4 Materials and methodology
4.1 Data collection and analysis
No tocante ao contexto de voluntariado, não são muitos os estudos que utilizem a TAD para compreender o envolvimento e permanência em atividades desse tipo. Greene-Demers, Pelletier, e Ménard (1997) relataram que a motivação autónoma predizia o envolvimento em comportamentos de proteção ambiental (e.g., reciclagem), especialmente se estes requeriam elevado esforço. Pelletier et al. (1998) realizaram diversas investigações nas quais pretendiam avaliar os subtipos regulatórios motivacionais coexistentes no continuum da autodeterminação no contexto de atividades pró-ambientais. Construíram um instrumento, The Motivation Toward the Environment Scale para o efeito, constituído por seis fatores (i.e., amotivação, regulação externa, motivação extrínseca por regulação introjetada, motivação extrínseca por regulação identificada e motivação extrínseca por regulação integrada), cujos resultados evidenciaram correlações entre as subescalas, revelando um padrão simples, consistente com o continuum da teoria da autodeterminação. Desta forma, alguns indivíduos indicaram envolver-se em comportamentos conscientes ao nível ambiental por prazer e satisfação (i.e., autodeterminados), enquanto outros expressaram que as suas razões para a ação eram mais de cariz instrumental (e.g., pela obtenção de recompensas como o reconhecimento por parte de outros, ou para evitar punições autoimpostas, como o sentimento de culpa). Consistente com a teoria de Deci e Ryan (1985a, 2000), os indivíduos autodeterminados indicaram que estavam insatisfeitos com o estado do ambiente e, ao sentirem-se competentes para intervir neste contexto que valorizavam, pretendiam envolver-se em atividades que poderiam permitir solucionar os problemas encontrados. Reciprocamente, os indivíduos não autodeterminados, relatavam que a
situação ambiental era satisfatória e pouco importante, revelando baixo sentimento de competência neste contexto, tornando menos provável o seu envolvimento em comportamentos ao nível ambiental. Deste modo, a relação entre satisfação (face ao contexto ambiental) e formas de autodeterminação revelou-se negativa, contrariamente a outros domínios (e.g., educação, desporto). Assim, os autores concluíram que neste domínio específico o nível de satisfação é antecedente da motivação (Pelletier et al., 1998).
Na continuação do estudo anterior, Seguin, Pelletier, e Hunsley (1998), pretenderam desenvolver e testar um modelo teórico explicativo das atividades voluntárias no âmbito do ambientalismo. Muito embora a definição de voluntariado seja distinta da de ativismo ambiental, que se prende com comportamentos como, por exemplo, ser membro de um movimento ambientalista (Herrera, 1992), ou participar numa intervenção de um problema ecológico ou de conservação ambiental (Dresner, 1990; Seguin, Pelletier, & Hunsley, 1998; Syme, Beven, & Sumner, 1993), existe contudo uma semelhança entre ambas que se relaciona com o facto de contemplarem um vínculo a uma organização (Seguin et al., 1998) no desempenho de uma atividade não obrigatória. Numa amostra de ativistas e não ativistas, concluíram que o nível de autonomia percecionado predizia a perceção de responsabilidade de diferentes organizações na prevenção de riscos para a saúde, a quantidade de informação recebida pelos indivíduos e a importância percecionada dos problemas do ambiente.
Gagné (2003), no seguimento das investigações supra mencionadas, desenvolveu dois estudos que pretendiam analisar o papel da orientação e do apoio à autonomia no envolvimento em atividades pró-sociais. Concluiu que o apoio à autonomia relacionava-se positivamente com a satisfação de necessidades, principalmente com a de competência, e a orientação para a autonomia apresentava
uma relação significativa com o envolvimento psicológico (ao nível da qualidade, mas não na quantidade, i.e., número de horas despendidas na atividade), sendo um preditor mais forte do que o apoio à autonomia. Em suma, os voluntários que permaneceram nas atividades pró-sociais percecionavam o contexto como mais apoiante ao nível da autonomia do que os que haviam desistido, e a orientação para a autonomia foi o preditor mais forte do envolvimento neste tipo de atividades (Gagné, 2003). Estes resultados foram reforçados num outro estudo que realizou no âmbito do voluntariado orientado para serviços de resposta à comunidade, no qual os indivíduos que relataram estar na globalidade satisfeitos com o seu trabalho de voluntariado não evidenciavam intenção de saída, e embora a motivação autónoma não mediasse muitos dos efeitos das características do trabalho, foram encontradas correlações positivas entre estas e a motivação intrínseca e a regulação identificada, mas nenhuma com a regulação introjetada e externa (Millette & Gagné, 2008). As autoras relataram ainda que a satisfação era uma função relacionada com a obtenção de significado e o desfrutar do trabalho, sem sentir-se pressionado por contingências externas e recompensas. Desta forma, a intenção de saída revelada pelos voluntários relacionou- se mais com o decréscimo da motivação para a autonomia proporcionada pelo contexto do que com as características das atividades aí desenvolvidas. Outro resultado relevante relaciona-se com a associação negativa entre intenção de desistência e motivação autónoma que, no entanto, não descura o facto de poderem ocorrer outros fatores externos à organização que possam influenciar a decisão dos voluntários (e.g., razões pessoais, de saúde). Ainda neste estudo, Millette e Gagné (2008), adaptaram a escala anteriormente construída por Pelletier et al. (1998) ao contexto do voluntariado (Volunteer Motivation Scale).
