La Crónica começa por ter alguma dificuldade em considerar a existência duma direita no Portugal revolucionário, mais ainda nos setores militares. Compreende-se, já que “tirania derechista” ou apenas “derechista”, foram alguns dos qualificativos que atribuíram ao anterior regime depois da sua queda. Nestas condições, era difícil conceber a dupla característica de participar na queda do regime e ser de direita; uma dificuldade tanto maior quanto Spínola foi inicialmente apresentado como o herói da revolução.
Em tal contexto, nas primeiras referências à direita e a oficiais de direita, estes são apenas considerados apenas como “conservadores”. Numa notícia de 22 de agosto de 1974, falava-se num “ambiente de crisis en
263 “Portugal: cuarteles y calles por el socialismo”. In: La Crónica, ed. 29 de abril de 1974. 264 “Portugal: Cuarteles y calles por el socialismo”. In: La Crónica, ed. 27 de abril de 1975.
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el gobierno de Spínola”. O texto é significativo da forma ainda cautelosa como o jornal começa a separar as águas dentro do MFA:
Entre Spínola, considerado substancialmente como un conservador, y el ‘Movimiento de las Fuerzas Armadas’ nacido como fuerza ‘liberal’, hubo anteriormente dos momentos de crisis por lo menos, que coincidieron con las renuncias del Primer Ministro Adelino de Palma Carlos, que no era bien visto por la izquierda265.
A embaixada seria mais rápida a estabelecer esta separação entre o MFA e Spínola. No próprio ofício onde relata os acontecimentos em Portugal, datado de 29 de abril, referindo a mensagem à nação, o embaixador não deixa de referir o seguinte: “ (Spínola) reitera el proposito de la Junta Provisoria, y agradece la colaboración que há recebido del ‘Movimiento de las Fuerzas Armadas’”. Ou seja, desde o início o embaixador sublinha serem o general e o MFA duas forças distintas e, em vez daquele surgir como líder do Movimento, antes agradece o apoio que deste recebeu.
Aliás, ao contrário da ideia que irá sendo desenvolvida por La Crónica, para o embaixador, com uma visão mais institucional, parece haver uma emergência na reposição da ordem que o leva a nutrir alguma simpatia pela direita militar. Num ofício de 30 de maio, conta-se da primeira visita de Spínola ao Porto, onde, segundo escreve, teve uma recepção apoteótica. Neste ofício destacam-se algumas declarações do general, sobretudo quando este defende estar o país perante uma escolha, entre liberdade democrática e anarquia. Além disso, teria afirmado não estarem as Forças Armadas dispostas a desvirtuar as ideias do 25 de Abril “y si si vieran obligadas a responder a la violencia lo harán sin vacilación, utilizando la fuerza”. Hoje sabemos claramente que esta afirmação não passaria da fanfarronice dum presidente sem apoios suficientes nas Forças Armadas para dar corpo a tais ameaças, mas esta resposta musculada foi sem dúvida do agrado do embaixador, além disso relaciononando-as positivamente com outras declarações, um dia antes, de Galvão de Melo, outro representante da direita militar: “(as Forças Armadas estão contra) Un régimen anárquico en lo socio- economico, que vendría a sustituir una dictadura de la minoría por otra dictadura de las masas; en que no existiesen las debidas garantías para el hombre, como entidad humana, que es lo que la revolución de la Fuerza Armada perseguía y persigue”266.
Entusiasmado pelas afirmações de Galvão de Melo e pelas de Spínola no Porto, o embaixador concluiria de forma enfática:
Creo, señor ministro, que a esta altura se puede vaticinar que el Movimiento revolucionario de la Fuerza Armada de Portugal (note-se como quase decalca a designação peruana de Gobierno
265 Portugal espera otro golpe: Ambiente de Crisis en el Gobierno de Spínola”. In: La Crónica, ed de 22 de agosto de 1974. 266 Ofício de 28 de maio de 1974
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Revolucionario de la Fuerza Armada) está bien encaminado y que se encontrarán las soluciones para que este país recupere el crédito internacional que había perdido a través de una empecinada política de aislamiento en el concierto de las naciones del mundo.
A categorização das forças em conflito dentro das próprias Forças Armadas, começa então a surgir desde cedo para a embaixada, mas para La Crónica apenas na última semana de agosto de 1974. Mesmo assim, para o jornal, Spínola, o “conservador”, não era claramente encostado a uma “direita militar” de que ainda não fala. Aliás, a 11 de Setembro ainda é apresentado como alguém equidistante, quase ao mesmo estilo do “nem capitalistas nem comunistas” do GRFA.
