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Provincial Field Research Findings

6. The CDCs 1 Mobarak Shah

O programa O homem do sapato branco (1963) da TV Cultura, apresentado por Jacinto Figueira Junior, foi o pioneiro no cenário do jornalismo policialesco no Brasil.

Esse programa tem grande relevância não só por ser o primeiro, mas pelo impacto simbólico que sua postura e linguagem geraram: o apresentador utilizava sapatos brancos, assim como médicos, pois se dispunha a fazer a função de médico à sociedade, ao povo. Esse foi o primeiro programa que colocou de fato casais para brigar, mostrando o enfrentamento entre familiares, sendo interrompido no mesmo ano por problemas com a ditadura militar e retomado nos anos 1980. Tal maneira de apresentar denota, desde então, o anseio em colocar em choque, internamente, a população em seu programa,

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IASI, Mauro. Violência e ideologia. Artigo publicado no site do Blog da Boitempo. Disponível em

79 mostrando seus problemas em uma arena televisiva pública (BARATA, 2011, p. 33-34).

Desde então, outros programas desse tipo ganharam repercussão e aceitação nacional – um deles foi o Cadeia, de Alborgheti.

Outro programa relevante para a formação da mídia policial televisiva no Brasil foi o Cadeia, apresentado por Luis Carlos Alborgheti, que foi incialmente transmitido em 1979, somente para a cidade de Londrina, por um período de 5 minutos, que, de acordo com o site do apresentador, cresceu de modo progressivo, atingindo todo o Estado do Paraná. Enquanto o homem do sapato branco se colocava como presença solucionadora, ou de mediação de conflitos, de cura, ou de saneamento como um médico, Alborgheti caracterizava-se por sua agressividade diante das próprias notícias que apresentava, bem como em relação à sua equipe técnica (BARATA, 2011, p. 34-35).

O programa Aqui Agora, marco do jornalismo policialesco brasileiro, teve sua origem em 1991.

[...] tratava-se de um programa jornalístico policial que tinha dois âncoras apresentando notícias e repórteres de campo, sendo três de seus mais famosos Celso Russomano, candidato derrotado ao Governo de São Paulo em 2010, que fazia o quadro Defesa do

consumidor, Gil Gomes, repórter dos crimes mais hediondos e

grotescos com um pesado tom narrativo, e Jacinto Figueira Júnior, o

homem do sapato branco. Apesar de contar com tal tipo de

cobertura, o Aqui Agora aparentemente almejava uma visão menos opinativa das notícias veiculadas [...] pelo fato de seus âncoras permanecerem sentados como em outros telejornais convencionais fazendo as chamadas para os repórteres de campo (BARATA, 2011, p. 36).

Gil Gomes, um repórter peculiar, destacou-se entre seus colegas. Seu estilo o consagrou como referência no jornalismo policial, tendo em vista que influenciou outros apresentadores que conduziram outros programas nas diversas redes de televisão do país.

Muitos estudos apontam o programa Aqui Agora, que consagrou o estilo do repórter Gil Gomes, como um dos principais precursores do gênero. Segundo Borges (2002), até então, esse tipo de abordagem tinha uma participação restrita dentro de alguns programas ou jornais [...] O programa, que estreou no SBT em 1991, era transmitido nos

80 fins de tarde e tinha como slogan frases como: “um jornal vibrante que mostra na TV a vida como ela é!” ou “um jornal independente que mostra na TV a vida como ela é!”. Alguns de seus elementos mais marcantes eram as reportagens em que o cinegrafista, com a câmera na mão, acompanhava Gil Gomes, enquanto este apresentava as cenas de forma dramática, com entonações de voz marcantes e gestos bruscos [...] (ROMÃO, 2013, p. 35).

Gil Gomes despertou a atenção de muitas pessoas. Segundo pesquisa apontada por Costa (1989), ele era tratado pelos fãs como homem bom, justiceiro,

educador, entre outros adjetivos.

[...] Costa (1989) ressalta a relação estabelecida entre os ouvintes e telespectadores do programa e Gil Gomes. De acordo com o levantamento das cartas recebidas pelo radialista feito pela autora, Gil Gomes é tratado por seus fãs como um amigo, conselheiro, justiceiro, detetive e educador: em suma, um homem bom, para o qual diversas queixas eram dirigidas. Nessas cartas também podem ser encontrados depoimentos sinceros com opiniões sobre os programas. Entre os temas elencados por Costa (1989) temos: sugestões para o combate à violência; pedidos diversos feitos ao radialista; reclamações sobre o governo, polícia ou Justiça; cartas de amor e até cartas com temas sobrenaturais (BARATA, 2011, p. 37).

