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Consequences for Production Companies

5.3 F UTURE K VERNELAND S PARE P ARTS S UPPLY C HAIN

5.3.3 Consequences for Production Companies

s alterações no convento não mais pararam. Ainda que o ritmo aparente ter diminuído, nomeadamente no que se refere ao exterior e à arquitectura, não foi, certamente, por motivos económicos, mas, antes, por uma questão de exigência cultual e necessidade ideológica. As duas centúrias preambulares do “Novo Mundo”, séculos XVI e XVII, foram profícuos na reestruturação do edifício eclesiástico, como tal as necessidades estruturais eram, agora, menores e balizadas por ideais de dignidade e magnificência, ou seja, mais ligados ao campo decorativo e com definidos objectivos de (en)formar calor visual e intimista, o que de certo modo vem materializar as várias ideias e propostas de reformulação litúrgica saídas do Concílio de Trento, mas, também, não deixam de expressar a antagónica sociedade de contrastes, instável e insegura, a mentalidade efusiva e ilusionista da época e a lúdica cultura sensorial: “es el espectacular y problemático desajuste de una sociedad en cuyo interior se han desarrollado fuerzas que la impulsam a cambiar y pugnan com otras más poderosas cuyo objetivo es la conservación”289.

No campo político a primeira metade de seiscentos conheceu em Portugal uma profunda alteração: a Restauração da Independência Nacional. O afastamento à católica nação de Espanha, começado a sentir-se de forma inequívoca já no reinado de D. Filipe II, transmudar-se-ia numa mentalidade e cultura anti-espanhola, agora direccionada, com, ainda, mais força para os Estados independentes da Península Itálica. Logicamente um dos objectivos era sermos reconhecidos novamente pela Santa Sé como Estado independente e demonstrar que os hispanienses eram gentios. Os estados italianos tinham já lançado os preceitos de um novo campo estilístico e “no decorrer do século XVII a Europa aderiu, de uma forma ou de outra, ao barroco, criando assim uma

289

MARAVALL, José Antonio – La cultura del barroco. Análisis de una estructura histórica. Barcelona. Editorial Ariel. 1975. p. 69. Na mesma obra, nas páginas 66 e 67, o autor enuncia os seis aspectos

civilização artística de poderosa irradiação…”290. Assim, lançámo-nos neste novo ensaio estilístico, fruto do remanescer de um novo sentimento político-cultural, mas principalmente devido à desaparecida Igreja de Nossa Senhora do Loreto vinda do país de origem para a comunidade italiana de comerciantes que estava instalada em Lisboa. Daqui surgem as primeiras obras nacionais barrocas com destaque inicial para a retabulária e as experiências na azulejaria e arquitectura, apesar destas, ainda nos finais da centúria seiscentista, denotarem alguma timidez porque ainda “…é um período de experimentação de formas e das suas potencialidades, fenómeno minoritário que lentamente irá desalojar o maneirismo persistente e duradouro, até se transformar em discurso dominante”291. Esta alteração de mentalidade e artística fez-se sentir neste convento dominicano, surgindo, então, uma obra ligada à arquitectura, mas não totalmente arquitectónica: referimo-nos especificamente aos púlpitos, ou, talvez, a um só púlpito.

Os púlpitos

s dois púlpitos colocados simetricamente são completamente iguais, quer na parte arquitectónica ou escultórica, quer na parte dos balaustres em madeira. No entanto estão datados com alguma distância. O do Evangelho tem a data de 1678 na porta que lhe dá acesso, mas a base arquitectónica tem a inscrição de 1699; o da Epístola tem inscrito na porta de acesso a data de 1745. Até agora tem-se defendido que o segundo, o da epístola, foi feito copiando o primeiro, baseando-se apenas nas datas inscritas e António Nogueira Gonçalves preconiza que a data 1678 deve fazer referência a outra obra qualquer292. A ideia é bastante plausível e lógica, mas o problema levanta-se devido ao contrato existente entre o convento e Domingos Lopes e Bento da Rocha, para a execução de umas grades para o coro e de dois púlpitos – a parte da balaustrada – , em 22 de Outubro de 1676293. Será que só foi

290

MOURA, Carlos – O limiar do Barroco. História da Arte em Portugal. Vol. VIII. Lisboa. Alfa. 1986. p. 7.

291

PEREIRA, José Fernandes – Arquitectura Barroca em Portugal. Lisboa. Biblioteca Breve. 1992. 3ª edição. p. 17.

