam de Jürgen Habermas, chamando desde logo a atenção, por exemplo, para o facto de as discussões nos cafés, clubes de cavalheiros e salões terem poucas consequências políticas, ao contrário do que sucedia na Ágora ateniense. Curran (1990), por exemplo, critica Habermas salientando que a imprensa a que este último autor se refere é apenas a imprensa burguesa, pois, segundo Curran, a
imprensa “radical”, por exemplo, nunca teve condições de sobrevivência e participação igualitária na esfera pública, mesmo nos séculos XVIII e XIX, pelo facto de não conseguir captar publicidade da burguesia endinheirada que se digladiava no espaço público. Schudson (1997) relembra que mesmo os “pais fundadores” dos Estados Unidos, no final do século XVIII, não toleraram uma esfera pública de formação de opinião e de associação da população à governação para lá do mecanismo das eleições, exemplificando com o facto de nos primeiros seis anos os debates no Senado Americano terem sido secretos e com o facto de a Assembleia Constituinte dos EUA ter reunido nos primeiros seis meses de 1787 sem nunca ter tornado pública informação sobre a sua agenda e as discussões travadas no seu seio. Independentemente das críticas, para Habermas, cada época da história do jornalismo distinguir-se-ia pelo modo dominante de produção jornalística, pelas questões associadas ao poder e controle sobre o jornalismo e à interacção entre jornalismo e vida pública, havendo, assim, que considerar as seguintes épocas na história do jornalismo:
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1) Época da imprensa noticiosa rudimentar, correspondente, no essencial, aos séculos XV a XVII, elaborada nas primeiras tipografias por tipógrafos-editores que quase resumiam a sua actividade à publicação de notícias traduzidas de periódicos estrangeiros (o jornalismo nasceu noticioso e internacional), mais do que produzir informação da sua própria autoria (embora também o fizessem).
2) Época dominada pela primeira imprensa política (pelo menos no mundo anglófono, onde existia liberdade formal de imprensa), correspondente, no essencial, ao período entre o século XVIII e a primeira metade do século XIX, em que o jornalismo estava ligado à intensa actividade de discussão das ideias, da política e da governação que ocorria nos salões literários e cafés. Nesta época, os papéis sociais de editor, proprietário, redactor, escritor e mesmo político misturavam-se e muitas vezes confluíam numa mesma pessoa.
3) Época dominada pela imprensa opinativa. Nesta época, pela primeira vez os proprietários contratam editores e redactores para expressar determinadas ideias e lutar por elas.
4) Época dominada pela imprensa “de partido” (party press), directamente conectada com partidos políticos organizados;
5) Época dominada pelo jornalismo profissional, caracterizada pela profissionalização dos jornalistas, contratados para corporizar projectos empresariais de jornalismo “de massas”.
Um outro autor que periodiza a história do jornalismo (americano) é Michael Schudson (1978).
No seu livro Discovering the News, Schudson (1978) encara a história do jornalismo americano de forma mais positiva do que Habermas faz para o jornalismo ocidental em geral. A ideia base de Schudson é a de que o jornalismo americano se tornou crescentemente independente do poder político entre o final do século XIX e meados do século XX. A conquista da independência deveu-se, segundo Schudson (1978), à autonomização do jornalismo como profissão, para o que foi necessário o surgimento e cultivo dos valores que formataram o profissionalismo jornalístico, como o apego à independência, o rigor, o equilíbrio, o pragmatismo e a objectividade (citação explícita de fontes e fidelidade aos factos). A objectividade jornalística, em particular, é encarada como o método profissional que permite ao jornalista superar o medo de os factos noticiados estarem errados e fazer com que as notícias interessem transversalmente a toda a sociedade, independentemente das convicções de cada um. O desenvolvimento do jornalismo americano dentro desse
quadro de valores e o culto da objectividade como prática profissional permitiu ainda aos jornalistas satisfazerem standards profissionais de qualidade na produção de informação e garantiu ao jornalismo a possibilidade de manter a sua independência e ser comercialmente bem sucedido, coisa que não conseguiria se fosse um jornalismo de causas. A objectividade desembocou no valor da imparcialidade, pois, a partir do final do século XIX, os jornalistas americanos tiveram de fazer face aos relações públicas e outras fontes organizadas e interessadas, que procuram direccionar a produção jornalística de informação para os seus interesses particulares. Assim, os jornalistas, desconfiando dos factos propagados pelos profissionais de relações públicas, começaram a procurar contrastar e citar equilibradamente as fontes, em especial em ocasiões de conflito de pontos de vista, e a fazerem entrevistas agressivas, que dão ao jornalista a sensação de se portar como um observador imparcial e de ser um paladino da verdade. Os valores profissionais dos jornalistas alicerçaram a cultura e a ideologia profissionais e, retroactivamente, contribuíram para a autonomização do jornalismo como profissão, à semelhança, aliás, do que ocorreu com outras profissões. Assim, tendo em conta a argumentação anterior, Schudson (1978) defendeu que o jornalismo impresso americano atravessou as seguintes fases:
1) Época do controle britânico sobre os jornais das colónias americanas, através do mecanismo das licenças prévias;
2) “Idade negra” da imprensa partidária, até meio do século XIX;
3) Surgimento da penny press, comercial, a partir dos anos Trinta do século XIX, com maior desenvolvimento a partir dos anos Setenta/Oitenta desse mesmo século;
4) Era do jornalismo profissional, assente nos princípios da objectividade e da neutralidade, a partir, em especial, dos anos Vinte do século XX.
