1. INTRODUCTION
1.4 The Causal Model
(...) “mas, com a obesidade, diminuiu; diminuiu, porque eu tinha vergonha. Então, assim, coisa que eu fazia eu deixei de fazer, né, vamos supor assim, talvez, de nós dois, o prazer ficava mais com ele, entendeu?” (...)
V.3.1. Identificação
Clarice tem 31 anos de idade, segundo grau completo, curso técnico de auxiliar de enfermagem, atividade na qual trabalha, é divorciada e tem duas filhas. Declarou que não tinha disfunção alguma metabólica ou hormonal, que justificasse seu excesso de peso. Fez a cirurgia bariátrica, há cinco meses, por recomendação médica, pois estava com a taxa de colesterol muito alta. Sua altura é de 1,51m, pesando 80 quilos e seu IMC calculado é de 35,1. Clarice foi indicada por uma profissional de saúde, e a entrevista ocorreu em seu local de trabalho.
V.3.2. Análise e discussão
a - A infância e a adolescência
A infância é a base do desenvolvimento do indivíduo. A formação e desenvolvimento de sua psique, sua imagem corporal, sua forma de agir e reagir provem da maneira como percebeu e introjetou essas experiências (ANATRELLA,1992 e
Excluído: alguma
Excluído: é Excluído: . Excluído: Anatrela Excluído: ,
KLEIN,1974). Clarice, ao falar de sua infância, lembra que, aos sete anos de idade, apresentou vitiligo. Essa patologia é uma dermatose que se caracteriza por apresentar manchas despigmentadas cercadas de zonas mais escuras que a pele normal, sendo que sua evolução ainda é incompreensível pela medicina (LAROUSSE CULTURAL, 1995).
Clarice lembra da rejeição que sofreu dos colegas.
(...) “Então, na metade do ano letivo, eu apresentei essas manchas e um grupo, os alunos da escola, eles me excluíram. Metade deles não queria pegar em mim, não queriam conversar comigo porque achavam que pegava. Então, foi muito difícil”. (...)
A imagem que se tem do corpo se faz, também, através do olhar do outro. Assim, percebe-se que esse fato pode ter marcado a forma como Clarice elaborou a sua imagem corporal (SCHILDER, 1999). A importância dos outros na construção da sua imagem é colocada por Clarice:
(...) “Na infância, eu vim usar bermuda, eu tinha onze anos, porque eu mudei e as pessoas da mesma comunidade comentavam: “não, isso não tem problema, você é linda, você é não sei o que.” Daí, começaram a brincar comigo e ter mais contato, e eu comecei a usar roupas diferenciadas, porque até então eu só queria usar calça e blusas compridas. Então, foi muito difícil por causa do vitiligo”. (...)
Clarice faz uma associação de sua doença a um assalto, que sofreu junto com sua mãe, aos cinco anos de idade. Acredita que a violência por que passou a tenha traumatizado.
(...) “Eu estava. E ficava chorando e a minha mãe conta que ele me xingava “Cala a boca, se não eu vou te papar” e falava coisas. Então, isso foi
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muito traumático, eu acho que, como o vitiligo é emocional, eu acredito que foi isso. Porque depois, meus pais viveram juntos até meus dez anos, mas eu já tinha, por isso não atribuo à separação deles a isso”. (...)
Clarice fala que tinha dificuldade com a mãe e que era apegada ao pai.
(...) “Eu sempre tive muita dificuldade com a minha mãe. Eu sempre fui aquela filha mais velha, muito apegada ao pai. Então, meu pai era uma figura; teve um dia que eu até falei “se eu pudesse, eu casava com meu pai”. Eu era apaixonada por ele”. (...)
O destino da vida é determinado, de forma consciente ou inconsciente, pela forma como foi elaborado o complexo de Édipo. Quando essa resolução não ocorre de maneira satisfatória, acarreta patologias (CHAUÍ,1984). Clarice mostra, claramente, que o complexo de Édipo não se resolveu satisfatoriamente, havendo, através da regressão, uma fixação nas fases oral e anal, lembrando que uma das características da obesidade é a fixação na oralidade, através da incorporação e introjeção, e na analidade, mediante a
retenção.