Nesta sentido, na edição desse dia, La Crónica informava que “El gobierno de Portugal ‘no consentirá ni las reacciones de la extrema derecha, ni el oportunismo de la extrema izquierda’, dijo hoy (…) el presidente portugués General Antonio de Spínola”267. O título desta notícia “Portugal: hacia una sociedad humanista”, também é amigável para o general português, do ponto de vista duma revolução peruana cujo líder insistia também no caracter humanista do seu regime268. Spínola aparecerá como defensor dum rumo socialista para Portugal: “’Es necesario reconocer –agregó- que las sociedades políticas modernas evolucionan hacía un socialismo”, mas, “’existen en el mundo suficientes ejemplos de formas posibles de socialismo, entre los que podemos distinguir entre los que son verdaderamente democráticos y aquellos que son un tipo de eufemismo de la explotación del hombre por el hombre’”.
Numa altura em que ainda considerava a existência duma relação umbilical entre o 25 de Abril e Spínola (algo já desmistificado pela embaixada, como vimos), La Crónica considera-o como líder duma certa fação militar conservadora, mas benigna e até aproximando-o de conceitos caros ao regime peruano: Nem comunista nem capitalista, humanista e procurando um socialismo de características nacionais.
Três dias antes do 28 de Setembro, o jornal faz título com a possível preparação dum “golpe de derecha” em Portugal, mas sem referir nomes e, muito menos, implicar o presidente português na iniciativa269.
A linha de ténue demarcação segue igual, mesmo com os acontecimentos de 28 de Setembro. Quando noticiam a gorada manifestação da chamada “maioria silenciosa”, referem ter sido preparada por “algunas organizaciones definidas como de derecha (…) para solidarizar com el Presidente de la República (…) considerado en polémica com los militares ‘liberales’ del Movimiento de las Fuerzas Armadas” 270. No entanto,
267 “Spinola: hacia una sociedad humanista”. In: La Crónica, ed. 11 de setembro de 1974.
268 Velasco Alvarado referiu-se varias vezes à revolução peruana como sendo humanista. No discurso do dia nacional de 28 de julho de 1973, por exemplo, afirmou
que “A concretização deste ideal participacionista, que defendemos, supºoe o abandono gradual mas definitivo dos comportamentos manipulatórios”(“La concretización misma de este ideal participacionista, que defendemos, supone el abandono gradual pero definitivo de los comportamentos manipulatórios”) (INDE, 1974, p.94).
269 “Temen en Portugal golpe de derecha”. In: La Crónica, ed. 25 de setembro de 1974. 270 “Golpe Derechista evitan en Portugal”, In: La Crónica, ed 29 de setembro de 1974.
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fazem questão de salientar não ter chegado a realizar-se porque “de Spínola la desaconsejó ‘a fin de evitar posibles choques’”. O jornal tece, assim, uma linha demarcadora, ainda que ténue, entre o presidente e a direita, salientando ter sido este quem impediu a acção de rua. Além disso, os organizadores da manifestação são considerados membros de estruturas que o próprio jornal não afirma serem de direita, mas apenas “defenidas como de direita”, não se comprometendo assim com esta definição. Por último, Spínola volta a ser considerado apenas como “favorable a una política conservadora”.
Esta precaução mantem-se quando noticiam a demissão do presidente da república (edição de 1 de outubro), continuando a não o encostar diretamente à direita: “La renuncia del general De Spínola indica, según los observadores, que há sido derrotado en la lucha entre moderados –que encabeza- y progressistas”. O jornal não parece, então, querer assumir a existência de divergências entre direita e esquerda no seio dos militares, usando apenas definições como “moderados”, para a ala de Spínola, e ”liberales” ou “progresistas” para a esquerda militar. Esta preocupação de não denotar divergências ideológicas insanáveis, corresponde, aliás, à mesma imagem unitária das Forças Armadas peruanas que o GRFA procurava transmitir, não obstante as divergências internas já então bem conhecidas.
Já depois da demissão, ainda se mantém a mesam linha. Por exemplo, na edição de 3 de outubro de 1974: “Tres miembros conservadores de la junta, el cuerpo supremo supervisor de Portugal desde el Golpe de Estado del 25 de abril, fueron despedidos el lunes”.
Pouco mais de um mês depois, a 16 de novembro, noticiando rumores de novo golpe, o jornal já faz uma alusão clara à direita, mas relacionando-a com o fascismo, ou simplesmente com a reação, sem estabelecer qualquer ligação entre esta e as forças saídas da revolução. De facto, depois do título “Portugal: Denuncian golpe de derecha”, o texto desenvolve a notícia, referindo uma “denuncia conjunta acerca de la existência de un complot fascista en Portugal”. Esta informação é feita com base num alerta do PCP e, citando-o, referem-se “numerosos hechos inquietantes indicativos de que la reacción intensificó sus actividades”. Noutra citação dos comunistas na mesma notícia, “la reacción intentará proximamente un complot fascista”.
Na primeira referência a uma direita militar pós revolução, não se faz, portanto, qualquer separação do “fascismo”, aderindo-se a um discurso também em voga no Portugal de então, segundo o qual tudo o que não fosse de esquerda era fascista. Temos, assim, uma clara tendência para não considerar a possibilidade de existirem militares que tivessem contribuído para a queda do regime e não fossem de esquerda.
