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O texto midiático é formado por uma combinação de formas, que inclui o sistema verbal e diferentes sistemas semiológicos, tais como icônico, gráfico e gestual. A estruturação desses componentes é o que vai determinar o sentido da mensagem. E, para que de fato haja a troca comunicativa, é preciso que o receptor saiba como interpretá-las. Considera-se aqui que a instância da produção não conhece o público real, restringindo-se apenas a imaginar o público ideal, aquele que teoricamente deveria absorver a informação. Não dá para imaginar como os efeitos serão percebidos por essas pessoas.

O texto produzido é portador de “efeitos de sentido possíveis”, que surgem dos efeitos visados pela instância da enunciação e dos efeitos produzidos pela instância de recepção. Com isso, toda análise de texto nada mais é do que a análise dos “possíveis interpretativos”. (Charaudeau, 2009:28)

Em outras palavras, qualquer texto midiático traz dois tipos de efeitos, os iniciais propostos no ato de sua criação e aqueles que foram construídos pelos receptores. Este é o resultado da cointencionalidade, que abrange os efeitos visados, os efeitos possíveis e os efeitos produzidos.

Vale ressaltar os gêneros midiáticos propostos por Charaudeau, formados a partir do cruzamento da instância enunciativa, do modo discursivo, do conteúdo e do dispositivo. A instância enunciativa caracteriza-se pela origem do sujeito falante. Pode estar na própria mídia, no caso do jornalista, ou fora dela, um político, por exemplo. A origem é marcada pela forma como o autor é identificado. Os textos que aparecem na Folha Online são produzidos pelas “Redações da Folha Online, Agência Folha, FolhaNews, agências internacionais e reportagem dos jornais Folha de São Paulo e Agora”, conforme informado no próprio site (www1.folha.uol.com.BR/folha/conheça/folha_online.shtml, em 17/04/2010). Isto quer dizer que são várias instâncias envolvidas com a construção do discurso apresentado pelo jornal digital.

Já o modo discursivo é o responsável por transformar o acontecimento midiático em notícia, que para Charaudeau é um emaranhado de informações dentro de um mesmo tema e que seja considerado uma novidade. A notícia pode ser construída a partir de um ponto de vista, seja do jornalista, das fontes, do editor ou de outros atores envolvidos na encenação midiática, o que faz com que a realidade seja apresentada de acordo com interesses particulares, como já colocado anteriormente.

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O acontecimento nunca é transmitido à instância em seu estado bruto, para sua significação; para sua significação depende do olhar que se estende sobre ele, olhar de um sujeito que o integra num sistema de pensamento e, assim fazendo, o torna inteligível. (Charaudeau, 2009:95)

A seleção dos fatos que viram notícia se dá por três fatores.

O acontecimento midiático constrói-se segundo três tipos de critérios: de atualidade, pois a informação midiática deve dar conta do que ocorre numa temporalidade coextensiva à do sujeito-informador (princípio da modificação); de expectativa, pois a informação midiática deve captar o interesse-atenção do sujeito-alvo, logo deve jogar com seu sistema de expectativa, de previsão e de imprevisão (princípio de saliência); de socialidade, pois a informação midiática deve tratar daquilo que surge no espaço público, cujo compartilhamento e visibilidade devem ser assegurados (princípio da pregnância). (Charaudeau, 2009:150)

O tempo, a cotemporalidade do fato, quanto mais recente, melhor. Por isso, a notícia é efêmera e a-histórica, não traz explicações históricas, ou como diz Charaudeau (2009:114), “Dura tanto quanto um relâmpago, o instante de sua aparição.”

Outro fator é o espaço. Os veículos têm que dar conta dos fatos que acontecem em locais próximos e afastados: fatos daqui e de lá. Para isso, utilizam correspondentes, agências de notícias e diversas fontes oficiais e oficiosas. Explica-se o porquê de as notícias do PETA, em sua grande maioria tendo o hemisfério norte como palco, tenham chegado até nós.

O terceiro componente é a hierarquia dos acontecimentos, constituída por critérios externos e interiores. O externo fala da aparição do acontecimento, que pode simplesmente surgir - é o caso das catástrofes naturais, acidentes e outros eventos inesperados. Pode também ser programado, como campeonatos esportivos e demais eventos que estão no calendário. O acontecimento pode ser, ainda, suscitado ou provocado, como as revelações de escândalos ou quando o veículo chama a atenção de um fato para esconder outro.

