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4. MATERIALE OG METODE

4.8. Behandling

É importante retomarmos, nesse momento que os arranjos para a implantação do projeto BT se deram, especialmente, pelas ações locais de segmentos ligados ao patronato rural. Ao observarmos os empreendimentos que foram territorializados na região, sobressaem aqueles municípios em que os respectivos prefeitos ocuparam o cargo de presidência da AMVAP. Lembremos que essa entidade era a responsável pelo projeto na região.

É imprescindível notarmos que no município de Monte Alegre de Minas, não havia, naquele momento, registro de ocupações de terras, nem conflitos envolvendo a posse de terra. Isso nos induz a interpretar que a investida da elite agrária local agiu no sentido de antecipar a eventualidade de qualquer ação dos camponeses organizados, em movimentos de luta pela terra. Podemos observar, na sequência no gráfico 3, o quanto que o processo de descentralização promovido pelo BT influenciou na arrecadação de recursos para sua implantação, nos municípios em que os prefeitos foram, naquela ocasião, presidentes da AMVAP.

Gráfico 3: Prefeitos presidentes da AMVAP e a implantação do Projeto Banco da Terra nos respectivos municípios

Fonte: AMVAP/DATALUTA-RAM, 2014.

*Prefeito de Canápolis mandato 2001-2004 e prefeito de Monte Alegre de Minas 2005-2008 Org.: FREITAS, R. L. de. 2014.

Os dados apresentados no gráfico 3 demonstram o quanto os prefeitos tiveram influência na adesão do projeto e o domínio exercido para implantação do BT. O processo de descentralização contribuiu, significativamente, para que os gestores municipais tivessem controle integral sobre o desenrolar do projeto, já que, ao ocuparem a presidência da AMVAP, entidade responsável pelo BT, garantiriam uma certa segurança quanto à implantação do projeto, uma vez que conheciam os trâmites, o que ajudou na capitação de recursos para seus respectivos municípios.

Fizemos esse recorte temporal de 1997 – 2002 por considerarmos o momento em que as políticas de créditos fundiários começaram a ser instaladas no país, como também no estado de Minas Gerais. Os dados que nos mais chamam, atenção são em relação ao

prefeito Último Bitencourt de Freitas27, figura influente na política nos municípios de Canápolis e Monte Alegre de Minas. Este ganhou as eleições para presidente da AMVAP nas gestões de 1997, 2005 e 2009, quando pode exercer sua função atraindo os investimentos do BT para os municípios onde governou.

A trajetória política de Último Bitencourt de Freitas, no interior da AMVAP, conferiu uma influência considerável, pois dos 25 empreendimentos em que foi implantada, 8 foram instalados graças aos seus esforços, sendo 1 em Canápolis e 7 em Monte Alegre de Minas.

Embora tenham estabelecido 1 empreendimento do BT em Canápolis, a luta dos camponeses organizados em movimentos socioterritoriais se inicia nesse município com a primeira ocupação de terra no ano de 2004, ou seja, momento posterior à existência e fim do projeto BT, no âmbito institucional. Embora a luta pela terra não fosse presente no campo desse município, a articulação do prefeito se concretizou. Em seguida apresentamos, na figura 2, a reportagem sobre as articulações do BT na região.

Figura 2 – Articulação local para implantação do Banco da Terra

Fonte: Acervo pessoal Entrevistado n. 15, 1999. Jornal do Pontal.

27 Nascido em Monte Alegre de Minas, Último Bitencourt de Freitas exerceu a profissão de Médico na cidade de Canápolis por mais de 25 anos, na Santa Casa de Canápolis; foi eleito prefeito de Canápolis, para o mandato de 1989 a 1992; eleito novamente prefeito de Canápolis para o mandato de 1997 a 2000; reeleito prefeito de Canápolis nas eleições municipais de outubro de 2000, para o mandato de 2001 a 2004. Candidatou-se a prefeito de Monte Alegre de Minas/MG, sendo eleito nas eleições municipais em 2004 pelo Partido Progressista (PP), para o mandato de 2005 a 2008. (Jornal do Pontal, 2012, s./p.). Foi reeleito prefeito de Monte Alegre de Minas para o mandato 2009 a 2012.

Um aspecto considerável que ajudou a consolidar a política de credito fundiário na região foram as ações do deputado federal Romel Anízio Jorge28 (Romão), do Partido Progressista - PP. Observem que a relação com as quais foram se estabelecendo com os deputados federais (Romão e Odelmo Leão, principalmente), para introduzir o projeto, se deu por conta da representatividade dessas figuras públicas no cenário regional, estimulando sobretudo a adesão do BT nas pequenas cidades.

