4.1 Lovbehandling 1926 - 1951
4.1.3 Bredtveitutvalget 1939
A origem da indústria de bens de capital nacional refere-se a fundições e oficinas que se dedicavam, principalmente, a serviços de reparações e a produção de equipamentos de baixa complexidade tecnológica para atender o parque açucareiro no século XIX e no início do século XX. Segundo Queda (1972), os maquinários utilizados pelas fundações dos Engenhos Centrais eram de procedência francesa, inglesa e também alemã.
Durante o período de 1929 a 1945, a indústria de bens de capital nacional passou por um processo de expansão e transformação, ampliando a linha de equipamentos fabricados para engenhos e usinas de açúcar e iniciando a fabricação de alambiques para destilarias de álcool. No entanto, foi somente a partir da década de 1950 que a indústria de bens de capital nacional, representada principalmente pelo Grupo Dedini, passou a ter condições de competir com os fornecedores internacionais.
Apesar do mercado açucareiro não ter apresentado altas taxas de crescimento desde 1953 até o final dos anos 60, nota-se, neste período, a entrada de diversas empresas de menor porte (Quadro 4.2), que aumentaram de forma gradativa sua participação de mercado, ainda que de início produzissem apenas equipamentos de calderaria leve. Convém destacar a ocorrência de certa concentração espacial das empresas desse segmento em Piracicaba-SP, a maior região açucareira do país, vindo a seguir a de Sertãozinho, pertencendo à região açucareira de Ribeirão Preto, Campos no Rio de Janeiro e algumas cidades nordestinas, sendo todas grandes regiões açucareiras. Com a exceção da Fives-Lilles do Nordeste, empresa de grade porte de origem francesa – fabricante de equipamentos para o setor açucareiro, as demais empregaram tecnologia de domínio público (NEGRI, 1977; MARIOTONI, 2004).
Somente a partir da década de 1960 é que outro fabricante, Zanini S/A Equipamentos Pesados, conseguiu destaque nesse mercado. Cabe ressaltar que esta empresa se originou da transformação de uma pequena oficina de reparo de componentes dos equipamentos da indústria sucroalcooleira, em fábrica de moendas e outros equipamentos pesados. A necessidade de contínua manutenção nas usinas, principalmente pelo desgaste permanente de alguns componentes da moenda, foi um fator que favoreceu o desenvolvimento deste tipo de empresa (RAMOS, 1983; OLALDE, 1992).
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Razão Social Localização Fundação
M. Dedini S.A. - Metalúrgica Piracicaba - SP 1920
MORLET S.A. – Equip. p/ usinas de açúcar e álcool 1 Piracicaba - SP 1936 CODIQ S.A. - Construtora de Equip. p/ Ind. Quimica2 São Paulo - SP 1941 CODISTIL – Construtora de Destilarias Dedini S.A. Piracicaba - SP 1943 MAUSA – Metalurgia de Acessórios para Usinas de Açúcar S.A. Piracicaba - SP 1948
SANTIN S.A. – Indústria Metalúrgica Piracicaba - SP 1948
ZANINI S.A. – Equipamentos pesados Sertãozinho - SP 1950
MEPIR – Metalurgia Piracicabana S.A.3 Piracicaba - SP 1950
Fundição Goytacaz S.A. Campos - RJ 1953
MESCLI- Metalurgia Santa Cruz S.A.4 Piracicaba - SP 1953
FAZNARO S.A. – Industrial e Comercial Piracicaba - SP 1954
MARIO MANTONI METALURGICA LTDA Piracicaba - SP 1956
METALURGICA CONGER S.A. Piracicaba - SP 1962
TECOMIL – Técnica Constr. Maq. Industriais Ltda. Sertãozinho - SP 1964
FIVES LILLE do Nordeste5 Maceió - AL 1967
MEFSA – Mecânica e Fundição Sto Antônio Ltda Piracicaba - SP 1968
METALURGIA BARBOSA Ltda. Piracicaba - SP 1970
COSINOR – Cia Siderúrgica do Nordeste6 Recife - PE 1970
A.Z.F. – SEMCA Metalúrgica Ltda. Piracicaba - SP 1972
SIDEL – Comercial e Industrial S.A. Campos - RJ 1972
QUADRO 4.2 – Relação das empresas de bens de capital para o setor sucroalcooleiro no ano de 1975.
