4 Results and Analysis
4.2 Cross-Case Analysis: Seeking Commonalities and Differences
4.2.2 Culture and Attitude
Compreender a importância do cooperativismo no contexto da economia solidária demanda contextualizar esse movimento desde o seu surgimento no início do século XIX, até os dias atuais. Neste tópico teórico, buscou-se sublinhar o papel do cooperativismo no ambiente da economia solidária como doutrina que baliza os princípios fundamentais do formato de empreendimentos econômicos solidários, em particular do tipo cooperativa. Assim sendo, o primeiro passo foi aprofundar a trajetória histórica do pensamento cooperativista, com a finalidade de trazer à tona a origem e o significado de sua doutrina.
Em relação ao resgate histórico, personagens como Owen, Fourier, Proudhon, Louis Blanc, Saint-Simon, com suas ideias e práticas, significaram a expressão da resistência aos impactos negativos da revolução industrial, idealizaram as bases para o exercício do cooperativismo e influenciaram a criação da primeira cooperativa de consumo em 1844 na Inglaterra (SINGER, 2002).
As ações de Owen, proprietário de grande complexo têxtil na Grã-Bretanha do início do século XIX, revolucionaram a relação entre empregador e empregados, ao limitar a jornada de trabalho e proibir o emprego de crianças em suas fábricas. Ele tornou-se um ícone pelos resultados financeiros gerados com suas práticas voltadas ao bem-estar dos trabalhadores e juntou-se a isto o momento político conturbado pelo ciclo de guerras na Europa (SINGER, 2002).
Com o final da Revolução Francesa, a Grã-Bretanha caiu em profunda depressão. E, mais uma vez, Owen surgiu com uma proposta revolucionária para época. Ele propôs ao governo britânico uma política de auxílio às vítimas da pobreza e do desemprego, com o argumento de restabelecer o crescimento da atividade econômica, concomitantemente com a redução do desperdício de recursos públicos (SINGER, 2002).
O plano era lógico e simples: bastava que o governo resolvesse investir os fundos de sustento dos pobres, verba de cunho exclusivamente assistencialista, por investimentos na compra de terras e na construção de Aldeias Cooperativas, onde núcleos de até 1.200 pessoas pudessem trabalhar na agricultura e em indústrias locais para produção de sua própria subsistência. Deste modo, o excedente da produção poderia ser compartilhado entre as Aldeias. Em pouco tempo, seria possível o retorno do investimento aos cofres públicos. Este plano representou um marco do ideário da Economia Solidária (SINGER, 2002).
As ideias de Owen eram essencialmente coletivistas e por isso exerceram forte influência no surgimento das primeiras cooperativas de trabalhadores. Os “Pioneiros de Rochdale”, como eram chamados, constituíram uma cooperativa de consumo em 1844, organizada por artesãos do distrito de Lancashire, Desta iniciativa, surgiu o primeiro conjunto de princípios fundamentais do cooperativismo, que se perpetuaram como valores básicos balizadores dos movimentos cooperativistas contemporâneos (SINGER, 2002).
A doutrina do cooperativismo foi criada quando da fundação da primeira cooperativa do mundo na Inglaterra em 1844 e, de lá pra cá, eles se mantiveram fiéis aos propósitos coletivistas. São sete princípios fundamentais que norteiam a organização, a operação, e a função de toda e qualquer cooperativa. Conforme aponta Singer (2002), são estes:
a) adesão voluntária e livre – diz respeito à liberdade de toda e qualquer pessoa de se associar voluntariamente como membro da cooperativa, sem discriminações de sociais, raciais, de gênero, políticas ou religiosas;
b) gestão democrática – diz respeito à democracia participativa em que os membros participam ativamente na formulação das políticas, estratégias e na tomada de decisão. Todos os membros têm igual direito de representação e de voto;
c) participação econômica dos membros – diz respeito à contribuição econômica dos membros, que deverá ser equitativa e controlada democraticamente. A remuneração deverá ser equivalente ao capital integralizado e os excedentes deverão ser disponibilizados para as seguintes finalidades: investimento na cooperativa; benefícios aos membros da cooperativa; apoio para outras atividades aprovadas por consenso entre os membros;
d) autonomia e independência – diz respeito ao caráter autônomo das cooperativas, constituídas por ajuda mútua e controladas especificamente por seus membros. Em caso de ajuda ou parcerias com outras organizações públicas ou privadas, as condições de autonomia devem ser asseguradas a cooperativa e seus respectivos membros;
e) educação, formação e informação – diz respeito ao compromisso da cooperativa com a educação e com a formação de seus membros, de forma que estes possam contribuir para o desenvolvimento de suas cooperativas;
f) intercooperação – diz respeito à formação de redes locais, regionais, nacionais e internacionais com o objetivo de fortalecer o movimento cooperativista, assim como propiciar, de forma eficaz, o acesso a bens e a serviços por parte de seus membros;
g) interesse pela comunidade – diz respeito ao compromisso com o desenvolvimento sustentado de suas comunidades por meio da participação social ativa da cooperativa em relação à responsabilidade social perante as instâncias econômica, social e ambiental.