Outros autores são relevantes para compreendermos a evolução do jornalismo ocidental e a respectiva periodização. Hazel Dicken-Garcia (1989), por exemplo, também analisou o jornalismo americano no século XIX, tendo chegado a uma conclusão semelhante à de Schudson: a ideia da “imprensa livre” inspirou a autonomia, a responsabilidade social e o profissionalismo dos jornalistas logo no século XIX, mas também funcionou como referente para o debate público sobre o papel da imprensa numa sociedade democrática. Rudenstine (1996), por seu turno, relembra o papel de casos como o Watergate na formação de consensos sobre o papel do jornalismo e dos jornalistas na sociedade e,
consequentemente, na “institucionalização” da imprensa, com a consequente concentração e aumento de recursos para o exercício do jornalismo profissional. As visões de Schudson, Rudenstine, Dicken-Garcia e mesmo Habermas são, porém, criticadas por Curran (1990), por enfatizarem que as práticas jornalísticas são mais influenciadas pelo “clima cultural” do que pela infra-estrutura económica e por darem a ideia de que o profissionalismo torna o jornalismo imune às pressões e ditames dos detentores do poder económico. No mesmo sentido de Curran, Kaul (1986) escreveu que o profissionalismo jornalístico, acompanhado do culto da objectividade e da neutralidade, foi uma invenção dos proprietários dos jornais, destinada a evitar sobressaltos nas relações laborais e a reduzir as possibilidades de crise no negócio jornalístico e de processos judiciais.
O nosso propósito com este trabalho, todavia, não vai tão longe quando o de Habermas, o de Schudson ou outros autores referidos. A única tese que quisemos provar, e que nos parece provada, é a de que o jornalismo surgiu
noticioso e sempre houve jornalismo noticioso, com dimensão e impacto, até porque o jornalismo não teria
controle do jornalismo e da relação entre o jornalismo e o espaço público, não por discórdia ou concordância com Habermas, Schudson, Curran ou outros teóricos, mas sim por transcenderem os objectivos deste trabalho. Assim, a nossa proposta de distinção de épocas na história do jornalismo, como veremos, pretende ser puramente historiográfica, sendo apenas baseada nos modos e meios jornalísticos dominantes em cada período. Além disso, grande parte da periodização proposta por Habermas diz mais respeito ao mundo anglófono e da Europa Central (Estados Alemães, Holanda, etc.) do que ao mundo latino (Portugal era civicamente um país atrasado e periférico, que se começou a afastar nitidamente dos países mais abertos e avançados da Europa a partir do final do século XVI e princípios do século XVII) e as propostas de outros autores, como Schudson, estão explicitamente centradas no jornalismo norte-americano. Por outro lado, Habermas faz distinções que nós não fazemos entre aquela que poderíamos denominar por primeira
imprensa política, a imprensa opinativa e a imprensa de partido. Ao invés, consideramos que desde que houve imprensa política houve imprensa opinativa e houve vontade de arregimentar partidários, em particular no Reino Unido, pelo que houve também imprensa partidária. Para nós, embora reconheçamos existirem diferenças entre uma imprensa
estritamente “de ideias” e uma estritamente “partidária”, no essencial falar de imprensa opinativa, política e partidária, em especial entre o século XVII/XVIII e o século XIX, é falar, essencialmente, de várias faces de um mesmo fenómeno. Uma outra condicionante da proposta de Habermas impede a sua aplicação directa à nossa proposta de periodização da história do jornalismo no Ocidente: a periodização habermasiana respeita especialmente à história da imprensa e não tanto à história do jornalismo em geral. No entanto, todos os autores citados contribuíram para elaborarmos a nossa proposta de periodização da história do jornalismo ocidental, que é a seguinte: