3.9 The Baltic Sea
3.9.4 Conclusions
Agostinho Prada nasceu com o nome Agostino Prada, a 02 de abril de 1885, em Madrano, província de Trento, Itália; filho caçula de Giuseppe Prada e Anna Baitella que tiveram outros seis filhos.
Com sua chegada ao Brasil em 1898, começou a utilizar o nome de Agostinho. Foi em atenção ao pedido de seu irmão, José Prada, que, ainda muito jovem, aos 13 anos, veio para o município de Limeira.
De acordo com Caritá (2003), José Prada era sócio proprietário, juntamente com o sogro, Maximiliano Prada, de um estabelecimento comercial, denominado
―Armazém Casa Prada‖. Além do armazém, José Prada possuía uma outra loja destinada a atender as fazendas, chamada José Prada, Irmão & Cia e, em seguida, tornou-se sócio de uma empresa do ramo de eletricidade.
Assim como de costume à época, com pouca idade, Agostinho se inicia no mundo do trabalho, em terras brasileiras, prestando serviços nas lojas de seu irmão. As pessoas admiravam-se com o trabalho e a dedicação do jovem, de tal modo a afirmarem que ele possuía ―inclinação‖ para o ―mundo dos negócios‖. Isso pode ser constatado uma vez que, em 1901, portanto três anos após ter chego ao país, Agostinho Prada se torna sócio de seu irmão José Prada.
Em várias reportagens, a representação social de Agostinho Prada era de um sujeito de forte vocação empresarial e preocupado com as questões sociais.
Segundo a edição especial da BIP20 (Boletim Informativo Prada), o governo italiano, no ano de 1927, agracia Agostinho Prada com a Comenda Medalha de Ouro e Mérito Civil, ―por suas virtudes filantrópicas e inúmeras benfeitorias ao povo daquele país, como a instituição da Casa Maternal Ana Prada, em Madrano‖ (BIP, 1985). Desse modo, passa a ser reconhecido no Brasil como Comendador Agostinho Prada.
Por seu destaque no ramo comercial e industrial, Agostinho ficou socialmente conhecido como o ―precursor da indústria limeirense‖.
Outra ação que pode ter colaborado para que Agostinho se tornasse em certa medida mistificado foi a comunicação com os trabalhadores de sua indústria, por meio de boletins. Esses materiais produzidos por idealização da direção da empresa apresentavam discursos em prol do empresário e consideravam como benfeitorias as ações de Agostinho, em prol dos trabalhadores de sua indústria. Data de 1942 a inauguração da Cooperativa Prada (um armazém no qual os operários podiam adquirir mantimentos e, caso quisessem, ter o valor da compra debitado do salário).
Conforme Moscovici (2015), a comunicação possui uma influência e um papel nas representações sociais e no modo como se tornam senso comum, portanto, pode-se considerar os boletins empresariais como um instrumento de sustentação ideológica.
20 BIP
— Boletim Informativo Prada — espécie de revista entregue aos trabalhadores da Cia Prada Indústria e Comércio Limeira. Tal boletim era gerado e distribuído pelo Órgão Interno de Informação da Companhia Prada. Essa edição (ano IV), intitulada Edição Especial — Abril/85 deu-se em comemoração ao centenário natalício do Comendador Agostinho Prada (26/04). Pode-se considerar ser um veículo dos interesses e ideologia empresarial e industrial.
Em síntese, as representações sustentadas pelas influências sociais da comunicação constituem as realidades de nossas vidas cotidianas e servem como o principal meio para estabelecer as associações com as quais nós nos ligamos uns aos outros (MOSCOVICI, 2015, p. 08).
Em 1944 foi criada, por iniciativa de Agostinho Prada, a Fundação Prada. De acordo com Altino Stahlberg (2003), em 1947, a escola Prada foi inaugurada e denominada Grupo Escolar Prada. A escola, construída defronte à indústria, posteriormente doada ao munícipio de modo a se tornar uma escola estadual.
No ano de 1949, ao lado da escola, a construção da creche Clélia Prada (a 1ª instituída no município) é terminada. Tal construção se realizou, assim como a da escola, com recursos oriundos da Fundação Prada.
Ainda de acordo com Altino Stahlberg (2003), em 1954, ao lado do grupo escolar, é fundado o Jardim da Infância Íris Della Chiesa, outra obra idealizada por Agostinho Prada.