O acontecimento é selecionado em função de seu potencial de saliência, que reside ora no notável, no inesperado, ora na desordem. Mas, então, são descartados dois outros aspectos do conhecimento. Um deles reside em sua regularidade, o acontecimento podendo aparecer no cotidiano social. (Charaudeau, 2009:142)

Fontes

Para que haja notícia é preciso ter fontes e, mais que isso, alguém digno de aparição. Esses atores sociais são ordenados e selecionados conforme sua notoriedade, representatividade, expressão ou polêmica. Nesse último item é o lugar mais apropriado para inserir o PETA, afinal mesmo com alguma liberdade de expressão, não é comum alguém sair

66 nu pelas ruas reivindicando o que quer que seja, como o grupo faz. Isso acaba dando um tom cômico ao enunciado. Chama a atenção das pessoas, mas também pode fazer com que a mensagem principal passe despercebida em prol de um assunto que, para muitos, possa ser encarado como ridículo e arruaceiro.

As fontes são divididas conforme quadro abaixo (Charaudeau, 2009:148)

A identificação das fontes

Internas às mídias Externas às mídias

“Internas aos organismos de informação “Externas aos organismos de informação “Institucional”

(oficiais/oficiosas) “Não institucional”

Correspondentes Enviados especiais Arquivos próprios Agências e indústrias de serviço Outras mídias Estado-Governo Administrações Organismos sociais (partidos, sindicatos) Políticos (representantes sociais) Testemunhas Especialistas Representantes (corpos profissionais) Modos discursivos

Os modos discursivos estão agrupados em três categorias: acontecimento relatado (como uma reportagem), acontecimento comentado (como um editorial) e acontecimento provocado (como um debate).

Relatar o acontecimento

Trata-se aqui de construir a notícia a partir de um acontecimento e torná-lo um produto midiático. Isto se dá por meio de um fato relatado ou um dito relatado. O fato relatado é a descrição de um acontecimento. Para mostrar a autenticidade ou verossimilhança, a mídia parte de alguns recursos:

Designação identificadora: é a prova de que o algo existiu, pode ser uma analogia, quando não for possível mostrar o fato. Trabalha com descrições, reconstituições, comparações, imagens, sempre mostrando o que não podemos ver a olho nu.

Toda imagem tem um poder de evocação variável que depende daquele que a recebe, pois é interpretada em relação com outras imagens e relatos mobilizados por cada um. Assim, o valor dito referencial da imagem, o valor de substituição da realidade empírica, é enviesado

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desde a origem, pelo fato de uma construção que depende de um jogo de intertextualidade, jogo que lhe confere uma significação plural, jamais unívoca. (Charaudeau, 2009:246).

Explicar um fato: a mídia tem que dar conta dos motivos e intenções dos atores, explicitando as causas e as consequências sem análises ou comentários.

Descrever reações: mostra o interesse dos atores em relação a fato.

A reação-declaração consiste em emitir um julgamento que pode ser uma opinião pessoal ou oficial (favorável ou desfavorável), em fazer uma confissão ou denúncia, se for o caso. Ela pode converter-se num mini acontecimento associado ao precedente, e acabar por suplantá- lo. (Charaudeau, 2009:155)

Para relatar um acontecimento, a mídia também faz uso do dito relatado ou palavras com declarações e demais reações verbais dos atores da vida pública.

O discurso relatado caracteriza-se, então, pelo encaixe de um dito num outro dito, pela manifestação da heterogeneidade do discurso. Essa heterogeneidade está marcada por índices que indicam que uma parte, pelo menos, do que é dito, deve ser atribuída a um locutor diferente daquele que fala. Por vezes essas marcas são discretas e surge, então, o problema da fronteira entre “discurso relatado” e “interdiscursividade”, fenômeno geral de inserção de fragmentos de discursos uns nos outros, não necessariamente explicitado. (Charaudeau, 2009:162)

A maneira de relatar um dito tem quatro formas:

Citação

Integrando parcialmente, na terceira pessoa

Narrativizando (exemplo: ele declarou, confirmou, disse)

Evocando: apenas uma evocação do que o locutor de origem costuma dizer

Tendo em vista o número elevado de atores do espaço público que dão declarações ou são suscetíveis de tomar a palavra, é preciso proceder a uma seleção. Esta se faz em função da identidade do declarante e do valor de seu dito. (Charaudeau, 2009:168)

O valor do dito varia conforme as circunstâncias em que é escolhido:

Efeito de decisão Efeito de saber Efeito de opinião Efeito de testemunho

68 O dito relatado é passível de transformação por parte do locutor-relator, mesmo que inconscientemente. Esta alteração pode ser feita por:

Intervenção nas palavras do enunciado de origem operando uma transformação lexical.

Intervenção nas palavras de enunciação de origem, operando uma transformação da modalidade do dito.

Intervenção na significação enunciativa da declaração de origem, transformando o dito em ação de dizer, e o locutor em agente desta ação.

Intervenção na enunciação do próprio locutor-relator, marcando certa distância com relação à veracidade da declaração.