292

GONÇALVES, António Nogueira – Inventário Artístico de Portugal... p. 111.

293

BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. pp. 447-449. Sobre a

feito um púlpito, mas a ideia era serem construídos dois, daí o contrato efectuado? Será que só a data de 1699 corresponde aos púlpitos e as outras, 1678 no Evangelho e 1745 na Epístola, referem-se à execução das portas e escadas de acesso a estes elementos? Se assim é o púlpito do lado da Epístola inicialmente seria falso e servia apenas para conferir simetria e só mais tarde se abriria a passagem, daí a inscrição na porta de 1745. A verdade é que a passagem de acesso ao púlpito do lado do Evangelho possui azulejos de padrão do último quartel de seiscentos a cobrir as paredes, enquanto no oposto as paredes estão totalmente nuas. Se ambas as passagens tivessem sido abertas simultaneamente seria lógico que as paredes do lado da Epístola fossem também revestidas com o mesmo tipo de azulejos.

No contrato de execução dos elementos em talha ficou escrito que as grades dos púlpitos seriam iguais às do coro294 e, mais uma vez, José Rangel de Quadros afirma que os referidos púlpitos eram “…eguaes aos das grades da capella mor…”295, como tal depreende-se que a obra foi executada de acordo com a exigência contratual. É notório que as três datas correspondem a obras ligadas aos púlpitos, mas não nos parece descabido a indagação da segunda incógnita que anteriormente levantámos.

Todavia, a obra parece-nos apresentar já sintomas da estética barroca inicial, devido ao tipo de madeira exótica utilizada - pau preto296 - e ao próprio trabalho de entalhe: os balaústres são apenas torneados, com discos de espessura e perfil diferente e possuem aplicações de bronze, trabalho este muito idêntico ao executado no mobiliário desta estética congénere. As bacias em pedra apresentam um ligeiro jogo de volumes e uma decoração vegetalista de linhas bem cinzeladas e de talhe seguro, enroladas e movimentadas, própria do nosso primeiro barroco, ainda muito tímido, pois “no século XVII espalha-se em Portugal a preferência pelo púlpito de balaustradas de madeira, vinda principalmente do Brasil, em correspondência com as grades que nas igrejas são

actividade de Domingos Lopes e Bento da Rocha consultar ALVES, Natália Marinho Ferreira – A arte da

talha no Porto na época barroca... Vol. I. pp. 61, 63, 79, 89, 98-99, 106, 117, 119-122, 169, 171, 242,

248, 250, 257, 262-263 e Vol. II pp. 390-393 para o primeiro e Vol. I p. 257 e Vol. II pp. 422-423 para o segundo.

294

BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. p. 448.

295

QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos Históricos... Vol. IV. p. 45.

296

colocadas para demarcar o espaço referente à capela-mor…”297, generalização perfeitamente bem exemplificada neste caso concreto.

A fachada

alteração de vulto que se efectuou neste período estilístico foi sem dúvida as obras da fachada. Rangel de Quadros afirma que antes de ser feito o actual pórtico existia um alpendre298, verificando-se ainda, na sua época, vestígios nas paredes. Infelizmente mais nada refere, tornando-se difícil enquadrar essa fachada num estilo artístico, porém parece que “anteriormente à construção deste portal [barroco] havia alpendre e púlpito destinado à pregação ao ar livre”299. Cremos que esta informação foi veiculado até aqueles investigadores por um cronista da ordem, elogiando que “assim fica toda a Igreja airosa e bem assombrada, dando-lhe alma a luz, que se lhe ganhou em porta e vidraças, derribando a antiga alpendrada, que assombrava o Adro, para cobrir o Pulpito, de que algum tempo se praticava ao Povo...”300. Somente poderemos dizer que seria uma alteração à fachada gótica inicial e que provavelmente foi realizada antes do primeiro quartel de seiscentos301, pois não acreditamos que fosse novamente remodelada nos inícios do

297

ALVES, Natália Marinho Ferreira – s.v. “Púlpito”. in Dicionário de Arte Barroca em Portugal, Direcção de PEREIRA, José Fernandes. Coordenação de PEREIRA, Paulo. Lisboa. Editorial Presença. 1989. p. 388.

298

QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos Históricos... Vol. IV. pp. 49-50.

299

GONÇALVES, António Nogueira – Inventário Artístico de Portugal... p. 111.

300

CATARINA, Frei Lucas de Santa – Quarta parte da História de São Domingos. Vol. II... p. 605.

