5.2 Multi-clause sentences
5.2.1 Degree of “inclusion” in the superordinate structure
Existem diferentes postulados teóricos no campo da psicanálise, que se propõe a explicar o autismo.
O conceito de autismo foi definido originalmente por Bleuler (1911/1964) como um sintoma secundário das esquizofrenias, originalmente relacionado aos delírios e pensamentos fantasiosos do sujeito ensimesmado e afastado da realidade externa. Para Bleuler era juntamente por meio deste sintoma secundário das
esquizofrenias, o pensamento autístico, que se poderia tratar os esquizofrênicos, utilizando a psicoterapia psicanalítica.
O interesse pelo artigo inaugural de Kanner (1943/1997) sobre o “Distúrbio Autístico de Contato Afetivo” que, no ano seguinte, em novo artigo, o autor passa a denominar “Autismo Infantil Precoce”, não se limita apenas ao seu valor histórico de descrição de uma nova síndrome, mas rompe com a tradição da psiquiatria infantil que procurava na criança o equivalente aos quadros de adultos. O trabalho de Kanner foi qualificado como científico e o “autismo infantil precoce” aparece nos manuais de psiquiatria, desde a década de 1940.
Segue-se, então, um estudo sobre a evolução do pensamento e do tratamento psicanalítico a respeito do autismo onde podem se encontrar divergências de opiniões sobre a questão da interpretação, da transferência e da contratransferência e da importância do uso das palavras pelo analista.
A interpretação, instrumental primordial da técnica psicanalítica, sempre esteve no cerne da experiência clínica e foi Melaine Klein (1930/1981) que reforçou seu uso em relação ao tratamento psicanalítico das crianças autistas desde a descrição de seu ilustre caso “Dick”, uma criança que não brincava e não demonstrava nenhum afeto.
Segundo Klein os obstáculos fundamentais para o começo da análise de Dick foram a falta de interesse pelo ambiente, a ausência de relação afetiva com a analista, a inexistência de relação simbólica com os brinquedos e a incapacidade de expressar sentimentos. Sendo assim, a analista precisou adaptar a técnica psicanalítica clássica, tal como era utilizada com as demais crianças. As interpretações foram inicialmente usadas para criar a relação analítica e não para analisar as associações livres que no caso, eram inexistentes.
Para tanto, Klein se justifica quando modifica na técnica habitual de só interpretar os dados que já tenham sido expressados pela paciente através de várias representações. Com Dick, já que sua capacidade de expressão por meio de representações quase não existia, Klein antecipou simbolicamente o pequeno Dick ao propor interpretações apressadas, trazendo material simbólico antes mesmo que a criança mostrasse o “caminho”.
As noções psicanalíticas desenvolvidas por Klein, em relação ao tratamento da criança autista, marcaram sobremaneira o desenvolvimento do saber psicanalítico.
Margaret Mahler (1968 apud CAVALCANTI; ROCHA, 2002), por sua vez, identificou diferentes fases no processo do desenvolvimento psicológico normal do bebê. Mahler descreveu o desenvolvimento normal em três fases distintas: autismo primário normal, simbiose e separação/individuação. Para descrever o autismo primário normal, que se entenderia do nascimento até os três meses de vida, tomou de Freud a metáfora do “ovo de pássaro” empregado para ilustrar um tipo de funcionamento psíquico em que o bebê, como o embrião das aves, satisfaz suas necessidades de modo autístico, ou seja, sem levar em conta os cuidados maternos, sem perceber a existência de uma realidade externa, vivendo de forma completamente auto-suficiente.
