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desember 2009 av samferdselsminister Magnhild Meltveit Kleppa

In document Dokument nr. 15:2 (2009-2010) (sider 138-141)

Acordar no meio de máquinas e ficar agradecido A mão perde peso

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Rodeado de tubos que à primeira vista e à primeira sensação parecem partir do interior de si mesmo e não vir de fora, envolvido ainda por diversos outros apetrechos mecânicos, com luzes vermelhas e verdes que assinalam estados que num primeiro olhar ninguém poderia interpretar com rigor, Lenz Buchmann acorda, meio estremunhado, na cama do hospital, várias horas depois da operação à cabeça. Não percebe de imediato onde está nem o que lhe aconteceu e o único instinto nasce de um acontecimento que ele localiza, de forma vaga, no lado direito do seu corpo. A princípio nublado, a coisa define-se depois: alguém lhe rouba a mão direita, pelo menos é isso em que naquele momento pensa. Desvia então ligeiramente o pescoço, ainda com dificuldades devido às dores, e vê uma mulher, a sua secretária Julia Liegnitz, que, sentada à cabeceira da cama, lhe segura com as duas mãos a sua mão direita, a sua poderosa mão direita que de repente lhe parece morta, um cadáver autónomo que ainda não se separou. Para confirmar se sim ou não, Lenz faz um esforço para mexer os dedos e não, não está morta: os dedos mexem. Dobra depois, um pouco apenas, a palma da mão. A mão mantém as funções, os músculos permanecem as possibilidades de contracção e de relaxamento intactas.

Mas o que lhe aconteceu à mão? Está mole – eis que não encontra outra expressão –, pousadas sobre as mãos de Julia, como qualquer volume poderia estar. De imediato tenta levantar a mão e afastá-la daquele estado humilhante; porém, aí sim, esbarra com uma resistência: o movimento teria de partir dos músculos do ombro se quisesse levantar o braço por inteiro ou, pelo menos, da zona do cotovelo. Mas não consegue; não tem forças para levantar o braço e tirar a mão das mãos de Julia. Está sem força. (Tavares, 2007b: 259-260)

Eis uma porção do primeiro capítulo da segunda parte do livro, no qual Lenz inicia outra posição no mundo. Neste momento do romance ainda tem consciência daquilo que ocorre à sua volta. Com o tempo, as faculdades perceptivas e intelectivas de Lenz entrarão num rápido e irreversível declínio. Parte do trágico na existência de Lenz reside no facto de a biologia o atraiçoar. O corpo falha, o autodomínio não é dado adquirido, nem se pode exercê- lo continuamente, há o risco de um outro nos dominar desde logo por dentro. Lenz nunca se preparara para ter que acolher este princípio heterónomo. A força nem sempre se pode exercer, há limites para o desejo (entendido como impulso vital, como exercício da vontade e da

vontade de poder). No momento em que o exercício político incidia sobre o corpo biológico da nação – sendo paradigmático disto mesmo o nacional-socialismo – Lenz descobre que a soberania é noção bem mais precária do que parece. No momento em que se preparava para moldar o corpo biológico de uma nação, vê-se forçado a lidar com uma doença, a deixar os médicos entrarem no seu corpo.

Ter acordado é um alívio. Pelo menos até ao momento em que o estar acordado – e vivo – passar a constituir uma humilhação contínua de que Lenz não se consegue abstrair (não consegue, etimologicamente, afastar-se do traço que outra entidade desenha). Os tubos são tão protésicos que mais parecem originários do interior do paciente. Eis uma pancada na cabeça: é a técnica que se serve do homem, não é ela meio de que ele disponha. São as máquinas que dominam Lenz (como, de resto, era a máquina que dominava Joseph Walser). Mas não apenas elas, também Julia, quando lhe segura a mão. Lenz, involuntariamente, expõe a sua vulnerabilidade a Julia, que, também involuntariamente, e sem sabê-lo, acaba por vingar a morte do seu pai, Gustav Liegnitz.

