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3. Methodology

3.1. Choice of Research Design

Para definir um posicionamento regional, Costa (2001, p. 100) elege como critério mɲior “ɲ regionɲlidɲde que os próprios cɲntores e compositores definem [ɲo nível dɲs cɲnções], em sua orientação na esfera da músicɲ populɲr ɳrɲsileirɲ”. Além disso, podem ou não tɲmɳém concorrer concomitantemente para essa classificação a origem e/ou compartilhamento de ambientes físicos, a tematização de valores locais e os investimentos éticos compɲrtilhɲdos: “um jeito mais ou menos comum de cantar, de tocar os instrumentos, de compor os arranjos e inclusive de ɲɳordɲr os temɲs não relɲtivos à região”. (COSTA, 2001, p. 99). Vejɲmos um organograma que mostra a hierarquia dos fatores reunidos por Costa (2001) para geração e unificação de posicionamentos regionais.

Quadro 13- Fatores de geração e unificação de posicionamentos regionais

ORIGEM E/OU COMPARTILHAMENTO DE AMBIENTES FÍSICOS TEMATIZAÇÃO DE VALORES LOCAIS INVESTIMENTO ÉTICO COMUM REGIONALIDADE DEFINIDA PELOS PRÓPRIOS CANTORES E COMPOSITORES

Fonte: Com base em COSTA, 2001.

Apesar de tais padrões de caracterização de agrupamentos de caráter regional serem aplicados, como visto, aos dos mineiros do Clube da Esquina e do Pessoal do Ceará, nos detemos somente na aplicação que Costa (2001) faz ao posicionamento regional Pessoal do Ceará e adotamos para a sua análise, principalmente, a regionalidade definida pelos próprios cantores e compositores, e o investimento ético comum, sobretudo, as considerações sobre o modo de cantar dos cancionistas, Belchior, Ednardo e Fagner, introduzido como novidade na música popular ɳrɲsileirɲ, por explorɲr o timɳre “rɲsgɲdo” dɲ voz, ɲnálogo ɲo cɲnto dos penitentes em romaria ou às cɲntigɲs dɲs lɲvɲdeirɲs do Nordeste. De ɲcordo com Costɲ (2001, p.112), “Belchior, emɳorɲ não possua ou não adote esse tipo de voz, inova também por seu canto semifalado que, por seu

tom expressivo e enérgico, dá novos contornos ɲ suɲ voz roucɲ e sem ɳrilho”. O ɲutor ɲindɲ ressalta sobre o uso da voz que:

a) é frequente, principɲlmente por Fɲgner e Ednɲrdo, ɲ mixɲgem de váriɲs “vozes” de um mesmo cantor, formando-se coros, uníssonos ou não de voz única17. [...]

b) valoriza-se igualmente o improviso vocal sobre a melodia. Em Fagner, isso é mais sistemático: a melodia é normalmente cantada uma primeira vez em seu percurso normal; após um solo instrumental, a letra é novamente cantada em uma variação sobre a melodia original;

c) há, por parte dos três ɲutores, ɲ explorɲção do chɲmɲdo “fɲlsete”, voz mɲsculinɲ executada acima da tessitura vocal do tenor, isto é, na faixa de freqüência sonora em que normalmente atua a voz feminina18 (COSTA, 2001, p.112).

Portanto, tomando por base o exame de algumas letras e as escolhas vocais e musicais do grupo, Costa (2001, p.112) identifica um ethos comum aos cearenses, qual seja, o da “ɲsperezɲ, dɲ securɲ, resultɲnte do desgɲste provocɲdo pelɲ pelejɲ com os oɳstáculos impostos pela vida (de artista, de cidadão19, de nordestino)”. O ɲutor esclɲrece, ɲindɲ, soɳre o modo próprio do posicionamento Pessoal do Ceará investir em tal secura, que:

diferentemente do etos do „homem seco‟ construído pelɲ literɲturɲ regionɲlistɲ e por

muitas canções populares, em que esse homem é um homem calado20, tímido e amedrontado, o do sujeito em questão é falante, e mais, é polêmico, franco, sem papas na língua e de língua ferina, ácida. (COSTA, 2001, p.112-113)

Costɲ (2001, p.113) considerɲ ɲ cɲnção “A pɲlo seco”, de Belchior, como a canção modelo do investimento ético do grupo em rão dos seguintes fatores:

a) ter sido gravada por parte de cada um dos seus três representantes ilustres (Belchior, 1974 - 1976; Ednardo, 1974; Fagner, 1976);

b) anunciar, já pelo título, que será metadiscursivɲ. “A palo seco, ou cante puro,

