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3 METHOD

3.4 D ATA COLLECTION

3.4.5 Data analysis

É comum na comunidade presenciar pessoas preparando comidas no terraço. As fotos 32, 33 e 34 expõem o trabalho coletivo no espaço do terraço; uma senhora fazia uma fussura25

25 Funsura é uma parte do bode que as pessoas da comunidade e circunvizinhança chamam a parte da

(cabeça, língua, garganta, fígado, coração, rins), essas partes são tratadas cortadas e cozinhadas. Receita no item receitas.

de bode com a mulher de seu neto; duas senhoras casadas que são concunhadas temperavam carne de bode e, por último, sogra e nora fazendo canjica.

Compartilhar tarefas domésticas executadas por mulheres e homens na jornada diária com vizinhos ou parentes é uma forma de apreender com o outro um fazer culinário repleto de significações simbólicas transmitidas e absorvidas por todo grupo doméstico.

O modo de tratar um peixe, matar um peba26, preparar uma perna de bode, fazer uma buchada são apreendidos no cotidiano doméstico que socializam as relações comunitárias pelo espaço da cozinha. Por exemplo, uma jovem não faz cerimônia ao chamar uma idosa para tratar um peixe ou uma galinha em sua casa mesmo que saiba fazer isso sozinha, pois juntas compartilham o alimento e socializam o tempo. Uma jovem que tratava um peixe com uma vizinha de 70 anos, conta: “Chamei ela para tratar esses peixes comigo porque a gente fica conversando, aí o tempo passa logo, e não cansa muito”, se referindo ao tédio da tarefa doméstica que é repetitiva e solitária.

Diante dos relatos e das observações preliminares realizadas em cozinhas na comunidade da Mutamba da Caieira registrei algumas peculiaridades como o modo de matar e preparar o animal, diferente do executado nas cozinhas urbanas. Nesta o animal já chega morto e, por muitas vezes, temperado, para o manuseio solitário de uma dona de casa, de uma empregada doméstica ou outra pessoa responsável pela tarefa.

Fotografia 32: mulheres tratando fussura de bode Fotografia 33: mulheres temperando carne de bode

Fotografia 34: mulheres fazendo canjica (Dona Chiquinha e sua nora Elenir)

Enquanto Dona Chiquinha e a nora Elenir faziam canjica, no outro lado do terraço (fotografia 34) seu marido conversava com uma visita que experimentava o prato feito pelas duas. Elas se revezavam entre mexer a canjica e colocar carvão no fogo. Aproveitei para conversar com o senhor Eduardo que estava sentado na meia parede do terraço olhando as duas trabalhar enquanto fumava um cigarro de fumo grosso que ele mesmo tinha feito; jogava a fumaça por todo o terraço respondendo às minhas perguntas na mais invejável paciência. Disse que não ajudava as mulheres na comida de milho porque a tarefa dele já havia feito no roçado; plantou, cuidou da plantação, colheu e trouxe até em casa as espigas.

A neta de senhor Eduardo, sentado na meia parede da cozinha do terraço na fotografia 35, observava todo o movimento na cozinha. As crianças aprendem olhando os adultos executarem os afazeres e ajudando nos pequenos trabalhos domésticos. É observando continuamente que incorporam a tradição de costumes e fazeres que realizarão também quando adultos.

Fotografia 35: o terraço de Dona Chiquinha

A cozinha do terraço na fotografia 35 é da casa de Dona Chiquinha que possui uma família extensa compartilha as tarefas com sua nora. Todos os dias Elenir, que é vizinha de Dona Chiquinha, realiza suas atividades domésticas na casa da sogra onde comem as duas famílias. A casa dos pais fica no centro e a dos filhos dos lados. A esposa do outro filho também compartilha as tarefas, contudo faz as refeições em sua própria casa. Ela afirma que é “uma mulher sem aperreios na cozinha, é uma mãe para todos”. Quando precisa sair de casa para resolver alguma coisa na cidade é para sua nora, Elenir, que repassa as tarefas. “Ela toma conta da casa, ela faz comida para todos do mesmo jeito que eu faço e todos que estão em casa respeita as atitudes dela na minha falta”. O trabalho de cozinha para Dona Chiquinha é sem fim, uma rotina que só termina quando vai se deitar. No seu relato mostrar uma longa jornada diária de trabalho na cozinha:

