Aprender a Rezar na Era da Técnica pergunta-se sobre o estatuto da razão e a sua
relação com a falência da modernidade, se esta acontecera já. E procura saber como a personagem central deste romance age segundo princípios de competição. Interessará também, mais à frente, ver brevemente como um cineasta como Michael Haneke também é um estudioso da violência, ainda que procure num inconsciente, no recalcado, a explicação para o que está acima. A personagem central do romance de Tavares em causa age racionalmente porque a razão é uma arma biológica que lhe permite funcionar, trabalhar com eficiência. Ambos os autores partilham da intenção de fazer das suas obras um campo de reflexão, acima de tudo, do que é ser-se humano e sê-lo num contexto de modernidade.
As primeiras páginas de Aprender a rezar na era da técnica dão conta do modo metódico e firme como Lenz agarra os objetos que o rodeiam. A manifestação de força acontece também sobre as pequenas coisas:
A caça 2
Lenz calça as botas e prepara-se para a caça. Primeiro o ritual de domínio sobre os pequenos objectos imóveis: as botas, a arma, o colete pesado.
Aqueles movimentos eram o que melhor contribuíam para formar o ser humano. E que bom atirador ele era. (Tavares, 2007b: 13)
Esta forma de vida, que retira prazer da ordem e da vangloriação narcísica, do ter o outro sob controlo, é assaz relacionável, a meu ver, com a forma como Dexter Morgan, protagonista da série americana Dexter, realizada por Cuesta & Goldwyn (2006), encara os outros e a existência. Aliás, este ritual de domínio que precede a caça é homólogo da abertura dos episódios da série, na qual sobressaem os movimentos precisos do protagonista aquando de um quotidiano despertar seguido de pequeno-almoço. Claro que podemos ler o todo destes movimentos (cortar, puxar, prender) alegoricamente, considerando-os a repetição profana de um ritual assassino (as gotas de sangue que pontuam a abertura indiciarão isso mesmo). E aqui toquei num ponto relevante, creio: repetição de movimentos embora noutros moldes. Nunca esqueçamos, a este respeito, o primeiro monólogo de Alexander (Erland Josephson) protagonista de Sacrifício, de Andrei Tarkovsky (1986), do qual se conclui das virtudes do movimento sistemático, do ritual. E do poder salvífico que o ritual bondoso poderá ter, podendo inclusivamente transformar o mundo humano.
Lenz Buchmann descobrirá que obter-se poder dependerá de se ser capaz de infundir medo no outro. E, da mesma forma que concentra na caça uma «atenção intelectual» («só as coisas imóveis dispensavam esta atenção de Lenz» (idem: ibidem), o que comprova que Lenz se constitui como o avesso de um Joseph Walser que dispensa a sua atenção ao imóvel, ao que menos depende da razão para ser dominado), tornará o exercício da medicina, e posteriormente o da política, de uma racionalidade a toda a prova. Repetição de movimentos racionais noutro contexto. Infusão de medo noutro contexto. Neste ponto, não resisto a narrar- vos em segunda mão uma história vivida pelo biólogo Konrad Lorenz (2001: 89 et passim), elucidativa a meu ver quanto à sacralidade do ritual.
Quando estudava uma jovem fêmea de ganso cendrado, criada desde o ovo, Lorenz decidira ensiná-la, com uma semana de idade, a ir pelo seu próprio pé para o seu quarto de dormir. Na casa de Altenberg de Lorenz, à direita da porta de entrada ficava um lanço de escadas para o quarto onde dormiria a fêmea, enquanto em frente se encontrava uma grande janela. Na primeira vez que lá entrara, a fêmea dirigiu-se nervosa à janela (Konrad Lorenz diz-nos que os gansos são atraídos pela luz) e apenas depois se aproximou ajuizadamente de quem dela cuidava para subir a escada. A partir deste dia, a fêmea sempre que entrava em casa não se dirigia direta às escadas, mas desviava-se por momentos do percurso mais curto, parando em frente à janela. Este movimento assumiu a aura de um ritual. Certo dia, anoitecera sem que o biólogo se lembrasse de acompanhar Martina (nome da dita fêmea de ganso cendrado) até casa. Quando Lorenz abre a porta, Martina avança de forma nervosa e rápida pela casa adentro. Eis que acontece algo inusitado: havia tomado o caminho mais curto, indo direta à escada. A meio da subida, para, estende o pescoço, desdobra as asas e lança um grito (sinal de alarme); pouco depois, dá meia-volta, desce os degraus e executa o desvio em direção à janela, antes de voltar a subir as escadas. O ritual é sagrado, é necessário segui-lo para que nada inesperado ocorra.