A relação edipiana é expressa por Clarice, ao se referir a sua mudança ao ter seus filhos:
(...) “Isso só diminuiu e só veio mudar, quando eu tive filho e comecei a viver uma outra vida. Por mais que ele estivesse errado, eu queria sempre estar do lado dele, mas agora não, eu sei que o que ele fez, ou seja, sei porque que ele deixou a gente por uma pessoa conhecida, que vivia na mesma casa. Eu sabia que ele estava errado, mas eu estava sempre do lado dele”. (...) É interessante observar nessa fala de Clarice, o fato de o pai ter abandonado a mãe por outra mulher conhecida da casa. O triângulo amoroso se faz com outra que não
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a mãe e nem ela. A aceitação do fato expressa a condição de entendimento do seu Édipo, talvez uma projeção sua a essa outra mulher não causando culpa, mas entendimento e perdão (CHAUÍ, 1984). A formação de sua própria família é outro ponto importante, pois ela confirma sua forma de elaborar o complexo, o que será discutido mais adiante, ao se abordar seu relacionamento afetivo.
Clarice projeta, em sua filha e em sua mãe, sua inabilidade de trabalhar a figura feminina, o amor e ódio pela mãe, que volta quando do nascimento de sua filha, e o enjôo pelo marido, figura masculina representativa de seu pai e de seu complexo não resolvido (CHAUÍ, 1984).
(...)“Mas tem uma coisa que aconteceu. Foi quando eu estava grávida da minha filha mais nova, que agora tem seis anos. Eu não consigo abraçar nem beijar minha mãe e minha filha mais velha de treze anos, sem sentir culpa. É incrível, mas eu não consigo. A minha filha mais velha, eu a afastei totalmente de mim e não consigo explicar direito o que foi. Quando me casei, eu era muito nova, tinha dezoito anos e já estava grávida. Nossos planos eram para o ano seguinte, mas eu engravidei antes e tivemos que adiantar. Eu sentia muitos enjôos, inclusive do pai da criança. Estávamos recém-casados e os dois jovens. Eu não queria muito contato um com o outro e achava maravilhoso quando ele ia para o trabalho, mas não era tanto assim”.
b - Seu jeito de ser e de se relacionar
(...) “Eu sou impulsiva, eu acho, assim, que, às vezes, muitas vezes, eu sou grossa. Então, eu tento, assim, me policiar, mas é complicado. Eu acho que, de dentro da religião, eu tô tentando, tô buscando isso, né”.
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A agressividade é uma das formas mais comuns de se constatar como foi trabalhada as fazes oral e anal no desenvolvimento do indivíduo (CHAUÍ, 1984, e
KLEIN, 1974). Clarice fala de sua agressividade, dá exemplo e reconhece sua dificuldade de lidar com ela:
(...) “É assim. Pra você ter um exemplo, assim, eu estava, no domingo; a gente ia sair. Eu arrumei logo o almoço, ajeitei tudo e pedi à pequena, falei: Vi, tem uns cachorrinhos lá em casa; eu falei assim, coloca a comida pros cachorros, e ela foi pegar a comida. Tinha uma panela com água que a menina tinha deixado lá, acho que pra amolecer, alguma coisa assim e a água derramou. Aí, eu falei: Vi, pega o pano e limpa, né. Ela ficou me olhando, assim, e eu continuei fazendo o almoço. Aí, ela falou assim: Nossa, mãe, hoje você tá tão calminha. Aí, eu olhei assim, fiquei quieta e falei “porque será que ela ta falando isso?” Aí eu fiquei calada. Quando passou o tempo, de noite, eu perguntei pra ela: Filha porque você falou que a mamãe tava calminha? Aí ela falou: Porque você não gritou. Aí, eu falei: Eu tenho que mudar realmente.” (...)
A agressividade se desloca, principalmente, para as pessoas mais próximas, que, de certa forma, tocam em pontos delicados da suas emoções e, principalmente, de suas dificuldades (CHAUÍ, 1984, e ANATRELLA, 1994). Clarice reconhece quando e onde sua agressividade se intensifica.
(...) “Ah! Tá, pois é eu acho que é essa parte que eu tenho que trabalhar, trabalhar muito, muito, porque eu não quero ser. Às vezes, tem muita gente quando você tá vindo da igreja; aí, você é assim aquela pessoa mais amável, mas, não sei o que é, quando chega em casa, você é um demônio,
Excluído: . Excluído: (Chauí, 1984 Excluído: Klein Excluído: Excluído: . Excluído: . Excluído: (Chauí, 1984 Excluído: ; Excluído: Anatrella Excluído: . Excluído: a
né, você é uma peste, né. Então, assim, não que eu seja um demônio, eu tô sendo “uma pestinha ainda”. Então, assim, eu tenho que modificar isso em mim”.
