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A discussão sobre a racionalidade tecnológica realizada pelo pensamento frankfurtiano está diretamente ligada ao capitalismo que, além de difundir um controle econômico, inaugura um controle ideológico, produzido pela lógica positivista. É como se os elementos simbólicos da realidade, da hegemonia capitalista, fossem difundidos por uma noção de racionalidade fechada,

não histórica, claramente positivista. Essa é a tese central dos frankfurtianos que discutiremos resumidamente.

O movimento intitulado Teoria Crítica da Sociedade ou Escola de Frankfurt sugeria a unidade geográfica e as produções desenvolvidas por um conjunto de intelectuais dos quais destacaram-se Horkheimer, Adorno, Marcuse, Benjamin e Habermas (FREITAG, 1990). A Escola de Frankfurt pode ser dividida em diferentes fases, pois sua aliança teórica mudou em cada autor e, nesse sentido, não convém acreditar numa unidade teórica entre todos seus autores (MATOS, 1998).

Para o recorte que faremos, identificamos como elemento central a questão da racionalidade instrumental ou racionalidade subjetiva, produto social da técnica fetichizada na sociedade capitalista.

Horkheimer (2000), em O Eclipse da Razão, explicita diversas questões acerca da crise da razão, que desde a pré-história até à modernidade, a racionalidade tem se convertido em irracionalidade, embora a razão tivesse a promessa de desencantar o mito e se convertera, ela própria, em mito. Ele evidencia a racionalidade44 instrumentalizada do positivismo, denunciando sua formalização, instrumentalização e coisificação na sociedade vigente como uma de suas principais causas.

Horkheimer (2000) salienta que a razão moderna é concebida dentro dos limites daquilo que ele denominou de Razão Instrumental ou Razão Subjetiva que porta a lógica empirista- pragmática do positivismo e que avançou para múltiplos espaços sociais. Segundo ele, a racionalidade, tomada na acepção positivista, perde seu sentido imanente, reduzindo-se à técnica. Todos os conceitos básicos, esvaziados de seu conteúdo, vêm a ser apenas invólucros formais. Na medida em que é subjetivada, a razão se torna também formalizada (HORKHEIMER, 2000, p.17).

A formalização da razão implica sua ideologização e na perda-de-si. Retirada a sua função de pensar, a razão torna-se antecipadamente pensada, sem a necessidade de refazer a trajetória

44 É necessário fazer uma distinção elaborada por Horkheimer entre razão subjetiva e razão objetiva. A

primeira é tomada pelo autor como razão instrumental ou razão formal, uma vez que ela prende-se aos meios e fins tornados idênticos para fins de autoconservação. Esta razão está atrelada às funções de classificação, dedução, ligados ao imediatamente dado. A razão objetiva, ao contrário, supera a autoconservação, pois não se limita a ela, pois é capaz de determinar os fins últimos e não apenas se regular pelo imediatismo que reúne meio e fim e que os identifica, conforme apontado por SILVA, Rafael C. Razão Instrumental, Dominação e Globalização: a dialética como tarefa da filosofia de Max Horkheimer. In: PUCCI, B. et al. Teoria Crítica, Ética e Educação.

que leva à busca do próprio pensamento. Segundo o ponto de vista da razão formalizada, atividade é simplesmente um instrumento, pois retira o seu significado apenas através de sua ligação com outros fins (HORKHEIMER, 2000, p.44). A razão só serve quando mediada por algum fim. Ela se perde justamente porque a racionalidade instrumental se sustenta pela fetichização aos meios.

Os meios dão comando à razão e não mais os fins. Horkheimer vê no pensamento moderno um projeto organizado nos mesmos moldes do maquinário, por isso sustenta essa crítica. Quanto mais as idéias se tornam automáticas, instrumentalizadas, menos alguém vê nelas pensamentos com um significado próprio. São consideradas como coisas, máquinas (HORKHEIMER, 2000, p.30).

As implicações para a formalização da razão são diversas. O homem, submetido à lógica industrial, perde-se no controle mágico da técnica. A mecanização é essencial à expansão da indústria; mas se isso se torna a marca da característica das mentalidades, se a própria razão é instrumentalizada, tudo isso conduz a uma espécie de materialidade e cegueira, torna-se um fetiche (HORKHEIMER, 2000, p.31).

A automatização das funções ocorre através da lógica, classificação, matematização, quantificação, instrumentalização, formalização, coisificação. Em todos estes elementos, percebe- se uma outra máxima positivista: a necessidade de controle sobre o objeto pesquisado. O cientista tem que conceber e classificar os fatos em ordens conceituais e dispô-los de tal forma que ele mesmo e todos os que devem utilizá-los possam dominar os fatos o mais amplamente possível (HORKHEIMER, 2000, p. 123).

