A teoria da autodeterminação tem sido uma das mais importantes no estudo da motivação (Deci & Ryan, 2008; Gagné et al., 2015). De acordo com Deci e Ryan (2000), a teoria em causa discrimina os resultados dos processos de regulação que levam à sua persecução, procurando calcular as consequências dos diferentes conteúdos e processos de regulação. Eccles e Wigfield (2002) defendem que a teoria da autodeterminação apresenta dois grandes pilares, o Ser Humano está motivado para alcançar um nível ótimo de estimulação e procura satisfazer três necessidades psicológicas básicas – autonomia, competência e afiliação. Segundo Vallerand, Pelletier e Koestner (2008), a relação sujeito-contexto é fundamental para a satisfação das necessidades supracitadas e para a ocorrência de um comportamento motivado. O indivíduo é encarado como tendo uma natureza proativa no seu processo de crescimento psicológico, ao passo que o contexto pode potenciar ou inviabilizar esse mesmo crescimento (Deci & Ryan, 2008; Tremblay, Blanchard, Taylor, Pelletier, & Villeneuve, 2009). Desta forma, esta teoria pretende compreender os comportamentos orientados para os objetivos e perceber como se processa o desenvolvimento da saúde psíquica e do bem-estar associados à satisfação das necessidades psicológicas básicas, uma vez que estas atribuem aos objetivos a sua força e têm impacto nos processos de regulação que direcionam uma pessoa para as suas metas (Deci & Ryan, 2000). Assim, os indivíduos vão atuar de forma ativa na busca do seu potencial através: (a) do desempenho de tarefas estimulantes; (b) da utilização das suas competências; (c) da pertença a grupos sociais; e (d) da integração de características individuais
e relacionais no seu funcionamento psicológico, aspetos que contribuem de forma significativa para a satisfação das necessidades psicológicas básicas e que possibilitam alcançar a saúde psicológica (Deci & Ryan, 2000).
Tendo em conta o supracitado, é possível afirmar que as necessidades psicológicas básicas ocupam um papel central nesta teoria (Deci & Ryan, 2000, 2008; Eccles & Wigfield, 2002; Gagné & Deci, 2005; Ryan & Deci, 2000a). Esta centralidade é justificável dado que a sua identificação e satisfação é essencial para que se atinja um patamar de crescimento psicológico e de bem-estar, caso essa satisfação não ocorra o funcionamento psicológico ficará comprometido (Deci & Ryan, 2000; Gagné & Deci, 2005; Malmberg, 2006; Ryan & Deci, 2000a). Deste modo, é imprescindível conhecer as situações que levam à satisfação das necessidades supracitadas no meio em que os sujeitos se encontram, devendo salientar-se que só é possível atingir um patamar de satisfação quando as necessidades de autonomia, competência e afiliação estão saciadas (Deci & Ryan, 2000, 2008; Gagné & Deci, 2005). Quando esta situação não se verifica, além das situações de mal-estar inerentes à não satisfação das necessidades, pode ocorrer um conflito entre elas (Ryan & Deci, 2000a). Na opinião de Dysvik e Kuvaas (2011), Deci e Ryan (2000), e de Wal, den Brok, Hooijer, Martens e den Beemt (2014), apesar de ser necessária a satisfação das três necessidades psicológicas básicas, as necessidades de autonomia e competência assumem um papel de maior relevância.