301

É possível que se tivesse alterado também a fachada da igreja no decurso das obras do período anterior, estabelecendo uma relação estética entre o interior e o exterior do templo. QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos Históricos... Vol. IV. p. 49 afirma que existia um “...alpendre, que servia aqui de abrigo aos doutrinados...” e se assim era teria de estar devidamente escorado, por colunas ou pilares assentes no solo. Por outro lado, GONÇALVES, António Nogueira – Inventário Artístico de

Portugal... p. 111 leva-nos a crer que sobre o alpendre, cujo elemento cremos ser um nartex, se abriria

uma porta que acedia para o átrio exterior, ao qual o autor denomina púlpito. Neste caso apenas conseguimos conceber na nossa imaginação um pequeno nartex de acesso à entrada do edifício sobrepujado por uma varanda com porta de acesso e rematado por uma balaustrada, talvez (admitindo demasiada ousadia da nossa parte) executado sob influência da estética maneirista, à imagem da disseminação que aquele elemento teve em muitas igrejas portuguesas.

século XVIII se a obra anterior fosse ainda muito recente e, além desta suposição, a 11 de Dezembro de 1624 o mestre de pedraria, Francisco Carvalho, e o mestre de carpintaria, Bartolomeu Fernandes, arremataram “...uma importante obra de reparação do alpendre do Mosteiro de S. Domingos – pelo preço de 60$000 rs”302, o que confirma a nossa ideia e as afirmações daqueles historiadores.

O corpo principal da fachada é dividido, nos flancos, por dois pares de pilastras dóricas sobre as quais assenta um ligeiro entablamento. Na continuação de cada pilastra ergue-se um pedestal que suporta um bolboso fogaréu helicoidal e entre estes, ao centro, destaca-se um harmonioso frontão ondulante, que tem no seu tímpano o Sol - símbolo dominicano. As linhas laterais deste frontão são compostas por aletas, dando os acrotérios lugar às voluptas que rematam as extremidades das descritas aletas. Coroando o próprio frontão eleva-se uma simples cruz, a qual a sua base apoia-se num par de outras aletas opostas. Entre as pilastras dóricas da fachada rasgam-se duas altas e estreitas janelas rectangulares e sobre o portal uma outra em forma de elipse.

No centro deste corpo destaca-se o notável portal joanino que Nogueira Gonçalves atribui à mesma oficina do portal do Colégio de São Pedro de Coimbra, executado seis anos antes303. O presente pórtico está datado de 1719 segundo a desaparecida inscrição “numa elypse e na verga da porta”304, mas hoje já não é visível devido ao desgaste da pedra calcária, que cremos ser da zona de Ançã. Aquele elemento de acesso corresponde apenas ao corpo da nave, excluindo as zonas das capelas laterais. É constituído por dois pares de colunas salomónicas com o terço inferior decorado por motivos geométricos (almofadas em losangos), separados por uma linha diagonal. As colunas são coroadas por capiteis coríntios, naturalmente, e assentam nuns altos pedestais com as almofadas decoradas com cartelas envolvidas em temática vegetalista. Sobre as colunas está um movimentado entablamento, com cornija denticulada e com o friso animado por um esbelto e delicado entrelaçado de folhas e volutas. Sobre o entablamento, no seguimento das colunas, estão o arranque dos acrotérios de um frontão interrompido terminados em forma de volutas. Entre estes está o remate que é limitado, lateralmente, por pilastras misuladas e encimado por um semi-círculo solar; a flanqueá-

302

BASTO, Artur de Magalhães – Apontamentos para um dicionário de Artífices que trabalharam no

Porto do século XV ao século XVIII. Porto. Publicação do Gabinete de História da cidade da Câmara

Municipal do Porto. 1964. p. 101.

303

lo estão duas aletas postas na vertical. O remate enquadra o brasão do fundador, o Príncipe D. Pedro, e sobre este está o Sol, ou melhor, meio Sol, que corresponde ao semi-círculo, numa clara alusão aos dominicanos. A decoração é floral e apresenta entrelaçados de folhas e volutas. Sobre os acrotérios e o remate está a tríade teologal: Fé, Esperança e Caridade.