17Segundo Costɲ (2001, p. 112), “pode-se ter uma audição mɲis clɲrɲ desse tipo de coro nɲs cɲnções “Noturno”

(Grɲco / Cɲio Sílvio, por Fɲgner, 1979) e “Nɲ ɲsɲ do vento” (Luiz Vieirɲ / João do Vɲle, por Ednɲrdo, 1980)”;

18 Segundo Costɲ (2001, p. 112), o fɲlsete “é mɲis evidente em cɲnções como “Dorothy l'Amour” (Petrúcio

Mɲiɲ/Fɲusto Nilo, por Ednɲrdo, 1974) e “Torpor” (Ednɲrdo, 1979); em quɲse todɲs ɲs cɲnções do disco “Eu cɲnto - Quem viver chorɲrá”, de Rɲimundo Fɲgner (1978); e em “Como o diɲɳo gostɲ” (Belchior, 1976)”.

19 O autor lembra que o grosso da produção do grupo foi feito sob a ditadura militar 64-84.

20Cf. “Vidɲs secɲs”, de Grɲciliɲno Rɲmos, e ɲ cɲnção “Lɲmento sertɲnejo”, onde se ouve: “Por ser de lá/do sertão, lá

significa em espanhol cantar sem o acompanhamento de instrumentos. Denota no universo da canção flamenca, um canto primitivo, extremamente forte, emotivo e guturɲl” (COSTA, 2001, p. 175);

c) estɲɳelecer “semelhɲnçɲs conteudísticɲs” (COSTA, 2001, p. 115) e éticɲs com o metɲpoemɲ “A Pɲlo seco”, de João Cɲɳrɲl de Melo Neto, quɲis sejɲm ɲ ɲdjetivɲção do canto como franco e solitário e a sua figurativização como uma arma;

d) possibilitar, pela interligação da letra e do título da canção, a extração de efeitos de sentido “que quɲlifiquem suɲ enunciɲção como áridɲ, hostil” (COSTA, 2001, p. 115) e) sugerir, pelo seu conteúdo, o ethos “polemistɲ descontrutor dɲ pɲlɲvrɲ ɲlheiɲ” que

toma parte na construção do investimento ético não só ɲpenɲs dɲ cɲnção “A Pɲlo Seco”, mɲs de todo o posicionɲmento (COSTA, 2001, p. 178).

Costɲ (2001, p.115) ɲcreditɲ que “esse jeito de construir o próprio discurso como umɲ polêmica hipotetizada, em que os argumentos estão construídos de forma francamente parcial pelo locutor”, ɲpresentɲ ɲindɲ trɲços, como: desespero e contentamento, articulação de realidades contraditórias, aridez e uma característica pletora discursiva.

Entre as características que tomam parte na elaboração desse ethos comum ao posicionamento Pessoal do Ceará, o desespero e o descontentamento referem-se, segundo Costa (2001, p. 179), ɲo fɲto de o “ceɲrense ser construído pelɲs cɲnções do posicionɲmento como aquele que vive todos os momentos impregnado de amargura e tristeza, o que alimenta seu fazer poético”. O ɲutor elege como exemplo dessɲ cɲrɲcterísticɲ ɲs cɲnções: “Nɲsci pɲrɲ chorɲr - Born to cry”, Dion/Dimucci - versão: Erasmo Carlos, por Fagner, 1973), “Como se fosse” (Fɲgner/Cɲpinɲm, por Fɲgner, 1973), “Mucuripe” (Fɲgner/Belchior, por FAGNER, 1973), “Moto I” (Fɲgner/Belchior, por FAGNER, 1973) e “Nɲ horɲ do ɲlmoço” (Belchior, 1974).

Já o sentimento da articulação de realidades contraditórias nos cearenses vem acompanhado de desconforto e angústia, por isso buscam articulá-las ou exorcizá-las. São exemplos: “Beco dos ɳɲleiros (pɲpéis de chocolɲte)”, P. Mɲiɲ/A. J. Brɲndão, por Fɲgner, 1975); “ABC” (Fɲgner/Fɲusto Nilo, 1976), “Conflito” (P. Mɲiɲ/Climério, 1976); “Sɲnto e demônio” (Fɲgner/Ricɲrdo Bezerrɲ, por Amelinhɲ, 1977); “Trɲduzir-se” (Fɲgner/Ferreirɲ Gullɲr, 1981).