A mão, o instrumento dos instrumentos, não tem força. É um objeto autónomo da vontade de Lenz. Vive além de Lenz – se Lenz for a sua vontade. A mão, mais tarde todo o corpo, passa a ser independente da vontade de Lenz. Passa a ser um estrangeiro que anteriormente era íntimo. Um estranho familiar, unheimlich. Com o tempo, o corpo comandar-se-á cada vez mais, até ao ponto em que o corpo comandar Lenz. O outro em si domina-o. E o outro exterior também o fará: Julia, os médicos, Gustav, e, na última parte do romance, o sacerdote.50 Em relação a estes não sentirá medo. O tremor e o temor está associado ao outro em si que não consegue dominar – esse, o indizível, irritante, insubsumível, outro. A doença gera um intruso que tornará Lenz o outro daquele outro que passará a dominar. Os mecanismos técnicos possibilitarão a Lenz tornar-se o outro de si mesmo para repelir a morte. Isto é, oferecem um outro familiar em substituição de um outro insondável (a morte). E nem será preciso esperar pela morte, pois, a dada altura, perderá consciência da temporalidade, nem de si no tempo, nem de si para si, será apenas uma flutuação pelo espaço- tempo – ou, no dizer cru e sólido do narrador, um «volume». Rapidamente o dentro se tornará

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Argumentação problemática, certamente. Sem comprometimento ético, verbalizado ou não, é possível receber- se a extrema-unção? Haverá absolvição dos pecados sem que o sujeito a deseje, ou não sabendo se a deseja? Embora levante estas questões, não as considero relevantes para o que aqui importa. A questão parece-me antes relacionada com o facto de Lenz ser incapaz de afastar um sacerdote que o coloca em posição assimétrica, atemorizando-o com a morte, quando os papéis já haviam sido opostos. Lenz não revelará nem temor, nem tremor, e, por conseguinte, não pedirá perdão.

evanescente, até a oposição dentro/fora deixar de fazer sentido.51Com a doença, Lenz reconhecerá que tem corpo, algo de que nos esquecemos com facilidade quando temos saúde – por isso testa a mão a ver se ela mexe. A doença lembra-nos que temos corpo: é autoritária, ortopédica, força uma nova visão de nós no mundo. Transforma-nos na mesma medida em que transforma o mundo em que seremos obrigados a habitar. Este facto refletir-se-á na narração, cuja perspetiva será objeto de uma deslocação, a qual reflete as próprias mutações perceptivas de Lenz. A lente narrativa passa a estar menos direcionada para as vibrações interiores de Lenz, isto é, a estar menos centrada no desejo, na atividade do cogito, de que na percepção minuciosa que Lenz passa a ter do seu próprio corpo. As reflexões políticas, por exemplo, desaparecerão. Assim como as reflexões filosóficas. O foco narrativo volta-se para o corpo, para os seus minúsculos movimentos, agitações, tremores, aos quais Lenz se tornará extremamente sensível. Outrora, sobreviver a uma viagem de comboio não haveria sido um feito para o corpo como passará a sê-lo depois de a doença se afirmar. Que viagem, tão-só entrar no comboio! Se o tempo narrativo parece decorrer em ralenti a partir da segunda parte do romance, isso decorre do facto de cada minuto passar a exigir ao corpo de Lenz um esforço hercúleo, o qual, por seu turno, adensará o próprio tempo, convertendo-o psicologicamente em muito mais de que na realidade é. Digamos que a segunda e a terceira parte do romance são uma epopeia em ralenti. Sem ironias. E também daí a importância que o narrador concede a pequenos movimentos corporais, exercendo verdadeiros close-ups, os quais se configuram como momentos hiper-realistas, uma vez que estão focados em mãos, braços, troncos, joelhos, bocas, olhos.

