CATEGORY 2 - MATERIALS PROCESSING
N. B. SEE ALSO MILTARY GOODS CONTROLS
A localização de C. Ribeiro (1880, p. 69) do sítio do Fojo, a cerca de mil metros do centro de Caneças, bem como a sua descrição, coincidem grosso modo com a anta actualmente designada por Pedras Grandes. Nesse sentido também joga a favor o próprio significado de fojo (“cova para depósito de águas, junto a mina”), podendo observar-se na Carta Militar de Portugal, folha 417 (SCE, 1965) a indicação de um desaterro circular (numa área com várias frentes de pedreira), imediatamente a norte-nordeste da actual anta. Ainda hoje o topónimo “pedreira” surge na rua situada nessa direcção. Toda a área a sudeste, conhecida como Campo/s de Trigache foi ao longo de séculos sujeita a exploração de pedreiras, de que a cartografia antiga regista algumas das crateras produzidas. O topónimo “Horta do Fojo de Dentro”, que entretanto desapareceu da memória colectiva local, surge indicado para um espaço de horta na Carta Topográfica de Portugal, folha 34-B/4-1 (IGC, 1951), a 100-200 metros para sul-sudoeste da anta. Por outro lado, alguns dos materiais da “cata” realizada pelo geólogo apresentavam etiqueta com a mesma informação "22/2/1875, 300m S70ºE do Mº do Baeta[ou Baeto], Caneças" (MG638.01-05), o que coincide com a anta em discussão.
J. L. Vasconcelos visitou o sepulcro em 1913, registando numa ficha acerca dele: “Dolmen 600m ao NE do sinal trigonométrico do Bispo (2 km N.E. de A da Beja) 1913 // 2 pedras levantadas as outras tombadas seria bom photographalo antes de desaparecer. // Os campos ao pé tem muitas lascas de sílex // Lumiar – Odivelas – Casal Ramada” (AJLVasconcelos, [Pedras Grandes]). Felizmente o prognóstico não se concretizou, mas não foi possível verificar se a imagem foi obtida.
Uma década mais tarde F. C. Ribeiro também visitou Pedras Grandes, no âmbito das suas pesquisas arqueológicas na região entre Odivelas e A-da-Beja, nomeadamente nas antas de Trigache e Conchadas (ver os capítulos respectivos). Contudo, esta visita e eventuais anotações não foram detectadas durante o estudo e publicação dos seus apontamentos por V. Leisner e O. V. Ferreira (1959 e 1961). De facto, a única pista para a visita e possível intervenção é uma fotografia em que este
explorador posa junto à anta de Pedras Grandes (Fig. 69: 1), ainda que tenha sido atribuída pelos editores a Trigache 1 (Leisner e Ferreira, 1961, est. XII: 2). Além de se identificar claramente na imagem um dos esteios daquela anta (Fig. 69: 2), a vista obtida de este-nordeste regista a Serra de Sintra no horizonte, algo impossível de se observar na área do agrupamento de Trigache. Em todas as antas intervencionadas por F. C. Ribeiro, pelo que se pode depreender das fotos apresentadas (Leisner e Ferreira, 1961, est. XII-XIV), este teria por hábito posar junto delas. No entanto, face à dificuldade que a ruína da anta colocava à sua exploração, situação já lamentada por C. Ribeiro (1880, p. 69), é provável que qualquer exploração de F. C. Ribeiro tenha sido bastante limitada e reduzida.
Apesar da anta ter sido classificada em 1944 com a designação actual, uma década mais tarde, O. V. Ferreira (1959, p. 218) ainda se refere ao “Monumento do Fojo”, situado a 600 metros Norte, 25 graus Este do marco geodésico Bispo, e explorado por C. Ribeiro. Surpreendentemente, associa a denominação “Pedras Grandes” ao “Monumento das Batalhas”. Aliás, este autor, juntamente com V. Leisner (1961, fig. 1) indicava num mapa de localização das antas de Trigache e de Conchadas, outros dois símbolos de anta – um deles, a nordeste do geodésico do Bispo, parece corresponder à actual localização da anta de Pedras Grandes (para O. V. Ferreira, “Monumento do Fojo”), mas o outro, a noroeste do mesmo marco geodésico, poderá ter resultado de alguma confusão entre o topónimo do Moinho do Baeta (ali localizado) e os materiais depositados por C. Ribeiro no Museu Geológico, referidos atrás, com referência ao mesmo termo. Outra hipótese, carecendo de comprovação, poderá relacionar-se com a possibilidade de O. V. Ferreira ter localizado alguma minuta de um mapa antigo, com indicação de monumentos megalíticos. Mas, pelo referido neste capítulo, isso contradiria a informação publicada por C. Ribeiro (1880).
