Para Comenius, a função da escola e do docente é despertar a inteligência dos alunos por meios adequados, visto que é inerente ao ser humano a busca do conhecimento, para que tal ocorra as escolas devem ter como objetivo ser uma verdadeira oficina de homens. Para tanto, há necessidade dos seus dirigentes se
conscientizarem quanto a três fundamentos essenciais na educação escolar: a instrução, a moral e a piedade.
A moral é compreendida como sendo a arte de formar costumes e possui dezesseis cânones fundamentais, que estão inseridos na concepção teológica de Comenius (1997, pp. 263-270) na Didática magna, visto que para ele, o homem é “imagem e semelhança de Deus”, necessitando ser verdadeiramente formado para que seja homem:
1) Devem-se implantar nos jovens as sementes de todas as virtudes, sem exclusão de nenhuma.
2) Devem ser ensinadas as virtudes principais, chamadas de cardeais, que são: a prudência, a temperança, a fortaleza e a justiça, para que não se construa um edifício que não tenha fundações e cujas partes, por não estarem bem fixadas, assentem mal sobre suas bases.
3) A prudência deve ser adquirida por uma boa educação, aprendendo-se as verdadeiras diferenças e o valor das coisas. Valor refere-se, especialmente, à capacidade de julgar as coisas com exatidão e com verdadeira sabedoria:
Que o homem, pois, se habitue [...] desde pequeno a ter opiniões exatas sobre as coisas que devem crescer juntamente com a idade. E que se apegue às boas, fugindo das ruins, para que nele o hábito de agir corretamente se torne natural” (COMENIUS, 1997, p. 264).
4) Que os homens aprendam a temperança para que se habituem a observá-la sempre durante todo o período de sua educação, no comer e no beber, no sono e na vigília, no trabalho e na diversão, no falar e no calar (COMENIUS, 1997, p. 264).
5) Para adquirir fortaleza, é preciso vencer a si mesmo; cumpre moderar a vontade de vagabundear ou divertir-se muito e além do justo; e deve-se frear a impaciência, o descontentamento, a ira (COMENIUS, 1997, p. 265). A base desse princípio é a razão. Deve-se agir por razão, e não por paixão ou impulso, visto que o homem é um ser racional e deve habituar-
se a ser guiado pela razão, perguntando sempre, ao agir, o que, por que e como fazer corretamente as coisas (COMENIUS, 1997, p. 265).
6) Que os homens aprendam a justiça sem prejudicar ninguém, dando a cada um o que lhe pertence, fugindo da mentira e do engodo, mostrando- se sempre habilidosos e amáveis.
7) Deve-se cultivar dois tipos de fortaleza: a franqueza honesta e a tolerância do trabalho, ambos absolutamente necessários aos jovens. A razão desse costume moral consiste no fato de que é preciso ensinar os jovens a olhar os outros homens de frente e a suportar qualquer tipo de trabalho honesto, para que não se tornem como aqueles que fogem da luz, parasitas e pesos inúteis. A virtude cultiva-se com fatos, não com palavras.
8) A franqueza honesta é adquirida nos relacionamentos com pessoas honestas e no comportar-se atenciosamente com elas, como se deve. 9) Os jovens aprenderão a tolerar o trabalho se estiverem sempre fazendo alguma coisa, de sério ou de agradável. Há dois aspectos nessa questão: a) O trabalho é importante, independentemente do que se esteja fazendo, é necessário sempre ter a mente ocupada. b) É fazendo que se aprende a fazer (COMENIUS, 1997, p. 267). Portanto, o trabalho se aprende na prática e não somente na teoria.
10) Virtude, relacionada com a justiça, é o prazer e a presteza em ajudar os outros: essa deve estar entre as primeiras lições instiladas nos jovens. Comenius afirma que não devemos ser egoístas, pois isso faz parte da natureza corrupta, e é também a fonte de contínuas e múltiplas confusões nas ações humanas, pois cada um se preocupa consigo mesmo e continua indiferente ao bem público; por isso, deve-se inculcar bem nos jovens a finalidade de nossa vida, qual seja, não se nasce apenas para si mesmo, mas para Deus e para o próximo, isto é, para a sociedade humana.
Se [os jovens] estiverem bem convencidos disso, habituar-se-ão desde crianças a imitar a Deus, os anjos, o sol e todas as criaturas mais
generosas, desejando ser úteis e esforçando-se por ajudar o maior número possível de pessoas. Feliz seria então a condição das questões públicas e privadas se todos quisessem e pudessem cooperar com os interesses comuns e se ajudassem mutuamente. Se assim forem instruídos, os jovens deverão saber e querer que seja dessa forma (COMENIUS, 1997, p. 267).
11) A formação para a virtude deve iniciar na mais tenra idade, antes que os espíritos contraiam vícios. É de extrema importância que os jovens se habituem à virtude desde a mais tenra idade, pois o vaso novo conserva por muito tempo o cheiro com que primeiro se impregnou (COMENIUS, 1997, p. 268).
12) Aprendem-se as virtudes praticando a honestidade. Só há uma forma de se compreender o que é correto, conhecendo o que deve ser conhecido (COMENIUS, 1997, p. 268). Sendo assim, não podem faltar os bons exemplos para as crianças.
13) Os pais, os preceptores e as amas devem dar exemplos de vida. Verifica-se, aqui, a necessidade de se ensinar não só com discursos teóricos, mas com exemplos práticos de vida. Com o mesmo pressuposto em mente, Comenius compreende a necessidade de que os pais devem dar exemplos de honestidade, perfeitos guardiães da disciplina familiar, bem como as amas e os preceptores devem ser exemplos de orientação e cuidado aos jovens (COMENIUS, 1997, p. 268).
14) Ao exemplo, é necessário acrescentar preceitos e regras de vida. O objetivo deve ser a correção, que é ajudada através do exemplo e da imitação. As regras devem ser extraídas das Escrituras e das palavras dos sábios (COMENIUS, 1997, p. 268).
15) É necessário manter os filhos longe das más companhias (COMENIUS, 1997, p. 269). Por natureza, os males são aprendidos com maior facilidade. Por essa razão, deve-se buscar afastar os jovens das ocasiões e pessoas que possam lhes corromper.
Realmente, é pela corrupção da natureza que os males medram com maior facilidade e vigor; por isso, é preciso lançar mão de todos os meios para afastar os jovens das ocasiões em que podem ser corrompidos, tais como as más companhias, o palavreado obsceno, os livros inúteis e fúteis (os exemplos de vícios, que penetram através dos olhos e dos ouvidos, são um veneno para a alma) e o ócio, para que os espíritos não aprendam a agir mal por não terem o que fazer e não se tornem preguiçosos. Por isso, é importante mantê-los sempre ocupados, em coisas sérias ou divertidas, e nunca os deixar ociosos (COMENIUS, 1997, p. 269).
16) Como é impossível estar sempre tão atento a ponto de impedir que um pouco de mal se insinue, é necessário a disciplina para defender-se dos maus costumes. Devido ao fato de satanás semear sementes ruins nos bons campos, há necessidade de uma disciplina rígida nas escolas, principalmente voltada para o ensino da moral.
Assim, conforme exposto nesses dezesseis cânones, Comenius parecer compreender o termo moral como “costume”. Portanto, se desejamos que a escola seja uma verdadeira oficina de homens, devemos atentar para a formação dos bons costumes, ou a moral, cuja essência deve ter como fundamento as seguintes virtudes principais: prudência, temperança, fortaleza e justiça. E essa moral deve ser incutida, como propõe Comenius, desde cedo.