Quando questionada sobre suas amizades, Clarice se refere a elas de uma forma positiva.
(...) “Ah, eu sempre fui assim muito de fazer. Sou espontânea. Acho que eu tenho um ciclo de amizades boas. Eu tenho aqueles amigos, e amizade de quinze, vinte anos, que são amigos até hoje. A gente passa um tempo sem se falar e, quando começa a se falar, parece que foi ontem. Isso é muito bom. É, depois que eu vim pra escola, eu já estou aqui há quatro anos, então, assim, o meu ciclo aumentou. Aumentou assim não, eu acho que a questão não é nem aumentar. A qualidade melhorou, sabe. Então, assim, eu conheci outras pessoas, eu fui para outros lugares. Eu falo assim: a escola não é só a parte financeira, mas ela me mostrou um mundo que eu não tinha contato. De amizade, conhecer lugares, alimentação, a comida diferente. O ano passado foi o ano em que eu mais comi coisa diferente. Tudo quanto foi tipo, eu comi”. Clarice se refere à comida quando o assunto é amizade, ela diz, em outras palavras, que introjeta coisas novas, que se alimenta de coisas novas, pessoas novas. Enfim, sua oralidade é usada como forma de introjeção e ligação com o exterior
(CHAUÍ, 1984).
Seu casamento durou nove anos e oito meses. Ela conta que seu marido tinha outra mulher e uma filha, e que se comportava mais como uma mãe do que como esposa, pois ele “aprontava” e ela aceitava.
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(...) “Chegou uma hora que eu já não era mais a mulher, eu era a mãe dele, principalmente mãe dele, porque ele aprontava, aprontava e mãe é que passa a mão na cabeça. Então, era mais ou menos isso que estava acontecendo. Ele aprontava, fazia e acontecia, e eu vinha e passava a mão na cabeça e esquecia”.
Aqui ela volta a reproduzir o triângulo amoroso, o marido (figura paterna) a traindo (ela, agora, a mãe) com outra. O complexo edipiano se revela novamente em seu casamento, e Clarice responsabiliza seu marido por sua obesidade.
(...) “Quando casada, meu marido, eu atribuo um pouco a minha obesidade a ele. Porque aquela coisa, assim. Ah, não tá muito bom, minha gordinha, minha isso, aquilo outro, mas, no fundo, no fundo, o que ele queria era que eu ficasse gorda, feia, dentro de casa, sabe, pra que ninguém pudesse olhar, e achando assim: Ah! Ela sempre vai ser meu porto seguro”. (...) Aqui também, a oralidade está presente, vinculada ao corpo, agora não mais com as formas sensuais de uma mulher, mas como o de uma mãe (CHAUÍ, 1984). A utilização do corpo obeso também remete às questões sexuais, quando ele acaba afastando Clarice de sua sexualidade.
Clarice fala de outro envolvimento, mas só no aspecto sexual.
(...) “Eu só vim ter alguma coisa com alguém dois anos depois de divorciada, né. Então assim, me achava presa. Quando eu tive relação com uma outra pessoa, depois de divorciada, eu falei assim: Eu tenho que ter, eu vou ter, foi um amigo, uma situação assim bem, bem louca. Eu falei assim: Vai gorda, me achando feia e tudo mais. Eu falei assim: Eu vou fazer, porque eu
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Excluído: (Chauí, 1984).
tenho que exorcizar esse fantasma e ele vai sair daqui, de qualquer maneira. Então, assim, foi muito legal, foi muito, foi muito bom”. (...)
Neste momento, fica a dúvida sobre o que Clarice estaria exorcizando: seu marido ou a dependência de um corpo magro para sentir prazer. O esforço que faz para
superar seu constrangimento (e esse fantasma) a faz se relacionar de uma maneira “bem louca”.
Hoje Clarice é evangélica, levada por sua filha, que freqüentava essa religião junto com a tia, irmã de sua mãe. Participa ativamente de uma congregação. A questão da religião marca seu depoimento ao se referir a determinados comportamentos, que agora considera inadequados, e de outros que acredita dever ter em razão da religião.