Aqui eu acordo com os passarinhos. Logo cedo faço a comida para os que vão trabalhar, depois tomo um cafezinho e vou cuidar dos bichos, dar comidas para as galinhas, para os porcos. Fico sempre fazendo o que precisa fazer, lavo umas coisinhas, vou preparar o almoço; quando terminam de almoçar às vezes dou um cochilinho, às vezes não, aí fico fazendo alguma coisa na cozinha; quando chega por volta das quatro horas começa o rebuliço de novo na cozinha; eu e ela começamos a preparar a

janta para todo mundo, depois, lá pra noves horas, é que vou me deitar. Quando tem uma pessoa doente aqui em casa, sou eu quem acordo e vou fazer um chá, quando alguém vai decidir alguma comida aqui na cozinha, sou eu quem vejo o que é melhor, pergunta logo pra minha permissão.

As mulheres falam de sua rotina doméstica como um trabalho de jornada longa, com divisões de tarefas e tempo determinado, na sua maioria direcionado para a alimentação, desde a higienização dos utensílios ao preparo e o consumo dos alimentos pela família. Ela comunga com um universo de mulheres da comunidade que acordam muito cedo, no clarear do dia para trabalhar.

Algumas mulheres já trabalharam fora nas lavouras de sítios vizinhos apanhando feijão, plantando hortaliça e limpando mato que nascem entre a plantação. Hoje, são poucas as que fazem esse trabalho. A maioria das mulheres trabalha em suas residências, nas tarefas domesticas. Dona Maria Vitorino, mais conhecida como Dona Mocinha, em tom lamurioso narra sua árdua tarefa domestica diária:

É duro o trabalho doméstico. Estou tão cansada hoje. Acordo às vezes ainda escuro que não abro a porta para fazer o fogo de lenha aqui no terraço e fico na cozinha preparando a massa do cuscuz, lavando uma louça, esperando o dia clarear para fazer o fogo e preparar a comida pra os que vão trabalhar na firma. Faço a marmita, eles levam. Depois de fazer a comida para eles levarem é que vou tomar café, depois vou dar de comer aos bichos, vou lavar a louça do café ou a que ficou da janta de ontem à noite, aí vou varrer, lavar roupa, fazer almoço; depois do almoço vem tudo de novo. Descanso quando posso um pouquinho depois do almoço, mas não é todo dia; quando chega de noite estou morta de cansada, É, trabalho de casa é muito duro!

A jornada doméstica executada nas cozinhas da comunidade começa cedo para as mulheres responsáveis pela alimentação diária da família. Dona Maria Fernandes da Silva não tem filho que trabalha nas firmas, mas ao raiar do dia:

Sou aposentada, minha casa vive cheia de gente. Eu acordo com os passarinhos e começo cedo a trabalhar; gosto de fazer o fogo; cedinho retiro as cinzas do fogão, quando o fogo está aceso, faço o café, cuscuz, frito um peixe que é bom de manhã com cuscuz, eu gosto. Feijão só faço no fogo a lenha, gasta muito gás. Quando não tem lenha vou ali na mata e trago um

feixe de lenha27. Tem um menino aqui que me ajuda, mas se ele não poder ir eu mesmo vou. Eu cozinho mais o feijão porque é uma comida mais pesada, demora mais no fogo, gasta muito gás. Eu economizo muito cozinhando no fogo a lenha. Trabalho desde criança, minhas filhas, a Maria José, só come uma galinha feita por mim. Ave Maria! Trabalho muito na cozinha, eu crio muitos bichos, peru, galinha, pato e eles dão muito trabalho. (Relato de abril de 2007. Faleceu em fevereiro de 2008).

