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6.1 D OUBLE H ANDLING AT P RODUCTION C OMPANIES

6.1.1 Stand Alone Parts

O cadeiral

talha não se restringe apenas à retabulária e ao revestimento das paredes, quer de capelas ou mesmo de toda a igreja, nascida das ilhargas dos retábulos. Com a expansão da talha dourada a partir, principalmente, do maneirismo e de acordo com os preceitos tridentinos ela começa a ocupar variados locais do templo de forma a prender o crente e a enformar a mensagem eclesiástica, ou seja, “numa perspectiva propagandística católica, a talha desempenha um papel primordial já que retábulos, púlpitos, caixas de órgãos, sanefas, molduras e remates, ricamente esculpidos e dourados, constituem uma visão fascinante que exerce uma poderosa acção magnética, essencial para uma motivação dos sentidos”352. A talha abrange, assim, qualquer lugar que pudesse decorar e o cadeiral, além de ser uma obra necessária e de vulto, presta-se à função catequética, ao embelezamento e à expansão artística, pois é “… indispensável em todas as catedrais e conventos…”353.

O cadeiral do cenóbio dominicano aveirense foi executado pelo portuense Domingos Lopes “…mestre de architetura…”, como se pode constatar pelo contrato datado de 31 de Julho de 1675354 e será este mesmo mestre em parceria com Bento da Rocha que irão realizar no ano seguinte as grades para o coro e as balaustradas dos dois púlpitos, conforme o contrato estabelecido em 22 de Outubro de 1676355.

Pelo documento contratual sabemos que o preço ajustado foi de 300 mil reis, 100

352

ALVES, Natália Marinho Ferreira – s.v. “Talha”. in Dicionário de Arte Barroca em Portugal... p. 466.

353

BORGES, Nelson Correia – s.v. “Cadeiral”. in Dicionário de Arte Barroca em Portugal... p. 105.

354

BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. p. 426.

355

BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. pp. 447-449. Sobre a actividade deste mestre consultar ALVES, Natália Marinho Ferreira – A arte da talha no Porto na época

barroca... vol. I. p. 99 e 119-122.

mil pagos no acto do contrato e o restante após a conclusão da obra356. O mestre, por seu lado, obrigava-se a entregar a obra até 4 de Agosto de 1676, dia de São Domingos, e seria feito segundo a sua traça357. Deduzimos que a data e obra foram conseguidas conforme o desejo dos frades, justificando-se assim a realização do novo contrato dos púlpitos e grades do coro acima referido.

O cadeiral é composto por duas ordens de cadeiras: a superior tem onze, sendo uma de canto e a inferior possui apenas oito, separadas a meio, isto é, quatro para cada lado. Os braços das cadeiras são movimentados e apresentam a particularidade de serem representadas máscaras humanas nos seus perfis. Isto é um tipo de decoração que começa a surgir, precisamente, no último quartel de seiscentos358, o que nos leva a pensar que Domingos Lopes foi um dos percursores neste tipo de tratamento de perfis. Actualmente poucas cadeiras apresentam as características misericórdias, excepto quatro únicas cadeiras, porém Robert Smith ao referir-se a esta obra afirma que as “cadeiras, com misericórdias representando máscaras humanas, são extraordinárias…”359. É uma perda bastante importante e lamentável.

A cada par de cadeiras corresponde um espaldar flanqueado por duas pilastras misuladas de capitel coríntio, animadas por ligeiros motivos vegetalistas. O espaldar é preenchido por um painel pictórico que simula serem dois, devido ao friso vertical ilusionista ao centro do painel. Em cada estão representados dois santos ou santas da ordem dominicana. A cadeira de canto possui apenas um painel com uma só figura. No envasamento dos espaldares estão estáticos pedestais que suportam um par de pilastras e são decorados com enrolamentos vegetalistas. Entre os pedestais corre um friso com o mesmo tipo de ornamentação, que em nossa opinião apresenta ainda pouca plasticidade. O entablamento é muito semelhante, a nível decorativo, ao elemento anteriormente referido, sobressaindo apenas pequenos e serenos querubins no friso, no seguimento do centro de cada painel. O cadeiral apresenta-se encerado e apenas as molduras das pinturas são douradas, no entanto Nogueira Gonçalves afirma que outrora o cadeiral era revestido inteiramente por folha de ouro360.

Na nossa opinião parece-nos que este cadeiral ainda apresenta características

356

BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. p. 425.

357

BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. Porto. pp. 425-426.

358

SMITH, Robert Chester – Cadeirais de Portugal... p. 14.

