Palmarinos é o nome que se dá a alguém que nasce como em qualquer outro lugar. Mas estes são especiais, pois viveram cerca de cem anos ou mais no Quilombo dos Palmares, onde, há pouco tempo após cruzar os mares, iniciou-se o combate à escravidão, reunindo negros, índios, brancos pobres; foi o início da nação, e atraíram do mundo todos os olhares.
Palmares, o mais célebre de todos os Quilombos, que na história nunca se viu igual, exemplo de esperança e persistência, cresceu sem limites na consciência e em território mais que o país de Portugal.
A luta de Palmares foi por liberdade, mas também de combate ao colonialismo. Irradiou-se pelo mundo em forma de solidariedade, e se quisermos contar toda a verdade, foi a primeira tentativa de internacionalismo.
Esta bandeira da igualdade de direitos, já no passado indicou-nos o caminho, seguir em frente sem temer o pelourinho, o tronco, a chibata e o ferrão. Avançou passo a passo, ato a ato, golpeando os capitães do mato, em busca da libertação.
Muitos líderes entregaram a vida a este destino. Zumbi, o guerreiro menino, foi o último herói da resistência, mesmo tendo perdido todo o povo pela violência, um ano a mais permaneceu a combater. Porém ao ser capturado, aconselhado foi a dar seu parecer. Respondeu com altivez e responsabilidade, “O escravo quando morre ganha a liberdade, mas o senhor perde o prazer de viver”.
Palmares por sua luta pioneira, foi nessas terras brasileiras a mãe de todas as rebeliões, origem das manifestações, espelho de um exemplo bem concreto, foi sem dúvida a tentativa de projeto, elaborado com profundidade. Continha na essência de sua trama, uma palavra que resumia o programa, que se chamava Liberdade.
Um valor se transformou em uma luta. Como a semente escondida em uma fruta, que, para encontrá-la é preciso saborear a sua doçura; foi pela coerência e a bravura, que estes fatos se entranharam na memória. E foi assim que a resistência e a ternura transformaram nesta bela história.
Os quilombos ainda continuam, organizados nos campos e nas favelas, levando em frente estas experiências belas, nos povoados e acampamentos. Não são apenas lugares de moradia, mas boas escolas, onde se aprende a rebeldia, que ganha forma e se transforma em movimentos.
Guerreiros e guerreiras misturam raças e sonhos a todo o instante. Seguem em marcha em busca do horizonte onde descansa o princípio da igualdade. Lá se fechará o ciclo da liberdade que tantas vidas colocou a seu serviço. Foi sem dúvida o valor do compromisso que trouxe até aqui a humanidade.
A terra ainda é escrava em nossos campos. Os pobres ainda procuram um lugar. O espaço está ocupado e está vazio. Fala-se em escravizar o rio, a água e a biodiversidade. São novas formas de dominação, que teimam em perpetuar a escravidão e a condenar à prisão a liberdade.
Mas sempre há esperanças enquanto existir causas. As derrotas são apenas algumas pausas que o destino coloca para refletir. É assim que as lutas vão se emendando, em cada época trocam-se
Cartas de Amor Nº 83
AOS 20 ANOS
Aos vinte anos surge o vigor da juventude, é o momento de confirmar virtudes e firmar o cultivo de valores. É o período de descobrir amores empenhar-se em formar a identidade, assumir um lugar na sociedade e preparar as sementes como as flores.
Assim ocorre com nosso Movimento. Cresceu como um redemoinho em pleno vento e foi abrindo cercas e porteiras, como se fosse uma grande brincadeira, uma dança ou uma cantiga de roda, inventou e produziu a própria roda, de princípios e métodos sobre as terras brasileiras.
Por detrás de onde veio a ventania, nasceram casas, escolas e lavouras, desfraldaram-se bandeiras encantadoras e abriram-se sorrisos em bocas quase mortas. A ocupação sempre serviu de porta para animar esta fúria construtora.
Nascido dos escombros e das misérias, o Movimento forjou-se em coisas sérias, indispensável, nunca visto igual. Como o vento que arma o temporal e se aglutina para formar rajadas, virou atração nas fazendas e nas estradas e fez-se forte tornando-se imortal. Por qual razão se mantém a efervescência, se todas as análises da ciência demonstram que a reforma agrária é uma causa derrotada? É simples a resposta a ser dada, a quem por ventura ainda não se convenceu; é que um povo depois que aprendeu, tirar de si as próprias soluções, não há barreiras nem intimidações, que o façam desistir de construir os sonhos seus.
Assim os vinte anos de existência se tornam uma rotina, como as montanhas cobertas por neblinas, que esperam pela ajuda do calor, o Movimento tornou-se este fator de ataque contra a propriedade, que é negada a toda sociedade, pelo direito seu grande protetor.