Para Mahler (1968 apud CAVALCANTI; ROCHA, 2002), o autismo primário normal é uma fase do desenvolvimento caracterizada pela indiferenciação do bebê com o meio externo, desprovido de relações objetais, em que os cuidados maternos são percebidos como pertencentes à esfera onipotente de satisfação. Os estímulos de fora não se distinguem dos esforços do bebê para livrar-se do mal-estar, já que ele não tem consciência alguma da realidade externa. Um ego rudimentar, fundado em algumas predisposições inatas, asseguraria a retenção de traços mnêmicos de situações agradáveis e desagradáveis, numa fase caracterizada pelo exclusivo centramento da libido no próprio corpo e pela indiferenciação das instâncias psíquicas. A fase autista seria seguida da fase simbiótica, quando, então, o bebê começa a processar uma tênue e gradual percepção do meio externo, experimentado, no entanto, como pertencente a seu próprio corpo. Seria, portanto, um estado de fusão com a mãe, em que a barreira autística de proteção contra a estimulação externa se transforma numa espécie de membrana comum, responsável pela construção de um estado em que a mãe é percebida pelo bebê como extensão de si onipotentemente controlada. Essa matriz simbólica, quando bem-sucedida, é a base para a estruturação do ego e para o sucesso dos processos de separação- individuação que a sucedem, preparando a criança para a diferenciação e o afastamento da mãe. É o momento em que a criança começa a investir o mundo externo, a sofrer os efeitos da prova de realidade e a perceber a mãe como uma pessoa separada e autônoma, existindo fora da esfera simbiótica onipotente. Aí acontece, segundo Mahler, o verdadeiro nascimento psicológico da criança, introduzindo-a no mundo das relações objetais, e assim, construindo as bases para os processos da linguagem.
Entendido como regressão a uma fase inicial do desenvolvimento, o autismo foi descrito à luz da metáfora do ovo como um estado de fechamento, indiferenciação, auto-suficiência, sem objeto, sem linguagem e impermeável a qualquer contato com o mundo externo. Seria, pois, uma resposta à falha da capacidade perceptual integradora do ego que, ao retirar drasticamente a libido do mundo externo, desenvolve mecanismos de desumanização e desvitalização transformando os objetos em meros autômatos.
Mahler (1968 apud BOSA; CALLIAS, 2000) desenvolveu sua idéia sobre o autismo infantil a partir de sua teoria evolutiva, explicando como sendo um subgrupo das psicoses infantis e uma regressão ou fixação a uma fase inicial do desenvolvimento de não diferenciação perceptiva, na qual os sintomas que mais se destacam são as dificuldades em integrar sensações vindas do mundo externo e interno, e em perceber a mãe na qualidade de representante do mundo exterior.
Posição semelhante foi desenvolvida por Tustin (1981) que também reconhecia uma fase autista normal no desenvolvimento infantil, sendo a diferença entre esta e o autismo (o patológico), uma questão de grau. Para ela, o autismo seria uma reação traumática à experiência de separação materna, que envolveria o predomínio de sensações desorganizadas, levando a um colapso depressivo.
Entretanto, Cavalcanti e Rocha (2001) lembram que Tustin no artigo “A perpetuação de um erro”, abriu mão da idéia de uma fase de autismo primário normal e do conceito de autismo patológico como uma fixação ou regressão a essa fase para enfatizar o caráter adesivo da patologia autística, aproximando-se do pensamento de E. Bick, D. Metzer e D. Anzieu.
Meltzer foi o supervisor de vários analistas que trabalhavam com crianças autistas, entre os quais se encontra Tustin e o caso do paciente John. Foi a partir dessas supervisões que Meltzer desenvolve suas idéias sobre o autismo. Para ele existe autismo propriamente dito e o estado pós-autístico. O primeiro é descrito como um estado de suspensão da vida mental que se dá pela não utilização da atenção. A forma como a criança autista realiza essa suspensão da vida mental é através de um mecanismo típico do autismo, o “desmantelamento”. Para Meltzer (1975), o que acontece no “desmantelamento” é que o ego e o objeto são fragmentados em suas qualidades sensoriais, ficando reduzidos a um estado primitivo e submetidos ao id e ao princípio da compulsão à repetição. O uso constante e repetitivo desse mecanismo acaba privando a criança de experiências
maturativas que encaminhem o seu desenvolvimento psíquico. A criança autista fica presa nessa forma de agir “desmantelada”, onde o ego reduzido a qualidades sensoriais, vagueia sem possibilidades de aprender o objeto em seu aspecto geral. Esse mecanismo de desmantelamento impede a constituição dos espaços internos dos objetos e do próprio self da criança, o que compromete os processos psíquicos de introjeção e de projeção. Essa suspensão da vida mental através do desmantelamento acarreta segundo Meltzer (1975), uma descontinuidade dos acontecimentos vivenciados pela criança.