Crochik (1998, p.27) salienta que o protótipo burguês, do formalismo da razão, separa a palavra da coisa nomeada, justamente para superar o mito, reduzindo a conceitos operacionais. Se na magia o símbolo resguardava a imagem da coisa e ela própria, a astúcia dá independência ao símbolo, que não deve se identificar ao fato, mas dominá-lo . Essa é uma rotina positivista, que se separa da coisa nomeada, pelo disfarce da neutralidade e, com isso, tem-se a impressão de maior controle, previsibilidade e cientificidade do objeto pesquisado. Embora, na aparência, esse subterfúgio possa parecer concreto, ele é, antes, a prova da redução do pensamento às operações técnicas. Isto é, reduz-se o pensamento ao empírico.

Em A Dialética do Esclarecimento (2001), Adorno e Horkheimer salientam que a fecundidade do pensamento positivista segue a ordem burguesa e sua harmonia é também o

equilíbrio falseado da sociedade capitalista que promete uma série de características como: liberdade, progresso, razão, individuação mas converte o indivíduo ao contrário: na submissão, regressão, irracionalidade, individualização a partir do progresso tecnológico.

A razão, formalizada pela racionalidade instrumental, impregnada da substância positivista, tem liquidado o chamado desencantamento do mundo. O Esclarecimento é transfigurado em sua forma, pois ele próprio se tornou encantado. E esse caminho, que resultou na razão formalizada, está atrelado à lógica matematizada que segue a esteira do progresso tecnológico da sociedade capitalista. A idéia básica é: a razão veio desencantar o mito, também ela própria se tornou um mito. Esta é a ideologia positivista que se desenvolve nas relações sociais e humanas no sistema capitalista.

A própria idéia de progresso45 é um conceito que deve ser pensado segundo a lógica dialética e não reduzido à instrumentalidade. O conceito de progresso, naquilo que deve ser preservado, é um conceito radicado na lógica dialética, pois a reflexão dialética retira a noção identitária do pensamento como no positivismo. Adorno pretende romper com uma rede que, enquanto fecha as lacunas daquilo que ela própria não é, ousadamente se insinua no lugar da coisa mesma (SILVA, 2001, p.165).

A operacionalização na relação sujeito-objeto se constitui numa fórmula em que o objeto é destruído; com isso o pensamento é sabotado uma vez que o sujeito deixa de pensar o objeto, a não ser que submetido à lógica definida já antecipado pela razão formalizada. A difusão do princípio impõe a todos a obrigação de tornar-se idêntico, tornar-se total (ADORNO; HORKHEIMER apud SILVA, 2001, p.165). [...] A natureza é, antes e depois da teoria quântica, o que deve ser apreendido matematicamente. Até mesmo aquilo que não se deixa compreender, a indissolubilidade e a irracionalidade, é cercado por teoremas matemáticos (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.37).

A noção de desconhecido converte-se, na era burguesa, no falso desencantamento do mito que, antecipadamente, já é pensado pelo formalismo matematizado. Converte-se o todo em tudo. Toda curiosidade do homem é liquidada pela quantificação racional que regula o que ainda nem foi conhecido. Falar de filmes não é falar de um filme como totalidade do existente, daquilo que se aprendeu do filme, mas é enumerar as dezenas de filmes assistidos. Ou seja, ao invés do todo, troca-se pelo tudo da razão formalizada. Na prática, é o método positivista definindo a

priori o objeto. Isso, dizem os frankfurtianos, se reproduz nas relações sociais, no cotidiano, na cultura e, por que não, na educação.

O que justifica o massacre da razão desencantadora é o medo do próprio homem. É na tentativa de revelar o desconhecido, de apreendê-lo que o homem fecha o fluxo do pensar, desenvolvendo uma forma de pensar, instrumentalizada e tautológica que pensa o impensado antes mesmo deste se revelar. Em outras palavras: a razão instrumental encanta e contamina com a fórmula empiricista, tecnicista e matematizada o que deveria ser desencantado. O procedimento matemático tornou-se o ritual do pensamento. Apesar da autolimitação axiomática, ele se instaura como necessário e objetivo, ele transforma o pensamento em coisa, em instrumento, como ele próprio o denomina (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.37). Assim, a razão positivista que ironicamente veio desencantar o mundo, retirou do mito aquilo que é mais importante, o valor do desconhecido. Nada mais pode ficar de fora, porque a simples idéia do

fora é a verdadeira fonte da angústia (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.29).

Isso significa que a submissão do homem é posta de modo manifesto: o preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.24). Além da submissão, o homem tem reduzido sua percepção do real à racionalidade do imediato, o que interfere diretamente na compreensão do real, o que aparece como triunfo da racionalidade objetiva, a submissão de todo ente ao formalismo lógico, tem por preço a subordinação obediente da razão ao imediatamente dado (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.38).

A razão instrumental significa, em outras palavras, o embotamento do pensamento. Nega o pensamento, pois o converte em tautologia; já pensada e liberta dentro dos limites da lógica positivista. Hoje, com a metamorfose que transformou o mundo em indústria, a perspectiva do universal, a realização social do pensamento, abriu-se tão amplamente que [...] o pensamento é negado pelos próprios dominadores como mera ideologia (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.48).

A negação do pensamento parte fundamental da organização do pensar e, portanto, do desenvolvimento social é paralisada pela fetichização do particular em prol do universal. A lógica positivista converte o universal em abstrato, ou seja, em impossível para o pensamento.