Utilizando de elementos subjetivos e discursivos para o embate no campo do território imaterial, de maneira deliberada, foi apresentado, pela reportagem, a suposta exigência do estado de Minas Gerais para, então, assinar o convênio. É indispensável esclarecermos que o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, não fez nenhuma reivindicação referente aos valores dos juros cobrados, ele simplesmente decidiu não assinar o convênio por considerar inviável tal proposta. Mais uma vez, o hipotético interesse do governo do estado é apresentado do mesmo modo, como uma forma de chamar a atenção pública para as articulações que estavam em curso, sendo que, na realidade, essa ação não existiu.

Percebemos nesse ponto a origem das disputas e embates presentes no território imaterial, que giravam em torno da concretização do projeto na região. As informações contidas na reportagem, são ideias e pensamentos que induzem determinado comportamento sobre as articulações presentes no campo político para a implantação do projeto. Fernandes (2009), afirma que

Determinar uma interpretação ou outra, ou várias, convencer, persuadir, induzir, dirigir faz parte da intencionalidade [...]. Estou me referindo ao mundo das idéias em que forma, limite, referência, convencimento, conteúdo, área, domínio, extensão, dimensão, entre outras diversas, são noções necessárias para compreendermos que o pensamento também é produtor de relações de poder. A produção material não se realiza por si, mas na relação direta com a produção imaterial. Igualmente, a produção imaterial só tem sentido na realização e compreensão da produção imaterial. Essas produções são construídas nas formações socioespaciais e socioterritoriais. Os territórios materiais são produzidos por territórios imateriais. (FERNANDES, 2009, p. 210 – 211).

28 Romel Anízio Jorge, conhecido por Romão, nasceu em Ituiutaba. Em 1971, começou a carreira como vereador, cargo para o qual foi reeleito, sendo o mais jovem presidente da Câmara de Vereadores da história de Ituiutaba. Em 1982, ganha a eleição para prefeito e encerrou o mandato em 31 de dezembro de 1988. Em 1990, Romão é eleito deputado federal pela primeira vez Romão assumiu mais três mandatos como deputado federal pelo Partido Progressista - PP. Atuou em mais de 20 municípios da região do Triângulo, e recebeu título de Cidadão Honorário em quase todos eles. Jornal do Pontal (2011).

O ambiente de confronto na construção do território imaterial se torna explicito. O conteúdo jornalístico tem o poder de persuasão, elemento da subjetividade, e da própria imaterialidade do território. Tendo esse discurso da viabilidade do BT, naquele momento, como o único divulgado pela mídia, já que os posicionamentos dos movimentos de luta pela terra não tiveram espaços de diálogos no âmbito público, para se apresentarem, fez com que essa ideia dos benefícios do BT se legitimasse, materializando esses empreendimentos no território.

As alianças políticas de Canápolis se fortaleceram mediante o apoio do deputado federal Romão. Isso garantiu maior segurança para que a elite agrária local e regional pudesse atuar de modo mais preciso e permanente. Ainda acrescentamos que, ao utilizarem o termo reforma agrária democrática, subtende-se que a reforma agrária via Estado seria ditatorial, coercitiva e violenta, uma maneira sutil de descontruir a luta pela terra e os movimentos socioterritoriais camponeses. Os discursos são os produtores das relações de domínio.

Mais um ponto importante na reportagem refere-se ao valor máximo que poderia ser financiado até R$ 40.000,00 por família. Isso também seria um atrativo para envolver o camponês nessa nova lógica de acesso à terra. O fato de, em sua maioria, não terem moradia, trabalharem como arrendatários ou parceiros, toda essa insegurança e a facilidade de acesso ao crédito de maneira rápida e certa, foi o que colaborou para que centenas de camponeses ingressassem no projeto BT.

Em Monte Alegre de Minas, também não existiam ocupações de terras, e nem havia ações dos movimentos socioterritoriais rurais, mas um mercado de terras que poderia ser explorado devido a essa nova oportunidade. O fato do BT ter adquirido sete propriedades com tais recursos nos revela o poder político local. Não existiam conflitos, especificamente, no município, mas o interesse em fomentar o mercado de terras.

Há denúncias de que o secretário da agricultura, juntamente com os corretores imobiliários promoveu o aquecimento do mercado de terras. Foram adquiridas propriedades com o valor superior ao preço médio de mercado e inviável para o desenvolvimento de atividades agrícolas.