Fonte: NEGRI (1977).
Nos anos 70, o parque produtor nacional de equipamentos para o setor sucroalcooleiro era composto de 18 empresas dos mais variados tamanhos (Tabela 4.2), as quais possuíam bases de produção especializadas para atender o setor. Das 5 maiores empresas, três pertenciam ao Grupo Dedini e uma estava ainda em fase de maturação (NEGRI, 1977).
Número de trabalhadores/ porte Número de empresas
+ 1000 (grande) 2
500 a 999 (médias grandes) 3
100 a 499 (médias) 13
Total 18
TABELA 4.2 – Estrutura Industrial do Setor de bens de capital para o setor sucroalcooleiro – 1975.
Fonte: NEGRI (1977).
O quadro 4.3 apresenta a área de concentração das principais empresas fabricantes de equipamentos para esse setor na década de 1970.
1 Comprada pelo Grupo Dedini em 1958 e incorporada à Codistil em 1969.
2 Fabricava apenas destilarias de álcool e, encerrou suas atividades para o setor em 1947.
3 Incorporada ao Grupo Dedini em 1969, quando passou a operar de forma significativa para o setor açucareiro. 4 Encerrou as atividades em 1966.
5 Subsidiária de empresa francesa.
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Empresas Área de atuação
Grupo Dedini (M. Dedini,
Codistil, Mausa e Mepir) Linha completa de equipamentos para usinas de açúcar e destilarias de álcool. Zanini Linha completa de equipamentos para usinas de açúcar, com uso de licença de tecnologia. Sua capacidade é inferior a Dedini
Fives-Lilles Linha completa de equipamentos para usinas de açúcar com uso de tecnologia de sua matriz francesa. Coytacaz Peças de reposição e equipamentos leves
Cosinor Moendas de baixa capacidade de produção
Santin Caldeiras
Tecomil Caldeiras, acessórios e alguns equipamentos mecânicos
Conger Linha equipamentos para destilarias sob licença austríaca. Estabeleceu consórcio com a Zanini para a produção de destilarias de álcool em 1975, para esta produzir os demais equipamentos.
QUADRO 4.3 – Principais empresas de bens de capital para o setor sucroalcooleiro e sua área de concentração – 1975.
Fonte: NEGRI (1977).
Apesar da consolidação da indústria de nacional de bens de capital, no início dos anos 1970, Mariotoni (2004) salienta que os técnicos especialistas do setor consideravam os equipamentos produzidos pela Dedini e Zanini ultrapassados. Essas duas empresas orientavam as tendências tecnológicas do setor.
Dessa forma, em meados da década de 1970, a preocupação com a questão tecnológica passou ocupar papel central durante a implantação do Programa Nacional do Álcool – PNA, também conhecido como PROÁLCOOL, tendo como objetivo substituir a gasolina consumida pelo álcool combustível.
O PROÁLCOOL foi instituído em 1975 para resolver simultaneamente dois problemas: o impacto da conta petróleo na pauta de importações, que era um problema nacional, e o enorme endividamento das usinas decorrentes da queda dos preços do açúcar no mercado internacional, no início da década de 70, que era um problema setorial. Para tanto, o Programa garantia, além de linhas de créditos extremamente favoráveis aos investimentos industriais e agrícolas, preços atraentes de álcool e a aquisição da produção, por intermédio da Petrobrás. Essas medidas incrementaram a produção de álcool, sem desincentivar a produção do açúcar (IEL, 2005).
Neste período, a COPERSUCAR (cooperativa de 75 produtores de açúcar e álcool) percebeu que a inércia tecnológica ameaçava a competitividade do setor sucroalcooleiro paulista, não apenas no mercado externo, como em relação a seus concorrentes internos com os quais mantinha um diferencial de custos de produção resultante das inovações tecnológicas e agronômicas, não disponíveis para as outras regiões do País (SILVA, 1985).