O programa Aqui Agora atingiu altos níveis de audiência e durou, aproximadamente, 6 anos. Segundo Periago (2004),

Além de notícias corriqueiras sobre celebridades e curiosidades, o programa centrava-se, especialmente, em casos policiais, ressaltando aspectos grotescos e crimes escandalosos. Assim, o

Aqui e Agora conseguiu atingir uma faixa de mercado até então

pouco explorada pelo jornalismo televisivo: com seu formato agitado e sensacionalista, visando à audiência das classes C, D e E, o programa alcançou níveis extraordinários de audiência, no seu melhor período variando entre 16 e 29 pontos de IBOPE (apud ROMÃO, 2013, p. 36).

Após a queda de audiência o programa foi encerrado, porém, deixou seu legado: mostrou a todas as redes de televisão (interessadas) que o mercado de jornalismo policial no Brasil estava pronto para ser explorado.

Com a queda da popularidade e o consequente fim do Aqui Agora, em 1997, uma série de programas foi lançada por praticamente todas

81 as redes privadas de televisão na tentativa de conquistar esse público; Na Rota do Crime (Rede Manchete), 190 Urgente e Cadeia

Alborgheti (Rede Gazeta), Tempo Quente (Rede Bandeirantes), Repórter Cidadão (Rede TV!), Brasil Urgente (Rede Bandeirantes), Cidade Alerta (Rede Record), ou mesmo o Linha Direta (Rede Globo)

(ROMÂO, 2013, p. 36).

Com o passar do tempo, esses programas tornaram-se mais sofisticados. O programa Linha Direta da Rede Globo, por exemplo, apresentou algumas características que o diferenciava dos demais programas. A mistura entre notícias, denúncias e dramaturgia apresentou-se como uma inovação. Além disso, o público podia interagir com o programa através da denúncia (via contato telefônico) dos “criminosos” os quais tinham suas imagens expostas em cada edição. Esse programa teve, em sua trajetória, dois apresentadores que diferiam em postura e comportamento.

Ademais, a interatividade proposta pelo Linha Direta pode colocar os participantes enquanto protagonistas do programa, tendo este procedido à denúncia de algum suspeito que apareceu no programa. No que se refere à performance dos âncoras do Linha Direta, é notável que Domingos Meirelles assuma um tom mais sóbrio, ponderado e menos agressivo que Marcelo Rezende, o que o aproxima do “padrão Globo” de jornalismo (OLIVEIRA, 2007, p. 171). Nesse sentido, o programa abusa não somente das simulações, reconstituições, encenações de crimes com atores, mas, também, de artifícios gráficos, buscando atingir maiores audiências (BARATA, 2011, p. 40-41).

Alguns desses programas continuam atuando no cenário do jornalismo policialesco no Brasil. Nota-se que, no geral, eles preservaram as características centrais dos programas pioneiros – principalmente no que tange à exploração da violência urbana – contudo, com o passar do tempo, agregaram algumas estratégias sofisticadas que lhes garantiram (e ainda garantem) bons níveis de audiência em todo país; é como um processo de constante atualização. A informalidade na maneira como os apresentadores se comunicam, por exemplo, é um aspecto que se reatualiza e que, desde os primórdios, tem contribuído para a aproximação do apresentador com o seu público: [...] trata-se de uma linguagem informal, muitas

82 vezes se valendo de gírias, palavrões ou expressões coloquiais, que dão um tom de uma conversa direta com o telespectador (ROMÃO, 2013, p. 34).

É importante salientar, também, que existem algumas diferenças entre os jornais policialescos e os tradicionais, apesar de considerarmos que, na atual conjuntura da mídia brasileira, ambos “convergem de mãos dadas” para o caminho da superficialidade e do sensacionalismo.

Uma boa forma de definir o Jornalismo Policial, levando em conta seu forte sensacionalismo, nos parece ser por oposição ao jornalismo televisivo tradicional. Nesse sentido, uma crítica comum feita ao Jornalismo Policial brasileiro trata do sistemático desrespeito dos programas do gênero aos “fundamentos básicos do jornalismo”, o que os colocaria mais próximos do entretenimento do que do verdadeiro jornalismo (ROMÃO, 2013, p. 32).

Tem sido muito difícil encontrar, nas grandes redes de televisão, uma proposta de telejornal pautada no verdadeiro jornalismo, a não ser nas redes e canais alternativos. Independentemente de tradicional ou policialesco, no geral, os telejornais não estão interessados no estudo, apuração e veracidade das notícias. Algumas determinantes corroboram para esse quadro.

Segundo Periago (2004), em primeiro lugar, o tempo do jornalismo televisivo é consideravelmente mais acelerado. A apuração do fato tem que ser praticamente instantânea, não havendo condições de uma pesquisa pausada e refletida. O tempo de apresentação da reportagem também é diferente, sendo que na televisão as notícias precisam ser mais sintéticas, mais simples, mais pontuais. A acirrada competição pela audiência força os repórteres a abrirem mão de certos critérios jornalísticos para que os programas tenham maior apelo entre a população. Assim, Periago aponta que os custos de transmissão, os compromissos comerciais e a briga pela audiência acabam por forçar o jornalismo televisivo a assumir um formato mais dinâmico e superficial, deixando de lado o aprofundamento da notícia (ROMÃO, 2013, p. 33).

