Na publicação Global Food Losses and Food Waste, realizada e divulgada pela FAO (2011), 1/3 dos alimentos produzidos no mundo tem o lixo como sua destinação final, alimentos esses que são descartados, mesmo estando em condições de consumo humano. São aproximadamente 1,3 bilhões de toneladas de alimentos descartados entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, mudando apenas a tipologia do
desperdício: enquanto países ricos desperdiçam e descartam mais alimentos no nível de consumo (pós-compra), os países em desenvolvimento precisam concentrar seus esforços na otimização de processos e sistemas de produção, transporte e armazenamento (FAO, 2011).
Este mesmo relatório indica a ocorrência de impactos negativos na sociedade, que incidem diretamente sobre os meios de subsistência e segurança alimentar e, ainda, impactos ambientais, já que os recursos utilizados para produção e transporte foram usados de forma a não gerar consumo ao final do ciclo. Além disso, pode ser mencionada a emissão de gases de efeito estufa durante o processo de fabricação e distribuição dos alimentos (FAO, 2011).
O desperdício de alimentos deveria ser discutido como um assunto alarmante em função de características globais e específicas ao contexto brasileiro. Como características globais podem ser citadas o crescimento populacional e a busca por padrões sustentáveis de produção e consumo. Já em relação às características específicas do contexto brasileiro, a fome e os altos índices de desperdício (AKATU, 2004)
Segundo o Instituto Akatu (2004), organização não governamental que trabalha temáticas do desperdício e consumo consciente, os índices de desperdício no Brasil chegam a 64% do total produzido, representando 1,5% do PIB. Esse total é distribuído em: colheita (20%), transporte e armazenamento (8%), processamento (15%) e varejo (1%). A situação da produção de alimentos e os índices de desperdício é tão paradoxal, que a produção diária mundial de alimentos, segundo a FAO (2011), é capaz de produzir 2.805 calorias por pessoa no mundo todo, ou seja, o que é produzido mundialmente seria mais do que suficiente para alimentar a todos, porém, o cenário
mostra problemas de subnutrição em alguns pontos do planeta e obesidade e sobrepeso em outros.
As possíveis causas do desperdício estariam em duas dimensões diversas: a dimensão das empresas (produção, distribuição e venda) e a dimensão dos consumidores (consumo) (AKATU, 2004). A dimensão dos consumidores envolve o desperdício dentro de casa ou no ponto de venda, onde produtos são rejeitados quando não apresentam forma e aparência perfeita. Já na dimensão “produção-distribuição- venda”, os problemas residem na falta de coordenação entre os diferentes atores dos canais de distribuição e também na avaliação incorreta do volume de vendas no varejo (AKATU, 2004; ALEXANDER e SMAJE, 2008 e FAO, 2011).
O movimento dos produtos do produtor para o varejista no caso da indústria de alimentos envolve uma série de atividades de transporte e distribuição, compostas por muitas empresas operando em níveis diversos do canal, resultando em um grande desafio de cooperação entre as organizações para que o desperdício seja reduzido. Nesse sentido, muitas empresas têm buscado parcerias com membros do canal com o objetivo de desenvolver estratégias para reduzir a quantidade de desperdício e custos (SCHLIEPHAKE, STEVENS e CLAY, 2009). Segundo Schliephake, Stevens e Clay (2009), o fato das oportunidades de reciclagem de desperdício e conversão dos invendáveis em outros processos gerarem ônus ao produtor do desperdício, deve estimular sua ação em procurar estabelecer novas relações externas aos canais de distribuição.
Além dos fatores ligados à sustentabilidade como redução da vulnerabilidade da segurança alimentar e diminuição de impactos ambientais, a redução do desperdício pode gerar melhorias na performance de custos gerais, podendo incluir ainda, a melhora da imagem da organização (HYDE et al, 2003), ou seja, a preocupação dos varejistas
não deveria ser apenas em relação aos resultados financeiros negativos ocasionados pelas perdas. O instituto Akatu (2004) vai além e prega a redução de desperdício como uma possibilidade de inclusão social, relacionando de forma direta a contribuição social da doação de alimentos, a redução das pessoas que pedem esmolas nas ruas, a redução da indução ao crime e finalmente o resgate da cidadania.