Comentar o acontecimento

A mídia constrói seus pontos de vista, levantando hipóteses e até mesmo conclusões sobre os fatos relatados, o que gera controvérsias no meio jornalístico: cabe ao jornalista apenas informar ou ele também pode expressar sua opinião? Charaudeau explica:

O comentário jornalístico, tomado pela dupla restrição da credibilidade/captação do contrato de comunicação midiática retira sua legitimidade de uma oscilação permanente entre, de um lado, um discurso de engajamento moral, de outro, um discurso de distanciamento; de um lado uma manifestação de entusiasmo, de outro, de frieza; de um lado, de argumentos baseados em crenças (no saber amplamente compartilhado), de outro, de argumentos baseados em conhecimentos (no saber reservado). (Charaudeau, 2009:187)

O comentário pressupõe três etapas envolvendo o propósito do texto midiático:

Problematização: o acontecimento precisa ser questionável e passível de um posicionamento contra ou a favor.

Elucidação: etapa que consiste na argumentação e no desencadeamento do acontecimento, haja vista que um comentário pressupõe a veracidade dos fatos. Entre os artifícios utilizados para este fim estão a reconstituição e o raciocínio por analogias.

69 Avaliação: é o ponto de vista pessoal de quem informa. Pode acontecer de forma inconsciente ou por meio de análise subjetiva, o que se dá principalmente nos editoriais e nas crônicas.

Provocar o acontecimento

Charaudeau chama o ato de provocar o acontecimento de simulacro da democracia. É quando as mídias convocam “comentaristas da vida social” que falam de maneira midiática ou testemunhas anônimas. É provocado pela ênfase dada, por exemplo, nas manchetes dos jornais, reportagens, ou seja, é quando a mídia “decide” o que ficará em evidência e o que vai definir a opinião pública do momento.

Os jornalistas e os animadores desempenham um papel primordial na encenação, atuando como moderadores de um debate, provocadores ou comentaristas. São eles que vão escolher o que entrará no ar. O risco do acontecimento provocado é fazer da notícia um espetáculo, tirando seu cunho informativo. Charaudeau alerta que a encenação pode ser transformada em propaganda para autopromoção do veículo.

Outro gênero é o conteúdo temático, o espaço do macrodomínio abordado pela notícia. Pode ser uma seção, como política, exterior, sociedade, esportes, cultura ou uma rubrica, que é uma subseção: dentro de cultura, temos cinema, teatro; dentro de esportes, há futebol, F1 etc.. A Folha Online segue esta regra. Todas suas matérias são agrupadas segundo uma temática, lembrando o que Hernandes disse sobre o fato de a mesma poder aparecer em várias seções, dependendo do destaque e enfoque que o enunciador almeja.

Para finalizar o quadro de gêneros do autor francês, temos o dispositivo, que é o suporte midiático, a televisão, o rádio, a imprensa. No caso da análise proposta para as reportagens sobre o PETA, o dispositivo utilizado é a internet.

Charaudeau comenta que, para a análise de um discurso, é preciso se interrogar sobre a mecânica da construção do sentido, a natureza do saber que é passado e o efeito de verdade que possa vir a ser produzido no receptor. A construção do sentido se dá por meio da troca social após um duplo processo de semiotização, que é a transformação e a transação.

O mundo a descrever é o lugar onde se encontra o acontecimento bruto e o processo de transformação consiste, para a instância midiática, em fazer passar o acontecimento de um estado bruto (mas já interpelado), ao estado de mundo midiático construído, isto é, de notícia; isso ocorre sob a dependência do processo de transação, que consiste, para a instância midiática, em construir a notícia em função de como ela imagina a instância receptora, a qual, por sua vez, reinterpreta a notícia à sua maneira. Esse duplo processo se

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inscreve, então, num contrato que determina as condições de encenação da informação, orientando as operações que devem efetuar-se em cada um desses processos. (Charaudeau, 2009:114)

A transformação é tornar um mundo a significar num mundo significado. Para isso, exige a estruturação de categorias que vão permitir nomeação, qualificação, narração, argumentação e modalização (avaliação). Lembrando que o ato de informar deve descrever, contar e explicar. Já a transação dá um significado psicossocial à linguagem por meio de parâmetros: hipótese sobre a identidade do outro, efeito que pretende produzir, tipo de relação que pretende ter com esse outro, como será a regulação.

O ato de informar participa desse processo de transação, fazendo circular entre os parceiros um objeto de saber que, em princípio, um possui e o outro não, estando um deles encarregado de transmitir e o outro de receber, compreender, interpretar, sofrendo ao mesmo tempo uma modificação com relação a seu estado inicial de conhecimento. (Charaudeau, 2009:41)

É importante frisar que é a transação que dita a transformação. O homem não fala para descrever, contar ou estruturar o mundo. Fala, sobretudo, para se posicionar em relação ao outro. É disto que depende sua existência.

A consciência de si passa pela tomada de consciência da existência do outro, pela assimilação do outro e ao mesmo tempo pela diferenciação com relação ao outro. (Charaudeau, 2009:42)