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In document LES RESSOURCES MINÉRALES (sider 28-46)

MICO E SOCIAL

A mais pequena das regiões continentais apresentava, no último quartel do sécu- lo XVIII, uma economia artesanal, ruralizada, mas não necessariamente «rural», como

demonstrou Joaquim Romero Magalhães57

, e uma actividade comercial sustentada pela exportação de frutos secos e de pescado, que exploravam sobretudo os ingleses. No campo demográfico, e em estreita correlação com o processo de ruralização, verificou- se um crescimento populacional mais intenso no interior do que no litoral, o que provo- cou um maior equilíbrio na distribuição da população e impossibilitou que qualquer núcleo urbano se impusesse com base na concentração populacional. Sobre esta matéria Joaquim Romero Magalhães esclarece:

Em 1776 […] vê-se que a serra cresceu bastante, num povoamento sempre es- casso, mantendo uma homogeneização que vai da Luz de Lagos ao Azinhal. A serra, a ocidente, não acompanhou o crescimento geral. Também o restante Algarve está mais ocupado, destacando-se o espaço compreendido entre Alvor e Moncarapacho, entre o mar e a beira-serra. A elevação de Lagoa a vila – em 1773 – consagra este notável pro- gresso. […] Não são mais as cidades que marcam, mas a região das frutas cuja marcha para a homogeneização, em termos da densidade, ficou bem patente.58

Ainda assim, a maior concentração verifica-se no litoral, onde, em 1776, se situ-

am 7765 fogos, seguido da serra, com 4672, e do barrocal, com 2044 fogos59

. No ponto de vista urbano, o que caracteriza o Algarve é uma distribuição equilibrada entre quatro principais núcleos, onde predomina a vida comercial: Tavira (1), Faro e Loulé (1), Sil- ves e Lagoa (1), Portimão e Lagos (1). O Quadro I.1: População do Algarve por conce- lhos, por ordem decrescente em 1772 (fogos) e 1787 (população absoluta) concretiza este equilíbrio da distribuição populacional, embora o concelho de Faro apresente a maior concentração de habitantes.

A organização dos poderes político, militar e religioso convergiu para esta orga- nização policêntrica, impedindo o surgimento de um único centro de atracção. O repre- sentante do rei na região, o Governador e Capitão-General do reino do Algarve, fez de Lagos a sua residência até ao terramoto de 1755, transferindo-se nesta data, na sequên- cia da destruição infligida àquela cidade, para Tavira, que assumiu o papel de capital político-militar da região. Faro era então sede episcopal, depois de esta ter estado em

57 MAGALHÃES – O Algarve económico: 1600-1773. Lisboa: Editorial Estampa, Lda., 1993, p. 239-

279.

58 Subls. meus. Id., p. 118-119. 59 Id., quadro III.

22 Silves até 1577, mas não tinha o estatuto de capital político-administrativa, que só o

Liberalismo lhe atribuiu60

.

É, portanto, um espaço com uma configuração horizontal e policêntrica, avessa à concentração. Através de roteiros de veredas, caminhos e estradas, poucas é certo, foi sendo assegurada a interacção – mesmo que mediada pelos almocreves – entre as gentes da serra e do litoral, entre o mundo rural e o urbano, que salpica quase toda a costa al- garvia. Um anfiteatro natural aberto, sobretudo, às comunicações marítimas. Activida- des como o transporte de pessoas e de bens, pesca, comércio, contrabando, explicam a profusão e a variedade dos meios marítimos afectos aos vários portos de rio e de mar, assegurando a diversidade das ocupações e a mobilidade dos seus habitantes (v. Quadro I.2: Embarcações e população mareante existentes no Algarve em 1787, por ordem alfabética das localidades portuárias).

