Del III: Frå Principat til seinantikk
6.1 Bibliografi
A participação no processo de formação, através dos diversos cursos, oficinas, eventos, encontros e nos trabalhos desenvolvidos pelo Projeto, possibilitaram às mulheres a diversificação de atividades para além dos afazeres usuais e a diversificação dos ambientes de
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trabalho e convívio. Esta estratégia favorece o processo de empoderamento, pois diversos conhecimentos foram por elas apropriados, atividades e técnicas produtivas foram assimiladas de modo a ampliar sua atuação e qualificar sua participação nas atividades comunitárias.
Os relatos colhidos durante a Avaliação de Impacto evidenciam uma mudança de postura das mulheres acerca de seu papel na vida comunitária
Mudou 100% [...] Porque antes do projeto aqui, se formasse uma reunião aqui só ia os homens, as mulheres diziam 'ah não vou não, porque você já vai, não precisa eu ir, pra que nós dois? Eu fico fazendo o serviço de casa e você vai'. Às vezes o pai ia, outra hora o filho ia e a mulher ficava em casa. Hoje não, a mulher quer participar da reunião porque ela tá interessada em fazer parte daquele processo [...] através de reunião e palestra, curso. Teve aquele encontro das mulheres aqui, [...] foi uma coisa muito importante. Só foram as mulheres, os homens não iam lá, só eram as mulheres. Aquilo foi uma coisa muito importante pras mulheres, é por isso que incentivou muito as mulheres na comunidade. Porque antes não tinha esse negócio.
(PRAXIS, 2012, p. 39; Manoel Vitorino – Subterritório Nova Esperança). Outro depoimento, de uma mulher entrevistada, referindo-se às capacitações, confirma esta avaliação:
Olhe, acho que todos foram proveitosos, não teve um mais, outro menos. Eu acredito assim, desde o início, tudo que a gente fez foi em grupo, e foi tudo importante. Não tenho questão de dizer um foi mais, outro menos. É claro que a questão, acho que, se a gente fosse citar, por eu ser mulher, por essa questão de mulheres, o que elas mais gostaram foi essa questão de trabalhar o gênero, que até então não era discutido [...] Agora essa questão foi importante. Essa questão de trabalhar os alimentos é interessante, essa questão de trabalhar pra fazer oficina de cisterna foi importante, porque várias pessoas aprenderam [...] Então, é uma coisa que vai servir pro resto da vida, vai servir pra que eles possam ganhar o pão, então tudo isso foi proveitoso. A gestão de convênios também foi importante, principalmente pro grupo da diretoria, que aprendeu a trabalhar com a questão do dinheiro. (PRAXIS, 2012, p. 26; Euclides da Cunha – Subterritório Asa Branca).
O relatório da Avaliação de Impacto do Projeto mostrou que a atividade mais citada durante as entrevistas realizadas em 2012 foram os Encontros de Mulheres, também chamado “Encontro de Gênero”. Estes encontros tinham como características marcantes o entusiasmo, a alegria e a descontração das mulheres. Vejamos alguns depoimentos:
O encontro de mulher foi um movimento muito bom que até hoje elas pedem outro e que teve assim uma participação. Elas começaram no começo assim, elas estavam assim meio tímidas, mas depois todo mundo começou a falar, e foi uma coisa assim muito importante que as mulheres começaram a
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participar mais aí, depois desse encontro. (PRAXIS, 2012, p. 33; Jeremoabo – Subterritório Ribeirinhos).
E também o encontro de relações de gênero foi essa questão de divisão de tarefas, qual é a tarefa do homem e a da mulher. As pessoas entenderam que não existe essa divisão de tarefas, qualquer um pode fazer o serviço numa boa. Não é porque é um serviço mais apropriado pra mulher que o homem não pode fazer. Tem que um ajudar o outro porque melhora até a convivência das pessoas no dia a dia. (PRAXIS, 2012, p. 33; Poções – Subterritório de Nova Esperança).