Celebrado no imaginário social como um grande empreendedor e visionário, Agostinho Prada também idealizou e construiu para os trabalhadores de sua indústria um estádio de futebol e um clube de campo (sócio esportivo). Pode-se ponderar haver aí uma astúcia no sentido de cooptar a subjetividade dos trabalhadores em torno da imagem de um bom patrão, fato este que era desmentido em ocasiões em que trabalhadores evadiam da empresa para trabalhar em outras que lhes ofereciam melhores salários.
Stahlberg (2003) registra também que em 1956, Agostinho Prada recebeu da Câmara Municipal o título de ―Cidadão Limeirense‖. O reconhecimento por seu trabalho também ocorreu por parte do governo brasileiro que, em 1971, outorgou-lhe a medalha ―Marechal Rondon‖.
É possível considerar que a doação da escola ao poder público faz parte de uma estratégia de legitimação e sanção de sua imagem de ―bom empresário‖21
Em 07 de fevereiro de 1975, com 89 anos de idade, falece o empresário. No município de Limeira, Agostinho Prada era tido como uma figura ilustre, benemérita e importante para o desenvolvimento da cidade. Prova disso é o
21
Não há porém, estudos ou informações que possam comprovar esta hipótese. D‘outra parte, ao longo da pesquisa, nos deparamos com inúmeros textos que, repetida e reiteradamente, tendem a idolatrar o dito ―Comendador‖. Vide outras considerações na página 81, assim como o Anexo A, p. 204.
Suplemento Histórico da Gazeta de Limeira (1980) que apresenta a biografia do Comendador Agostinho Prada na seção de ‗vultos ilustres‘: ―Um dos grandes beneméritos de da nossa terra[...]‖ (GAZETA DE LIMEIRA, 1980, p. 39).
Stahlberg (2003) apresenta uma carta de um médico limeirense, João Batista Borelli, que descreve sua visão sobre Agostinho Prada. Nota-se na citação que é destacada a seguir que à figura do empresário se remete uma representação social de um homem visionário, benemérito e desprendido:
Empresário de grande visão deixou notáveis obras. Quando o problema do operário era mais policial que social, constrói uma fábrica, em meio de um jardim, que viria a ser a maior fábrica de chapéus da América Latina; quando o problema da criança era a menina dos olhos somente dos países mais avançados do mundo, constrói uma creche em moldes modernos, com assistência médica e alimentar para os filhos menores de seus funcionários, a fim de que suas mães operárias pudessem trabalhar com tranquilidade. Enquanto uma cidade como Limeira, para obter um grupo escolar precisava implorar de joelhos junto às autoridades estaduais da época, constrói a própria custa um moderno grupo escolar — Grupo Prada, que durante muito tempo funcionou com dinheiro particular até que passasse a integrar a rede pública de ensino (STAHLBERG, 2003, apud BORELLI, 2000).
Em outro trecho da carta, a preocupação com os funcionários e os cidadãos limeirenses é apresentada com uma ação — a doação de parte de um terreno para um segundo cemitério — e uma vontade, a construção de casas para os trabalhadores da empresa. ―Iniciou a construção de um conjunto de casas para seus operários, não levando à frente seu intento por motivos de greves desencadeadas muito a contragosto, por seus operários‖ (STAHLBERG, 2003, apud BORELLI, 2000).
Mais uma vez, pensando dialeticamente, se a Indústria Prada era um local tão bom para se trabalhar, se Agostinho Prada possuía tantas características beneméritas e assim, apontado como um ser tão preocupado, o que se traduziu sim em ações concretas, então, por que será que as greves aconteciam?
Não há como negar que houve iniciativas, realizações e empreendimentos de Agostinho para o município de Limeira, inéditas, relevantes mas, históricas. Mas tem-se que considerar que foi forjado para a população, de modo geral, a imagem de Agostinho enquanto um homem ―à frente de seu tempo‖.
Portanto, diante desse cenário de desenvolvimento industrial e do Estado enquanto instituição de apoio ao capital, torna-se importante analisar o processo histórico e pensar dialeticamente esses fatos, pois somos impulsionados a
considerar o outro lado da ―preocupação‖, do ―cuidado‖, da ―bondade‖. Na conjuntura nacional, este período abarcou por parte dos grandes empresários uma preocupação com a formação dos trabalhadores, ou, melhor dizendo, com sua disciplina e enquadramento à lógica do processo de acumulação e concentração da riqueza.
