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desember 2009 av landbruks- og matminister Lars Peder Brekk

In document Dokument nr. 15:2 (2009-2010) (sider 135-138)

Uma das características que a modernidade mais a fundo leva é a suposição do livre- arbítrio (Gray, 2008: 44 et passim). O homem que domina a tecnologia acredita ser senhor do seu destino e sente-se capaz de derrogar todo o acaso da existência. Ou seja, a vontade de poder implica livre-arbítrio. Alguns acreditam ser possível à humanidade enquanto espécie assumir as rédeas do seu destino, quais deuses, graças aos recentes avanços, verbi gratia, na área da engenharia biológica. Acreditam ser possível que cada homem possa definir a herança biológica que queira deixar aos seus descendentes: desde traços físicos até aos do temperamento. Em Lenz agudiza-se aquela suposição: dominando-se a tecnologia, o sujeito

47 «Entretanto, porém, o mais frágil de todos os seres, o homem, avalanche qui pense, já não é posto em perigo

somente pela tempestade da vida, ele próprio desencadeia as massas, pelas quais pode vir a ser sepultado.» (Sloterdijk, 2002: 27)

domina-se e domina. A doença de Lenz colocá-lo-á na posição do fraco, dominado não só pelos que julgara abaixo de sim mas também pela própria técnica (Mourão, 2008), a mesma que supunha instrumentalizável. É pela mão da técnica – que lhe vai permitindo viver mais dias e ir aumentando a sua dependência de outros e da própria técnica – que os limites de Lenz vão ficando visíveis. É a doença que demonstra a Lenz a limitação a que todo o humano é forçado a submeter-se. E o que isto implique de impossibilidade de toda a grande narrativa é por demais evidente. John Gray (2008: 168) interroga-se sobre a possibilidade da vida como jogo não ter necessariamente uma finalidade. Outra vez a desaceleração da existência e o encontro com Deus. A tentativa mística pelo afastamento do mundo sensível em direção a uma realidade intemporal. Este infinito que os místicos buscavam e ainda buscam converte-se modernamente no «culto da atividade incessante» (idem: 169). Peter Sloterdijk entende, em

Se a Europa acordar, ser este o traço distintivo do europeu (2008: 28), em consonância com o

que considerara Paul Valéry.48 Retomando a crítica da modernidade de Sloterdijk que havia sido discutido no subcapítulo anterior, diga-se que o filósofo entende psicopoliticamente a Europa como um aumento progressivo das intensidades. O que caracteriza o velho continente é esta «vontade do máximo» que «submete o mundo à experimentação» (idem: ibidem). Por isso será a Europa a oficina da «política de máximos» (idem: ibidem), da qual fui falando, será a pedra-de-toque da modernidade.

A ideia moderna de progresso infinito – a cultura fáustica – assenta no exercício autónomo de uma vontade de poder. A saída para este mecanismo do desejo seria a contemplação, a qual, no entanto,

não é a tranquilidade almejada pelos místicos, mas um abandono deliberado a momentos que nunca se repetem. Quando renunciamos aos nossos anseios demasiado humanos, viramos as costas às coisas mortais. (idem: 170)

John Gray (2008: 168-170) terminará Straw Dogs interrogando-se sobre a possibilidade de o animal humano viver sem propósitos, concebendo a vida como algo que se deva «simplesmente ver» (idem: ibidem), até porque, como considerou Manuel António Pina,

48 Sloterdijk (2008: 27) cita inclusivamente uma reflexão de índole etnográfica de Paul Valéry contida em La

Crise de l’Esprit:

Onde quer que domine o espírito europeu, vemos aparecer o máximo de necessidades, o máximo de trabalho, o máximo de capital, o máximo de rendimento, o máximo de ambição, o máximo de modificação da natureza exterior, o máximo de relações e de intercâmbios.

Este conjunto de máximos é Europa, ou imagem da Europa.

Por outro lado, as condições desta formação e dessa desigualdade espantosa radicam evidentemente na qualidade dos indivíduos, na qualidade média do Homo Europaeus. Énotável que o homem da Europa não sejadefinido pela raça, nem pela língua, nem pelos costumes, mas, sim, pelos desejos e pela amplitude da vontade...

numa entrevista concedida a Nuno Ramos de Almeida (2012), «isto, já não digo visto de Alfa-Centauro, mas da Lua, é puramente risível.» A doença demonstrará isto mesmo a Lenz Buchmann. Apesar dos seus esforços, ser forte é uma questão de sorte, ainda assim. E o livre- arbítrio é afinal uma ilusão. A sua doença acentua ainda a ilógica do raciocínio kármico que orientou a sua interpretação da morte do irmão. Lenz considerara que o irmão estava doente porque não era capaz de impor a sua vontade de poder aos micro-organismos que tomavam as rédeas do seu corpo. Albert seria culpado por ser fraco. 49 Mas se o forte Lenz também adoece com um tumor cérebro isto quer dizer que a sua mundividência rui como um castelo de cartas