Outra designação da anta surge por intermédio de V. Leisner (1965) que situa o “Dolmen 1 de Caneças”, isto é Pedras Grandes, a 1 km a este-sudeste de Caneças, no sítio do Fojo, 300 m sul 70º este do “Monte da Baeta” (sic) e 600 m norte, 25º este do marco geodésico Bispo, correspondendo perfeitamente com a localização actualmente conhecida. É também esta autora que apresenta pela primeira vez uma planta da anta, produzida por si e G. Leisner em 1 de Dezembro de 1943 – aí
verifica-se a ausência do esteio U8, ainda escondido sob pedras e vegetação (situação verificável nas fotos obtidas – ALeisner, Leis31), a indicação da provável entrada, mas sem qualquer monólito, e o desenho dos materiais recolhidos por C. Ribeiro, depositados no Museu Geológico (ALeisner, Leis64; Leisner, 1965, taf. 53: 3).
No referido museu localizei ainda um nódulo de sílex (MG637.01), etiquetado “Dolmen de Caneças” associado a uma fotografia datada de 26 de Março de 1941 e legendada “Dólmen das Pedras Grandes [espaço] Caneças” (Fig. 69: 6) correspondendo a uma das vistas da anta publicada por O. V. Ferreira (1959, fig. 11- 12) com a legenda “Sepultura das Pedras Grandes ou das Batalhas: Outro aspecto da mesma”. A data anotada na foto da anta, anterior às obtidas pelo casal alemão (Fig. 69: 3-4), poderá explicar o interesse suscitado e a sua posterior classificação como Monumento Nacional. No entanto, a confusão de designações não é totalmente compreensível, pois a nótula de C. Ribeiro (1880), apesar de breve, é francamente clarificadora. Aliás, a folha da Carta Geológica, com base nos levantamentos antigos dos Serviços Geológicos, assinala as duas antas perfeitamente de acordo com essas indicações (SGP, 1981).
De meados do século XX até os anos 80 a anta viu-se progressivamente sitiada por bairros de génese ilegal, tendo inclusive sido incluída num loteamento que a erradicaria de vez, não fosse acção que a Comissão de Moradores do Casal Novo promoveu para o impedir (informação pessoal de José Candeias, antigo presidente da Comissão). Pouco tempo depois, em 1992, a anta sofreu a fractura de um dos esteios, por meio de uma retro-escavadora que tentava alinhar os dentes do seu balde (69: 5).
Entretanto, perante a pressão urbana que este Monumento Nacional sofria foram delineados projectos de valorização pela Câmara Municipal de Loures (Oliveira, 1994), mas tais desígnios não se concretizaram.
. Intervenções arqueológicas no século XXI
Em 2001, sob um novo enquadramento administrativo, foi realizada uma campanha de trabalhos arqueológicos pela empresa Era, Arqueologia Lda., contratada para o efeito pela Câmara Municipal de Odivelas. Aquela acção visava
sobretudo verificar o potencial patrimonial e o grau de preservação do sepulcro, mas os trabalhos incidiram sobretudo na sua área exterior (Fig. 71; Era - Arqueologia, 2001). Os resultados da avaliação efectuada facilitaram a concretização em 2004 de uma campanha de escavação mais abrangente, inclusive no interior da anta.
A intervenção arqueológica em 2004 na anta de Pedras Grandes decorreu essencialmente entre os dias 5 de Julho e 6 de Agosto, com uma primeira limpeza da vegetação no dia 1 de Julho e o aterro das áreas sondadas no dia 16 de Agosto (Fig. 69: 5). Perante os resultados de 2001, a escavação em área de todo o monumento foi entendida como uma acção localizada. Isto é, não se considerou necessário escavar a totalidade do contraforte e áreas imediatamente circundantes do sepulcro, pois o troço já intervencionado permitira uma leitura suficiente dessa estrutura – também porque se pretendeu deixar um testemunho para a posteridade. Assim, a escavação iniciou-se pelos troços exteriores que estavam associados a contextos de queda ou inclinação acentuada dos esteios, nomeadamente os ortóstatos U3, U4 e U5, e outros fragmentos pétreos dentro da câmara (U6, U7, U8, U17, U18 e U215). Após essa fase foi possível extrair os blocos referidos e proceder também à escavação do interior da câmara, até então impedida (Fig. 72: 2-6).
