2. TEORIKAPITTEL
2.6 Bakhtin og dialogen
Tendo em consideração que a China é um país antigo com longa tradição de civilização e que a República Popular da China neste momento tende a assumir um papel relevante no mundo globalizado, uma base consolidada de fundamentos culturais e teóricos, resultantes dos conhecimentos profundos da cultura chinesa, favorece uma modelização própria. Trata-se de uma responsabilidade que deve ser assumida pelos autores chineses, no sentido de fomentar a conceptualização baseada na cultura chinesa e acessível a todo o mundo, cultivar deste modo a teorização com maior representatividade e capacidade de interpretação (Dai, 2011) frente aos problemas à escala mundial. Por outro lado, a Reforma e Abertura, política nacional da China desde década 80, tem estimulado o dinamismo da economia chinesa, bastante distinta do das épocas anteriores devido ao nível de abertura ao exterior e da profundidade de cooperação, levando a requerer o entendimento mútuo entre o Oriente e o Ocidente (Chen & An, 2009). Perante a divergência em termos de noção de cultura (cf. Subseção
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1.1.) e de perceção de comunicação (Chen & Chen, 2002; Liu & Chen, 2000; Chen & An, 2009), é crucial ter consciência desta divergência quando se pensa na comunicação intercultural entre o Oriente e o Ocidente, razão pela qual será abordada nesta secção do trabalho a ideia de comunicação intercultural na perspetiva dos autores chineses, que é, muitas vezes, influenciada pelos pensamentos confucionistas e taoistas.
Os autores que citamos aqui (Chen & Starosta, 2003; Cheng, 1987), advogam a apreensão da cultura e da comunicação no contexto chinês através de uma visão holística do mundo. É observado que, muitas vezes, os próprios autores chineses tendem a explicitar as qualidades essenciais da própria cultura, a partir da filosofia mais dominante (neste caso especialmente, o confucionismo) (cf. Subseção 1.1.2.). Uma outra interpretação explica a filosofia que está atrás deste pressuposto, revelando a interpretação do universo, onde a realização ou a conclusão de qualquer coisa só passa a existir através da integração de yin e yang, algo simbolizado por Tai Chi, com o yin em preto e o yang em branco (Chen & An, 2009). A fim de conseguir chegar ao estado holístico do equilíbrio, Chen (2016) considera o Zhong (centralidade) como o método mais eficaz para cultivar a competência no próprio, mas também como a chave para o sucesso de interações sociais na sociedade chinesa. Chen (2004) afirma que “the holistic principle unfolds the developmental feature of the cyclic movement in which individual components are interdependent and interdetermined in a network of relations” (p.10), o que está em articulação com Gao e Ting-Toomey (1998), que referem que “the Chinese self is defined by relations with others and the self would be incomplete if it were separated from others. The self can attain is completeness only through interaction with others and its surroundings” (p.6).
Por exemplo, Miike (2007) observa que, em culturas da Ásia-leste, o Japão, a China e a Coreia, a comunicação está imbuída de visões do mundo que valorizam a harmonia, a relacionalidade e a circularidade da vida e da morte. A importância da relação interpessoal foi evidenciada nos estudos de Holmes (2005) e Holmes e O’Neill (2005) e as qualidades como a discrição e a sensibilidade ao status e à cortesia foram reveladas
por Weng & Kulich (2015). Jandt (2010) opina sobre a conceptualização da comunicação, baseando-se nas perspetivas confucionistas e fundamentando-se numa definição de um “infinite interpretive process where all parties are searching to develop and maintain a social relationship” (p.41). Esta propensão de entendimento é partilhada por Carey (1989), que descreve a modelização ritual chinesa de comunicação como “(...) directed not toward the extension of messages in space but toward the maintenance of society in time; not the act of imparting information but the representation of shared beliefs” (p. 18). Em resposta, Chen (1993) propôs, de uma forma sucinta, cinco indicações behavioristas comunicativas, capazes de promover as competências nas interações com os chineses, que são: o controle emocional, o evitar de comportamentos agressivos, o evitar a expressão de “não”, o salvar da face e o enfoque nas relações particulares. Miike (2003, 2004, 2006) relatam como as tradições asia-cêntricas, epistemológicas, ontológicas e metodológicas podem transformar as investigações eurocêntricas sobre a comunicação em teorias e práticas culturalmente reflexivas e sensíveis.