Fotografia 36: Dona Maria Fernandes mostrando seu terraço com os objetos domésticos do seu cotidiano.

As mulheres, independentemente da idade ou o estado civil, demonstram através de seus relatos a compreensão de que as tarefas domésticas na cozinha é um trabalho duro e de grande responsabilidade, principalmente para a dona da casa. O tempo de desenvolvimento de cada serviço é planejado de acordo com a necessidade de alimentação do homem que trabalha fora e das crianças que vão para a escola. Há uma seqüência de ocupações determinadas no cotidiano na cozinha que são repetidas diariamente, cumprindo rigorosamente o mesmo horário. Mesmo as mulheres que consideram as tarefas domésticas como uma “luta sem fim” não reivindicam o compartilhamento por parte dos homens nesses afazeres; nesse aspecto a

questão de gênero é bem definida. Cabe ao homem o trabalho fora de casa, no roçado, nas firmas, nos sítios vizinhos. O trabalho do masculino no espaço da cozinha está diretamente ligado aos cuidados dos animais que ficam no terreiro, em pequenos cercados. A ocupação com os animais que ficam no entorno da casa, na área do quintal, é incluída nas obrigações domésticas diretamente ligadas a cozinha, cabendo a mulheres e crianças a responsabilidade de alimentá-los colocando restos de comidas e sobras das cozinhas da comunidade.

Enquanto o homem se responsabiliza pela manutenção dos alimentos para a família, procurando-os fora de casa, a mulher se encarrega de manter a ordem dos trabalhos na casa distribuindo tarefas para filhas e filhos que ficam aos seus cuidados, transmitindo saberes e mantendo a autoridade “moral” do lar, que nesse aspecto é um espaço feminino.

Dona Chiquinha fala de trabalho com autoridade de quem é dona de um espaço e de uma qualificação que adquiriu durante longo aprendizado no seio da família. Ela determina no cotidiano da cozinha o cardápio de todas as refeições. Autoridade nos saberes relacionados à saúde da família, na horta doméstica cultiva plantas usadas no preparo de chás e lambedores usados quando alguém fica doente. Nesse sentido, ela tem o poder sobre filhos e netos afirmando o ciclo englobante (DUMONT,1971) numa relação da ordem pai, mãe e filho (a). Na constituição familiar,

ele é o dono da casa e de mim e de toda família. Me casei com ele fugida; tinha 14 anos quando comecei a namorar, então convidei ele para casar e ele aceitou; ele me carregou e botou na casa de um primo dele; depois meu pai foi no roçado e falou com ele qual as intenção dele e ele disse que era casar; então fui morar com ele, desde daí sou dele.

O relato acima configura o que autores como Dumont (1971) compreendem como poder englobante na ordem pai, mãe e filho que é construído nas esferas sociais e simbólicas da sociedade. O homem como chefe da família nuclear se posiciona em uma ordem englobante, onde determinação de ordem externa como a proteção do lar está diretamente ligada a ele. No depoimento acima a senhora expressa sentir-se englobada pelo poder do homem com relação ao ambiente doméstico numa divisão de poderes sobre esses espaços. A cozinha, no ponto de vista masculino, é o espaço da casa estritamente controlado pela mulher. Durante a pesquisa, ao pedir permissão para realizar a observação muitas das senhoras olhavam imediatamente para o esposo num gesto de que a ele cabia a decisão. Entretanto,

quando informava minha área de interesse, imediatamente a responsabilidade era transferida para a esposa; a cozinha era um espaço dela, espaços que são delimitados pelo gênero. Heredia (1979, p.95) esclarece esse fato quando diz que “embora toda a casa seja um espaço feminino, dentro dela, (...) existem espaços mais masculinos ou mais femininos que outros. A cozinha é o espaço feminino por excelência, assim como a sala é o mais masculino dentro da casa”.