O estado pós-autístico seria uma seqüela resultante dos episódios autísticos, sendo tanto mais grave quanto mais freqüente for o uso do mecanismo de desmantelamento pela criança. No estado pós-autístico há um tipo particular de identificação descrito por Meltzer como identificação adesiva. Portanto, Meltzer (1975) trabalha com a idéia de que no autismo propriamente dito houve uma falha na função contensora e o ego se desmantelou.
Para Cavalcanti e Rocha (2001), mesmo tentando desconstruir algumas metáforas usadas por alguns autores para significar o autismo (metáfora do “ovo de pássaro”, de MAHLER, da “fortaleza vazia” de BETTELHEIM), Meltzer não escapou da tendência de definir o autismo “como deficiência, como ausência de linguagem e comunicação” (p. 93).
No livro “Pensando sobre crianças”, publicado no Brasil em 1997, estão reunidos alguns dos artigos de Winnicott sobre o autismo e a esquizofrenia infantil, escritos em 1966. Nestes textos, o autismo, para Winnicott, não figura como uma doença, mas como um problema do próprio desenvolvimento humano, na constituição do psiquismo. O autor centra nas relações criativas que o sujeito estabelece com o mundo. Relações estas que são possibilitadas pela maternagem, ou seja, para Winnicott é a mãe que torna possível a experiência da existência desde os primeiros encontros onde se identifica com seu bebê e se adapta à suas necessidades. A mãe é essencial para a compreensão da teoria do desenvolvimento emocional e psíquico de Winnicott (1958/2000), pois ela é o primeiro e essencial ambiente no qual o bebê vai se constituir como sujeito.
Winnicott relata que são em conseqüências das desarmonias dos cuidados maternos que as defesas precoces se desenvolvem. A carência de cuidados maternos ou a falta de adaptação da mãe às necessidades do bebê provocam reações que interrompem o desenvolvimento psíquico e emocional do bebê. O
excesso dessas reações por parte do bebê chega a ameaçar o sentimento de continuar a existir, na forma de uma ameaça de aniquilação, que é a mais primitiva das angústias que podem acometer o homem, uma angústia impensável que age como um perigo contra sua própria existência.
Para que o bebê possa evoluir de maneira favorável de um primeiro momento de completa dependência sobre o outro para sua independência, certas condições se tornam necessárias. É preciso um ambiente “suficientemente bom” que inclua a adaptação da mãe às necessidades de seu bebê. A mãe, através de seus cuidados, vai conseguir estabelecer um sentimento de self e de continuidade de ser.
Quando a mãe não atravessa este estado de preocupação materna primária ela se torna incapaz de estabelecer uma empatia com seu bebê e, portanto, não poderá se oferecer como uma espécie de suporte egóico. É como se o bebê fosse deixado por conta própria, sem nada que o amparasse, como se estivesse caindo. Essa “queda” seria o oposto do que Winnicott (1958/2000) propõe como “holding”. Esse conceito envolve todas as particularidades do cuidado materno que antecedem e advêm depois do nascimento do bebê, proporcionando um ambiente compatível com suas necessidades neste momento de completa dependência. O ambiente vai amparando as necessidades do bebê ao mesmo tempo em que vai se tornando confiável pela empatia da mãe. O holding passa a proteger o bebê frente todo tipo de agressão, seja interna como as necessidades e as reações fisiológicas ou pelos estímulos vindos do meio externo.
Winnicott (1958/2000) propõe um importante conceito denominado de “criatividade primária” que se apresenta como um impulso inato em direção à saúde. As raízes da criatividade se situam nos primórdios da vida e no centro da relação mãe-bebê, pois vincula a capacidade demonstrada pela mãe de oferecer uma resposta ao gesto espontâneo do bebê e a necessidade de ilusão que conduz o bebê ao sentimento de onipotência. Esta criatividade primária ocorre quando o bebê sente que criou aquilo que lhe é oferecido e que ele necessita, assim o bebê adquire a esperança de que existe uma relação una entre a realidade interna e externa (p. 237).