No contexto chinês, apesar da longa tradição nos estudos nas áreas da linguagem, da cultura e da sociologia, a comunicação intercultural é tratada como uma disciplina da modernidade, com o seu início a partir dos anos 80 do século XX (Hu & Jia, 2006). Pode-se dizer que a Reforma e Abertura constituiu um ponto decisivo em abrir a porta para o exterior em todos os setores, incluindo o académico. Durante algum tempo, os primeiros a terem contato com a Comunicação Intercultural como uma disciplina foram os académicos e os docentes de línguas estrangeiras, entre os quais se destacam os docentes de língua inglesa e de língua chinesa como LE. Na década 80, eles foram pioneiros a trabalhar na introdução e apresentação dos fundamentos teóricos ocidentais, pondo-os em prática no contexto chinês. Por isso mesmo, a origem de Comunicação Intercultural como disciplina na China pode ser datada da década oitenta. Guan (2006) descreve em três fases o desenrolar da Comunicação Intercultural neste contexto, nomeadamente, a fase de aprendizagem e de iniciação (1990-1995), a de incentivo e de
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expansão (1996-1999) e a de aprofundamento (2000 até hoje). Segundo a investigação levada a cabo por Chi & Lin (2014), com uma recolha abundante dos estudos feitos a esta respeito, vislumbram-se três etapas. A primeira, entre 1983-1994, regista os esforços concentrados na apresentação da disciplina nos EUA até então, acompanhados por vários estudos dispersos e ligados a interesses individuais; a segunda já é mais virada para uma consciencialização e uma popularização da matéria, entre 1995-2002, congregando os empenhos na fundação de associação nacional, na publicação das obras de renome também dos autores nacionais e na realização efetiva de diálogos académicos, entre outros; a terceira etapa, que se prolonga até hoje, testemunha uma dinâmica com a introdução das publicações ocidentais na área, a par de criação de revista própria – Intercultural Communication Research11, que promove o debate, além
do aparecimento de tópicos específicos, mas focados na contemporaneidade.
Há que destacar que, independentemente do agrupamento e de visões de estudo, este percurso histórico parte primordialmente do aparecimento dos estudos introdutórios ou trabalhos traduzidos das obras americanas, os quais, por sua vez, passam a fazer parte do panorama chinês. Em 1983, os dois primeiros artigos neste contexto foram de autoria de He Daokuan, perante as situações do desenvolvimento académico nos EUA. Mais adiante, em correspondência com a presença crescente dos artigos desta natureza, o lançamento das obras traduzidas era considerado como mais um caminho, caraterizado pela fase de vida de estudos. Exemplos das traduções na época são, Beyond Culture, da autoria de Edward T. Hall e da tradução de Ju Yan’an (1988), Patterns of Culture, da autoria de Ruth Benedict e da tradução de Wang Wei (1988), Intercultural Communication, da editoria de Samovar e da tradução de Chen Nan (1988), Beyond Culture, da re-tradução de He Daokuan (1991), The Silent
Language, da autoria de Hall e da tradução de Liu Jianrong (1991), entre outros. Pode-
se assim dizer que, são as obras da comunicação intercultural que entraram em contato pela primeira vez com leitores chineses, e que, principiaram outros estudos que as
sucederam a fim de refletirem as questões mais pertinentes da China. Trata-se de uma conjuntura de trabalhos que marca a época, dando um grande contributo que nos ajuda a entender o ponto de partida deste percurso.
