As análises sobre CSP, mesmo aquelas que adotam perspectivas críticas, tendem a ignorar a agência de atores locais em relação a tais empresas. Quando citados, civis ou militares dos países onde a intervenção ocorre são alocados como vítimas da violência sem controle de tais empresas (ver Scahill, 2008) ou rebeldes antagônicos. A pesquisa de campo tanto no Afeganistão quanto na Líbia, permeado por considerações epistemológicas supracitadas, baseadas na Escola de Copenhague e na Sociologia Política Internacional, identificou um complexo processo de amálgama entre CSP e atores locais, formando uma categorização nova de tais empresas, que aqui denominados Companhias Antropofágicas de Segurança (CAS).
Aproveitando e adaptando o conceito de antropofagia19 da manifestação artística brasileira da década de 1920, compreendemos tais empresas como Companhias de Segurança Privadas que, por razões de aprimoramento de sua posição hierárquica em determinado campo de segurança, empregam atores e práticas simbólicas endógenas para atingir fins políticos específicos. Importante ressaltar que tal movimentação não exclui as características exógenas típicas das CSP, como forte atrelação a um discurso mercadológico e práticas pautadas por uma narrativa de excepcionalidade das normas. As Companhias Antropofágicas de Segurança formam um organismo híbrido, ressaltando seu caráter político, ao mesmo tempo em que mantêm suas fortes ligações com os Estados empregados. Em um processo deglutinador, combinando práticas imateriais de ambientes interpretados como endógenos e exógenos, estes grupos se posicionam de forma sofisticada nos campos de conflito, com capacidades de construção de ameaças e produção de conhecimentos de violência. A combinação de práticas externas e internas, contudo, não indica que tais empresas são apenas o somatório das duas partes - mas um agente complexo, que resignifica e cria novas ferramentas simbólicas para lidar com o cenário apresentado.
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Entendemos que o conceito apontado por Oswald de Andrade e seus colegas não se acopla totalmente as premissas aqui apresentadas, necessitando de alterações que apontamos no texto. Porém, acredita-se que, imbuída de um espírito antropofágico, a presente adaptação se inspira nas reflexões de 1922, servindo ao objetivo almejado, principalmente por restaltar o caráter narrativo de hibridismo de tal grupo.
Por operarem em áreas que sofreram intervenções, tais companhias tem seu processo de formação baseado fortemente em resignificações de resistências locais, em que a força mobilizada por agentes endógenos é canalizada para a produção de novas organizações. Por esta razão, as Companhias Antropofágicas Privadas tem suas capacidades focadas principalmente em uma lógica imaterial, agindo em campos de conflito através de premissas de produção de conhecimento, construção de ameaças e indicação de mecanismos coercitivos que não serão, necessariamente, aplicados por elas. Ao se incluírem em uma premissa de excepcionalidade, as CAS conseguem justificar sua presença tanto para atores internacionais típicos, como Estados contratantes ou organizações, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a União Europeia, quanto para locais, como grupos militares ou a população civil. A aglutinação de capitais simbólicos externos e internos reforçam não só o caráter de erosão de tais premissas localizadoras no cenário moderno de conflitos armados, como promove novas reflexões sobre as possibilidades das Companhias Privadas de Segurança.
Importante ressaltar, contudo, que não se pretende afirmar que tal caracterização pode ser aplicada, sem reflexões específicas, em todos os casos em que as Companhias de Segurança Privada atuam. Seguindo Amar (2014), acreditamos que a emergência das CAS se assemelha aos Arquipélagos de Segurança, movimentações narrativas que aglutinam práticas distintas de segurança no Sul Global, como humanitarismo, lógicas mercadológicas e ferramentas coercitivas. Tais reuniões, com fortes especificidades locais, indicam mobilizações importantes nos mecanismos de violência - mas devem ser entendidas, essencialmente, em suas considerações locais.
Esta reflexão sobre elementos híbridos também avança nas análises pós-coloniais envolvendo Companhias de Segurança Privada. Chisholm (2014a, 2014b) e Sjoberg (2010), dentre outros, já reforçaram o caráter colonial e hierárquico refletido na privatização da violência. Práticas coloniais constituem o recrutamento militar ocidental em países do Sul global desde o Império Britânico. Esse argumento era sustentado por uma lógica pseudocientificista, que apontava que algumas raças eram mais adequadas
para o serviço militar do que outras. Tais “comunidades raciais militares” incluem, por exemplo, os Highlanders da Escócia, os Gurkhas de Nepal e os sikhs da Índia. Essa perspectiva foi utilizado pela administração colonial para transformar certos segmentos em verdadeiras colônias provedoras de serviço militar, em que o colonizador poderia confiar.
Embora não de maneira direta e sem modificações, existem continuidades nesta lógica em determinações de soldados no sul global até hoje. Basham (2013: 112-37), por exemplo, discute como práticas raciais e étnicas são empregadas em processos de recrutamento no Reino Unido contemporâneo. Através de entrevistas com as minorias raciais nas Forças Armadas, este autor traça como as experiências são moldadas por raça e do colonialismo para produzir diferentes soldados "étnicos" entre os militares britânicos, e como estes homens e mulheres negociar e fazer o sentido de suas respectivas representações. O autor trata um panorama em que as habilidades de tais agentes são, de certa forma, “exportadas” para a colônia, uma vez que suposta brutalidade inerente seria, agora, empregada para os fins do Estado.
No caso identificado pelas CAS, as características procuradas não são negociadas com o Estado em um primeiro momento, e sim com os componentes “internacionais” das companhias. Uma vez que o ator local é alocado como provedor de um capital simbólico que autoriza certas determinações, sua entrada nos grupos se dá de maneira a ser reconhecida, também, por atores endógenos. Esse processo, que não é o foco deste trabalho, abre um espaço interessante para futuras pesquisas, uma vez que representa um aumento da hierarquia de tais atores locais.
A aplicação do conceito de Companhias Antropofágicas de Segurança se une a perspectivas do supracitado Amar (2014) e de Seikaly (2015) que pretendem criar um modelo expandido para a compreensão da violência no sul global – mas sem estabelecer práticas fechadas, que devam ser aplicadas sem reflexões sobre o ponto em que estão sendo estabelecidos.
7.2. Segurança e Violência no Afeganistão pós-intervenção dos EUA –