4.3 Det palliative forløpets midtperiode
4.3.1 Beslutninger ved hode-halskreft i palliativ fase
A comercialização de produtos derivados das folhas de coca ganhou impulso na Europa somente no século XIX, quando em torno de 1859 o químico alemão Albert Niemann, da Universidade de Göttingen na Alemanha, isolou o seu princípio ativo e o denominou cocaína. Seu alcaloide foi isolado por meio de um procedimento no qual se empregavam basicamente álcool, ácido sulfúrico, bicarbonato de sódio e éter. Neste período, a descoberta da cocaína ou o cloridrato de cocaína, sob forma de pe- quenos cristais, passou a constituir um elemento importantíssimo na medicina e no desenvolvimento da indústria farmacêutica.
A cocaína é o principal alcalóide do arbusto Erythroxylon, extraído da coca natural das encostas andinas, cultivada nas regiões planálticas e região no- roeste da Amazônia legal. Existem cerca de 200 espécies diferentes do gê- nero Erythroxylon, porém apenas 17 delas podem ser utilizadas para a pro- dução de cocaína. Destas 17 espécies, 15 contêm níveis baixos de alcalóide, não sendo cultivadas; as variedades E. coca ipadu, E. coca novogranatense e E. coca truxillense contêm quantidades significativas de cocaína (EVANS, 1981 apud LEITE, 1999, p. 15).
Com a descoberta da cocaína, muitos derivados da folha de coca foram produ- zidos e passaram a incrementar o comércio desta substância, principalmente na Eu- ropa e nos Estados Unidos. Segundo Escohotado (1998, v. II), o primeiro produto de coca a fazer sucesso na Europa foi um elixir medicinal, criado pelo químico ítalo-fran- cês Ange Mariani, no ano de 1863. Chamava-se Vinho Mariani e continha vinho Bor- deaux misturado a um extrato de folhas de coca. A bebida foi reconhecida por suas propriedades medicinais e estimulantes, tais como aumento da energia física, inibição da fome, elevação do humor e da potência sexual. Algumas propagandas do produto afirmavam que o vinho era saudável, forte, energético, vital e sem nenhuma contrain- dicação. Mariani também desenvolveu outros elixires, pastilhas e infusões com folhas de coca, mas o Vinho Mariani foi o mais popular entre artistas e intelectuais europeus da época.
Mariani levou para a tumba o segredo de seu extrato. Mariani sempre insistiu que a diferença entre coca e cocaína não é a que existe entre a substância e seu concentrado, mas sim a que há entre um conjunto de substâncias e uma só. As propriedades da coca são desvirtuadas quando reduzidas a este alca- lóide. (ESCOHOTADO, 1998, vol. II, p. 67).
Muitas bebidas alcoólicas e não alcoólicas foram produzidas a partir da cocaína ou dos extratos de coca. Consoante Escohotado (1998, v. II), uma das mais populares foi o Pemberton’s French Wine Coca. Criada em 1885, sua fórmula era muito seme- lhante à do Vinho Mariani, mas após mudança de alguns dos ingredientes, passou a constituir a versão original da Coca-Cola. Dentre os ingredientes originais desta be- bida encontravam-se a cocaína misturada com álcool, no entanto, com o puritanismo religioso em alta e o início do movimento contra o álcool nos Estados Unidos, houve modificações em sua fórmula original. Suprimiu-se o álcool e acrescentaram-se o ex- trato de noz de coca, cafeína e água com gás. Como estratégia comercial, o produto passou a ser anunciado como uma bebida ideal para intelectuais e abstêmios. Seu criador foi o botânico John Pemberton que divulgava as propriedades benéficas da bebida para doença nos nervos, histeria, melancolia, problemas gástricos, constipa- ção, dor de cabeça e impotência e cura do vício em morfina, entre outros males.
Em 1891 a patente foi vendida a outro boticário A. Grigs Candler, fundador da Coca Cola Company, que financiou uma ampla campanha publicitária desta bebida, promovendo-a como ‘remédio soberano e bebida que não causa alterações. Contudo permanece até hoje o principal e quase única im- portadora de uma variedade de coca relativamente rica em alcalóide, a cha- mada Erithoxylon novogranatense, empregada como aromatizante da bebida (ESCOHOTADO, 1998, v. II, p. 77).
Nas últimas décadas do século XIX inicia-se um período intenso de experiên- cias com esta substância, considerada revolucionária no tratamento de diversas en- fermidades e problemas. Byck (1989) afirma que além de vinhos, tônicos, elixires e outras beberagens, foram fabricados inúmeros produtos à base de cocaína para o mercado farmacêutico como unguentos, supositórios, bálsamos, spray para a gar- ganta e pastilhas. Estes produtos eram tidos como eficazes na cura de distintos pro- blemas de saúde, incluindo alcoolismo, morfinismo, asma, eczemas, neuralgias e até doenças venéreas. Propagandeada como o remédio para diversas enfermidades, a cocaína posteriormente passou a ser considerada por alguns cientistas como uma panaceia.
De acordo com Byck (1989), o laboratório americano Parke Davis & Co. foi o principal produtor de derivados de coca. Fabricava o extrato fluido de coca, o vinho de coca e o cordial de coca para administração oral; as soluções de sais, para utilização tópica e hipodérmica com fins anestésicos; o oleato de cocaína no tratamento de ne- vralgia de nervos periféricos ou na anestesia para obturação de dentes sensíveis; os charutos e cigarros de coca e o inalante de cocaína nas afecções do trato respiratório, tosse espasmódica, bronquite, entre outras.