Winnicott foi um dos poucos autores que se negou a reconhecer como relevante a invenção de Kanner sobre o autismo infantil precoce. Para Winnicott a concepção de Kanner não trouxe contribuição significativa nem ao estudo e nem ao tratamento das crianças que passam por imenso sofrimento psíquico em crianças
muito pequenas, sem obrigatoriamente pensá-lo como déficit ou deficiência ou transformar essas manifestações de sofrimento em uma entidade psicopatológica, o que amplia perspectivas para pensar o autismo de forma mais ampla, possibilitando novas reflexões. Winnicott chega mesmo a dizer que “o autismo não existe”, quando se refere à descrição de Kanner, que aprisionou as crianças ditas “autistas” em um único e terrível destino.
Para Cavalcanti e Rocha (2001), Winnicott, ao dizer que o autismo não é uma doença e que seus sintomas podem ser encontrados inclusive nas crianças consideradas comuns e sadias, “esfumaçou as fronteiras entre o mórbido e o não- mórbido, entre o normal e o anormal (...) atirou aos ares a necessidade de classificação psicopatológica” (p. 102).
Já Tafuri (2003) destaca uma das maiores contribuições de Winnicott, a noção de ambiente holding, para descrever a relação analítica, privilegiando a criatividade de ambos, analisando e analista. Segundo a autora a transformação do setting analítico em ambiente holding fez com que a dinâmica de transferência e contratransferência adquirisse uma posição mais abrangente do que a via da interpretação poderia oferecer, em especial no tratamento psicanalítico da criança autista.
Segundo Amy (2001), Ogden (1989) e Haag (1991), influenciados pelo pensamento de Klein, voltaram seus trabalhos teóricos para as primitivas e importantes vivências sensoriais, como elemento essencial da constituição psíquica, onde o autismo figura como uma falha ou uma desarmonia nesta forma elementar e de estar no mundo.
Ogden (1989) caracteriza a posição autista-contígua por sua própria forma particular de relação de objeto, onde o sujeito é uma experiência sensorial. Enfatiza a importância da vivência de continuidade sensorial, onde o outro se faz absolutamente necessário. Portanto, as experiências sensoriais, derivando das necessidades físicas, vão tomando um caráter rítmico que levam a constituir um senso de continuidade de ser que além de ser o berço das experiências do self, permite a posterior relação com os objetos.
Haag (1991) também abordou o autismo a partir das vivências primitivas da criança e suas ressonâncias sobre as disfunções precoces. Esta autora, partindo das hipóteses de Didier Anzieu (1996), sobre a pele como continente ou membrana psíquica, mostrou nas crianças autistas, as falhas, as rupturas e sua
responsabilidade na constituição de mecanismos primitivos de sobrevivência. Descreveu a elaboração pelas crianças autistas, dessa “segunda pele”, que seria um “autocontinente psíquico” defensivo (a criança não tem necessidade de ninguém, basta-se a si mesma) e, por essa razão, uma barreira intransponível entre ela e o outro. Observa o quanto a ausência de continente natural não permite a essas crianças organizar as conexões necessárias à constituição de ligações e daquilo que ela chama “as funções criativas”, que têm a propriedade de fabricar, de alguma forma, a substância psíquica capaz de se “desdobrar” sem ruptura na separação e que permite, portanto, progressivamente o avanço da consciência da separação. Mostra também a necessidade de que sejam propostas às crianças interpretações que lhes permitam se tranqüilizar e perceber progressivamente as capacidades continentes de seus corpos. Enfatiza uma construção ou reconstrução corporal- psíquica como finalidade da primeira etapa do tratamento das crianças autistas, para possibilitar, então, uma progressiva capacidade de individuação.
Alguns autores como F. Dolto (1982), Laznik-Penot (1998), Kupfer (2000), Jerusalinsky (1989), Rocha (2003), Freire (2002), de influência lacaniana, contribuíram sobremaneira para o conhecimento do autismo.
Para Dolto (1982), o autismo seria uma doença simbólica da relação com o meio, em decorrência de uma não resposta, de um mal-entendido, associado a um extravio assustador a uma perda das amarras, do desejo, da relação e dos referenciais sensoriais, relacionados com o risco traduzido por toda separação prolongada e não falada entre o bebê e seu primeiro adulto tutelar de referência sensorial.
O autismo surge como uma ruptura do narcisismo do sujeito, um desaprumo na relação simbólica do sujeito com o seu corpo, a dessolidarização da vida psíquica e do esquema corporal, a dissociação da imagem do corpo e do sujeito.