No tocante à aridez, Costa( 2001, p. 182) utiliza os seguinte argumentos para afirmar que essa é a característica que os cearenses melhor incorporam:

está presente não só em elementos de conteúdo, mas nas opções estéticas (vocais, instrumentais etc.) e na legitimação da cenografia validada que o grupo elege, qual seja, o cenário do sertão seco, da natureza desoladora, pouco generosa e dura, que marca

irremediɲvelmente os ɲrtistɲs dɲ região, mesmo os urɳɲnos”)

O autor constatou a presença da aridez nas seguintes canções: “Poɳre ɳichinho”, Fɲgner, por ɲmelinhɲ, 1977); “Ave noturnɲ”, (Fɲgner/Cɲcá Diegues, 1975); “Noturno” (Graco/Caio Sílvio, por Fagner, 1979) “Torpor” (Ednɲrdo, 1979); (“Está escrito”, Ednɲrdo, 1977); (“Cɲuim”, Ednɲrdo, 1978); (“Apenɲs um rɲpɲz lɲtino-ɲmericɲno”, Belchior, 1976); (“Pequeno mɲpɲ do tempo”, Belchior, 1977); “Sensuɲl”, Belchior/Tucɲ, 1978). Costa (2001, p. 182) ainda acrescenta a seguinte informação a respeito da aridez:

representa, igualmente, uma adesão a uma proposta já aberta no campo geral da produção artística nordestina, que é a da estética da seca, explorada por João Cabral de Melo Neto, Jáder de Carvalho (poesia), Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz (romance), Luiz Gonzaga, Jackson do Pɲndeiro (cɲnção) etc”.

Finalmente, com relação à característica pletora discursiva, que é mais notória em Belchior e Fagner, mas também encontrável em Ednardo, essa característica consiste no recurso à deflagração polêmica como uma forma de afirmação do sujeito. É possível encontrá-la nas seguintes cɲnções: “A pɲlo seco”, “Está escrito” (Ednardo, 1977, “Serenɲtɲ prɲ Brɲzilhɲ” (Ednardo, 1980), “Apenɲs um rɲpɲz lɲtino-ɲmericɲno” (Belchior, 1976).

Já para fazer a descrição da corporalidade do investimento ético do posicionamento cearense, Costa (2001) não opta somente pelas canções, mas pela capa dos principais discos, chegando assim à seguinte constatação:

Corpo magro e farta cabeleira é a regra para todos os cantores do grupo (Fagner, Belchior, Ednardo e Rodger Rogério), o que é coerente com a aridez e a indocilidade verificada em sua proposta. Tais traços são também sinalizados pela forma simples de

vestir: cɲmisetɲ (como Fɲgner em “Mɲnerɲ Fru Fru, mɲnerɲ”, 1973; Ednɲrdo em “Ednɲrdo”, 1979, e Rodger em “Pessoɲl do Ceɲrá”, 1972), cɲmisɲ desɲlinhɲdɲ (como Belchior em “Todos os sentidos”, 1978, e Ednɲrdo em “Pessoɲl do Ceɲrá”) ou simplesmente o torso nu (como Belchior em “Corɲção selvɲgem”, 1977; Fɲgner,

tomando banho no açude Orós - CE, em “Orós”, 1977; e Ednɲrdo em “Cɲuim”, 1978);

nɲ cɲɳeçɲ, é comum umɲ ɳoinɲ (Fɲgner em “Eu cɲnto - quem viver chorɲrá”, 1978; e Ednɲrdo em “Azul e encɲrnɲdo”, 1977) ou um chɲpéu de pɲlhɲ (como Ednɲrdo nos discos “Ednɲrdo”, “Cɲuim”, e “Terrɲ dɲ luz”, 1982; e Belchior em “Todos os sentidos”). No rosto, é hɲɳito, principɲlmente em Fɲgner, ɲpresentɲr ɳɲrɳɲ e ɳigodes

Desse modo, exibimos no organograma a seguir um resumo da hierarquia das características que compõem o caráter e a corporalidade do ethos comum do posicionamento Pessoal do Ceará, propostas por Costa (2001):

Quadro 14 - Investimento ético do Pessoal do Ceará

ASPEREZA/SECURA INVESTIMENTO ÉTICO COMUM AO PESSOAL DO CEARÁ CARÁTER CORPORALIDADE ETHOS DE POLEMISTA DESESPERO E

CONTENTAMENTO DISCURSIVAPLETORA

CONTEÚDO, OPÇÕES, ESTÉTICAS, LEGITIMAÇÃO DA CENOGRAFIA VALIDADA ARIDEZ ARTICULAÇÃO DE REALIDADES CONTRADITÓRIAS BARBA E BIGODES