87 Sob essas condições, em meados da década de 1970 através de seu Centro Tecnológico de Cana de Açúcar (CTC)7, a COPERSUCAR instituiu um Programa para Modernização de suas unidades produtivas baseado numa tecnologia mais avançada presente nos maiores centros produtores internacionais. Os pontos explorados de forma intensiva foram a moagem e extração do caldo, porque representavam os pontos críticos do processo de fabricação de açúcar e do álcool. Esse programa possibilitou uma elevação das taxas de moagem e extração do caldo das usinas paulistas aos níveis dos centros açucareiros internacionais mais desenvolvidos, por meio do desenvolvimento de novos equipamentos e modificações nos existentes (MARIOTONI, 2004).
Os dois maiores fabricantes nacionais de bens de capital para esse setor, Dedini e a Zanini, também preocupados com a defasagem tecnológica, estabeleceram um Programa de Modernização baseado em tecnologia internacional na década de 1970 (MARIOTONI, 2004).
Desta maneira, uma das proposições mais importantes do Proálcool foi promover novas tecnologias e/ou melhoramento dos processos produtivos existentes, tendo em vista a obsolescência das tecnologias utilizadas para obtenção de álcool, que não apresentavam significante melhoria tecnológica nos últimos quarenta anos (MOREIRA; GOLDEMBERG, 1978 citado por ANCIÃES et al., 1981). Para tanto, esse ambiente favorável criou condições para que a indústria de bens de capital nacional evoluísse no estado da arte da fabricação de equipamentos para este setor.
Assim, foi durante o Programa (1975-1985) que a indústria nacional de equipamentos respondeu com o fornecimento de quase 100% da expansão das destilarias de álcool, permitindo o aumento da produção de etanol de 0,6 bilhões de litros/ano em 1975 para 11,8 bilhões de litros/ano de etanol em 1985, partindo de um processamento de 68 milhões de toneladas de cana/ano (1975) para 224 milhões de toneladas de cana/ano (1985) (BASTOS, 2008). A expansão da produção de álcool nesse período possibilitou outras empresas a atuarem na fabricação de equipamentos para destilarias como Renk Zanini (fundada em março de 1976 pela associação da Zanini S.A. Equipamentos Pesados com a Renk AG, da Alemanha), Sermatec (fundada em 1976) e Santin, sendo que os dois primeiros estão localizados em Sertãozinho e o último em Piracicaba (Estado de São Paulo).
7
Centro privado de pesquisa composto de laboratórios, campos experimentais e profissionais altamente qualificados a dedicação exclusiva, montado pela COPERSUCAR em 1970 (SILVA, 1985).
88 A partir da década de 1980, novas tecnologias microeletrônicas começaram a difundir-se mais rapidamente pelo setor, e pequenas empresas passam à fabricação de módulos de sistemas de controle para usinas de açúcar e destilarias de álcool. É o caso das empresas BRASMONTEC, SMAR Equipamentos Industriais, ENGINSTREL e EUROCONTROL. No início dos anos 90, segundo especialistas do setor, as três últimas eram consideradas as principais fabricantes dessa tecnologia (EID, 1996; VIAN, 1997).
A crise do Proálcool nos anos 90 acarretou numa retração do mercado de bens de capital para o setor sucroalcooleiro. A Zanini, em 1992, foi forçada a demitir cerca 2 mil funcionários e fazer uma fusão com a Dedini. A fusão implicou na criação da empresa DZ (Dedini/Zanini) (PORTAL CELUOSE ONLINE, 2006).
A Dedini Indústria de Base, líder do ramo, Sermatec e Renk Zanini também enfrentaram forte crise nos anos 90, por conta dos baixos investimentos do setor sucroalcooleiro. Neste período, as empresas buscaram diversificar sua atuação e começaram a produzir equipamentos também para as áreas de mineração, cimento, papel e celulose (Dedini, Sermatec e Renk Zanini), petróleo, gás, alimentos e tratamento de efluentes (Dedini) (SCARAMUZZO, 2007b), tendo em vista que a diversificação infere na perda da dependência excessiva em relação àquele setor.