359

maneiristas no estatismo dos elementos e na falta de plasticidade da decoração vegetalista, mas deixa muito levemente transparecer alguns, muito poucos, prenúncios de um tímido barroco, mais precisamente na disposição espacial da decoração do envasamento e do entablamento, na graciosidade dos querubins e no tratamento dos perfis. Como tal consideramos que este móvel religioso integra-se ainda num maneirismo final de transição para o barroco e assim sendo poderemos então, com alguma ousadia, designá-lo de proto-barroco.

Resta-nos apenas informar que o cadeiral ao tempo dos frades e da antiga e destruída capela-mor, estava junto ao arco cruzeiro361, na posição inversa da que se encontra hoje. Relativamente à identificação dos santos e santas dominicanas aqui representados nestas pinturas atribuídas ao século XVIII e ao círculo lisbonense362 tratá- las-emos no capítulo destinado à pintura.

O órgão

organária é um dos aspectos mais peculiares e fantásticos da talha dourada nacional das centúrias de seiscentos e setecentos. Todavia, os órgãos são extremamente divulgados durante o século XVIII, pois eram essenciais a todo o fulgor festivo das encenações litúrgicas barrocas363 e “… simbolizam no mais alto grau a pompa e grandeza do barroco”364. Sem dúvida alguma que o órgão passou a ser um elemento fulcral nas comunidades religiosas, pois a sonoridade indelével, por um lado, mas esvoaçante, por outro, tornou-se complemento perfeito nas cerimónias faustosas do calendário religioso: nada mais sublime que as notas fortes, claras e gravitacionais de um Te Deum barroco na envolvência do esplendor aurífero das festividades litúrgicas. A caixa do órgão une-se à varanda, num conjunto primoroso de articulação de talha, algumas vezes conjugando-se com a pintura, nomeadamente de charão ou chinoiserrie, como o órgão da capela de São Miguel da Universidade de Coimbra, ou então a talha envolvente esparge as paredes mais próximas num movimento frenético de ânsia, como é o caso do órgão da Sé de Braga.

361

QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos Históricos... Vol. IV. pp. 17-18.

362

GONÇALVES, António Nogueira – Inventário Artístico de Portugal... p. 109.

363

BORGES, Nelson Correia – s.v. “Órgãos”. in Dicionário de Arte Barroca em Portugal... p. 332.

364

SMITH, Robert Chester – A talha em Portugal. Lisboa. Livros Horizonte. 1962. p. 167.

Relativamente à organária rococó esta apresenta as mesmas características estruturais que o resto dos campos artísticos deste período, isto é, “continua-se igualmente nesta época o esplendor da armação entalhada para sustentação e mostra da tubagem e mecanismos dos órgãos”365. Este órgão do templo dominicano é, estilisticamente, rococó, ostentando a data de 1754. Sofreu já algumas intervenções em 1883 e em 1976, mas estas efectuaram-se ao nível da tubagem e dos jogos de som366, o que, de qualquer maneira, não lhe desvirtuou o seu carácter artístico e belo do rococó.

A caixa do órgão denota uma certa plenitude devido à sua ondulação ser ligeira, harmoniosa e subtil, isto na zona do teclado. Toda esta secção é decorada por marmoreados em tonalidades esverdeadas e acizentadas, nas quais sobressaem molduras, pequenos frisos e ornamentação entrelaçada e assimétrica de figuras e concheados dourados. Este instrumento, actualmente, apresenta cinco registos de flautados, sendo o central mais elevado e numa posição ligeiramente ondulada em sacada triangular. Em cada registo de flautados existe um leque horizontal de tubos de palheta, tipicamente ibéricos. Na parte superior dos registos destacam-se entrelaçados de concheados dispostos numa posição de cortinas. A rematar o conjunto, nas extremidades, estão duas grandes conchas estilizadas e ao centro eleva-se uma grande cartela, desmaterializada através dos típicos elementos concheados, numa conjugação perfeita de beleza e delicadeza de elementos que suportam e que decoram. A flanquear este remate estão duas esbeltas aletas.

A caixa de órgão assenta numa varanda com balaustrada ondulada, num harmonioso contraste de côncavos e convexos. Todos os balaústres são marmoreados nas mesmas tonalidades acima descritas. A escorar todo o peso está uma poderosa mísula, elegantemente desmaterializada em forma de leque, o que lhe confere uma grande leveza, parecendo que o seu propósito é mais de um elemento decorativo. Este elemento apresenta os mesmos aspectos pictóricos de marmoreados, mas aqui os ornamentos dourados surgem com mais frequência, provocando um leve e belo contraste entre os verdes acinzentados e a cor dourada, como que numa reprodução material das notas contrastantes da musicalidade composta nesta segunda metade de setecentos.

É importante, ainda, referir que o órgão ao tempo dos frades estava na capela-mor

365

no lado da Epístola e tinha-se acesso a ele através de uma porta que ligava a uma escadaria, logo a seguir ao altar367.