Existe ainda outro instrumento, com recurso ao quadro concetual da autodeterminação, para avaliar as motivações no envolvimento em atividades de voluntariado desenvolvido por Chantal e Vallerand (2000), denominado de ÉMAB (Échelle de Motivation Envers L'Action Bénévole; Chantal & Vallerand, 2000). Esta escala é composta por oito subescalas correspondendo ao continuum de estilos de regulação anteriormente descrito combinado com uma dicotomia baseada no altruísmo versus egoísmo. Dos três estudos realizados pelos autores destaca-se o facto das motivações "autodeterminadas altruístas" serem predominantes (i.e., Motivação Intrínseca Altruísta, Regulação Integrada Altruísta e Regulação Identificada Altruísta) comparativamente aos demais estilos regulatórios combinados, bem como existirem diferenças entre os sexos relativamente à Motivação Intrínseca Egoísta e Regulação Identificada Egoísta, nas quais as mulheres obtiveram médias mais elevadas que os homens. Desta forma os autores consideraram que estas estão mais inclinadas a participar nas atividades de voluntariado pelos conhecimentos e socializações que daí possam advir. Encontraram ainda uma correlação positiva entre as perceções de autonomia, competência e relacionamento e as motivações autodeterminadas, assim como entre esta e a empatia disposicional e a intenção de permanência. Este último constructo associou-se também positivamente com a regulação externa, considerando os autores que pode estar relacionado com uma avaliação dos custos envolvidos na atividade de voluntariado. Finalmente, concluíram existir uma associação positiva entre os fatores da satisfação altruísta e a intenção de permanência em atividades de voluntariado, ocorrendo uma relação oposta com a regulação externa e a amotivação. Contudo, salientaram que mesmo que o voluntariado não implique recompensas monetárias, existem retornos subtis ganhos pelos indivíduos (i.e.., pelos níveis da
Regulação Identificada Altruísta), possivelmente associados ao facto de se estar a ajudar outros (Chantal & Vallerand, 2000).
Por último, salientam-se os quatro estudos realizados por Weinstein e Ryan (2010) relativamente aos retornos no tocante à motivação autónoma e controlada quando se presta uma ajuda aos outros. Com recurso à técnica de diário (Estudo 1) e a metodologia experimental (restantes 3 estudos), analisaram se os comportamentos de ajuda pró-social de estudantes universitários aumentavam o seu bem-estar, tendo em conta a satisfação das necessidades psicológicas básicas, bem como se a motivação do voluntário, nomeadamente a autónoma, influenciava os benefícios obtidos por parte dos destinatários da ajuda. Os resultados confirmaram a primeira assunção, sendo que a necessidade de competência foi a menos preditora na mediação entre a motivação autónoma e o bem-estar. No tocante à perceção dos destinatários da ajuda, os estudos revelaram que relatavam maior bem-estar (i.e., afeto positivo, vitalidade e autoestima) quando os indivíduos que proporcionavam a ajuda pró-social eram mais autónomos, uma vez que os consideravam como mais esforçados, mais próximos e como proporcionando um envolvimento de maior qualidade (Weinstein & Ryan, 2010).
Em suma, realizou-se uma resenha dos estudos conhecidos que recorrem à TAD, e que servem de base de apoio às investigações que pretendemos desenvolver neste trabalho. Como podemos constatar pela exploração aqui efetuada, o fenómeno do voluntariado não tem sido vastamente estudado pela TAD, mas os estudos têm realçado a importância da autonomia, quer enquanto necessidade, quer no locus de causalidade e no apoio proporcionado pelo contexto, enquanto essencial no comportamento pró-social.
Finalmente, no presente capítulo focou-se a TAD como proposta teórica para a compreensão das necessidades envolvidas no voluntariado. Este nosso interesse relaciona-se, por um lado pela atualidade e robustez da TAD no que concerne o estudo da motivação, e sendo o voluntariado, à partida, uma atividade potencialmente (intrinsecamente) motivada, parece-nos relevante (e heurístico) utilizá-la – o que embora não seja um aspeto assim tão inovador internacionalmente, mas pelo que conhecemos da atualidade da investigação no nosso meio, o é no contexto português. Mais ainda, o facto desta abordagem ser utilizada em diferentes contextos (e.g., trabalho, educação, saúde, desporto), acreditamos que também poderá ser útil para alargarmos algumas conclusões. Deste modo, objetivamos estudar a importância da autonomia - a causalidade autónoma, os estilos regulatórios (que refletem continuum de autonomia) e o suporte à autonomia proporcionado pelo contexto – e a sua relação com outros domínios, nomeadamente a satisfação com a vida.