Um dos maiores entusiastas do seu uso pela medicina foi o médico e criador da psicanálise, Sigmund Freud, que no começo da sua carreira conheceu e se encan- tou com as propriedades terapêuticas da cocaína. Freud trabalhou com a substância purificada, adquirida do laboratório alemão E. Merck, e fez registros minuciosos de suas experiências quando autoaplicava a substância. Realizou descrições precisas de humor e percepção verificadas em decorrência da ação desta droga no organismo. Estes ensaios, escritos com base na descrição de suas experiências sob efeito da cocaína, iniciaram uma tradição de análise pormenorizada dos efeitos psicológicos produzidos mediante uso de substâncias psicoativas, introduzindo uma metodologia científica sistemática para o estudo dos psicoativos.
Em um de seus primeiros artigos científicos, intitulado “Sobre a coca”, Freud (1889) discorreu superficialmente, mas com bastante originalidade, acerca de sete campos terapêuticos na utilização dos derivados de coca: como estimulante, para au- mento da capacidade física do corpo por determinado e curto período de tempo; nos distúrbios digestivos; para caquexia; no tratamento dos vícios da morfina e do álcool; para tratamento da asma; como afrodisíaco e em aplicações locais como anestésico.
Para este estudioso, a principal vantagem da coca seria a de aumentar a capa- cidade física do corpo por determinado e curto período de tempo, da mesma maneira como há muitos séculos a substância vinha sendo empregada pelos índios latino- americanos. Seria especialmente útil em circunstâncias nas quais não é possível con- tar com o descanso e alimentação, essenciais em situações de grande esforço, como guerras, viagens e prática de alpinismo. Como médico neurologista, Freud nutria re- levante interesse em explorar estas propriedades da planta e encontrar um tratamento para a psicose e para a depressão. Conforme acreditava, os efeitos estimulantes da coca deveriam ser investigados em profundidade para o tratamento de casos de de- bilidade nervosa e psíquica.
É um fato notório que os psiquiatras dispõem de um farto suprimento de dro- gas para reduzir a excitação dos centros nervosos, mas nenhum que possa servir para aumentar o funcionamento reduzido dos centros nervosos. Por conseguinte, a coca tem sido prescrita para os mais diversos tipos de debili- dade psíquica – histeria, hipocondria, inibição melancólica, estupor e enfer- midades semelhantes (FREUD, 1989, p. 79).
Freud tinha interesse também no estudo da utilização da cocaína para trata- mento de distúrbios digestivos e doenças que causassem degeneração do corpo como anemia grave, tuberculose pulmonar, doenças febris de longa duração, pneu- monia, asma e até mesmo a sífilis. Ressaltou, ainda, os atributos do uso da coca como afrodisíaco, relacionando o aumento da excitação sexual, o efeito estimulante desta sobre a genitália e a elevação da potência sexual dos usuários do produto.
Entusiasmado com as propriedades desta substância, em um encontro informal com um amigo oftalmologista, Freud demonstrou como a cocaína, usada de forma tópica, tinha efeito anestésico. Para sua surpresa foi o amigo Karl Koller o primeiro cientista a escrever especificamente sobre o tema, publicou um artigo sobre anestesia ocular em 1884, primeiro estudo a obter o reconhecimento da comunidade científica sobre as propriedades anestésicas da cocaína. Tal fato deixou Freud bastante con- trariado. Segundo Byck (1989), no mesmo ano o conceituado cirurgião William Hals- ted, da Universidade Johns Hopkins, ao ler o relatório de Karl Koller, percebeu que a cocaína poderia ser um excelente anestésico local. Conforme demonstrou, a cocaína, quando injetada em um nervo, poderia produzir anestesia local segura e eficaz. Sua descoberta foi uma importante contribuição para os processos de anestesia em cirur- gias, as quais passaram a ser realizadas com o auxílio da cocaína
Como afirma Byck (1989), apesar do impulso na utilização terapêutica da co- caína gerado pelos artigos e achados pioneiros de Freud, um dos maiores equívocos
em suas recomendações foi o emprego desta substância para o tratamento do morfi- nismo. Segundo as pesquisas de Freud, os preparados de coca teriam o poder de eliminar a ânsia pela morfina em usuários habituais e também de reduzir os graves sintomas de abstinência manifestados quando o paciente interrompe o hábito da mor- fina. No entanto, ao prescrever cocaína ao seu amigo Fleisch, no intuito de curá-lo do morfinismo, em curto período de tempo este tornou-se dependente também da coca- ína e teve morte prematura. Tal fato abalou muito o jovem Freud.
A aceitação e mesmo a admiração pelas propriedades medicinais da cocaína foram diminuindo em face da constatação de alguns efeitos colaterais indesejáveis e da observação clínica dos sérios danos em decorrência do uso continuado desta subs- tância. Diante de pressões externas e de experiências comprovadas do aumento da tolerância ao uso de cocaína em pacientes que já tinham problemas com a morfina, Freud escreveu um artigo no qual se retratava e admitia seu erro ao recomendar este uso para tais pacientes.
Apesar da rejeição da comunidade acadêmica à utilização da cocaína em de- terminados casos ou situações e da posterior proibição da comercialização, cogita-se que o uso e o estudo continuado das propriedades e efeitos da cocaína por Freud teriam contribuído para uma das mais célebres conquistas científicas do mundo.
Cogita-se a influência do uso de cocaína na gênese da psicanálise, visto que os primeiros sonhos interpretados meticulosamente por Freud coincidiram com o período em que ele tomava mais cocaína, tanto em via subcutânea como oral. “Tal como as culturas primitivas se serviam de drogas para pôr os indivíduos em contato com o numinoso, Freud havia usado a cocaína para entrar em contato com o inconsciente” (ESCOHOTADO, 1998, p. 72).
1.3 DE REMÉDIO A VENENO: CONSEQUÊNCIAS ADVERSAS DA PROIBIÇÃO À