A análise do material discursivo dos tutorandos do PET também foi realizada conforme a dos tutores, por eixos discursivos.
Entretanto, fizemos uma seleção de discursos diretamente relacionados à ação tutorial propriamente dita em detrimento do funcionamento do Programa investigado. Assim, foram gerados quatro eixos discursivos conforme o gráfico abaixo:
Gráfico 10 – Eixos e sub-eixos discursivos de análise dos tutorandos -PET
a) Eixo discursivo: Concepções de tutoria pelos tutorandos
Gráfico 11 – Eixo das concepções de tutoria e suas respectivas ancoragens (tutorandos)
Fonte: Elaborado pela pesquisadora.
Em geral, o significado de tutoria está relacionado à orientação, que pode atender a diversos aspectos como o cognitivo (A72), os técnico-pedagógicos, sociais e psicológicos (A73), ou ainda uma preparação para o mundo (A71).
Eu acho a tutoria é quando você tem uma pessoa e aquela pessoa tem um conhecimento a mais que o seu e ela está lhe auxiliando nas dúvidas que você tem acerca de determinado assunto, para mim tutoria é isso, é quando uma pessoa sabe mais e vai transmitir para o que tem dúvida, para quem sabe menos (DSC72). Eu acho que a tutoria é o acompanhamento e o aconselhamento, não o direcionamento do passo à passo, não é necessariamente pegar na mão, mas instruir. É. Porque é difícil da gente dizer “é isso”. Mas eu percebo a tutoria como orientação. O PET vai para além só do âmbito acadêmico e profissional. [...] Tem umas tendências pedagógicas e técnicas. Isso aqui é bem visto, aqui não tem como a gente não ser, e tem as questões mais psicológicas e sociais, o(a) tutor(a) dá uma abertura muito grande. [...] Tem essa questão do acompanhamento pessoal do(a) tutor(a) por isso é diferente do que qualquer outra orientação que você tem na universidade, aqui é uma coisa mais subjetiva, o(a) tutor(a) tem um papel mais subjetivo, é um processo de acompanhamento e também de companheirismo, não de estar só dizendo que você tem que fazer isso e aquilo outro[...]. Então, eu vejo uma diferença grande, ao mesmo tempo não tem só o lado acadêmico, também tem o lado pessoal[...] (DSC73).
Eu acho que é uma ação de modelagem do(a) tutor(a) [...] pra você crescer e estar preparado para o mundo lá fora (DSC71).
A ancoragem A70 traz uma concepção de tutoria bem fundamentada no princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. De acordo com o DSC70 a tutoria do PET é diferenciada justamente por causa dessa tríade.
[...] Eu acho que o que faz a tutoria do PET ser diferenciada é o modo como o programa funciona, porque nela a gente desenvolve pesquisa, ensino e extensão, tudo ao mesmo tempo, faz com que seja uma coisa mais subjetiva e eu acho que é uma grande diferença, porque a tutoria existe por aí em vários cantos, mas essa indissociação da tríade é dá o diferencial pra tutoria do PET ser como ela é (DSC70).
Nessa linha de pensamento de que o trabalho da indissociabilidade da tríade faz a diferença, corroboramos com Tosi (2007) quando afirma que a função maior do tutor no PET é
deflagrar situações de aprendizagens em que sendo previstas a indissociabilidade ensino, pesquisa e extensão, são também concebidas para além daquilo que a graduação comumente oferece e que é identificável pela ênfase curricular. O grupo PET deve trabalhar com [...] currículo oculto, com ações que, mesmo desejáveis, não estão formalmente articuladas nos Projetos Políticos e Pedagógicos dos cursos, ou, se previstas não chegaram a ser implementadas apesar de serem consideradas importantes para a formação (TOSI, 2007, p. 90).
Outro aspecto que merece destaque é a questão de que a ação tutorial não é autoritária (A74).
Eu acredito que o(a) tutor(a) acompanha o nosso desenvolvimento e nos ajuda nesse processo, mas não é como se fosse um chefe, não tá mandando em ninguém aqui, não diz “você faz isso!” delegando coisas, Não se trata aqui de dar ordens pra alguém, mas de acompanhar e estar junto sempre nos momentos decisivos. [...] (DSC74).
