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A deficiência em vitamina A é um dos maiores problemas de nutrição e saúde pública em muitos países, afetando cerca de 190 milhões de indivíduos no mundo. Além da deficiência alimentar, a deficiência funcional também pode ocorrer, apesar das reservas de vitamina A no fígado, como resultado da síntese diminuída de RBP na desnutrição energético-proteica e da deficiência de zinco (YUYAMA et al., 2009). Entre os micronutrientes, a carência de vitamina A tem sido objeto de destaque devido à significante prevalência em populações de países em

desenvolvimento, não esquecendo que a deficiência subclínica de vitamina A em populações de países desenvolvidos também é comum (COSTA et al., 1996; WEST, 2002).

O estado inadequado de vitamina A caracteriza-se como um importante problema de saúde e nutrição. Diante do impacto da DVA na saúde, é fundamental a detecção da deficiência nos indivíduos ou comunidades em risco, sobretudo, por meio de indicadores que sejam capazes de retratar, com fidedignidade, a situação de saúde e nutrição do grupo estudado (SAUNDERS,

2007). No que refere à população idosa, apesar dos fatores de risco de desnutrição envolvidos

durante o envelhecimento e da ocorrência de enfermidades que podem afetar a absorção, estoque e transporte de vitaminas (HICKSON, 2006), a probabilidade de hipovitaminose A nesta população tem sido pouco investigada (GARCIA, 2001; SEMPÉRTEGUI et al., 2006; VOGEL et al., 1997)

Em pesquisa realizada por Gonçalves (1995) com idosos institucionalizados foi evidenciado o deficiente consumo de vitamina A em 86% dos homens e 74% das mulheres avaliados. Além disso, foram identificados níveis séricos de retinol reduzidos em 19% da população estudada, sendo este resultado caracterizado como problema de saúde pública segundo critérios adotados pela Organización Panamericana de La Salud. Estes achados corroboram com recente pesquisa realizada por Nascimento, Diniz e Arruda (2007), ao mensurar o estado vitamínico A de um grupo de idosos atendidos pelo Programa de saúde da Família no município de Camaragibe/PE. Este estudo destaca o estado potencial de susceptibilidade a essa carência nutricional específica, sobretudo ao detectar a baixa freqüência de consumo de alimentos fontes de vitamina A.

A alta prevalência de baixos níveis de vitaminas lipossolúveis, dentre elas a vitamina A, pode constituir um problema de saúde pública. A magnitude deste problema na população em geral e, particularmente, em pessoas com doenças crônicas pode ser severa, deficiências de micronutrientes são comuns entre os adultos mais velhos e é um fator de risco independente para síndrome da fragilidade em mulheres idosas (AFFENITO et al., 2007).

Tendo em vista a magnitude da DVA, revelada em estratos mundiais, a The International

Vitamin A Consultive Group (IVACG) realizou uma revisão das duas décadas dedicadas ao

controle da DVA e o progresso alcançado com os programas de intervenção instituídos. A revisão e a validação dos métodos diagnósticos e indicadores da DVA foram considerados temas prioritários (SOMMER et al., 2002) e embora o objetivo internacional de supressão da DVA, para o ano 2001, não tenha sido alcançado, a xeroftalmia, a mais visível forma de DVA, é um problema menos comum nos países onde ela tem sido endêmica (RAMAKRISHNAN; DARTON-HILL, 2002).

Os indicadores classicamente empregados para expressar a deficiência de vitamina A são os parâmetros biológicos: funcional, bioquímico, histológico, clínico, e de grupos populacionais, denominados pela Organização Mundial da Saúde (1996) de “ecológicos”. O único método direto de medida do estado nutricional em relação à vitamina A é por biópsia hepática e pela medida das reservas de ésteres de retinila e este é um procedimento invasivo que não pode ser considerado para investigação de rotina e pesquisas de populações (YUYAMA et al., 2009).