49Desprezar o irmão Albert diz tudo sobre o caráter nada compassivo de Lenz. No Reino II, de Lars von Trier

(1997), série de televisão cujo nome, de acordo com Luís Mourão (2011b), terá motivado a escolha do nome da tetralogia, um médico, Bondo, afirma que nos afastamos dos outros porque nos repulsa a solidariedade, porque queremos manter-nos vivos e considera que nos seus genes está inscrita a superioridade. Imaginou até que o seu meio-irmão, de cuja existência não possuía a certeza, dada a genealogia, fosse um cirurgião reputadíssimo. Refira-se ainda que esta série parte do pressuposto de que os pilares da civilização técnica estão a ser abalados, pois a crença e a superstição não desapareceram absolutamente das nossas esferas existenciais. Além disso, em

O Reino de Lars von Trier os cirurgiões do hospital, apesar de altamente profissionais, assumem frequentemente

comportamentos irracionais, destilam ódio pelos outros (como o sueco Helmer por todos os dinamarqueses) e o absurdo comparece não raras vezes (como o nascimento de Lillebror, bebé com rosto adulto e que morrerá porque não para de crescer).

Bondo fizera algo insólito. Para desenvolver a sua pesquisa sobre a deterioração do fígado, precisava de um fígado afetado por um tumor de um doente terminal. Como não conseguira persuadir a família a doar o órgão, a única forma legal de o obter seria recebê-lo no seu próprio organismo. Procedeu-se à substituição de rins e pretendia-se que o fígado degradado apenas por dois minutos estivesse no novo hospedeiro. Acontece que o corpo de Bondo não sobreviveria tanto tempo aberto; por isso, o seu corpo teve que ser fechado com o fígado cancerígeno. Como o estado de saúde de Bondo se agravara com metástases, houve a necessidade de uma transfusão de medula. E é neste momento que entra o seu meio-irmão recém-descoberto, o qual não correspondia às expectativas de Bondo: Bulder Drusse trabalhava no Reino, é certo, mas não passava de um auxiliar preguiçoso (embora fosse naturalmente simpático para os que o rodeavam). Bondo mal escondera que se sentia defraudado. Na verdade, Bondo viu abaladas as suas coordenadas existenciais. Não posso deixar de associar este episódio à indiferença que Lenz nutria pelo irmão Albert:

Não há ordem na natureza 2

O carácter dos irmãos era oposto: ambos de invulgar inteligência, e com uma cultura bem acima da média dada a robusta biblioteca do pai que alimentava o gosto pela leitura, mas de facto Lenz e Albert eram de dois mundos. Lenz não combatia apenas, procurava o combate – como o pai, aliás – e Albert, herdeiro de alguns indícios da mãe, recolhia-se, contornava o inimigo. E contornava-o quer este fosse um obstáculo material perigoso – um muro excessivamente alto que se deve saltar – quer fosse um colega de escola que o tivesse provocado. Lenz por vezes via-se a lutar em nome do irmão mais velho, numa mistura de sentimentos fraternos e, em maior quantidade, de atracção, física e instintiva, pela luta. (Tavares, 2007b: 93)

Lenz, como Bondo, renuncia ao seu irmão. Lenz, como Bondo, é asséptico, considera que a solidariedade, a empatia, degrada os homens, e, além disso, impede o exercício eficiente da medicina. Lenz considera-se impiedoso como a natureza, cujos comportamentos estão além do bem e do mal (o que personifica uma atitude ética irredutível). «A decadência do Reino humano» (idem: 74) reside em homens como os irmãos de Lenz e de Bondo, susceptíveis à compaixão, bonacheirões e condenados a pouco reconhecimento profissional. Por esta razão, Lenz Buchmann recusa atender ao pedido de um doente terminal: a entrega de uma carta de despedida à sua família. E via na compaixão do seu Albert Buchmann pelo doente terminal «a aliança entre dois fracos» (idem: 75), pelos quais Lenz nutria o mais profundo desprezo. Por estas razões, Lenz Buchmann acabará por destruir a carta, como que cumprindo uma ordem (o «que tem de fazer»), pertencente a mundo de homens que se deixam amolecer pela compaixão, pela empatia e pela ternura:

E eis que faz o que sabe que tem de fazer. E que vê, não enquanto um gesto ocasional mas como gesto que cumpre um dos seus deveres mais altos, gesto que pertence ao seu Reino mais profundo, o Reino a que jurou lealdade, o Reino de quem ataca e de quem sabe que há elementos que se preparam para o atacar.

– ou seja, há limites para o exercício da vontade.

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