A fachada apresenta alguma verticalidade, conferida apenas pelas pilastras e pelos fogaréus e o movimento mais agitado é conferido somente pelo portal joanino que detém algumas semelhanças com a retabulária arquitectónica deste período. Todavia, verifica-se um certo desfasamento entre o pórtico e a fachada: o portal é muito mais dinâmico, confere uma verticalidade muito mais acentuada, apresenta uma linguagem estrutural e ornamental muito mais diversificada e uma dinâmica de interacção dos elementos utilizados muito mais profícua, denotando-se uma erudição no trabalho e nos próprios elementos e uma forte cumplicidade entre aqueles. A fachada, por seu turno, transmite-nos uma serenidade, um certo estatismo, falta de volumetria e demasiada singeleza, transmitindo a sensação de ascetismo e de caixa. Parece-nos, portanto, que o pórtico foi apensado à fachada que já se encontrava erigida e não uma construção concebida em conjunto, como tal arriscamos em lançar a hipótese que a estrutura da fachada foi levantada ainda dentro dos cânones do primeiro barroco.

À direita deste corpo estava um outro que foi alterado nas remodelações dos anos setenta do século passado, correspondendo às capelas laterais da Epístola, muito simples do qual sobressaía o frontão ondulante típico do barroco nacional e que nos apelava o olhar para muitas realizações do nosso barroco brigantino (se nos é permitida a expressão, isto é, o barroco inicial) das zonas rurais.

As decorações no período rococó

nível estrutural não houve mais remodelações, que nós saibamos, durante este período, no entanto achamos conveniente fazer referência a umas pequenas alterações efectuadas na capela-mor, mais precisamente no túmulo de Catarina de Ataíde e no arco cruzeiro. No século XVIII houve a intenção de decorar a capela-mor com elementos rococó305, provavelmente a

305

SOUTO, Alberto – “Aveiro arqueológico, Artístico e Monumental - Os túmulos”. in Arquivo do

talha a que se refere Rangel de Quadros que decorava as portas e janelas desta divisão306. Desta forma o túmulo de Catarina de Ataíde sofreu algumas alterações. Esta obra é da renascença coimbrã e no século XVIII teve aplicações decorativas em madeira de estilo rococó: nos pedestais, nas pilastras que enquadram o arcossólio, no envasamento onde assenta a arca e na arquitrave, rematando todo o conjunto com um frontão ondulante. A decoração assentava nos típicos concheados assimétricos e nas cortinas penduradas. Não estamos a afirmar que a ornamentação rococó não é bela, pelo contrário, mas o que se fez neste túmulo retirou toda originalidade renascentista do conjunto, porque cortaram "…todos os ornatos salientes das pilastras, da arquitrave cimeira e do basamento… e, ainda, as frontes dos bustos dos medalhões…"307. Hoje em dia já foram retirados este ornatos e o túmulo apresenta a sua característica unitária da renascença, apesar dos danos sofridos irreparáveis, nomeadamente na volumetria de elementos escultóricos.

Como a capela-mor pertencia aos parentes da defunta existia um brasão da família envolto em largas folhagens, bem trabalhadas. Não se sabe se este foi o primeiro ou se substituiu algum outro, pois a descrição que Rangel de Quadros faz dele, ainda no lugar original308, corresponde ao que hoje se encontra na parede da capela de Nossa Senhora da Misericórdia onde, igualmente, está o túmulo. Sob o brasão espreita um alegre querubim envolto em folhagem a partir da qual se vai desenvolvendo outro tipo de folhagem mais graciosa, com alguma estilização e de mais forte plasticidade; o brasão é policromado e a decoração é toda dourada. Esta peça está ainda bastante ligada ao barroco joanino, num período já desenvolto, desconhecendo-se se fez parte das remodelações ou rococó ou se já existiria antes.

A remodelação conventual não se fez neste período a nível arquitectónico, mas, sim, a nível decorativo sobressaindo principalmente a talha dourada, da qual falaremos em capítulo próprio, e também a azulejaria, não fosse o barroco, quer nacional, quer joanino, e o rococó estilos muito mais dados às artes decorativas que os anteriores, tornando-se mais intimistas e grandemente apelativos.

Estas renovações foram-se estendendo pelo século XVIII e chegaram mesmo a entrar pelo século seguinte dentro, mas nenhuma obra de vulto conhecida foi realizada.

Distrito de Aveiro. Vol. XL. Aveiro. 1974. p. 21. 306

QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos Históricos... Vol. IV. pp. 17-18.

307

Actualmente encontramos obras oitocentistas nesta igreja, tais como o coro-alto e a torre, mas estas foram construídas após a extinção das ordens religiosas, não tendo por isso ligação com a comunidade clerical que tinha sido obrigada a abandonar o seu ancestral espaço.