As concepções de tutoria que aparecem nos discursos dos alunos expressam o que é vivenciado por eles na prática cotidiana, o que não difere daquelas apresentadas pelos tutores. Uma ação que é vista pelos alunos como um acompanhamento, uma orientação, mas que é diferenciada de outras orientações que eles perceberam ou vivenciaram ao longo de sua carreira acadêmica até então, devido à própria natureza do PET.
b) Eixo discursivo: Perfil do tutor pelos tutorandos
A partir da ação tutorial experienciada pelos tutorandos com os seus tutores do PET é que foram traçados os perfis dos tutores do PET. Os alunos ao falarem remetem sempre aos seus próprios tutores, por isso os discursos são elaborados com base no que eles percebem, muito embora sejam grupos diferentes, percebemos pontos comuns mencionados por eles. No gráfico abaixo podemos visualizar algumas características desse perfil.
Gráfico 12 – Eixo do perfil do tutor e suas respectivas ancoragens (tutorandos)
Fonte: Elaborado pela pesquisadora.
Os discursos destacam características pessoais e profissionais que são consideradas importantes para o exercício da tutoria, como ser perceptivo e sensível às situações do grupo (A76) e se colocar disponível para ajudar (A75).
Estar disponível para ajudar ter mais presença e mais tempo, de tirar duvidas, se dedicar, porque a gente tá no processo de formação. O(a) nosso(a) tutor(a) está de olho aqui no nosso trabalho. De vez em quando bate aqui na porta pra perguntar como é que está e se você for lá na sala dele(a) agora pedir ajuda pra qualquer coisa ele(a) vai parar o que ele está fazendo e vai lhe dar atenção, vai ajudar! Eu admiro muito isso nele(a) porque ele tem a humildade de parar e ensinar as coisas do começo (DSC75).
A sensibilidade do(a) tutor(a) é uma coisa que me impressiona e me surpreende, isso é muito importante para um grupo de trabalho. A sensibilidade de perceber coisas que a gente não percebe que ajude a gente, ver e perceber o desenvolvimento das pessoas. A percepção que um tutor tem que ter. [...]Enfim, eu acho que essa questão da sensibilidade também, por se tratar de seres humanos, somos frágeis, temos nossas limitações, enfim, tem uma série de coisas e é essencial que o tutor considere isso (DSC76).
Também há um destaque para habilidades de saber se posicionar e dialogar com o grupo para lidar com situações conflitantes sem ser autoritário (A77) e lançar um olhar de todo o grupo, mas também não deve esquecer-se de dar atenção ao individual (A79).
Acho que o diálogo e a flexibilidade de respeitar o limite do outro. O(a) tutor geralmente deve saber lidar com determinadas situações, não ser uma pessoa autoritária de modo algum, uma pessoa que sabe respeitar sua opinião e também exigir, e que sabe muito bem mediar as ações do grupo, também de saber quando cobrar, como cobrar, dialogar mesmo, ser uma pessoa humana nesse sentido. Também ser uma pessoa resolutiva que consegue dar continuidade às coisas, mas sem aquela carga de estresse que geralmente a gente costuma ficar, uma pessoa muito segura, com quem você pode contar[...] (DSC77).
O tutor tem que ter um olhar do grupal, se preocupar com o grupo nas atividades, mas também do pessoal dentro do grupo, dar atenção individual (DSC79).
Os tutores também têm que ter conhecimento ou aporte teórico A78: Tem que ter o lado profissional, ter aporte para nortear o tutorando.
Eu considero que é necessário o(a) tutor(a) ter aquele lado bem profissional, porque querendo ou não ele(a) é tutor(a) e pode até ter a boa vontade mas precisa ser uma pessoa que tenha mais aporte do que o tutorando para poder norteá-lo, que é a função do tutor, saindo um pouco daquela imagem romântica de que os dois tem que aprender com os dois, porque, digamos assim, o(a) tutor(a) tem muito mais a ensinar do que aprender (DSC78).
Percebemos pelo DSC78 que ainda é muito esperado do docente o domínio de conhecimentos. Entretanto, vale ressaltar que para exercer a tutoria, o professor tem que ter outras capacidades que emergem da sua prática, principalmente sócio-afetivas.
c) Eixo discursivo: Prática pelos tutorandos
O eixo da prática se subdivide em dois sub-eixos que são o papel do tutor e a relação tutor-tutorando que podem ser observados no gráfico:
Gráfico 13 – Eixo da prática e sub-eixos e suas respectivas ancoragens (tutorandos)