(...) “Eu tenho, assim, uma certa questão ainda pra mudar. Eu nunca fui de sair, mas, nos últimos dois anos, eu saí muito com o pessoal daqui. A gente vai pra boate, pra barzinho e outros lugares e não me convém mais. Eu não acho que, pela minha religião e tudo, acho que não é muito legal ficar fazendo uma coisa que eu não concordo, mais assim pela amizade. Às vezes, vejo que o colega não está muito legal, aí eu vou, né. Ao chegar lá, eu danço; não sei dançar, não. Eu invento uns passos lá; dou uma “chacoalhada” e fico, a gente fica, e os meus daqui eles são bons de festa. A gente chega no início, só sai quando acaba. Então, é muito bom. Só tem essa questão ainda que, às vezes, ele chama: “ah! Vamos sair.”. “Tá, vamos”, porque eu sei que, muitas vezes, tá passando problemas, ta precisando se distrair. Aí eu vou, né, mas é uma questão difícil você falar pra outra pessoa: “olha, eu não concordo com esse tipo de música, eu não concordo com esse estilo”, sendo que ela é diferente, né, e eu não quero ser excluída agora, né”. (...)
Excluído: no sentido de
Excluído: sua irmã
Excluído: função
Excluído: a Excluído: a
Fica claro como a religião funciona para ela, reprimindo comportamentos ou provocando culpa. A repressão imposta pela religião tem, como alvo, a sexualidade, se expressando em não poder escutar determinadas músicas e não poder freqüentar determinados lugares para, enfim, não expor o corpo e a sexualidade (CHAUÍ, 1984).
Por outro lado, percebe-se, na mesma fala, uma necessidade de aceitação e integração com seus amigos, a qual, conflitantemente, a faz ceder em relação a seus valores religiosos.
c - A obesidade
Clarice fala da sua obesidade:
(...) “Bom então, eu nunca fui magra; sempre fui a mais cheinha, tive sempre os seios muito fartos e isso já me diferenciava das outras que às vezes eram mais cheinhas, mais gordinhas, mas não tinham tanto seio. Eu me casei com sessenta e dois quilos, né, com um metro e cinqüenta e um. Cheinha, não era gorda, nem obesa, né, e na gravidez da minha segunda filha, foi aí que eu engordei”. (...)
As dificuldades por que passa a pessoa obesa são diárias. As humilhações e restrições são uma constante. (FRANUES, 2006)
(...) “Aconteceu muito isso comigo, apesar de eu não ser tão obesa, né, mas eu sou baixinha, eu tenho um metro e cinqüenta e um, e pesava cento e dois quilos, né. Eu senti muito isso na pele, de estar pegando ônibus, aí, você vai vendo todo mundo sentando, sobra o teu lugar. Aquela que está no canto, se ela for gorda, ela não vai sentar do seu lado, com certeza, mas, se ela for
Excluído: , no sentido Excluído: de Excluído: . Excluído: (Chauí, 1984).¶ Excluído: a Excluído: Franques, Excluído: .
assim cheinha, for menos ou for magra, ai ela senta, mas senta de um jeito assim que dá para ver que está desconfortável. Então, isso é muito ruim”. (...) Clarice relata outros depoimentos, que escutou na sala de espera de seu médico, situações vividas por muitos obesos:
(...) “Ele comentou isso e, aí, eu falei assim: Ah, meu filho, e avião? Você tem aquele, aquele suporte lá, pra alimentação, você vai ter que usar o do lado, mas se tiver gente, a aeromoça passa aí fala: Você quer comer alguma coisa? Aí, você, morrendo de fome, diz não, não obrigada, porque não tem como baixar. Ele falando: Não tem como baixar, fora que, quando você tá no corredor, toda hora ela bate com um pratinho em você, porque você tá sobrando pra todos os lados, né. Então, isso é muito complicado”. (...)