A concentração de retinol plasmático é um dos métodos bioquímicos mais utilizados para explorar a deficiência de vitamina A. Esta concentração porém, sofre forte influência na presença de infecções clínicas e subclínicas, estado proteico, adequação de outros nutrientes e doenças orgânicas (ESPE, 2007; DE PEE; DARY, 2002; THURNHAM, et al.,2003). No entanto, a grande maioria dos estudos sobre vitamina A, em pacientes com infecção, tem usado o retinol sérico para medir o status desta vitamina (DINIZ; SANTOS, 2007).

Em indivíduos com reservas hepáticas de vitamina A adequadas, a concentração de retinol sérico é mantida dentro de um limite de normalidade, no entanto, quando esses estoques são depletados, os níveis de retinol diminuem. Entretanto, a concentração de retinol sérico diminui temporariamente durante a resposta de fase aguda à infecção, tal redução não reflete alterações nos estoques hepáticos de vitamina A e então pode afetar a interpretação do retinol como indicador do estado vitamínico A (STEPHENSEN; GILDENGORIN, 2000).

A interpretação dos teores de retinol sérico, em crianças menores de 5 anos, tem sido definida como baixa quando obtém-se valores menores que β0μg/dL (0,70 μMol/L), e são considerados deficientes com valores inferiores a 10μg/dL (0,γ5 μMol/L). Se estiverem na faixa acima de β0μg/dL (0,70 μMol/L) e inferiores a γ0μg/dL (1,05 μMol/L) são interpretados, por alguns autores, como valores marginais. No entanto, para os demais grupos etários, ainda não há definição consensual de qual ponto de corte deve ser utilizado para caracterizar um estado de inadequação (DINIZ; SANTOS, 2007).

A suplementação de vitamina A e a fortificação alimentar têm revelado efeitos benéficos sobre a morbidade e mortalidade infantil. Das estratégias para reduzir a carência de vitamina A, a abordagem dietética é cada vez mais enfatizada por ser um método mais sustentável, visto que induz à variabilidade na alimentação, fornecendo outros nutrientes além da vitamina A. Nos países em desenvolvimento frutas e produtos vegetais fornecem de 70 a 90% do total de ingestão da vitamina A, partindo de seu elevado teor de pró-vitamina A (DE PEE et al., 1995).

As medidas de avaliação dietética para detectar deficiente consumo de alimentos fonte de vitamina A são melhor validados quando correlacionados com concentrações plasmáticas que refletem níveis de DVA. A correlação entre o consumo de frutas e vegetais e a concentração

sérica de carotenoides em indivíduos idosos têm sido observada (TUCKER et al., 1999). Apesar do Brasil não dispor de inquéritos com representatividade nacional sobre a prevalência de carências ou excessos de micronutrientes, a partir de estudos feitos em nível local, pode-se afirmar que as deficiências mais relevantes são as de vitamina A, ferro e ácido fólico (BRASIL, 2006).

Dados de inquérito de consumo alimentar realizados, em alguns municípios brasileiros, nos últimos anos, indicam que o consumo de fontes naturais de vitaminas é extremamente baixo em 60% ou mais da população, o que caracteriza a monotonia alimentar. Por outro lado, inquéritos bioquímicos confirmam que a hipovitaminose A tem prevalência elevada em camadas pobres dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em termos epidemiológicos, a ingestão inadequada de alimentos fontes seria um dos fatores etiológicos em todas as áreas endêmicas do mundo. Adicionalmente, condições socioeconômicas desfavoráveis, falta de saneamento ambiental e de água tratada, tabus alimentares e alta prevalência de infecções podem interferir na ingestão ou metabolização da vitamina A pelo organismo (RAMALHO; FLORES; SAUNDRES, 2002).

O nordeste brasileiro, por se tratar de uma das regiões mais pobres do país, onde carências nutricionais como a desnutrição energético-protéica e a anemia ferropriva atingem uma parcela da população, tem sido alvo de muitos estudos, em crianças, sobre a situação da hipovitaminose A (DINIZ; SANTOS, 2000; MARTINS et al., 2004; PAIVA et al., 2006; SANTOS et al., 1983).