Já depois da chegada do caminho-de-ferro ainda as gentes preferiam o meio ma- rítimo, mais seguro e mais rápido, tanto para o transporte de pessoas como de mercado- rias61

. A mobilidade, mesmo antes da era do vapor, não foi um verdadeiro problema para os algarvios endinheirados, numa região em que as principais cidades eram quase todas portuárias. As embarcações pequenas, mas seguras, aperfeiçoadas pelos marítimos locais, entre as quais se notabilizou o caíque que levou ao Brasil a notícia da expulsão

dos Franceses62

, garantiam a facilidade de contratar a viagem segundo as necessidades, a rapidez e a segurança do transporte. Para Joaquim Romero Magalhães, que sublinhou a importância dos almocreves de terra e dos almocreves de mar: «o que interessa é o barco de pouco fundo, rápido, de pequena equipagem, barato. Não estamos aqui no trá-

60 Esse estatuto só lhe adveio pelos decretos de 28 de Junho de 1833 e de 18 de Julho de 1835, o qual,

introduzindo algumas alterações, instituiu o Algarve como distrito administrativo, dirigido pelo Governa- dor Civil, com sede em Faro. Durante o período das ocupações francesas, a cidade foi temporariamente sede dos diversos poderes, uma vez que o bispo D. Francisco Gomes do Avelar acumulou as funções de Governador Interino, entre 1808 e 1816.

61 Em 1893, José Joaquim Nunes escreveu uma carta a José Leite de Vasconcelos, a acompanhar o envio

de uma pedra com caracteres ibéricos que localizara em Bensafrim, afirmando: «O melhor meio de con- ducção parece-me por mar em navio de vela do que em vapor, pois n’aquella está sujeita a menor numero de trambulhões. Pelo caminho-de-ferro haveria muitas baldeações; por mar entra aqui e descarrega-se em Lisboa.». In NUNES, José Joaquim – [Carta] 15.7.1893, Lagos [a] José Leite de Vasconcelos. [Ms.]. 1893. Acessível na BMNA, Epistolário de José Leite de Vasconcelos. N.º 16364.

62 V. IRIA, Alberto – Do Algarve ao Brasil no caíque de pesca «Bom Sucesso» em 1808: um episódio à

margem da guerra peninsular. [S.l.: s.n.] 1936 (Lisboa: Escola Tipográfica das Oficinas de S. José). O tema encontra-se desenvolvido em IRIA, Alberto – A invasão de Junot no Algarve: subsídios para a história da guerra peninsular – 1808-1814. Reprodução fac-similada da edição de 1941. Amadora: Livro Aberto, Editores Livreiros Lda, 2004 [1941], 476 [6] p.

23 fico internacional, nas grandes distâncias. Não quer isto dizer que pequeno barco não

possa ir, e não vá a Lisboa, a Cádiz, a Sevilha, a Gibraltar»63

, ou ao Brasil.

A vitalidade das embarcações à vela no Algarve, nos primeiros tempos da con- corrência do vapor, foi comprovada pelos dados que Luís Santos reuniu e que recupe- ramos no Quadro I.3: Movimento de cabotagem em 1855. Ao contrário das movimenta- ções entre Lisboa e Porto, que utilizaram principalmente o vapor, a vela continuou a assegurar os transportes do Sul, atestando a sua eficácia, num contexto em que as cargas são semelhantes.

