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de governantes franceses e estrangeiros, etc.

As liberdades republicanas permitiram um incremento impressionante do papel do jornalismo em França e do consumo de jornais, observável quer nas tiragens da imprensa popular quer nas da imprensa política combativa “de partido”. As tiragens totais ascenderam ao insólito número de 240 exemplares por mil habitantes (García González, 1999: 84), sendo que só as tiragens dos jornais parisienses atingiam um milhão de exemplares, numa cidade que, no final do século XIX, ainda não contava com três milhões de habitantes.

Quatro jornais foram responsáveis pela implementação do receituário da segunda geração da imprensa noticiosa popular norte-americana (primeiro “Novo Jornalismo”) em França: os parisienses Le Petit Journal (já referido), Le Petit

Parisien, Le Matin e Le Journal. Todos se baseavam na política do preço baixo, formato manejável (cerca de 45 x 30

cm), diversidade de conteúdos (com muitas notícias de “interesse humano”), grafismo apelativo (títulos, ilustrações...), autopromoção (através de eventos, campanhas sociais, concursos...), etc. Além disso, entre os quatro repartiam quase integralmente o bolo das receitas publicitárias, graças a um acordo firmado com a mais importante agência de publicidade francesa de então: a Societé Generale des Annonces.

Le Petit Journal, lançado por Polydore Millaud, foi, na década de Sessenta do século XIX, como se disse, um dos

pioneiros na transformação do cenário jornalístico francês, propondo ao mercado, a exemplo da primeira geração da imprensa popular americana, um jornalismo de cariz noticioso, pautado pelo “interesse humano”. Em 1884, lançou um suplemento dominical. Na última década desse século, o jornal reinventou-se, seguindo a cartilha do “Novo

Jornalismo”. Na viragem para o século XX, já tirava um milhão de exemplares (García González, 1999: 84) e, sendo uma sociedade anónima, foi um dos primeiros jornais cotados em bolsa, evidenciando os enormes esforços financeiros que eram necessários para criar e manter um jornal (recursos humanos, recursos materiais, como a linotipia e as rotativas, etc.).

Le Petit Parisien foi o jornal popular que mais sucesso fez em França, tirando um milhão de exemplares em 1890 e 1,45

do jornal à luz da cartilha do “Novo Jornalismo”, a partir de 1888. Além disso, Dupuy foi também o introdutor dos cadernos especializados no jornalismo, incluindo nos seus jornais um suplemento literário e um desportivo, mas não se coibiu de fazer do jornal um órgão oficioso de apoio à sua carreira política.

Também Le Matin não se furtou ao controle por parte de interesses económicos e políticos. Propriedade dos empresários Henry Poidatz e Maurice Bunau-Varilla, acabou por converter-se, em 1898, no “órgão oficioso do Ministério do Exterior” francês, recebendo, em troca, vasta ajuda financeira (García González, 1999: 85).

Le Journal, surgido em 1892, foi o último dos quatro jornais populares a entrar no mercado, seguindo o receituário dos

seus concorrentes.

Como já se disse, as liberdades republicanas, consagradas, em particular, na Lei de Imprensa de 1881, geraram, embora talvez um pouco anacronicamente, o reaparecimento da imprensa politicamente alinhada, ou de partido (party press), em França. Em 1883, por exemplo, foi lançado o jornal socialista Le Cri du Peuple, logo seguido por jornais

republicanos, como L’Aurore ou L’Homme Libré, por jornais monárquicos, como L’Action Française, por jornais católicos (que reagiam contra a laicização do estado), como La Croix (que, em 1880, tinha aparecido como revista e se reconverteu, em 1883, em diário), e ainda por jornais nacionalistas e anti-democráticos, como La Patrie ou La Libre

Parole. Assistiu-se ainda à reconversão nacionalista do jornal La Presse.

Para o sucesso da imprensa francesa (popular ou política) e, de forma geral, europeia, muito terão contribuído as temáticas popularmente apelativas, como o crime (recorde-se a avidez com que foram lidas as histórias sobre Jack, O Estripador, em 1888), o desporto, os escândalos (sexuais, financeiros, etc.) e a corrupção. Basta relembrar, por exemplo, a paixão com que, em França, foi seguido o caso Dreyfus, um capitão judeu do Exército francês falsamente acusado de espionagem, em 1894, caso que a esquerda francesa obrigou a reabrir, até ao indulto desse oficial, em 1899. Ficou célebre o artigo J’accuse, do escritor Emile Zola, publicado, em 1897, no jornal político L’Aurore, em defesa de Dreyfus e contra os corruptos. Também célebre ficou a denúncia, pela imprensa, do “Escândalo do Panamá”, em 1892, revelando que um elevado número de deputados franceses tinha sido subornado pela Companhia do Canal do Panamá, em 1888.

As transformações na imprensa francesa e britânica cedo contagiaram a imprensa do Velho Continente e dos países ocidentais em geral, pelo que, no início do século XX, pode dizer-se que o jornalismo ocidental compartilhava várias características, quer na segmentação da imprensa (tipologia de jornais), quer mesmo no campo normativo e funcional do jornalismo, ou seja, no seu papel e forma de funcionamento na sociedade e respectiva regulamentação. Para essa convergência terão também contribuído os hábitos de leitura de jornais estrangeiros entre as elites (por exemplo, os hábitos de leitura dos jornais franceses em Portugal). Há registos desses hábitos de leitura de jornais de outros países nos livros editados por jornalistas portugueses do final de Oitocentos e princípios de Novecentos, como em O

Jornalismo (Alberto Bessa, 1904), Boémia Jornalística (Jorge de Abreu, 1927) e Nos Bastidores do Jornalismo (Rafael

Ferreira, 1945).

