Com a morte de Deus anunciada por Nietzsche (ideia algumas vezes mal compreendida, pois o que estaria em causa era a falência do corpo, do arrombo dionisíaco, em proveito de uma razão e de uma ciência castradoras, o que tornaria a existência de Deus um mal menor), fica em aberto o espaço outrora ocupado pelo absoluto. O paradoxal é que as teologias substitutas (desde o marxismo, passando pela psicanálise e chegando à teoria do fim da história de Fukuyama) são-no porque justamente se estruturam de acordo com princípios teológicos (a teleologia - um desígnio global que orientasse a história –, a escatologia – o último homem, o éden pressentido – e o pecado original, uma culpa inextirpável, como sustento de tudo o resto). Estas teologias modernas sofrem da «nostalgia do absoluto» (Steiner, 2003). A condição de domínio é irremediável, e não pode ser combatida: a razão está no lugar a que pertence.
A vontade de poder manifestada por Buchmann contrastava com a passividade de sua mulher, à qual faltaria a reflexão, capaz de fazer do cérebro uma arma. É Lorenz (1992) quem destaca a neurose do homem moderno como uma etapa contra-producente da evolução humana, dado que aumenta consideravelmente as hipóteses de morte por doença cardiovascular. A concorrência económica da humanidade consigo mesma, a grande responsável pela angst moderna, poderá levá-la à ruína. Mas no romance de Tavares ressalve- se que a concorrência não se coloca no plano económico. O que motiva as ações de Lenz, essencialmente, é uma resistência ao poder da morte (outro nome para o poderio da natureza). Assinale-se a emergência de uma nova moral: a incapacidade de um organismo humano suster o avanço da morte (revelando a sua fraqueza, a incapacidade para ser o mais forte)
torna esse mesmo organismo culpado. A culpa é fraqueza, é permanência na base da cadeia alimentar, o que diz, reversivelmente, muito sobre as condições necessárias para obter poder. Obter poder não se faz com culpa ou moral. Ser fraco é imoral:
O organismo doente era, para ele, materialmente culpado e, nesse sentido, Lenz construía nos seus raciocínios uma moral de tecidos, uma moral composta de células pretas ou brancas, células queimadas ou intactas, e neste campo ser imoral era não funcionar. (Tavares, 2007b: 28-29)
Os homens serão julgados pela fraqueza dos seus atos, pela debilidade da vontade. Aqui há desde logo a crença no livre-arbítrio – ou, noutros termos, da vontade. Funciona-se devido à vontade e à força que ela seja capaz de exercer sobre o mundo. Portanto, tudo acontece por uma razão humanamente determinada. Lenz Buchmann acredita na autodeterminação sem limites do homem, e exclui como possível explicação para as coisas a contingência ou o acaso. Uma doença súbita e avassaladora tratará de mostrar ao nosso anti- herói como há limites para os poderes da vontade.
«A natureza não reza, afia as lâminas» (Tavares, 2007b: 73). Afirmações deste tipo convertem a modernidade num regresso à natureza (onde não se reza), embora a modernidade tenha o projeto de rasurar a natureza, pese embora ela estar-aí, na pura imanência, como a paisagem humana o estará. A projeção do homem no transcendente implicou uma perda de força do homem, acredita Lenz, o afastamento dele da sua própria essência (de resto, as teologias nascem do medo do desconhecido, do que não pode ser dito, algo que a linguagem e a ciência tratarão de resolver). A ação sobre o sensível depende da lógica linguística que o domestique, humanize, o que progressivamente o esvaziará do conteúdo místico ou divino e o converterá em abstrações (Furtado, 1993: 11). Por isso, o regresso à natureza entretanto atravessada por um processo de culturalização implica o uso de uma linguagem quase clássica pelo autor, em que aquilo que pode ser dito é expresso claramente, como o havia defendido o Wittgenstein do Tratado Lógico-Filosófico (2002: 142 § 6.54).
A natureza não reza, cerra-se em si mesma, e é detentora de uma vontade agressiva. A natureza defende-se, não reza; age, não espera. Parece que tudo é movido por uma vontade e que qualquer falha é uma imoralidade. Claro que não valerá a pena remontar a Nietzsche para se compreender que a natureza não vive de acordo com a moral, nem tão-pouco se detém em melindres acerca do bem ou do mal. E, neste ponto, convém relembrar o Klaus Klump moralista no pós-guerra: a moral exerce-se em circunstâncias normais, é um produto burguês, não é universal nem sujeita a obediência categórica, sobretudo durante a guerra ou
simplesmente sempre que sobreviver se impõe. Portanto, esta moral defendida por Lenz não é já a moral da bondade – que enfraquecerá a vontade, de acordo com o mesmo Nietzsche. É uma moral sui generis a forjada por Lenz, uma «moral» baseada na força, em que o comportamento «moral» é o que se impõe por uma vontade forte (e o que não se deixará enfraquecer pela bondade nem pela piedade, completaria Nietzsche). Isto é, a moral de Lenz consiste na rasura da moral que a filosofia e as religiões apregoaram ao longo dos séculos – não mais fundada na transcendência de imperativos, mas na crua e imanente força de uma vontade que reúna as condições para se impor sobre as demais. Lenz, por conseguinte, não detém grandes ilusões a respeito da natureza: ela não é cinema, apartada dos humanos, que se supõe que nela não estão imersos, antes ativa; nem é harmoniosa, porém imprevisível e mesmo contingente (as grandes catástrofes naturais revelam o lado guerreiro da natureza, contra a tradição bonomia que lhes é concedida pelos humanos).
Para concluir este ponto, articulem-se as considerações de Lenz Buchmann com a hipótese de Gaia se autorregular, sendo capaz de responder à devastação ecológica a que a sobrepopulação humana conduzirá (Gray, 2008: 20 et passim). Por mais intensa que seja a predação humana e por mais desequilíbrios que a sua ação cause ao ambiente, haverá sempre da parte da natureza a vontade de se preservar. Creio ser plausível supor-se livre-arbítrio na natureza, posto que o verbo afiar requeira um agente. A natureza não reza, é autossuficiente, não endereça a um transcendente nenhum pedido, não acredita, não alimenta ilusões de um Grande Outro de qualquer tipo. E tão-pouco é dilacerada pela ausência de certezas que o rezar supõe e gera forçosamente: os humanos rezam porque desconhecem o futuro (e desconhecem- no porque o pensam) e não sabem nem se a prece é atendida nem sequer se é ouvida. Diga-se, para concluir este subcapítulo, que a natureza age em nome dos seus interesses, mesmo que eles questionem a harmonia dela idealizada pelos humanos.