2. Literature Review and Hypotheses
2.3. Bundling
As relações específicas entre textos (relações intertextuais), entre discursos (relações interdiscursivas), entre o sujeito e seu discurso (relações metadiscursivas) que discutimos a seguir com base em Costa (2001, 2009), compõem o dispositivo teórico da nossa pesquisa, porque
possibilitam mostrar na cenografia, ou fazer referência de forma mais direta ao investimento vocal da enunciação ou a outras vozes ou modos de cantar. Já quando ocorre o inverso, ou seja, os trechos que representam o investimento vocal do cantor que está cantando a canção ou outro investimento vocal diferente do dele recebem também destaque no investimento vocal. Como detalhamos no próximo capítulo, afirmamos que há, nesses casos, relações vocoverbais. Como, na canção, a dimensão verbal não se separa da parte vocal, tentamos estruturar também, com base nas relações propostas por Costa (2001), as relações vocais, ou seja, entre os investimentos vocais ou entre o investimento vocal e outras vozes (relações intervocais) e entre os elementos de um mesmo investimento vocal (relações metavocais).
A) As relações intertextuais
Como foi visto, apesar de Maingueneau (2006b, p.165) conceber a intertextualidade como um dos fatores de definição de posicionamentos de uma prática discursiva situada em um determinado momento histórico, ele não elabora ainda um esquema das suas possíveis ocorrências, como também não separa claramente as relações entre textos das relações entre discursos, como é possível perceber quando o autor trata da intertextualidade externa e da intertextualidade interna. Por tal razão, é que Costa (2001) aplica ao discurso literomusical brasileiro a classificação das relações discursivas baseada na sistematização que Nathalie Piégay- Gros (1996) faz da abordagem da intertextualidade em Kristeva (1969) e em Gennette (1989).
Quando Costa (2001) adapta para ao discurso literomusical a tipologia de Piegay- Gros (1996), aplicada ao discurso literário, o autor conserva as relações de copresença (citação, referência, plágio e alusão), mas ele modifica as relações de derivação (paródia, travestismo burlesco e pastiche), alegando o mesmo problema já apontado por Maingueneau (1997), qual seja, o conceito de paródia ter historicamente adquirido um sentido depreciativo. Portanto, Costa (2001) adota o conceito de imitação, proposto por Maingueneau (1997), para modificar a relações de derivação propostas por Piegay-Gros (1996). A imitação, por sua vez, pode assumir dois valores opostos: a captação e a subversão. No primeiro, um locutor, para usufruir da autoridade da estrutura composicional de um gênero, apreende-a e fornece algum indício de que o fez, marcando, assim, a sua filiação a determinado estilo, escola ou doutrina estética. Já no segundo, o locutor pretende desqualificar essa estrutra no próprio movimento dessa imitação.
Logo, a imitação, independentemente de qual valor assume, captativo ou subversivo, sempre está na dependência da cooperação do leitor ou ouvinte para atingir sua eficácia, já que ela se faz pelo apagamento do texto literal alheio. No tocante às relações de copresença, Bezerra (2005) argumenta que a referência envolve a alusão, já que uma alusão é sempre uma referência, embora indireta, mas uma referência nem sempre é uma alusão, porque ela pode ser feita de forma bem mais direta. Vejamos então um esquema das relações intertextuais nas considerações de Costa (2001; 2011) e Bezerra (2005).
Quadro 8- Relações intertextuais
Fonte: Com base em Costa (2001; 2011); Bezerra (2005)
Utilizamos as relações de copresença tal como figuram no quadro 8 por considerarmos que serão mais úteis na análise das relações intertextuais no espɲço “interno” do texto, ou seja, na cenografia. Questionamos, no entanto, se as atitudes de captação e subversão também não podem ser aplicados a elas, já que, inicialmente, Maingueneau (1997) trata da incidência de tais valores sobre a estrutura composicional de um gênero, mas, posteriormente, pondera que a imitação, captativa ou subversiva, também poderá recair sobre um texto singular. Portanto, consideramos que os valores da captação ou subversão do gênero podem ser estendidos às relações de copresença do nível textual cuja mobilização por outro texto não se faz de forma neutra. Além disso, interessa para a nossa investigação o fato de as relações intertextuais, assim como das relações metadiscursivas15, apontarem, embora de maneira mais indireta do que essas, para uma referência ao investimento vocal da enunciação e para uma projeção de outros investimento vocais na cenografia.