Laznik-Penot (1997) trabalha as questões do autismo infantil acrescentando uma proposta original sobre essa síndrome, principalmente do ponto de vista da clínica. Segundo a autora,
O não-olhar entre uma mãe e seu filho, e o fato que a mãe não possa se dar conta disso, constitui um dos principais sinais que permitem atribuir, durante os primeiros meses de vida, a hipótese de um autismo-estereotipias e automutilações aparecem somente no segundo ano de vida. Se esse não- olhar não desemboca, mais tarde, necessariamente numa síndrome autística caracterizada, isso assinala em todo caso uma grande dificuldade ao nível da relação especular com o outro. A ausência do olhar materno no sentido da presença e as não intervenções precoces nesse nível ocasionam
o fracasso da instauração da imagem especular e da imagem do corpo, sobre a constituição do circuito pulsional e sobre o funcionamento das representações inconscientes (LAZNIK-PENOT, 1997, p.12).
Laznik-Penot (1997) relata que a sua experiência clínica com as crianças autistas lhe ensinou que é necessária uma escuta analítica de suas produções sonoras, mesmo que inicialmente não tenham uma função de comunicação. Para a autora, pouco importa, no início do tratamento, se estas manifestações sonoras têm o intuito de uma comunicação ou mesmo se há uma intersubjetividade. Esta escuta analítica permite a emergência de uma fala que a criança autista pode a posteriori reconhecer como sua, pois quando o analista aposta que na produção não só sonora mas também gestual desta criança existe um valor significante e, ao constituir a si mesmo como lugar de endereçamento desta mensagem, a criança vai poder se reconhecer a posteriori como fonte dessa mensagem. O analista assume, então, por alguns momentos, o lugar do Outro primordial. Mas ele também antecipa o sujeito a vir, ao interpretar qualquer produção como um ato colocado pela criança, para tentar advir a uma ordem simbólica que lhe preexiste.
O trabalho com uma criança autista se faz ao avesso da cura analítica clássica: o objetivo do analista não é interpretar os fantasmas de um sujeito do inconsciente já constituído, mas permitir o advento do sujeito. Faz-se aqui intérprete, no sentido de tradutor de língua estrangeira, ao mesmo tempo em relação à criança e aos pais (LAZNIK-PENOT, 1997, p.11). Dando continuidade ao assunto, a interpretação que a transferência permite, nas graves psicopatologias infantis, exige uma suposição de sujeito, pelo analista, antes que haja um. Esse desejo do analista é imaginário, apóia-se numa teoria, num percurso, numa leitura das manifestações da criança como articulação, suportando uma gramática em que ele – o analista – estica os signos em que a criança se atrela, até a produção de uma frase, e de um dizer. É o que leva à hipótese de que o “analista lê a manifestação da criança como seu imaginário. É com um texto imaginário que o analista veicula o simbólico, desabotoando os signos a que a criança aderiu, para fazer deles significantes” (VORCARO, 1999, p. 67).
A interpretação, segundo Vorcaro (2004), implica as operações de transcrição, tradução e transliteração: a transcrição é a transformação de manifestações num código; portanto, supõe igualdade entre o que é percebido e o que é registrado. A tradução é a transformação das manifestações num sentido a elas atribuído, supõe uma consistência implícita no que é percebido e define seu significado. Já a transliteração, é a transposição de registros, implica em considerar
as manifestações com um texto cujos traços são desconhecidos. Seu deciframento implica recuperar a lógica que estabelece os valores de cada cifra.
Vorcaro (2004) concorda com Laznik-Penot ao dizer que, no caso do autismo, o tratamento psicanalítico é invertido, pois é uma operação que vai do real ao simbólico criando efeito de negativização; enquanto diante de um sujeito constituído, a operação analítica é inversa, visa a uma travessia do simbólico e do imaginário em direção ao real da pulsão, para um levantamento, ao menos parcial, das defesas.
Jerusalinsky (1984), no seu livro “Psicanálise do autismo”, faz uma retomada dos problemas teóricos-clínicos em relação ao autismo infantil. O autor considera que no autismo o que está em jogo é uma radical ausência do desejo materno e não a concreta ausência da mãe. Avançando sobremaneira nas articulações que se limitam a considerar a questão desse agente materno apenas na realidade ou do ponto de vista imaginário (como por exemplo, nas posições de Winnicott sobre os