A doutrina cooperativista tem por função alicerçar a dinâmica de funcionamento da cooperativa nas relações de cooperação e de solidariedade de forma consistente e continuada com o propósito de que tais relações extrapolem o espaço da cooperativa para esferas sociais mais amplas como a comunidade (SINGER, 2002).
Os rochdalianos, com a cooperativa de consumo, assim como os classistas ligados ao movimento sindical desenvolveram as primeiras cooperativas de produção e serviços, assim como os políticos da época que auxiliaram a criação das primeiras cooperativas de crédito, no
setor rural pelo alemão Friedrich Wihelm Raiffeisen, e no setor urbano pelo alemão Hermann Schulze-Delizch, por volta 1850-52. Todas estas iniciativas resultaram na criação da Grand National Moral Union, fundada por Owen, possivelmente a primeira central sindical do mundo (SINGER, 2002).
O cooperativismo significa, portanto, o exercício dos princípios fundamentais de igualdade e da autogestão em prol da composição de alianças estratégicas que visam a reduzir a pobreza e a exclusão social. Reflete, ainda, um movimento que pretende articular-se também com movimentos populares, instâncias governamentais e internacionais, que visem ao resgate do exercício pleno da cidadania (SINGER, 2003).
As cooperativas, na concepção de Singer, constituem-se no marco operativo da lógica de organização da economia solidária. São estruturas operadas a partir de um tipo específico de ação social coletiva em que a responsabilidade, os direitos e os deveres dos associados são compartilhados sob os princípios da solidariedade, equidade e da democracia participativa. Trata-se de uma organização em que não só o investimento é solidário como também os resultados por estes gerados são sobras ou perdas, devido a serem distribuídos de forma igualitária e solidária entre todos.
As cooperativas não apontam apenas para a remuneração igualitária dos trabalhadores-donos das empresas cooperativas, mas também para a criação de formas de sociabilidade solidárias baseadas no trabalho colaborativo e na participação democrática na tomada de decisões sobre as empresas (SANTOS, 2005,p.29)
Em relação aos aspectos de cunho estrutural do formato de organização do tipo cooperativista, a cooperativa foi, ao mesmo tempo, fortalecendo uma identidade associada à ideia de cooperação e à solidariedade, como demarcando sua lógica contrária à lógica de competição e ao lucro das empresas capitalistas (NAMORADO, 2009).
As cooperativas são a expressão de uma aspiração surgida com o movimento operário do início do século XIX, mas que vêm recriando-se a partir de contextos históricos e da diversidade de seus cooperados, oriundos dos mais diversos grupos sociais e que representam diversos setores produtivos. Esta constatação traz consigo, no entanto, o fato de que as raízes dos valores cooperativos, ainda que sofram mutações para acompanharem a dinâmica social
do aqui e agora, mantêm-se alinhadas com a tradição de seus fundadores do início do século XIX, conforme atestado em 1995, pela Aliança Cooperativista Internacional (ACI, 2011.
Esse modelo ideal de empreendimento econômico representa a materialização do cooperativismo, assim como as relações sociais por este estabelecidas, prevalecendo princípios de ajuda mútua e responsabilidade compartilhada, os quais distinguem a cooperativa de outras formas societais (NAMORADO, 2009).
[...] um processo de geração de relações de convivência que caminhem no sentido inverso ao da “sociedade dos indivíduos”, ou seja, do “mercado”, pode tornar-se relevante a(sic) compreensão da necessidade de se superar a “cooperação capitalista” como mecanismo de exploração da força de trabalho. O desafio consiste em estabelecerem-se(sic) as condições objetivas e subjetivas para o fortalecimento da cooperação como prática social humanizadora e mediadora do processo de reprodução ampliada da vida. (JESUS; TIRIBA, 2009, p.84-85).
De acordo com os autores, a finalidade da estrutura e da dinâmica da cooperativa se traduz no empenho em atingir seus objetivos econômicos e sociais a partir de um formato de gestão, caracterizado principalmente por relações de cooperação, o que torna determinante um modelo de gestão democrático que se faz representar pelo modelo de autogestão.