Como visto, contudo, dada a natureza multissemiótica da canção, consideramos não apenas a dimensão verbal (relações entre letras de canções ou entre letras de canções e outros textos), mas também a vocal (relações entre investimentos vocais) e a vocoverbal (relações entre os investimentos vocais e a sua referência na cenografia), pois julgamos que talvez a expressão relações intertextuais não dê conta dessas dimensões. Por isso, decidimos reservá-la para as relações entre letras de canções ou entre letras de canções e outros textos que manifestam os investimentos vocais do posicionamento discursivo. Já para os estudos das relações entre os investimentos vocais, que desenvolvemos no próximo capítulo, consideramos que a expressão relações intervocais, baseada no conceito de intervocalidade estabelecido por Zumthor (1993, p.144) como “trocɲs de pɲlɲvrɲs e de conivênciɲ sonorɲ” pode tɲmɳém ser de considerável serventia, embora, no caso da nossa pesquisa, a noção de relação intervocais designe especificamente a troca entre diferentes modos de cantar e outras vozes distantes da prática discursiva literomusical. Abordamos, no esquema seguinte, as relações entre si das dimensões vocal e verbal das canções:
Quadro 9- Relações entre canções.
RELAÇÕES INTERTEXTUAIS RELAÇÕES ENTRE
CANÇÕES
RELAÇÕES
INTERVOCAIS INVESTIMENTOS VOCAISRELAÇÕES ENTRE
RELAÇÕES ENTRE AS LETRAS DAS
CANÇÕES
Fonte: Com base em Costa (2009) e em Zumthor (1997)
Apesar de a intervocalidade, estabelecida por Zumthor (1993), abranger a intertextualidade, optamos por manter ambos os conceitos, já que utilizamos o primeiro em um sentido mais estreito apenas para designar as relações entre os diferentes investimentos vocais e o segundo para tratar das relações entre textos que os manifestam situados na dimensão verbal das canções. Outra razão que nos leva a manter a segunda categoria, como visto, é a existência de uma tipologia dessas formas singulares de intertextualidade (citação, referência etc) já aplicada por Costa (2001, 2009) e Bezerra (2005) ao discurso literomusical, a qual poderá nos guiar de
maneira mais eficaz na investigação da referência ao investimento vocal nas letras das canções do que a intervocalidade proposta por Zumthor que a engloba.
Julgamos, ainda, que, tanto as relações intervocais como as relações intertextuais, atuam respectivamente no sentido de mostrar e referir a imagem do modo de cantar de outros posicionamentos, com a qual o posicionamento em análise se relaciona, de forma captativa ou subversiva, a fim de definir indiretamente o próprio ethos discursivo e projetar um ethos para o outro, os quais permeiam tanto a dimensão vocal como a dimensão verbal da canção.
B) As relações interdiscursivas
Costa (2011) adapta para o que designa como relações interdiscursivas, ou seja, a relação entre discursos ou entre um discurso e o suposto exterior discursivo, a reformulação que faz da classificação dos mecanismos intertextuais esquematizados por Piégay-Gross. Costa (2001, p. 39) esclɲrece, contudo, que: “o oɳjeto dɲ interdiscursividɲde não é o texto, mɲs os elementos habitados por outras esferas, registros discursivos e até mesmo lingüísticos, ou ainda quando se reporta a etos, gestos e esquemas [...] de outras práticɲs discursivɲs”. Apresentɲmos, então, no quadro a seguir, as estratégias para instaurar a interdiscursividade ou relações interdiscursivas, como reformuladas e adaptadas por Costa (2011, p. 51):
Quadro 10- Mecanismos de interdiscursividade
Relações Interdiscursivas Relações de copresença Referência Cenografia validada16; ethos; palavras; códigos de linguagem; gêneros etc. Alusão Relações de Imitação Captativa Subversiva Interdiscursividade lexical Metáfora Polissemia Argumentação Fonte: Costa (2011, p. 51).