A formação dos trabalhadores sob responsabilidade dos empresários, seja da indústria ou do comércio, distingue-se de uma formação geral que compreende as dimensões culturais e sociais voltadas à humanização das pessoas e seu desenvolvimento pessoal, cultural e social; em linhas gerais, essas formações tinham como foco a capacitação para o trabalho, o que desconsiderava, em grande parte, a formação intelectual do ser humano.
O trabalho, do ponto de vista do capitalismo e dos detentores do capital, é concebido como a exploração da mão-de-obra do trabalhador, de modo a gerar produção que, vendida gera lucro e é revertida ao capitalista, o que aumenta sua riqueza, enquanto expropria o trabalhador ao fragmentar o processo de trabalho, de modo a não remunerá-lo adequadamente e barrando o trabalho enquanto um processo de reflexão. Nesse sentido, o trabalho apresenta duas distintas configurações: uma de dimensão humanizadora do trabalhador, e outra exploradora, que expropria e esvazia o ser humano.
Em uma sociedade capitalista, por mais que ocorram situações que na aparência demonstrem preocupação com o trabalhador, na essência, a preocupação maior é o lucro. Se a riqueza está concentrada nas mãos de poucos, neste sistema, o objetivo é aumentar a riqueza para os que já a possuem. Portanto, o aumento da riqueza se dá à medida que a exploração aumenta.
Não há como ser ingênuo e acreditar que iniciativas que são ou, aparentemente demonstram ser boas em prol de um grupo ou comunidade de trabalhadores não tenham um objetivo maior por trás disso tudo.
Na conjuntura nacional à época da construção da escola Prada (1947), da creche (1949) e do jardim da infância (1954), no país, outros empresários fundavam, em nível nacional, o SENAI em 1942 e, em 1946, o SENAC e o SESI, com vistas a capacitar mão-de-obra para o trabalho, de modo que os trabalhadores pudessem melhor se ajustar à indústria e ao comércio, atendendo aos objetivos empresariais.
O próprio portal do SESI narra os objetivos de sua fundação ao discorrer sobre a situação econômica e política do Brasil e o anseio dos empresários: ―por sua
vez, a classe dominante almejava participar mais de perto nas decisões governamentais e reduzir a intervenção do Estado na economia‖ (SESI, portal).
Ora, se a classe dominante buscava na época (1946) reduzir a intervenção estatal e participar mais ativamente das decisões do país, isso marca que a intenção dos empresários — classe dominante — nada mais é que, além do controle das riquezas, controlar a sociedade. Desse modo, o anseio pelo lucro dos empresários ―liberalizantes‖ era, ao mesmo tempo, reconhecido e contrastado com os supostos ―pilares‖ de um empresariado ―ético‖, adepto à ―filosofia cristã‖, tal como se verifica no discurso do SESI:
De um lado, estavam empresários que queriam a adoção de uma política econômica liberalizante, de forma a facilitar o acúmulo de capital às custas de baixos salários e a expansão das empresas estrangeiras. De outro, industriais identificados com valores éticos e capitaneados por Roberto Simonsen e Euvaldo Lodi, contrários às práticas destruidoras da ordem social como o lucro fácil, a competição desenfreada e a ausência de "espírito de serviço, tão recomendado pela filosofia cristã" (SESI, histórico).
Por meio de um discurso que se apresentava como ―preocupado‖, a ―bondade‖ empresarial se manifesta com ações ―anti-destruídoras" da ordem social, com um ―espírito de serviço‖. O que se tem? Uma demonstração clara de que um investimento realmente seria feito; no entanto, não se pode ser crédulo o bastante de modo a compreender que não havia outro interesse – lucro – nessa iniciativa.
Ao se considerar a trajetória da Companhia Prada no município de Limeira e toda estrutura erigida em seu entorno, por mais que aos olhos de uma parte considerável dos munícipes seja algo louvável, é mister refletir que esse conjunto se desenvolveu em um contexto capitalista e, sem dúvidas, não houve a atuação desinteressada por parte da indústria, uma vez que as empresas constituídas por capital privado têm como meta o lucro.
Portanto, conforme Marx e Engels ―as mais importantes operações do trabalho são reguladas e dirigidas segundo os planos e as especulações daqueles que aplicam os capitais; e o objetivo que eles pressupõem em todos estes planos e operações é o lucro” (MARX; ENGELS, 2008, p. 46).