A intervenção na perspectiva de gênero demandou várias ações afirmativas e o processo de sensibilização e capacitação sobre as questões de gênero foi uma das estratégias mais importantes. Através do trabalho específico com as mulheres, estas se prepararam e se capacitaram para a participação nos processos e espaços sociais representativos com uma maior consciência de si, de seu papel, ocupando cargos com autonomia. O processo de sensibilização teve início com os 100 encontros de mulheres, que aconteceram nos subterritórios e envolveram 4.120 mulheres, e foram momentos-chave para refletir e dar visibilidade às contribuições das mulheres agricultoras. A metodologia utilizada nos encontros foi participativa, de modo a proporcionar a interação do grupo, através de relatos de experiências, com discussões que enfatizaram a importância delas para si mesmas e para a comunidade como um todo. Como eixo central da proposta de conteúdo dos encontros de mulheres, trabalhou-se com a dinâmica “Eu, minha Mãe e minha Avó”67, com a finalidade de estimular o olhar crítico sobre a vida cotidiana das mulheres agricultoras, levá-las a refletir sobre as semelhanças e diferenças entre as gerações, se e quais mudanças houve do tempo das avós até hoje.
A proposta de realizar encontros específicos com as mulheres foi uma estratégia necessária e uma metodologia acertada, porém, não se podia esperar que um encontro apenas por subterritório fosse suficiente para desencadear mudanças efetivas nas relações sociais de gênero na vida cotidiana dessas mulheres, pois isto seria ignorar as raízes profundas da cultura local e a estrutura dominante patriarcal, que está tão presente no meio rural.
A transversalidade do enfoque de gênero é uma estratégia fundamental para garantir a discussão sobre as relações de gênero no dia a dia do desenvolvimento das ações de um projeto como o Gente de Valor, na perspectiva de abrir brechas para a entrada das mulheres agricultoras no espaço público e ir tentando desconstruir a cultura machista, sexista
67 Essa dinâmica consiste em resgatar como era a vida das antepassadas das agricultoras confrontando com a realidade atual. Perguntamos a elas quais as atitudes que eram feitas por nossas avós e mães e que repetimos em nossas vidas.
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e patriarcal, que coloca a mulher no espaço doméstico, mantendo-as oprimidas na família, como figuras assumidamente subalternas (SAFFIOTI, 1992). No discurso do Projeto e em algumas ações, tentou-se questionar e desconstruir o poder legitimado do homem sobre as mulheres.
Determinadas funções e tarefas antes consideradas de responsabilidade exclusiva feminina passaram a ser divididas com os homens. As mulheres se viram capazes de aprender e se aprimorar no desempenho de novos trabalhos e funções, tais como o trabalho em empreendimentos produtivos e a organização coletiva em associações. Os conhecimentos e experiências nos encontros lhes deram mais segurança e confiança e despertaram nelas maior interesse pela participação na associação, ao mesmo tempo em que lhes proporcionaram a valorização. Vejamos o que dizem depoentes da Avaliação de Impacto 2012:
Mas o mais importante que eu achei, que mais modificou mesmo a comunidade e as pessoas, foi o de associativismo [...] Porque dali pra cá, as comunidades viram a necessidade de fazer parte de um grupo de associações, não só de cooperativas e outras entidades. (PRAXIS, 2012, p. 29, Itapicuru – Subterritório Buscando Desenvolvimento).
– Com certeza isso aí foi mais uma valorização que a gente teve durante
todo o processo do projeto [que] vinha colocando a questão da valorização da mulher, não apenas ser vista como dona de casa e mãe de seus filhos, mas tem um papel também social. [...] então eu acho que isso aí, é como eu tinha dito, é uma questão mesmo que eles chegaram com o projeto e começaram a valorizar, porque a mulher se sentia menosprezada, então às vezes ficava até receosa de dar suas opiniões em um ambiente que a maioria era homens e apenas eles debatiam. E com a valorização a gente pode
perceber que o nosso papel não é esse de ficar só observando, mas também de agir. (PRAXIS, 2012, p. 40; Poções – Subterritório Sol Nascente).
Com a participação, vieram a responsabilidade e o compromisso com o grupo e a comunidade. Com o aumento de capacidades adquiridas ao longo destes anos, em um processo participativo, resolveram entrar nas associações e assumir cargos nas organizações locais. Entre as 104 associações conveniadas com o Projeto, no período de 2009 a 2012, 89 mulheres assumiram cargos diretivos68. Apenas uma entre as dez mulheres que entrevistei não participa da associação, uma é sócia e as outras oito assumem cargos na diretoria: duas são presidentes, uma vice-presidente, uma secretaria, três tesoureiras e uma assume outro cargo na associação quilombola como “coordenadora de gênero”.
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