Temos assim, consoante Costa (2001, p. 39), os seguintes casos:
16
Costa (2001) parece empregar indistintamente as expreessões cenografia validada e cena validade a despeito de Maingueneau (2004) preferir a segunda denominação, pelo fato de a cena não estar materializada textualmente, mas constituir-se em uma espécie de modelo que goza de autonomia, por já fazer parte da memória discursiva dos sujeitos e poder ser reinvestido em outros textos, do mesmo modo que ocorre com os acontecimentos históricos e/ou as cenas genéricas. Neste trabalho, também optamos, assim como o Autor franês, pela segunda denominação.
a) referência interdiscursiva: quando um texto pertencente a uma formação discursiva comenta, representa, descreve, em suma, se refere de alguma forma a outra formação discursiva ou ao interdiscurso;
b) alusão interdiscursiva: a alusão, neste caso, é uma maneira engenhosa de se referir à palavra ou à linguagem do exterior discursivo, utilizando-se de recursos como o jogo de palavras, a implicitação e o disfarce, dentre outros; dispensando a menção de personagens, cenários e autores (referência discursiva) e, principalmente, a reportação de trechos de textos alheios (citação intertextual);
c) captação interdiscursiva: um texto pode representar cenografias validadas pertencentes a outras práticas discursivas. Podemos citar como exemplo certos poemas de caráter religioso cuja cenografia se apóia em cenários referentes aos episódios bíblicos. Pode também mimetizar o etos de outros discursos para legitimar seu discurso. É o caso de um professor que, ao dar a sua aula, imita a postura do cientista.
d) subversão interdiscursiva: textos podem incorporar parodicamente etos, cenários validados, códigos de linguagem etc. de outras formações discursivas para subvertê-los, legitimando-se por oposição.
O autor adverte ainda para o fato de que, a interdiscursividade, apesar de ser é um fenômeno de natureza enunciativa, também pode recair sobre a palavra, o que ele denomina de interdiscursividade lexical. Neste caso, segundo Costa (2001, p.39-40), é a palavra que provoca a remissão ɲ umɲ outrɲ reɲlidɲde enunciɲtivɲ”, como ocorre nɲ polissemiɲ, nɲ ɲrgumentɲção, nɲ metáfora etc. De acordo com o autor, o estudo de tais fenômenos, que os restrigem ao âmbito da palavra, pode ser enriquecido, se realizado sob uma óptica discursiva e dialógica. Tal concepção levaria em conta, portanto, que as palavras, quando enunciadas, estão sempre grávidas das diversas práticas discursivas que delas se utilizam para interagir na sociedade. Portanto, esses “mecɲnismos semânticos” ɲssumiriɲm, nessɲs práticɲs, ɲs seguintes funções, com ɳɲse em Costɲ (2001, p. 40):
ɲ) lugɲr de “confronto” entre [...] “diferentes esferɲs discursivɲs”; ɳ) “linkentre duɲs formɲções discursivɲs”;
c) “elo de ligɲção entre linguagens referentes a extratos sociais, gêneros de discurso, estilos, formɲções discursivɲs etc”.
Portanto, nesta pesquisa, empregamos o conceito de relações interdiscursivas para analisar como ocorre a referência ao investimento vocal do Pessoal do Ceará mediante a captação ou subversão de cenas; ethos; palavras (lexical); códigos de linguagem; gêneros etc., legitimados em outras práticas discursivas. Portanto, a interdiscursividade tem relação com o ethos sugerido na dimensão textual (ethos dito indiretamente), já que pode corresponder à evocação de uma cena e não de um texto, porque, nesse caso, seria intertextualidade, na qual se manifesta ou projeta o
modo de cantar, tomado como modelo ou um antimodelo da cena que é apresentada na canção de origem.
