Part I Morphable Models as regularizations
5.4 Conclusions
No que tange os sistemas abertos pode-se afirmar que todo organismo vivo é essencialmente um sistema aberto, pois se mantém em um ininterrupto fluxo de entrada e de saída e conserva-se mediante a construção e decomposição de componentes. Nunca estando, enquanto vivo, em um estado de equilíbrio químico e termodinâmico, mas mantendo-se no chamado estado estacionário que se difere do último. Um aspecto a ser observado desta abordagem dos sistemas abertos, envolve a concepção do sistema contendo o todo dentro do todo, ou seja, sistemas contêm subsistemas que, por sua vez, podem ser sistemas abertos e que, portanto, interagem entre si, com o sistema ao qual pertencem e com o ambiente (MISOCZKY, 2003).
Quando se analisa o sistema social como sendo um sistema aberto, observa-se que o conceito de sistema aberto faz surgir a necessidade de uma interdependência com o meio externo como componente fundamental para a sua sobrevivência. Na medida em que o ambiente é composto por elementos que podem influenciar as organizações, positiva ou negativamente, observando a definição dos objetivos da organização (KATZ; KAHN, 1975).
Katz e Khan (1975) consideram que as organizações, como qualquer sistema aberto, importam do meio externo recursos que, depois de transformados em bens e serviços são exportados para o ambiente. Ou seja, são estruturas que interagem com o meio externo importando energia, materiais, informação (de outras organizações, pessoas, do meio ambiente), o que pode ser chamado de input. No seu interior processam e transformam os recursos advindos do exterior em produtos acabados, serviços, etc. São depois exportados para o meio, ação que pode ser denominada de output.
Este tipo de sistema possui algumas características particulares como:
- Importação de energia: Nos sistemas abertos existe uma necessidade de importar
algum tipo de energia do ambiente. Desta forma as organizações sociais precisam também extrair energia, seja de outras organizações, pessoas ou do ambiente material/físico que as cerca – pois, nenhuma estrutura social é autossuficiente e autônoma.
- Transformação: Para que os sistemas abertos possam executar algum tipo de
trabalho, é necessário transformar a energia que possuem à sua disposição. Organizações criam novos produtos, elaboram matérias-primas, treinam pessoas ou proporcionam serviços – todas estas atividades acarretam reorganização de insumos.
- Produto: o produto dos sistemas abertos é exportado para o meio ambiente, como
ou seja, um arquétipo, dos sistemas como sendo um agregado que apresenta, conforme dito anteriormente, entrada – Processamento – saída e retroalimentação.
- Sistemas como ciclos de eventos: as atividades geradas pelo intercâmbio de energia
têm um padrão de caráter cíclico: o que é exportado para o ambiente proporciona energia para a repetição do ciclo de atividades. Em sistemas sociais, lembrando serem estes como sendo aqueles criados pelo homem para uma determinada finalidade (visão teleológica própria e característica deste tipo de sistemas), surgem, no afã de cumprirem as suas finalidades, objeto da sua constituição, os chamados processos. São estes de caráter cíclico, ou seja, a saída (output) representa o fim do processo o qual imediatamente se reinicia continuamente. A título de exemplo pode se citar o processo de produção
- Entropia negativa: a entropia pode ser conceituada como uma lei universal da
natureza que institui que todas as formas de organização levam a desordem ou à morte. Nos sistemas abertos, quando este importa do ambiente mais energia do que necessita, pode desta forma, adquirir entropia negativa. Há, então, nos sistemas abertos, uma tendência geral para tornar elevada a relação energia importada/energia exportada, buscando a sobrevivência, mesmo em tempo de crise e, inclusive, para sobrevida maior que a prevista. Como exemplo desta entropia nos sistemas sociais, é só observar o número de organizações que deixam de existir todos os anos. O universo é entrópico, irreversivelmente. A irreversibilidade da entropia, que é a impossibilidade de reutilizar energia já dissipada (utilizada), produz degradação.
- Insumo de informação, realimentação negativa e processo de Codificação: os
insumos informativos podem ser definidos como insumos que proporcionam à estrutura sinais acerca do ambiente e de seu próprio funcionamento. A realimentação negativa (feedback / controle/ realimentação) como evidenciado na Figura 1, é o tipo mais simples de insumo de informação encontrado em todos os sistemas. Esta realimentação auxilia o sistema a corrigir desvios de direção. Uhlmann (2002) cita como exemplo, os mecanismos de uma máquina que emite informação sobre os efeitos de sua operação para algum mecanismo central ou subsistema que, por sua vez, age com base nesta informação para manter o sistema na direção desejada. O termostato é um exemplo de um mecanismo regulador baseado na realimentação negativa.
- Estado estável e homeostase dinâmica: o mecanismo de importação de energia,
buscando uma oposição à entropia, ocasiona uma troca energética, trazendo um estado estável para os sistemas abertos. Tal estado não significa imobilidade, nem equilíbrio verdadeiro. Há
um fluxo continuado de energia do ambiente externo para o sistema e uma exportação contínua de energia do sistema para o ambiente, fazendo com que desta forma haja uma proporção de trocas e relações que permanece igual, ou seja, constante e equilibrada. Os sistemas abertos ou vivos possuem uma dinâmica de crescimento onde levam ao limite máximo sua natureza básica, reagindo às mudanças ou antecipando-as através do crescimento por assimilação de novos insumos energéticos.