Atualmente, dois telejornais policialescos se destacam por sua audiência, abrangência, influência e aceitação. Um deles é o Cidade Alerta da Rede Record, apresentado por Marcelo Rezende.

83 [...] entre os programas descendentes diretos do Aqui Agora, um dos que teve maior importância na televisão brasileira foi o Cidade Alerta, exibido em um primeiro momento entre 1995 a 2005, e retomado em 2011. [...] é apresentado pelo repórter Marcelo Rezende [...]. Suas médias de audiência são [...] relativamente altas, variando entre 5 e 7 pontos de Ibope (IBOPE, 2012). O que faz do Cidade Alerta um dos programas mais importantes da Rede Record (ROMÃO, 2013, p. 39).

Marcelo Rezende adota a postura do apresentador judicioso e enfático, ao

mesmo tempo que assume uma postura rígida, vestido sempre de maneira sóbria

(ROMÃO, 2013, p. 39).

O estúdio conta com imagens estilizadas de prédios ao fundo e com uma grande tela na qual o logotipo do programa e imagens das reportagens são apresentados [..]. Os temas das reportagens são sempre os mesmos: assassinatos, roubos, sequestros, batidas policiais etc. [...] elas são muitas vezes retomadas e atualizadas ao longo de cada edição do programa. A cobertura ao vivo de acidentes, enchentes ou ocorrências policiais pelo helicóptero de reportagem da emissora também é vastamente utilizada, ocupando boa parte do programa (ROMÃO, 2013, p. 39-40).

O outro é o Brasil Urgente, que é um dos programas mais assistidos da grade

horária da Rede Bandeirantes. Com médias de Ibope girando entre 5 e 7 pontos, ele está entre os cinco programas de maior audiência da emissora (IBOPE, 2012)

(Romão, 2013, p. 37). O atual apresentador, José Luiz Datena, diferencia-se de Marcelo Rezende por apresentar uma postura ainda mais agressiva e muito mais articulada.

No estúdio, Datena aparece com a postura que o consagrou: sempre em pé, assertivo, ríspido, muitas vezes grosseiro, comenta as notícias veiculadas, acrescenta informação ao vivo, julga e critica todos os envolvidos. Datena fala alto, gesticula, faz caretas, fala com desprezo e raiva. Veste sempre um terno escuro e gravata, usa cabelo sobriamente penteado para o lado com gel, um grande anel dourado no dedo anelar da mão esquerda e sempre tem uma caneta na mão ou no bolso do paletó (ROMÃO, 2013, p. 37).

O estúdio do Brasil Urgente

[...] tem uma aparência moderna, cheio de telas e de cores vibrantes. De um lado, há um conjunto de dez telas nas quais aparecem

84 ininterruptamente imagens do trânsito de São Paulo. Do outro lado, há uma grande tela, na qual às vezes aparece imagens do logo do programa e outras vezes aparecem os inícios das reportagens antes destas assumirem o primeiro plano (ROMÃO, 2013, p. 38).

Romão destaca outras características deste programa:

Em termos de conteúdo, o programa discute, basicamente, uma dezena de notícias, todas sempre muito pesadas e violentas. Datena e sua equipe exploram cada notícia à exaustão, narrando todos os detalhes hediondos em jogo e repetindo-os incansavelmente. São apresentados, principalmente, acontecimentos ocorridos na cidade de São Paulo e em cidades paulistas, mas, também, há a presença de matérias de outros Estados.

As matérias apresentadas, a exemplo da postura do apresentador, são sempre narradas pelos repórteres em tom de reprovação, buscando mostrar os aspectos mais terríveis do acontecido. As reportagens são extremamente repetitivas, sendo comum que pelo menos parte de uma mesma matéria vá ao ar duas ou mais vezes em uma mesma edição do programa.

Já o trabalho do helicóptero tem por função, principalmente, mostrar acidentes de trânsito e operações policias que estejam ocorrendo no mesmo momento em que está sendo gravado o programa. Trata-se de um recurso bastante explorado, sendo que, enquanto o vídeo mostra as imagens, o apresentador ou um repórter comentam as ocorrências (2013, p. 38-39).

Romão, em sua análise, identificou três categorias principais que formam a estrutura básica do jornalismo policialesco,

[...] cada uma destas três categorias está composta por uma série de subcategorias, as quais detalham os recursos utilizados pelo programa. Vale ressaltar, também, que apesar de apresentadas aqui isoladamente, essas categorias estão entrelaçadas e sobrepostas, sendo várias delas interdependentes entre si presentes simultaneamente em um único elemento de programas (ROMÃO, 2013, p. 41).

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Trouxemos aqui uma perspectiva histórica e analítica a partir de alguns estudos que foram realizados recentemente. Nosso objetivo, agora, é analisar a estrutura do programa Brasil Urgente para ressaltar alguns aspectos que, a nosso ver, contribuem para a naturalização da violência, com todas as implicações que trouxemos até agora nesse trabalho.

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