A doença força Lenz a cuidar do seu corpo. O seu corpo torna-se progressivamente um outro cuja presença não se domina. Eis o eu: o que pode tornar ausente o outro. Lenz não pode tornar ausente o outro. E nem se consegue fazer presente pela vontade. À vista dos outros, encontra-se dentro de um escafandro, socialmente isolado do exterior, ainda que dele continue a requerer uma série de cuidados. Lenz não está-aí: sem poder falar, sem conseguir emitir qualquer movimento com sentido, tornar-se-á inacessível. É verdade que muita comunicação pode gerar muito conflito; que a nossa capacidade hermenêutica não é muita quando a comunicação é não-verbal, até porque não há um código instituído para ela (a abertura ao outro depende sobretudo do sentido verbal que no outro sejamos capazes de

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É dito em Um homem ou é tonto ou é mulher (Tavares, 2002c: 53): «Quando for muito velho o meu corpo e o exterior vão ser / quase a mesma coisa».

reconhecer52); e também é verdade que a doença limitará e muito os movimentos de Lenz, que está longe dos outros na mesma proporção em que os outros fisicamente se aproximam dele. Porém, o evoluir da doença levará o corpo a perder a abertura que o caracteriza em circunstâncias normais. O corpo é «o mundo não-impenetrável» (Nancy, 2000: 28), é o que resiste à compactibilidade do espaço, é conectável, pode ligar partes de si, é capaz de se desvincular de um centro. A doença retirará a Lenz, portanto, o próprio corpo – a abertura permanente. E também lhe retirará a memória, a consciência da temporalidade – e, com elas, a experiência da morte. Assim, para além do corpo, a doença retira a morte a Lenz. E se o que define o humano é a consciência da temporalidade, a capacidade de experienciar a morte, como Heidegger acreditava, então a doença retira humanidade a Lenz, aproxima-o da vivência animal, receptiva a poucos estímulos (um deles, a luz, a que são receptivas variadas espécies).

Sem movimentos, sem força, sem vida – não é esta uma das lições da modernidade? Julia quererá afastar-se desta imobilidade, que poderá diminuir a vitalidade da sua juventude. Para o gosto de Lenz Buchmann, até se aproximam em demasia – sobretudo Gustav. O nosso herói estará forçado a conviver, até ao fim dos seus dias, com a ofegante presença do outro dentro de si e com a do outro demasiado perto de si exteriormente. Contra a sua vontade. Quando o «princípio de realidade» se impõe violentamente, voltamo-nos para o Outro, ou para Deus (Vattimo, 1996: 96), relembro. Lenz decide nunca se voltar para o Outro; fica sempre em si, é uma mónada que se crê até ao fim autossubsistente. Nem mesmo dá inicialmente atenção à televisão, esse dispositivo que gera um efeito de hipnotismo e de absorção imediata. Já não há possibilidade de sagrado, a qual fora deixada em aberto em

Jerusalém. O Outro é apenas objeto de agressão, de exercício de dominação. Lenz morre

agarrado às suas convicções, ao considerar que para além da razão e da técnica não há nada. Ou melhor: os últimos dias de Lenz são a experiência da ausência da razão, durante os quais em algum momento lhe ocorre dar um salto de fé. Sim, porque nem mesmo interiormente Lenz alimentou esse desejo. O corpo doente deixa de ser o reflexo da alma até ao fim dominadora de Lenz. O corpo doente é um espelho quebrado que torna impermeável o sujeito, posto inviabilize qualquer hermenêutica. Vattimo dirá que o encontro com Deus não será

52 Jean-Dominique Bauby (2007), vítima de locked-in syndrome (síndroma de encarceramento), uma doença rara

que deixa os doentes paralisados, em O escafandro e a borboleta reentrará no mundo social por via do trabalho de uma fonoaudiologista. O filme de Julian Schnabel – baseado num livro autobiográfico ‗escrito‘ pelo próprio Bauby – mostra todo o trabalho que a equipa multidisciplinar do hospital realizou com Bauby e os progressos com o tratamento. No tratamento com a fonoaudiologista, ele aprendeu uma nova linguagem verbal em que piscadelas do olho direito representam as letras do alfabeto, dessa forma possibilitando a formação de palavras, frases e até parágrafos.

pleno nestas circunstâncias (as mais comuns, aquelas em que as pessoas vão atrás de um sentido que a vida propriamente lhes retirara). Não se aprende a rezar, diz Vattimo (1996: 97), depois de experienciarmos o fracasso da razão. Devemos viver a religião desde sempre, inspirados pela kenosia, estabelecendo forte empatia com o outro, sob cuja aparência Deus se nos apresenta.

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