Gostaria, por ora, de prosseguir com a relação entre Lenz Buchmann e o protagonista de Dexter. Especialista forense da polícia de Miami, Dexter assistiu em criança ao traumático assassinato da sua mãe. Pela série afora, o próprio se descreverá como nascido em sangue. Acontece que a mãe dele trabalhava com a polícia de Miami, auxiliando o desmantelar de um cartel de tráfico de droga. Por esta razão, foi adotado por um dos detetives que pretendia desmantelar o tal cartel. Como o enteado revelasse ao longo da infância e da adolescência tendências assassinas, então sobretudo direcionadas a animais, o pai decide orientá-las para o assassínio de assassinos. Isto é, prepara o enteado para matar assassinos de forma sistemática e limpa (sem vestígios). A partir daqui, forma-se a Lei (obscena – mesmo etimologicamente,
por se situar além das leis dos homens – mas eticamente necessária para quem a pratica, que julga estar a combater um mundo conspurcado) e endeusa-se o Nome-do-Pai (pai que, mesmo morto no ponto em que começa a série, marca presença em diálogos imaginários que Dexter acredita ter com ele). O pai de Dexter e o de Lenz são responsáveis pela iniciação ao domínio, digamo-lo assim, dos filhos respetivos; ambos os pais contribuíram para a formação de uma Lei reificada que o superego perverso dos filhos tratará de tornar transcendente. De resto, veja-se que a interpretação das ideias do pai como ordens torna assimétrica a relação pai/filho e como que burocratiza a família:
Acrescente-se que Lenz sempre interpretara simples ideias do pai sobre o mundo como declarações inequívocas ou mesmo ordens. E mais perto estaria Lenz de deslocar o mundo para que este ficasse na posição exacta apontada pelo pai do que dizer que o pai se enganara. Sabia bem o sentido de uma ordem. Pode ter boas ou más consequências, mas esse é um assunto superior e que ultrapassa a energia central. Uma ordem é, simplesmente, uma frase que deve ser obedecida, um pedaço de linguagem; e quem o recebe deve, à custa da sua vida se necessário, fazê-lo existir na realidade. Uma ordem expressa a vontade de quem sabe mais, e assim, a uma voz de comando deve corresponder um conjunto de movimentos que procuram que o mundo confirme a visão clarividente daquele que mandou. A cada vez que se cumpre uma ordem por completo confirma-se a hierarquia já existente e, nesse sentido, o coração tranquiliza-se. (Tavares, 2007b: 111)
Lenz idealiza o pai, autêntico sujeito-suposto-saber. O pai como Outro omnisciente que emite leis a ser cumpridas a todo o custo – como Deus. O pai – enquanto emanação da força – ocupa um lugar acima. O pai, assim, é uma voz que emite verdades.
Talvez seja momento de relembrar como a voz é para a criança no Édipo uma instância traumática, justamente por incorporar a Lei. Como pode ser importante evocar o exemplo que, no filme O guia de cinema do depravado, Žižek (2006c) usa para ilustrar o poder hipnótico da voz: o dos alemães seguindo a voz de Hitler proveniente dos altifalantes públicos, das rádios, das televisões, dos comícios políticos. O sujeito – Lenz – como que renuncia ao próprio desejo para desejar o desejo do Outro. De coração tranquilo. E isto é a mais pura modernidade, onde ainda subsistia uma ordem, já não Deus, é certo, mas os seus restos na forma informe de uma alteridade sedutora. Em contexto pós-moderno, a ética joga- se num plano eminentemente subjetivo e sem verdades universalmente válidas. Não há transcendência a fixar coordenadas existenciais. Todo o tipo de ordem apazigua – e, por conseguinte, seduz.
haver demonstrado, pontos em comum. Dexter é um assassino em série particularmente metódico que exibe às vítimas as armas com que as matará e ainda as confrontará com os crimes por elas cometidos (confronto que incluirá por vezes a exibição de fotografias das vítimas). Há esse pendor judicativo associado, o que corrobora a ideia de uma Lei transcendente, e do gozo associado ao cumprimento dela. Para além disso, Dexter consegue manter, num jogo esboçado de forma muito cautelosa, uma máscara social por forma a manter oculta a (quase) todos a atividade justicialista, a qual, não raro, decorre durante a noite. O gozo de Lenz, por seu turno, é gratuito. Não há sequer um resquício de motivação moral no seu comportamento. De facto, é levada ao extremo a ideia segundo a qual vivemos na era da técnica. Os exercícios de domínio de Lenz, cuja brutalidade é variável, praticam-se sobre os outros sem com isso se pretender algo mais do que se ostentar o título de mais forte. Uma das inferências possíveis seria situar Lenz na pura imanência, já sem Deus ou alguma moral que norteasse a existência. A questão, parece-me, é antes a da técnica (a da modernidade, cujos princípios de eficiência, de progresso e de aperfeiçoamento social são levados até ao fim pelo regime nacional-socialista hitleriano) como valor acima dos outros. Não estou certo de que se possa abandonar simplesmente o jogo transcendente, ainda que a Lei prescrita seja condenável a todos os níveis. Mas o erguer da ciência contra as insuficiências da crença implica certamente obnubilar-se com frequência os prejuízos por esta causados ao Homem (em tempo pós-humano, o mais importante parece ser reconstruir o Homem). O romance também ilustra como os exercícios de dominação partem do mais prosaico (de coelhos numa floresta, passando por males num corpo humano) para o mais abrangente e complexo (a gestão de um país ao qual é necessário infundir medo), sem que se vislumbre uma intenção política propriamente dita. Como o destacou Luís Mourão (2007), trata-se de um colocar «do político numa espécie de patamar de totalitarismo sem causa totalitária». Nunca se entrevê, portanto, uma motivação originariamente política para as ações de Lenz – o totalitarismo de Lenz confunde-se com o biologismo, não é conscientemente político, como veremos.