A motivação intrínseca surge no contínuo motivacional (Figura 1.1) da teoria da autodeterminação quando estão reunidas todas as condições para satisfazer as necessidades psicológicas básicas (Deci & Ryan, 2000; Eccles & Wigfield, 2002; Tremblay et al., 2009). Todavia, é fundamental realçar que o principal objetivo da motivação intrínseca não é a satisfação das necessidades supramencionadas e que nem todos os comportamentos destinados a essa satisfação têm uma índole intrínseca (Deci & Ryan, 2000). A motivação intrínseca tem sido vastamente estudada devido à sua importância em vários domínios de atividade (e.g., educativo, desportivo e organizacional) (Deci & Ryan, 2000; Ryan & Deci, 2000b; Zapata- Phelan, Colquitt, Scott, & Livingston, 2009). Este conceito refere-se aos sujeitos que desempenham as suas tarefas pelo prazer que estas facultam, ou seja elas são vistas como tendo um fim em si próprias proporcionando o aparecimento de sentimentos positivos e de uma sensação de satisfação espontânea (Deci & Ryan, 2000, 2008; Gagné & Deci, 2005; Ryan & Deci, 2000a, 2000b). Assim, os comportamentos intrinsecamente motivados não têm origem em recompensas extrínsecas (i.e., não possuem qualquer motivo instrumental) e emergem devido: (a) ao prazer proporcionado pelas atividades desempenhadas; (b) à intenção de aplicar e aprimorar as competências individuais; e (c) pela vontade aprender e dominar os desafios
propostos (Deci & Ryan, 2000, 2008; Eccles & Wigfield, 2002; Reeve, Nix, & Hamm, 2003; Ryan & Deci, 2000b). A motivação intrínseca não se encontra em todos os domínios da vida de um indivíduo, podendo estar presente, apenas, numa das atividades que ele desempenha (Ryan & Deci, 2000b). Por outro lado, diversos autores (e.g., Deci & Ryan, 2000; Gagné & Deci, 2005; Kusurkar, Croiset, & Ten Cate, 2011; Pelletier & Vallerand, 1996; Ryan, 1995; Ryan & Deci, 2001) sublinham que este tipo de comportamentos ocorre porque as pessoas se querem sentir autónomas e competentes, ou seja estão relacionados com a satisfação das necessidades psicológicas básicas. Vejamos, em seguida, como a motivação intrínseca se relaciona com as necessidades de autonomia, competência e afiliação.
Figura 1.1. Contínuo da motivação na teoria da autodeterminação (Deci & Ryan, 2000, p. 237).
Segundo Gagné e Deci (2005), a motivação intrínseca necessita de um conjunto de «substâncias» para que os indivíduos atuem perto do seu potencial, as necessidades psicológicas básicas. Os contextos que fomentam a autonomia, por exemplo aqueles que permitem aos sujeitos explorarem livremente os seus problemas e respetivas soluções, ajudam ao desenvolvimento da motivação intrínseca, sendo que nos contextos onde se exerce um controlo constante este tipo de motivação tende a diminuir (Deci & Ryan, 2000; Gagné & Deci, 2005; Ryan & Deci, 2000b). A existência de feedback positivo melhora a motivação intrínseca, ao passo que o feedback negativo ou a sua ausência têm o efeito contrário (Deci & Ryan, 2000). A magnitude do feedback positivo será tanto maior quanto mais competentes se sentirem os sujeitos (Deci & Ryan, 2000; Gagné & Deci, 2005; Ryan & Deci, 2000b). Na opinião de Deci e Ryan (2000, 2008), a satisfação das necessidades de autonomia e competência faz com que os indivíduos alcancem um patamar elevado de motivação intrínseca. Logo, a necessidade de afiliação parece ocupar uma posição secundária na hierarquia das necessidades psicológicas (Deci & Ryan, 2000). Contudo, possui igualmente um papel importante na explicação da
motivação intrínseca, dado que contextos estáveis melhoram os níveis deste tipo de motivação (Deci & Ryan, 2000; Gagné & Deci, 2005; Ryan & Deci, 2000b). Quando as condições para a satisfação das necessidades psicológicas básicas estão presentes assiste-se a uma melhoria da motivação intrínseca. Porém, quando tais condições são negligenciadas esta é enfraquecida (Deci & Ryan, 2000; Ryan & Deci, 2000a). Alguns dos aspetos que contribuem para a fragilidade da motivação intrínseca são: (a) as recompensas extrínsecas; (b) a pressão para o cumprimento de prazos; (c) os objetivos impostos; (d) o feedback negativo; (e) o controlo na realização das tarefas; e (f) a ameaça de punições (Ryan & Deci, 2000a). Em suma, a motivação intrínseca pode ser influenciada por circunstâncias interpessoais e contextuais, situações a que as organizações devem estar atentas caso desejem que a sua força de trabalho continue intrinsecamente motivada (Reeve et al., 2003).
Após a explanação da teoria da autodeterminação e de como a motivação intrínseca se enquadra no âmbito desta, aborda-se no ponto seguinte a importância deste constructo no contexto organizacional.