Se é verdade que o tempo traz a idade, mais verdadeiro é que a luta traz mudanças. Viajam com o tempo as nossas esperanças, os sonhos e todas as utopias. Quem deixa de sonhar só por um dia, pode perder o ritmo da história; o que fazemos fica na memória, escrito pela mão da rebeldia.
Aos que ficaram enterrados no caminho, ou aqueles que lutaram e desistiram, sem dúvida nenhuma ambos serviram, a esta causa que hoje segue em frente. Um ser humano é como uma semente, morre porque quer germinar, mas cada qual tem o seu lugar, na estrada que liga o passado e o presente.
Vinte anos simbolizam o começo da vida de quem quer viver mais. Há os que dos outros querem ser iguais e há os que pensam em crescer, ser diferentes. As forças jovens que rompem as correntes, são as mesmas que plantam a liberdade, porém a rebeldia não tem idade está em quem anda conscientemente.
Somos sem dúvidas hoje mais experientes. Muitas lições, aprendemos e ensinamos e se aqui ora comemoramos, é a prova que vivemos e existimos. Se durante vinte anos resistimos, muito mais teremos que persistir. Evitar se deixar prostituir e fazer de cada dia um tempo novo. Aprendemos que “só o povo salva o povo” é com ele que teremos que seguir.
Ainda estamos longe da chegada, mas pra quem luta a distância não é nada, serve de estímulo a espera do momento. Vencer é mais que um acontecimento, é devolver ao povo a dignidade, por isso, tudo de bom que rima com solidariedade, seja sempre nossa identidade, de luta e deste grande Movimento.
Cartas de Amor Nº 84
À ALEGRIA
A alegria traz em sua essência o direito à irreverência. É por onde qualquer ser vivo expressa os motivos de viver, por isso, alegria não rima com prazer, mas poderia, quem se alegra apenas anuncia que está se deixando acontecer.
É na prática da política que a alegria mais se sacrifica. Há quem diga que a alegria em demasia, descontrola a razão e autoriza a fantasia. Pode até ser verdade, mas sem ela a prática perde a metade de sua qualidade.
O carnaval, esta festa popular, convida a sorrir e a pular sobre todas as dificuldades. É onde as barreiras das idades são ultrapassadas. Cada qual com sua quota de alegria contribui para a grande sinfonia que tudo dinamiza, é disso que a revolução precisa.
É o tempo em que ruas e avenidas são interrompidas. Deixam de ser caminhos e rodovias para dar passagem às grandes romarias. É de alguma forma, uma crítica ao “progresso” que se empanturrou de latas e motores, tornando todos perdedores, neste grande retrocesso, que faz o trânsito andar lento, poluindo até o pensamento.
Normalmente ao se atravessar uma avenida temos que correr para não perder a vida. No carnaval é diferente, o chão vira um colchão, onde se pula e deita como em uma grande colheita de espigas. As cores se misturam às cantigas e a alegria se torna irreverente.
Alegrar-se é renascer, ou melhor, é cuidar do prazer para continuar vivendo. É dizer o que se está querendo por uma linguagem figurada. É manifestar a rebeldia, anunciando que chegará o dia, onde, para a alegria, não tem hora marcada.
Geralmente, não é levado a sério o que é dito espontaneamente. O mundo do mercado só respeita aquilo que é pensado e detalhadamente planejado, para se manter na concorrência. A alegria é a sabedoria que diz por outras vias que os desmandos, nos comandos, pagarão um dia as conseqüências.
Há quem use a alegria para a indústria cultural, enganando e deformando, tornando tudo natural. Mentiras há em toda parte, inclusive na arte.
Há uma verdade dita com propriedade, que “a alegria vem das tripas”, não é de tudo alheia; mais diretamente ela vem das veias, se bem abastecidas. A alegria tem muitas fomes e uma delas é de comida.
Por que nos alegramos ao comer? Por um sinal e um motivo. O primeiro avisa os órgãos que tudo está normal, o segundo é que continuaremos vivos.
Mas enfim, o que é mesmo a alegria? É algo que se faz e se recria marcando os momentos e os dias embora exista o sofrimento. Viver é um acontecimento, lutar é uma conseqüência, assim se faz pela experiência a tradição de um povo que confia.
Na linha dos direitos a alegria é que reconhece se tudo está perfeito. Quando vamos e voltamos, trabalhamos e descansamos, passeamos e brincamos sem ninguém nos impedir. Significa que a alegria se transforma no direito de sorrir.
Assim a história se destina e é destinada, há coisas difíceis de serem modificadas e há as que mudam com facilidade. O papel de cada qual deve ser descoberto, mas de antemão já temos certo, que ninguém quer viver sem ter felicidade.
Cartas de Amor Nº 85