Tal como anteriormente mencionado, consideramos necessário um trabalho de (re) educação da sociedade em geral, para que possam ser evitadas descriminações contra as pessoas idosas. Presenciamos habitualmente circunstâncias onde são negadas oportunidades aos mais velhos, o que muitas vezes se torna numa situação de injustiça social, baseada na idade (idadismo). Contudo, Carrageta refere ter uma perspetiva positiva sobre a passagem de estatuto de trabalhador, ao estatuto de idoso, pois:
Pela primeira vez na história da humanidade ser idoso não é uma exceção mas antes fazer parte de uma maioria, pelo que as gerações mais velhas irão progressivamente ganhar o poder necessário para se atingir o equilíbrio social. (Carrageta, 2012 disponível em:
www.envelhecimentoativo.pt/testemunho.asp?tit=12&id=140, consultado a 7/09/2012).
Podemos afirmar que parte do problema está na forma como a sociedade vê os mais velhos, contudo também pode estar em como os mais velhos se veem a si mesmos.
Squire (2002) afirma que para algumas pessoas com cerca de 50 anos, a considerada “meia-idade” pode constituir um período precioso e recompensador, no qual podem gozar os frutos do seu trabalho, deixar de ter responsabilidades sobre os filhos e estar desejosos de apreciar novas tarefas e atividades. Para outros pode não ser uma experiência tão positiva, marcada pela redundância, insegurança financeira, luto e pelas alterações físicas do envelhecimento.
A autora defende ainda que “ (…) a ameaça do envelhecimento, da reforma e da doença é, de longe, maior para aqueles que não têm o apoio financeiro ou social de que precisam” (Squire, 2002, p. 30).
Como sabemos, a reforma não afeta apenas o rendimento da pessoa idosa, mas pode ter, também, um efeito prejudicial sobre o seu contacto e estatutos sociais. Para alguns, a reforma é encarada como um processo de perda: perda de rendimento, perda de estatuto, perda de sentido e perda de rotinas, contudo para outros, felizmente, essas perdas são vistas como uma bonificação positiva.
O contacto social é importante, mas a reforma não significa, necessariamente, que este se perca. Há outras redes sociais disponíveis no seio da comunidade relacionadas com a ocupação dos tempos livres.
Squire (2002) evidencia que a reforma não tem nem deve ser a época em que nos devemos fechar ao mundo, antes pelo contrário, esta pode oferecer a oportunidade de procurar um interesse a longo - prazo, tal como aprender a tocar um instrumento musical ou o envolvimento na política local. Pode, ainda, envolver atividades relacionadas com a saúde e o desporto.
Desta forma, é importante envolvermo-nos em atividades gratificantes que ocupem o tempo livre de que iremos dispor, que nos ajudem a sentirmo-nos melhor, a aceitarmo-nos a nós próprios e aos outros.
Porém, o momento em que o ser humano se aposenta, implica uma mudança fundamental para ele: “ (…) os pontos de referência que tinha até aquele momento variam e, paralelamente, a situação profissional e económica sofre uma mudança importante” (Géis 2003, p. 28). Esta mudança, obrigatória socialmente é, por vezes, difícil de ser superada e aceite.
Ribeirinho (2012) menciona que nos dias de hoje ainda predomina “ (…) a visão tradicional da pessoa idosa como alguém inútil, isolado, em declínio biológico e mental, marcado por um tempo linear, com problemas de saúde e, na maioria das vezes, dependente física e economicamente de alguém – imagem estigmatizante de “espera pela morte” (Ribeirinho, 2012, p. 55). É certo que estando associado ao envelhecimento um conjunto de acontecimentos negativos, a sociedade em geral acostumou-se, de forma já enraizada, a ter uma perspetiva do envelhecimento associada à inutilidade social e profissional, e à dependência, o que torna muito difícil pensar-se noutras perspetivas a não ser as que se ligam diretamente a perdas (de pessoas e/ou de estatutos) e a défices (sobretudo cognitivos). Ou seja, quase estamos impossibilitados de ver os mais velhos como pessoas portadoras de um grande e valioso capital social, constituído de saberes, experiências e histórias acumulados, devido à visão estereotipada sobre a velhice.
Tendo em conta que os profissionais da área do envelhecimento também são parte integrante da sociedade, “ (…) são também influenciados por esta visão, a qual terão que superar para poderem desenvolver uma intervenção verdadeiramente comprometida com os direitos humanos” (Ribeirinho, 2012, p. 55). A autora refere ainda que se pretende que os profissionais da área da Gerontologia sejam capazes de desenvolver competências relacionais, “ (…) uma vez que colocar-se em relação é uma competência fundamental, ao mesmo nível que as outras competências (teóricas e metodológicas) ” (Ribeirinho, 2012, p. 56). Assim, não esquecendo que trabalhamos com pessoas portadoras de histórias de vida diferentes, e também elas possuem formas de ser e estar diferentes, cabe-nos através das “competências relacionais” construir uma relação de proximidade, na qual sejamos capazes de despertar nos Seniores a capacidade de desenvolvimento de atitudes positivas face a si mesmos e face à etapa da vida em que se encontram, para que a vivência de experiências positivas e gratificantes possam advir das suas capacidades de comunicação e de relação, como “ (…) processo de crescimento/desenvolvimento pessoal e de busca de sentido para a sua vida” (Ribeirinho, 2012, p. 57)
É neste momento, que enquanto profissionais da área, antes de qualquer intervenção devemos preparar-nos para sermos capazes de preparar uma intervenção junto da comunidade,
tendo sempre em conta a dignidade da pessoa humana, para tal é da nossa responsabilidade estar alerta, para poder intervir em todos os aspetos que estejam ao nosso alcance, com o objetivo de evitar crises, depressões, estados de ansiedade, situações de tristeza e solidão e de tornar proveitoso o tempo livre dos idosos. O desafio que nos é colocado, é o do saber inovar nas nossas práticas, de forma a alterar os nossos comportamentos e atitudes e os modelos de intervenção desatualizados, para que simultaneamente consigamos gerar um processo de transformação na comunidade onde intervimos. Sendo que é essencial:
Desenvolver uma intervenção que vá para além de uma abordagem centrada nos problemas e nas patologias o que implica alicerçar a intervenção numa visão sistémica, holística, integrada e integral das pessoas idosas, dos seus contextos e das suas trajetórias de vida (perfis, necessidades, expetativas, motivações) (Ribeirinho, 2012, p. 61).