C) As relações metadiscursivas
Costa (2001, 48-49), em sua análise do discurso literomusical, considera, principɲlmente, ɲ fɲcetɲ desse conceito relɲtivɲ “ɲo processo segundo o quɲl o discurso de um locutor tem como objeto seu próprio discurso, constituindo a si mesmo como alteridade, ou seu próprio discurso como outro”. Assim, nɲ esteirɲ de Mɲingueneɲu (1997), considerɲ que ɲs operações metadiscursivas supõem, por parte do sujeito enunciador, uma gestão, uma regulação da enunciação ante as coerções imediatas ou gerais do posicionamento.
Com base nesse trabalho, o autor em coautoria com Bezerra (2004), constata que a metadiscursividade na canção pode se manifestar de duas formas - a metacanção e a canção metadiscursiva - no entanto, ambas com o mesmo objetivo final: aludir ao discurso literomusical. A metacanção faz algum tipo de menção a si mesma, a qual pode ser explícita, quando o enunciador fala sobre a própria canção ao cantá-la, e implícita, quando há referência ao gênero ou a instrumentos utilizados na canção. Já as canções metadiscursivas fazem referência ao próprio discurso literomusical, como podemos conferir no esquema elaborado na sequência com base nas ideias dos autores.
Quadro 11- Metadiscursividade em canções
METACANÇÃO METADISCURSIVIDADE EM CANÇÕES CANÇÕES METADISCURSIVAS IMPLÍCITA EXPLÍCITA Fonte: Com base em Costa e Bezerra (2004).
O ponto de convergência entre as relações metadiscursivas nas canções estabelecidas por Costa e Bezerra (2004), qual seja, o da relação entre o sujeito, a canção e o discurso literomusical, é o que interessa de fato a esta pesquisa, por permitir, segundo Costa (2011, p. 56),
que um locutor que tem como objeto seu discurso constitua a si mesmo como alteridade, ou seu discurso como outro, mɲnifestɲndo umɲ “consciênciɲ de si de umɲ práticɲ discursivɲ e legitimando as condições enunciɲtivɲs que possiɳilitɲm seu fɲlɲr”.
Portanto, utilizamos os conceitos de metacanção e canção metadiscursiva, propostos por Costa e Bezerra (2004), sempre que as letras das canções contêm palavras e expressões relacionadas ao campo da voz, o que consideramos caracterizar uma referência ao investimento vocal. Quando tais recursos se constituem em expressões dêiticas que autorreferem o que está sendo cantado no momento da enunciação, fazendo coincidir a canção com ela mesma, diremos que se trata de uma metacanção. Já o conceito de canção metadiscursiva será utilizado para aqueles casos nos quais a referência ao investimento vocal não recai sobre a própria canção, mas sobre a prática discursiva literomusical na qual está inserida.
Esse caráter autorreflexivo em relação à voz é constatado nas canções que fazem menção ao canto, o que configura validação e legitimação do investimento vocal na cenografia. Julgamos, assim, que, ao investir em procedimentos metadiscursivos que representam no nível verbal a sua relação com o seu modo de cantar, como ocorre nas canções do Pessoal do Ceará, o sujeito demarca determinada posição no espaço discursivo, distanciando-se de ou dialogando com outras, contribuindo, assim, para o exercício desse posicionamento no discurso literomusical brasileiro. Maingueneau e Charaudeau (2004, p. 326) asseveram que, nos enunciados em que há esse jogo metadiscursivo, o locutor tem muito interesse em instaurar na enunciação um ethos de um “homem ɲtento ɲ seu próprio discurso ou ɲo discurso dos outros”.
Observamos que as relações metadiscursivas na perspectiva de Costa e Bezerra (2004) mantêm vínculo com a instauração do ethos discursivo efetivo que, por sua vez, resulta da interação do ethos mostrado na dimensões vocal e do ethos dito (direta e indiretamente) nas cenografias das canções. Portanto, é necessário usá-las para apreender as referências ao investimento vocal, do qual o posicionamento Pessoal do Ceará lança mão para se configurar no discurso literomusical brasileiro.