POR FAZER BOINA OU CHAPÉU DE PALHA FORMA SIMPLES DE VESTIR FARTA CABELEIRACORPO MAGRO E

Fonte: Com base em Costa (2001)

Pela hierarquia das características, propostas por Costa (2001), que compõem o ethos comum ao posicionamento Pessoal do Ceará, vimos que a aspereza/secura se sobrepõem às outras, determinando, assim, o caráter e a corporalidade do investimento ético principal do grupo. Desse modo, todas as outras particularidades que tomam parte na formação desse ethos não se distanciam do caminho da aspereza/secura, para mostrar que tal distinção se aplica às várias dimensões da canção (conteúdo, cenografia, jeito de cantar, de tocar etc). Para a nossa pesquisa, interessa analisar a expressão de tal característica do ethos no modo de cantar dos seus principais expoentes - Belchior, Ednardo e Fagner.

Costa (2001, p. 120) finaliza a aplicação dos fatores de definição de agrupamentos regionais ao posicionamento Pessoal do Ceará e aquilo que ele nomeia de “domínios enunciɲtivos” pɲrɲ justificɲr ɲ preferênciɲ dos cɲncionistɲs por “cɲnções de fácil execução, de hɲrmoniɲ simples e previsível, fɲcilmente ɲssimilɲdɲ ɲté por violonistɲs pouco esmerɲdos”.

Identificɲ ɲssim “umɲ estreitɲ relɲção entre o estilo composicionɲl dɲs cɲnções” do grupo e ɲs situações de comunicação na qual as canções foram pré-difundidas:

As músicas cearenses são músicas de rua, característica propiciada pelo ar pacato das cidades onde foram compostas. Mas são também músicas boêmias, não apenas de bar, mas do espaço indistinto entre o bar, a calçada e a rua; não apenas noturnas, mas também ancoradas nos espaços abertos e luminosos das praias e das pontes e calçadões praieiros de Fortaleza. [...] na música cearense a audiência participa ativamente

improvisɲndo ɲ “segundɲ voz”, que ɲs cɲnções plɲnejɲdɲmente pɲrecem solicitɲr. Esse ɲmɳiente propiciɲ iguɲlmente ɲ composição e ɲ práticɲ dɲs serestɲs ou serenɲtɲs. “Ato

de cantar canções de caráter sentimental à noite, pelas ruas, com parada obrigatória

diɲnte dɲs cɲsɲs dɲ nɲmorɲdɲ”, tɲis gêneros são comuns no cɲncioneiro dos ceɲrenses

[...] Mas o gênero não é usado apenas para declarações de amor à amada, como reza a tradição. Servirá como gênero de canção ideal para os investimentos éticos de que falamos [...]. Essas canções mostram-se perfeitamente adequadas a uma das opções camerísticas do grupo: violão de aço, violão de sete cordas, bandolim e percussão. (COSTA, 2001, p. 120).

Esses espaços de pré-difusão das canções interessam a esta pesquisa na medida em que consideramos que mantêm estreita relação com o jeito de cantar de Belchior, Ednardo e Fagner. Julgamos que pelo fato de os espaços de pré-difusão serem abertos, influenciam na adoção da intensidade forte, quase gritada, com a qual grande parte das canções do grupo é cantada.

Como delimitamos a pesquisa apenas a um dos posicionamentos analisados por Costa (2001), qual seja, o Pessoal do Ceará, consideramos, à semelhança do autor, os gestos de autodefinição dos cancionistas Belchior, Ednardo e Fagner no que tange às características das suas vozes cantadas. Tais gestos podem ocorrer nas dimensões verbal e vocal das canções como no plano dos discursos que a referem. Por tal razão, selecionamos para a composição do corpus as canções que trazem de modo mais significativo as características vocais nas quais os cantautores investem e a sua referência nas cenografias, mas também consideramos, como expresso, as capas dos discos e as reportagens, entrevistas etc, nas quais os cantautores versam sobre seu jeito de cantar. Assim, não é nosso objetivo analisar toda a trajetória percorrida por essas vozes, que, a posteriori, passam a figurar como parte do posicionamento MPB21 no discurso literomusical brasileiro, mas apenas materiais (canções e outros gêneros) que mostrem ou refiram o jeito de cantar do grupo em canções do perído de 1974 a 1976.

21 O posicionamento que Costa (2001, p. 87) denomina de MPB se manifesta, como alheio a qualquer tendência e

intencionɲ desempenhɲr o pɲpel de centro nɲ músicɲ populɲr ɳrɲsileirɲ, “o dɲqueles que se dizem ɲcimɲ de quɲlquer