O relevo dado a estas actividades é significativo, porque a estrutura socioprofis- sional lhe é conforme, destacando-se as profissões ligadas ao mar e, sobretudo, à terra. A estatística realizada por José de Sande Vasconcelos (1730?-1808) que pode compul- sar-se no Mappa geral de differentes objectos, e noticias do Reyno do Algarve, referente ao ano de 1787, proporciona-nos uma imagem firme da estrutura socioprofissional al- garvia com uma base ruralizada e marítima, como se referiu. Os dados reunidos no Quadro I.4: Pormenorização dos estatutos socioprofissionais existentes no Algarve em 1787 são o resultado do cruzamento das informações veiculadas nos diferentes mapas sobre actividades profissionais, que integram o Mappa geral perfazendo 26% da popu- lação, que enumeramos: «1.º Mappa de resumo de toda a tropa que há no Reyno do Al- garve», «2.º Mappa de Menistros, Escrivaens e mais Officiaes de Justiça e Fasenda des- te Reyno do Algarve e seos competentes Ordenados», «3.º Mappa de todas as Embarca- çoens e Mariantes que há nos portos deste Reyno do Algarve», «5.º Mappa de todas as diferentes Dignidades, Ocupaçoens e Oficios que ha em cada uma das terras do Reyno do Algarve», «12.º Mappa de todos os Frades, Freiras, Recolhidas e mais individuos que há nos Conventos deste Reyno e Hospitaes delle», «15.º Mappa de todos os Profes- sores tanto Regios como particulares de differentes faculdades que ensinão neste Reyno» e «18.º Mappa do numero de Parochos que há em cada huma das Vigairarias, seos Districtos do Reyno do Algarve».

Atentemos nos resultados obtidos. O grupo das profissões ligadas à agricultura (lavrador, hortelão e trabalhador) é o mais numeroso, perfazendo 50,70% da população em actividade. Segue-se-lhe o funcionalismo público com 17,11% e, logo depois, o nú- mero de indivíduos com actividade marítima (pilotos de barra e mareantes), que atinge os 16,33% da amostra. Apesar de a agricultura ser a actividade predominante, existe

24 uma considerável diversidade profissional no campo produtivo, que aponta para a com- plementaridade das actividades e para alguma vitalidade do artesanato e do pequeno comércio (8,54%), como se pode observar no Gráfico I.1: Estrutura socioprofissional no Algarve, em 1788. Neste grupo encontram-se, cumpre salientar, dois livreiros insta- lados em Tavira e em Faro, testemunhando, no mínimo, a existência de uma actividade comercial livreira de cunho regional, já pautada, provavelmente, por suficiente estabili-

dade64

. A média ou grande actividade comercial descobre-se confinada a um número diminuto da população, possivelmente de origem estrangeira, o que justifica a presença diplomática (0,02%). A conjugação destes factores deve ser levada em linha de conta, para compreendermos a dimensão da economia regional, que segundo Romero Maga- lhães, não se desenvolveu industrialmente:

A forte presença inglesa pode dar uma ajuda para explicar por que não houve cabimento para tentativas industrializadoras de monta. Mas isso talvez não chegue. A verdade é que não há capitalismo sem capitalistas, e estes não dão sinal de apare- cimento no Algarve. As transformações de produtos quedam-se pela pequena ofi- cina, pelo pequeno artesão. Não há, a sério, empreendimentos ambiciosos de manufac- turas que se destaquem, que vinguem.65

Os grupos de poder e de mediação, ainda que com menor representação popula- cional, detêm em contrapartida a maior capacidade de organização, intervenção e influ- ência social: o clero, os funcionários do Estado, fossem civis ou militares, os homens de letras, constituíram o escol intelectual da região, e deles dependeu a manutenção ou a renovação da ordem estabelecida. Desempenhando funções de nomeação, resultou da- qui uma maior mobilidade sociogeográfica e capacidade de actualização, cujos efeitos na sociedade local não pode descurar-se. Mobilidade e actualização são conceitos estrei- tamente relacionados com a formação intelectual, cujas condições de desenvolvimento abordamos seguidamente.

64 Não nos foi possível ainda obter dados biográficos ou comerciais sobre estas duas casas.

65 Subls. meus. MAGALHÃES, Joaquim Romero – «O Algarve económico nos séculos XVII e XVIII: a

pressão das economias-mundo holandesa e inglesa». In MARQUES, Maria da Graça Maia, coord. – O Algarve da Antiguidade aos nossos dias: elementos para a sua história. Lisboa: Edições Colibri, 1999, p. 261.

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