- Diferenciação: sistemas abertos tendem à diferenciação e elaboração. Funções mais
especializadas substituem padrões globais difusos, que é entendido como o princípio da funcionalidade. Este princípio pode ser compreendido como a criação de sub-sistemas com funções especificas em uma empresa (Setores e departamentos) e nos organismos vivos tem- se os órgãos com funções específicas.
- Equifinalidade: este princípio é característico dos sistemas abertos e determina que
“um sistema pode alcançar o mesmo estado final a partir de diferentes condições iniciais e por caminhos distintos” (BERTANFFY, 1947 apud ULHMANN, 2002, p. 38). Cabe enfatizar que o teor de equifinalidade pode diminuir à medida que os sistemas abertos desenvolvem mecanismos reguladores do controle de suas operações.
No Quadro 5 é possível ter uma visão geral das características de cada tipo de sistema, e desta forma entender melhor como as prefeituras foram delimitadas como sistemas para este estudo. Também é possível observar de forma mais clara e prática como as prefeituras que foram pesquisadas se configuram como um sistema organizacional partindo das características deste tipo de sistema evidenciado por Chiavenato (2003).
Quadro 5. Organização como sistema aberto.
Sistemas Vivos
(organismos) Sistemas Organizados (organizações) Sistemas Organizados (Prefeituras pesquisadas) Nascem, herdam seus traços
estruturais. São organizados, adquirindo suas estruturas em estágios.
Organizadas em setores e secretarias. Podendo haver criação destes de acordo
com as necessidades. Morrem, seu tempo de vida é
limitado.
Podem ser reorganizados, têm uma vida ilimitada e podem ser
reconstruídos.
A reorganização pode acorrer, por exemplo, em mudanças políticas.
Tem um ciclo de vida
predeterminado. Não tem ciclo de vida definido Nas prefeituras apenas projetos implantados por esta possuem ciclos de vida definidos. São concretos – o sistema é
descrito em termos físicos e químicos.
São abstratos – o sistema é descrito em termos psicológicos e
sociológicos.
O sistema será analisado na sua gestão ambiental (sociológico) São completos, sendo o
parasitismo e a simbiose exceção.
São incompletos- dependem de cooperação com outras organizações
e suas partes são intercambiáveis.
Dependem de importação de energia externa que podem ser de outras prefeituras,
órgãos ou até mesmo setores internos. A doença é definida como um
distúrbio no processo vital. O problema é definido como um desvio nas normas sociais. Possíveis problemas na gestão ambiental dos municípios. Fonte: Adaptado de Chiavenato (2003).
Segundo Katz e Khan (1975) a abordagem de sistema aberto mais desenvolvida foi a de Parsons em 1973 no seu estudo das estruturas sociais.
Todos os sistemas sociais, inclusive as organizações, consistem em atividades padronizadas de uma quantidade de indivíduos. […] essas atividades são claramente complementares ou interdependentes em relação a algum produto ou resultado comum; elas são repetidas, duradouras e ligadas em espaço e tempo. A estabilidade ou recorrência de atividades pode ser examinada em relação ao insumo de energia no sistema, à transformação de energia dentro do sistema, e ao produto resultante ou produção de energia. Um aspecto importante é que a teoria de sistemas está interessada pelos problemas de relações de estrutura e de interdependência, e não pelos atributos constantes dos objetos (KATZ; KHAN, 1975, p.32-33)
Nesta citação de Katz e Khan (1975) é importante frisar alguns aspectos relevantes para a compreensão dos sistemas como, por exemplo, as atividades que o constituem, que de acordo com o descrito, podem ser complementares, ou seja, atividades onde necessitam das demais para gerar um produto/resultado comum para o sistema (soma das partes para chegar ao todo); ou atividades interdependentes sendo aquelas que sozinhas geram produtos - podem ser classificados como subsistemas - porém dependem de outras para obter um resultado maior dentro de um sistema macro.
Na perspectiva dos sistemas abertos, pode-se dizer que um sistema consiste em quatro elementos básicos:
a) Objetivos: são as partes ou elementos do conjunto e que dependendo da natureza seus objetivos podem ser físicos ou abstratos.
b) Atributos: são qualidades ou propriedades do sistema e de seus objetos.
c) Relações de interdependência: um sistema deve ter relações internas com seus objetos. Essa é uma qualidade muito importante para definir os sistemas. Uma relação entre objetos leva a um efeito mútuo ou de interdependência.
d) Meio ambiente: os sistemas não existem no vácuo, logo são afetados pelo meio em que estão inseridos.
A partir desta concepção tem-se uma visão das estruturas sociais como sistemas de natureza planejada, que representam padrões de relacionamento. Esses padrões levariam a uma grande variabilidade, porém há a existência de forças que a reduzem, como: pressões do ambiente, valores e expectativas compartilhadas, imposição de regras – "em todos os sistemas sociais a variabilidade do comportamento social é posta sob controle por um ou mais desses dispositivos" (KATZ; KHAN, 1975, p.53).