Na realidade, ainda que seja um pouco tardia, a autonomia de pressupostos teóricos começou nos anos 80, de maneira que se tem vindo a registar a procura constante de estruturação e modelização da comunicação intercultural a partir da perspetiva local. Este interesse tornou-se ainda mais acentuado com mais reflexões, sobretudo críticas, dos autores chineses (Lin, 1996; Hu & Gao, 1997; Jia, 1997; Gu, 2000). Se até àquela altura a disciplina era considerada recente e pouco fundamentada, são essas preocupações que os levaram a produzir a voz, dialogando com outras esferas académicas e providenciando, nesse sentido, a posição firme nos estudos de LE (Chi & Lin, 2014) no contexto chinês.
Além disso, e do mesmo modo que não podemos deixar dos contributos que deram os frutos originados do contexto americano, também seria indispensável considerar a continuidade de introdução das obras clássicas da área. Na hora de diferenciar dos tempos anteriores, a reedição das obras no seu original, em combinação com os prefácios de autores chineses é algo significativa. Neste âmbito, salientam-se a publicação, neste quadro específico, de Communication between Cultures, de L.A. Samovar et al., do Intercultural Communication: A Discourse Approach, de R. Scollon & S.W. Scollon, em 2000, do Intercultural Communication in Contexts, de Judith N. Martin & Thomas K. Nakayama, e de Intercultural Interaction: A Multidisciplinary
Approach to Intercultural Communication, de Helen Spencer-Oatey & Peter Franklin,
entre 2009 e 2010. Tal como em qualquer outra situação de assimilação dos estudos ocidentais, constata-se a existência de uma reflexão por parte de autores chineses acerca da sua própria escola, pelo que procuramos identificar uma linha de pesquisa entre os autores (Hu, 2005; Xu, 2006; Zhang, 2007; Yan, 2009; Dai, 2011), já no século XXI. Desde a década 80, começou a haver instituições de ensino superior, sobretudo as especializadas no ensino de línguas, que ofereciam disciplinas na área da comunicação
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intercultural. Até ao momento, já não sendo uma novidade, a oferta do curso Comunicação Intercultural implicitamente revela a precaução e a dedicação colocadas no assunto. Tal como aconteceu no mundo académico ocidental, o desenvolvimento da disciplina no contexto chinês levou ao surgimento de muitas revistas e conferências atinentes, o que é sempre favorável para o estudo na área conseguir sustentabilidade com novas perspetivas. Uma pesquisa (Sun & Gui, 2014) que cobre as publicações científicas na base de dados CSSCI, dentro do espaço de 1996-2012, por forma estatística, chegou a identificar os temas de estudo nestes trabalhos. Na totalidade das amostras, que de alguma forma vislumbra o panorama geral, o processo de interação de comunicação intercultural é o que prevalece. Indo um pouco mais além, o ensino- aprendizagem de línguas, a tradução, a teorização de comunicação, a competência comunicativa intercultural (doravante, CCI), os estudos comparatistas são mais alguns exemplos de tema. Para verbalizar os défices teóricos, certas imperfeições também são assumidas. Para além de serem delimitados os focos de estudo, neste caso em especial no elo de ligação entre a comunicação e a pedagogia linguística, os esforços não conseguiram quebrar a predominância da metodologia especulativa e da fundamentação disciplinar e conceptual pouco agrupada e consistente.
Contudo, não constitui uma tarefa difícil conseguir novos avanços na evolução de comunicação intercultural na China, perante os cenários de globalização e as perspetivas para o futuro. Gao (1999) enumera as inquietações graves em matérias de meio ambiente, de população, de tráfico de drogas, de guerra, de raça e de corrupção. Posto assim, oportunidades não faltam, nem os desafios, dada a presença da China na esfera internacional. Se nos remetermos para o facto de a China ser uma sociedade multiétnica, com uma diversidade composta por 56 etnias, as motivações ainda são maiores. A interconetividade crescente entre a cultura chinesa e o mundo e dentro da mesma cultura poderá ser mais uma fonte para o amadurecimento da disciplina, virada para solucionar problemas reais.
nosso caso de ensino-aprendizagem de PLE, o outro facto inerente e ao mesmo tempo desafiador, que é justamente a educação intercultural que se enquadra na comunicação intercultural e que se pede devido à mesma.