A importância e a vantagem da redução do desperdício podem estar na ocorrência de melhorias da performance ambiental e da imagem da organização (HYDE et al, 2003), redução da sobrecarga de aterros sanitários e outras disposições inseguras de lixo (BATES e PHILLIPS, 1999), podendo ainda se extender à melhora da performance social se esses alimentos puderem ser reaproveitados (ALEXANDER e SMAJE, 2008). Vale ainda destacar a crença de que a geração de desperdício é sinônimo de ineficiência do canal (BATES e PHILLIPS, 1999; MARKLEY e DAVIS, 2007; FAO, 2011). Nesse sentido, é válido destacar alguns estudos que trataram de projetos de redução de desperdício.
Henningsson et al (2004) estudou o desperdício de alimentos vegetais, destacando a importância da reutilização de itens que apesar de serem rejeitados por não apresentarem atributos físicos perfeitos, mantêm seu valor nutricional e poderiam ser reaproveitados em outros canais como, por exemplo, na preparação de alimentos de redes de fast-food e na alimentação de presidiários e pacientes de hospitais. Além dessas alternativas, no caso da perda de valores nutricionais ou questões de segurança alimentar comprometidas, os alimentos poderiam ser encaminhados para a compostagem, atividade que os autores chamam de “ciclo de vida limpo” (HENNINGSSON ET AL., 2004).
Os autores Zotos et al (2009) discutem modelos de atividades possíveis para uma comunidade local na Grécia. Lá, a própria legislação obriga produtores,
importadores e varejistas de vários produtos a organizar ou participar de alternativas (coletivas ou não) para o gerenciamento do desperdício (ZOTOS et al, 2009). Em sua pesquisa, os autores concluem que mais importante que a coleta e o descarte correto do desperdício, é preciso o desenvolvimento de estratégias de recuperação e tratamento do que é desperdiçado. Em outras palavras, ser sustentável é, além de reduzir o desperdício, encontrar as melhores alternativas possíveis para a utilização dos itens descartados. Nesse sentido, as empresas deveriam se preocupar com os objetivos de coleta do desperdício, redução na produção de desperdício e promoção do reuso (ZOTOS et al., 2009).
Os autores Bates e Phillips (1999) estudaram o gerenciamento do desperdício como estratégia sustentável. Segundo os autores, o principal objetivo do gerenciamento do desperdício é atingir um balanceamento ótimo entre a criação do desperdício e a reutilização desses itens em outros processos, já que o descarte seria a opção menos atrativa. Isso vale principalmente quando não é possível ou difícil em função de outras variáveis, reduzir ou eliminar o desperdício (BATES e PHILLIPS, 1999).
Os autores Fehr, Calçado e Romão (2002) concordam sobre a necessidade de descoberta de procedimentos de gerenciamento que substituam o descarte de alimentos por dois motivos principais. O primeiro, porque apesar de os aterros parecerem a alternativa perfeita para compostos orgânicos (já que os alimentos seriam decompostos, fechando o ciclo de vida do produto), os aterros de hoje não se parecem em nada com a proposta ótima de mecanismo de descarte, pois, não funcionam com a tecnologia correta e ainda por estarem sobrecarregados. Em segundo lugar, viria o dado alarmante de que cerca de 70% do lixo sólido no Brasil é composto de biodegradáveis, incluindo os alimentos (FEHR, CALÇADO e ROMÃO, 2002).
Os problemas do desperdício de alimentos, como tratado neste tópico, levou a pesquisadora a abordar o tema de canais de distribuição e mecanismos de coordenação, considerando a crença de que o desperdício é sinônimo de assimetrias na gestão de produtos e informações no canal (MARKLEY e DAVIS, 2007; ARSHINDER e DESHMUKH, 2008; CAO et al., 2008; FLYGANSVÆR, GADDE e HAUGLAND, 2008; SANDBERG e BILDSTEN, 2011; WINKLER, 2011). Assim, o próximo tópico da revisão bibliográfica será destinado à essa discussão.
2.2 Canais de Distribuição, Eficiência e Coordenação