Entre outras histórias, Clarice fala emocionada de uma passagem em que ficou profundamente triste:
(...) “Só houve uma vez que eu chorei mesmo por causa da obesidade. Foi no ano passado, nessa época de junho, eu tava contratada para a Escola; a gente foi pra casa de uma professora, num churrasco, e, na volta, estávamos em cinco. O carro era pequeno e eu , às vezes, ficava na frente ou ficava atrás, mas eu já tava meio que de paquera com um rapaz, assim, foi o que a gente ficou, né, e assim eu fiquei de paquera com ele; ele não ficou de paquera comigo e foi assim. É um mundo novo aquela coisa de você ficar e amanhã não ter mais contato nenhum, e eu não imaginei que fosse assim, porque eu não tinha o hábito de viver dessa forma, dessa questão de ficar e não ficar depois, porque, pra mim, ficar é relacionamento e, aí, você ficar com uma pessoa conversar e depois cada um pro seu lado. Então, aquilo me chamou a atenção,
Excluído: a
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assim, ele não tava aquela coisa romântica, uma coisa assim. E aí eu fui sentar com ele; atrás, tava, eu, ele e uma outra moça e, na hora de colocar um cinto, bem, o cinto pra uma pessoa magra é pequeno, um cinto pra uma pessoa gorda, você vai colocar maior e, aí, a pessoa que sentou atrás com a gente comentou do cinto: “Pô, quem tava sentada aqui? Olha o tamanho do cinto.” (...) “Gente, aquilo ali acabou comigo, mas eu fiquei na minha e a gente desceu na escola, nós descemos e até nos arrumamos ali mesmo e porque a gente ia pra uma festa junina e, na hora de entrar, o namorado de uma colega minha falou assim: “Clarice, você não quer vir aqui na frente? Aí, eu falei assim: Não; eu vou atrás. E a gente parou num lugar, porque ele ia fazer um vinho quente e ele ia comprar frutas. Quando a gente parou num outro lugar, aí ele fez a mesma pergunta, se eu queria ir lá na frente. Quando a gente parou no supermercado, o pessoal desceu e eu fiquei com a minha colega, que tava dirigindo e, aí, eu desci do carro e comecei a chorar, mas eu chorava assim que as lágrimas desciam assim sem, sem controle; eu não conseguia me controlar. Então, aquilo ali foi muito humilhante pra mim, nossa, foi horrível”. Outro problema citado é o ronco, decorrente de sua obesidade. Clarice fala das muitas vezes em que se recusou a dormir na casa de amigas ou viajar de ônibus, por vergonha de seu ronco.
(...) “Então, assim, passei por tudo isso. Tenho um problema sério de obesidade em relação ao ronco, né. Então, assim, morro de vergonha; às vezes as pessoas me dizem: “Ah, Clarice, vamos, dorme lá em casa, vamos, não sei o que, traz as meninas.” Não vou. Eu só vou, se tem um lugar assim isolado, que eu não vou ter que dormir com ninguém. Então, eu vou, mas, se não for, não
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vou, eu morro de vergonha. Viajar em ônibus: Ah, vamos pra um acampamento? Vão passar quantos dias lá? Ah, não vou, não, não quero, sabe por quê? Porque eu sei que tem a questão do ronco”. (...)
Mais uma vez, a obesidade limita seus comportamentos, mas, na realidade, a previne de se expor em situações de proximidade, como dormir na casa da amiga ou permanecer dentro de um ônibus. (LOLI, 2000, e MATOS, 2002)
Clarice se lembra dos problemas que teve com as roupas:
(...) “A questão de roupa, gente, é uma tristeza, era, né, uma tristeza, (...) porque chegou numa fase, assim, que eu falei assim: Ah, gente, era pra morrer, né; tem uma hora que vai morrer. Então, todo mundo vai morrer e acabou a esperança de ter uma outra pessoa. Não quer nada, quem é que vai querer, né? Você fica um pouco assim, apesar de você conviver. Eu tenho um paquerinha que, nossa, insiste: “Vamos sair?” Não, não tô afim, sabe, e fica no meu pé. Não, não tô afim; não é com você, mas é por mim. Não tô me sentindo bem, né”. (...)
A roupa esconde e revela seu corpo obeso, sua sexualidade, a possibilidade de revelar sua sedução e de perder o controle. Ela associa a roupa aos paqueras, ao “quem vai querer?”, junto com o desejo a repressão, passando ela a não querer possíveis relacionamentos (CHAUÍ, 1984; FRANQUES, 2006, e PEREIRA, 2003).
Clarice fala de muitos tratamentos e dietas que fez, quase todos sem sucesso ou com resultado temporário. A obesidade é uma doença multifatorial e implica mais do