O município de Ituiutaba também merece ser destacado, pois foi primeiro com o maior número de empreendimentos do BT na região, nove. Encontra-se, também, a influência de seu Prefeito Publio Chaves, pois, segundo o gráfico 3, era este prefeito que presidia a AMVAP durante sua implantação na região. Podemos considerar que foi em sua gestão na associação de municípios que se iniciou o debate sobre o BT na região.

A principal instituição que articulou o BT em Ituiutaba foi a EMATER. No início, era apenas uma associação, no entanto as articulações do projeto forçaram para que mais camponeses pudessem ser inseridos no projeto.

É interessante esclarecermos que todos os municípios que compunham a AMVAP foram convidados a participar da reunião em que se iniciaria o processo de implantação do BT na região. Outra entidade responsável foi a Associação dos Municípios da Microrregião do Vale do Rio Grande – AMVALE29. Como a demanda era grande, foi necessária a compra de várias propriedades, e quem acompanhava os trâmites de compra e venda era a EMATER.

Os camponeses dos municípios de Iraí de Minas, Douradoquara e Tupaciguara também conseguiram adquirir propriedades por meio do BT, sendo que seus prefeitos ocuparam a presidência da AMVAP. Também, há diversos empreendimentos intermediados pela Associação dos Municípios do Baixo Vale do Rio Grande – AMVARIG30, Associação dos Municípios do Alto Paranaíba – AMAPAR31 e a Associação dos Municípios da Microrregião do Planalto de Araxá – AMPLA32.

Em Minas Gerais, o BT se deu pela municipalização do programa pelo qual o Conselho Curador do Fundo de Terras estabeleceu parcerias com os consórcios de municípios. Odelmo Leão Carneiro articulou ações junto à União, estabelecendo que as Associações de Municípios ficariam responsáveis pela Agencia do BT no estado de Minas Gerais.

Teve uma convocação realizada pela AMVAP, por meio de seu presidente Sílvio Marques Pedrosa, gestão 2000, naquele momento, prefeito de Douradoquara, representou o início da discussão sobre a implantação do BT na região. É necessário elucidarmos que esse comunicado enviado ao prefeito de Canápolis, Último Bitencourt Freitas, foi o mesmo enviado aos 23 municípios que compunham a AMVAP. Este documento, Circular de Nº 061/2000, encontra-se no anexo 1.

A informação orientada para um tema de relevância local contou com o argumento de envolver todos os setores ligados à agricultura do município. O fato de deixar explícita

29 Composta pelos municípios de Água Comprida, Campo Florido, Comendador Gomes, Conceição das Alagoas, Conquista, Delta, Nova Ponte, Pirajuba, Planura, Sacramento, Santa Juliana, Uberaba, Veríssimo. 30 Formado pelos municípios União Minas, Carneirinho, São Francisco de Sales, Frutal, Limeira do Oeste, Fronteira, e Itapagipe.

31 Integram essa associação os municípios de Carmo do Paranaíba, Patrocínio, Guimarânia, Patos de Minas, Presidente Olegário, Santa Rosa da Serra, Cruzeiro da Fortaleza e Varjão de Minas.

a necessidade de participação do prefeito e de seu Secretário de Agricultura nos revela, desde já, a intencionalidade das ações em curso. Lembremos que, historicamente, a ocupação do cargo nessa secretaria sempre foi dada aos agentes políticos ligados ao Sindicato Rural.

A participação do STRs era uma exigência do projeto, já que isso garantiria o envolvimento dos camponeses nesse novo instrumento de contrarreforma agrária. A participação do sindicato patronal já estaria assegurada pela presença do Secretário de Agricultura.

Outro elemento do vestígio do território imaterial é que essa convocação nos apresenta a relação de controle que os prefeitos e seus secretários mantinham sobre a participação desses encontros na AMVAP. Ao final, havia uma solicitação de que esse convite pudesse ser estendido a outras entidades. Isso, de certo modo, possibilita que o envolvimento de outras entidades se torne uma ação extremamente parcial, pois, em sua maioria, os prefeitos indicavam aquelas que lhes interessasse.

Outro aspecto que destacamos é a invisibilidade e a exclusão dada aos movimentos socioterritoriais rurais, sendo apenas aos sindicatos de trabalhadores permitida a participação como representante dos camponeses. O caráter local desse projeto era, entre outros, um dos principais instrumentos de controle territorial imposto pela elite agraria.

3.2 O discurso da elite e o protagonismo da Associação dos Municípios da