Como vimos, só a partir de janeiro, na edição de dia 5, e num contexto de confronto com Otelo, o “general del monóculo” deixa de ser a cabeça da revolução, para ser apenas “la cabeza visible del movimiento que dorrocó el 25 de abril al regímen salazarista de Marcelo Caetano”. Com esta separação, estavam abertas as portas para contextualizar a revolução em dois focos distintos, permitindo-se aceitar a existência de alguns “quistos”
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direitistas entre aqueles que a executaram. Para isso, Spínola deixa de ser quem derrubou o regime, passando apenas a “cabeza visible”.
A partir daqui, fica claro para La Crónica a existência duma direita militar que, apesar de ter sido parte da revolução, é reaccionária e da qual o jornal se afasta. Na referida edição, enquanto Otelo é apresentado como um personagem conciliador, Spínola “se extiende en un tono alarmista”. Mas só a partir da página inteira dedicada ao golpe de 11 de março (edição de 13 de março), La Crónica assume claramente a existência dentro das Forças Armadas de uma “derecha militar”, composta pelos mesmos que, segundo um dos artigos aí incluídos, “Intentaron eliminar al sector progresista”, ou seja, os spinolistas.
Um dos atributos mais aplicado a esta direita, é o de “golpista”. No dia 14 de março faz-se uma análise mais aprofundada dos acontecimentos em Portugal, com dois títulos: “Así fracasó el golpe en Portugal” e “Oligarcas pagaban sueldos a golpistas”. “Oligarcas”, cabe aqui dizer, era uma palavra dileta de Velasco Alvarado, constantemente pronunciada nos seus discursos, quando afirma precisamente estar a combater a “oligarquia”271 para construir um novo Peru. Isto mostra bem como, em março de 1975, La Crónica já tinha claro quem eram, em Portugal, “os nossos”, ou seja, a esquerda militar intitulada de “progresista”, e “os outros”, a direita militar, os “golpistas”.
Num artigo de opinião sobre “La problemática portuguesa” (edição de 23 de março de 1975), Hernando Aguirre Gamio falará no “fracassado golpe derechista”, referindo-se ao 11 de março. Na edição de 19 de abril, volta a usar-se os mesmos termos: “Derecha intentaría nuevo golpe en Portugal”. Este tipo de alerta irá ser uma constante, tal como aconteceu na edição de 6 de maio de 1975, quando se noticia uma informação saída no jornal do MFA: “Portugal alerta por rumor de outro golpe de derecha”.
Marcando claramente a sua posição, na edição de 24 de abril, La Cronica noticia as conclusões do inquérito ao 11 de Março, e o título escolhido não deixa margem para dúvida: “El Pueblo estuvo contra assonada de marzo”. O movimento liderado por Spínola é, então, considerado uma ação “contrarrevolucionaria aplastada por la acción conjunta de las fuerzas armadas y el pueblo”272.
Em conclusão, começando com alguma dificuldade para admitir a existência duma direita entre aqueles que fizeram o 25 de Abril, La Crónica vai gradualmente aceitando a sua existência, colando-a, pouco-a-pouco, a um Spínola que, antes, tinha procurado salvaguardar. Temos de esperar até janeiro de 1975 e, sobretudo, ao 11 de Março, para que assuma uma clara bipolarização entre esquerda militar e direita militar. Para entender esta mudança, devemos considerar a clarificação ocorrida na luta política em Portugal depois da “intentona” de
271 A convicção de estar a combater a oligarquía, surge constantemente a quem leia os discursos e as entrevistas de Velasco Alvarado. Foi algo que o caracterizou até o
fim; na sua última entrevista (Caretas,3 de fevereiro de 1977), menos de dois anos depois da destituição, ainda diria que “Yo sabia que en cualquier momento me botaban. Porque aquí en el Perú, fatalmente, la oligarquía nunca muere”, ou, “al menos durante mi gobierno a la oligarquía le hemos dado forma tal que la hecho desecho. Muchos han dicho que una de las cosas que hizo la revolución fue terminar con la oligarquía. Bueno, yo creo que no hemos terminado con la oligarquía. Han quedado restos. Y estos restos, están creciendo otra vez”.
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Spínola, mas sem esquecer que estes acontecimentos decorrem pouco depois do 5 de Fevereiro em Lima, considerado por La Crónica como um golpe de direita, apoiado por uma coligação de forças. Dentro do regime, era bastante comentado estarem implicados elementos do próprio GRFA273, ou seja, já se falava numa divisão entre direita e esquerda dentro das forças armadas, tão forte como para provocar uma revolta de rua. Mais uma vez, a análise da situação portuguesa vai sendo condicionada pelos acontecimentos dentro do próprio Peru.