No final do século XIX, o discurso dos jornais europeus radicalizou-se, acompanhando as tendências ideológicas mais fortes. A imprensa popular entrou numa espiral de nacionalismo frequentemente xenófobo e imperialista, que a marcou até à I Guerra Mundial ou mesmo até à II Guerra Mundial. O jornalismo dominante não deixou de ser noticioso, mas incorporou não só algumas das receitas das duas gerações da imprensa popular norte-americana como também o discurso populista e radical da imprensa opinativa da primeira metade do século. Socialismo, anti-clericalismo, anti- semitismo, anarquismo, republicanismo, monarquismo, liberalismo conservador, conservadorismo, etc. digladiaram-se através das páginas dos jornais durante grande parte do século XIX, mas no final desse século e princípios do século XX será, essencialmente, o nacionalismo a vincar o discurso da generalidade da imprensa, em particular da imprensa popular. Por vezes, assiste-se mesmo a curiosas confluências discursivas, como o republicanismo nacionalista (basta

lembrar como os Republicanos portugueses usaram o nacionalismo como mote para reagir contra o Ultimato inglês e a Monarquia) ou o socialismo nacionalista. Assim, alguns jornais tornaram-se, simultaneamente, noticiosos e radicais, assumindo a tarefa de “representação” do leitor e de “voz do povo”, enquadrados por um discurso nacionalista. Por exemplo, em 1896 o Daily Mail apoiou, de forma bem sucedida, a política colonial preconizada pelos conservadores britânicos. De resto, a imprensa europeia do final de Oitocentos tinha a sua imagem espelhada na imprensa

sensacionalista americana, também ela radical ao espicaçar a histeria bélica que conduziu, por exemplo, como já se referiu, à guerra hispano-americana do final do século XIX (que, entre outras consequências, levou à independência de Cuba).

Para exemplificação dessa deriva nacionalista, xenófoba e, muitas vezes, pró-colonialista do discurso jornalístico, escolhemos alguns excertos de um jornal português insuspeito, o Diário de Notícias, um diário noticioso, generalista, independente e popular, cuja linha editorial visava, antes de mais, o lucro.

Assim, em 1890, quando o Governo do Reino Unido lançou a Portugal um ultimato contrariando as ambições coloniais portuguesas em África, escrevia-se no DN, em jeito de editorial (secção “Assuntos do Dia”):

“Como se previra, o conflito com a Inglaterra, por causa da expedição do major Serpa Pinto, cujos pormenores têm sido aqui miudamente referidos, chegou ao último extremo.

Não esperávamos tanto, por causa da demonstração unânime da Europa contra as injustas pretensões do Governo inglês; porém, poderíamos desde logo contar com alguma coisa desagradável da parte do gabinete de Saint James.

Todos sabem, ou antes, todos podem avaliar, que as instâncias e seguidamente as ameaças da Inglaterra contra o domínio colonial do nosso país, não vem precisamente do facto da expedição do major Serpa Pinto, que pretendeu agora, como sempre o havemos de fazer em prol dos nossos indiscutíveis direitos, castigar a audácia dos indígenas; vem de mais longe.

Vem, digamo-lo desassombradamente, do desejo de complicações na nossa África, que nos forcem a um desalojamento do que nos pertence para que as empresas de especulação britânicas, protegidas

ostensivamente pelas autoridades da sua nação, se vão alastrando onde seja necessário à sua influência e à sua política.

Os boatos graves que a este respeito correram anteontem e de que apenas por consideração patriótica demos uma leve ideia, têm-se confirmado e obrigaram, como já sabem os leitores, à reunião do Conselho de Estado e a repetidos e prolongados conselhos de ministros. [Seguem-se excertos do Diário Popular e do

Novidades.]” (Diário de Notícias, 13 de Janeiro de 1890)

Noutro exemplo, num suplemento intitulado “Homenagem aos Heróicos Expedicionários de Lourenço Marques”, publicado a 19 de Janeiro de 1896, o Diário de Notícias reforçava as pretensões coloniais portuguesas em África:

“Vivam os legionários de África!

Poucas nações terão tanto direito a intervir nos destinos do continente negro como a nossa.

Desde o século XV que nós contornámos as costas africanas e ensinámos a Europa a marcar o seu perímetro nas cartas geográficas.

Atravessámo-la de lado a lado, explorámos o seu interior, revelámos os seus segredos, e em cada palmo do seu terreno deixámos impressas as nossas pegadas.

A confiança nacional revive finalmente e os netos dos Gamas e dos Albuquerques, ao tomarem o pulso, sentem ainda bater o mesmo sangue generoso, que gerava a intrepidez dos guerreiros de outrora. (...)

Vivam os expedicionários de África!”

Pode dizer-se, em suma geral, que a imprensa europeia entrou no século XX assente quer na sua tradição e cultura específicas quer em elementos importados dos Estados Unidos (design, conteúdos, modo de funcionamento). Talvez não se possa falar de uma americanização da imprensa europeia, mas pode, seguramente, falar-se da interacção entre os diferentes modelos jornalísticos ocidentais, que se tornaram crescentemente convergentes, num mundo, também ele, crescentemente globalizado (até nas guerras, mundiais!). No século XX, o jornalismo ocidental, apesar da sua segmentação, será bastante semelhante nos diferentes países democráticos.

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