No entanto, IEL (2005) salienta que a retomada de crescimento do setor sucroalcooleiro, em meados da década de 1990, favoreceu diretamente a indústria de bens de capital. Os fatores que contribuíram para melhora do setor foram:
• Excelentes perspectivas do comércio interno e internacional, tanto para o açúcar, quanto, principalmente, para o álcool;
• Elevação dos preços internacionais do petróleo;
• Crescimento da demanda interna de álcool hidratado, devido ao sucesso dos novos modelos de automóvel, chamados de Flex-Fuel, movidos tanto a álcool, quanto à gasolina;
• O efeito do Protocolo de Kyoto, que impõe a redução, por parte dos países signatários, das emanações de CO2, que tem provocado o cres- cimento da demanda externa por álcool anidro, fazendo-o despontar como uma nova commodity internacional; e,
• O fato de os Estados Unidos, maior produtor mundial de álcool de milho, não terem condições de atender à sua demanda interna por álcool e tampouco à demanda externa.
89 Dada a retomada do setor, verificou-se a expansão de produção das empresas de bens de capital, como a Dedini e a Sermatec, a instalação de novas empresas para atender o setor sucroalcooleiro, assim como a entrada de empresas que atuavam em outros setores, como a Iesa e Sadefem em 2006 (ANSELMI, 2007).
Apesar do crescimento da indústria produtora de equipamentos para o setor sucroalcooleiro comparado com a década de 1970, ainda o mercado está concentrado em poucas empresas, caracterizando como um oligopólio. As fabricantes de máquinas para usinas tais como Sermatec (mesmo grupo da Renk Zanini) e Dedini S/A Indústrias de Base somam 80% de market share, sendo que a última detém 50% do mercado brasileiro (BATISTA, 2007). No entanto, apresenta forte presença de pequenas e médias empresas no que se refere, principalmente, a equipamentos de baixa complexidade, módulos de sistemas de controle (automação) e acessórios.
Dessa forma, a estrutura da indústria de bens capital para o setor sucroalcooleiro está condicionada pelas forças externas e internas das empresas que interferem na competitividade destas. Serão abordados no próximo tópico o perfil das empresas deste setor e o dinamismo tecnológico.
4.3.2 Perfil das empresas
As empresas de bens de capital que fornecem para o setor sucroalcooleiro podem ser classificadas, segundo o seu escopo de atuação, em quatro categorias (RODRIGUES, 2008):
• aqueles que fornecem todo o complexo industrial (inclusive o projeto do mesmo, sua implementação e inicialização da operação, estes fornecedores produzem parte dos equipamentos e contratam os demais);
• fornecedores de equipamentos de grande porte (moendas, caldeiras, turbinas, destilarias);
• fornecedores de equipamentos auxiliares (fornecem esteiras, redutores, bombas,válvulas);
• fornecedores de acessórios (equipamentos de apoio: tubulações, cabos, ferramentas).
90 Os dois primeiros grupos apresentam evolução técnica mais lenta, predominam fabricantes de base técnica mecânica, e estão atualmente, no limite da capacidade de produção; e muitas dessas empresas são de gestão familiar ou ainda em fase de transição para uma gestão profissional. Já os dois últimos grupos de empresas geralmente atendem a outros setores e exibem maior agilidade na incorporação de inovações tecnológicas e melhorias gerenciais. Estes tendem a apresentar capacidade de ampliar expressivamente sua capacidade de fornecimento ao setor.
Um exemplo, na área de motores elétricos, é a empresa WEG, maior produtora latino-americana, que também participa na agroindústria da cana-de-açúcar. A empresa WEG no Brasil desenvolve programas de pesquisa e desenvolvimento de produtos e, principalmente, automatização de processos de produção com vistas ao aumento da produtividade. O seu investimento em programas e desenvolvimento próprio, tanto nos ramos de eletro-eletrônicos e químico, é na ordem de 3,5% da receita líquida operacional (ABARCA, 1999).