Um melhor entendimento da entrada era importante para a leitura integral do monumento, pelo que a sua escavação foi efectuada.
A equipa de escavação foi constituída por mim, enquanto arqueólogo municipal e responsável científico, pela arqueóloga Maia M. Langley e o bioarqueólogo Álvaro Figueiredo. Sob esta coordenação os 14 estudantes universitários de antropologia e arqueologia participaram nas diversas actividades implicadas na intervenção.
Consoante os contextos, a escavação processou-se com uso de picareta, picadeira ou colherim. As terras extraídas foram crivadas a seco (rede de 3 mm) consoante a pertinência do contexto – no caso da câmara as terras foram sempre crivadas.
O espólio exumado foi tratado e depositado à guarda da Câmara Municipal de Odivelas, sob gestão da Divisão de Cultura e Património Cultural.
Procurando o máximo de compatibilidade com a intervenção anterior, optou-se por manter e aplicar a descrição das unidades estratigráficas estabelecidas, adicionando as novas – para as quais se optou por uma maior segmentação das unidades pelas áreas onde eram detectadas.
Também se procurou implantar uma quadrícula de 10x10 m, em consonância com a anterior, com quadrados de 1x1 m ainda que se tenha registado um desvio adicional de cerca de 20 cm de sul para norte e de 5 cm de oeste para este. No sentido de efectuar um registo tridimensional dos achados mais pertinentes atribuiu- se ao eixo Y (sul-norte) uma coordenada alfabética (excluindo as letras O e Q) e ao eixo X (oeste-este) uma coordenada numérica (excluindo o algarismo 0). As diversas sondagens efectuadas na envolvente basearam-se na mesma quadrícula – ainda que para sul se tenha dobrado a coordenada alfabética e para oeste a coordenada numérica passou a negativa. A cota de referência utilizada, 273,24 m, a partir dos dados fornecidos pelo topógrafo municipal foi implantada no afloramento calcário a cerca de 10 metros a norte da anta.
À data das intervenções de 2001 e 2004 a anta correspondia de forma geral à descrição apresentada por C. Ribeiro (1880): dois dos esteios ainda completos mas tombados para dentro da câmara e outros jazendo no seu interior (U3, U4, U5 e U8), assim como outros blocos pétreos (U6, U7, U17, U18 e U21), parecendo não ter sido mexida desde então. As imagens conhecidas desta anta, das décadas de 20 e 40 também demonstram a condição relativamente inalterada do sepulcro. A excepção devia-se ao esteio (U4) quebrado em 1992, sob o qual foi colocado um bloco pétreo para evitar a sua queda. Perante tal situação, a pequena cata de C. Ribeiro (1880) terá sido realizada nos interstícios dos esteios tombados dentro da câmara, ainda que tivesse recolhido um conjunto significativo de materiais osteológicos e líticos.
Em 2001 a intervenção arqueológica incidiu sobre as áreas de entrada e do quadrante sul, no qual se realizou uma vala de sondagem para detecção de possíveis vestígios de mamoa. Na primeira área verificou-se a presença de dois pequenos esteios, mas não foi possível verificar se estes prenunciariam uma passagem mais extensa. Por outro lado não se registaram vestígios da mamoa, mas somente um anel pétreo de contraforte encostado aos esteios U8 e U9 (Era – Arqueologia, 2001).
A continuação dos trabalhos em 2004 incidiu a escavação na área de acesso à câmara e nos quadrantes exteriores em redor dos blocos pétreos U3, U4, U5, U6 e U7, que apresentaram o mesmo tipo de realidades já detectadas na intervenção de 2001: sob a U1 surgiu a U10 que se sobrepunha à U13, correspondendo essencialmente a depósitos alterados e superficiais. Estas unidades cobriam por sua vez o contraforte / enrocamento criado junto aos esteios (U57, U34, U27 e U41). A excepção registou-se na área oeste, onde a U10 se sobrepunha directamente sobre o afloramento e terras argilosas acastanhadas (U39) e o contraforte era residual.
As ausências referidas na área poente parecem ter resultado de dois factores: - A U13 (terras castanho-amareladas) resultava do substrato de argilas amarelas, mas naquele sector dava lugar ao afloramento de calcário, camada que se lhe se sobrepunha, preenchido por argilas acastanhadas. Posteriormente, verificou-se que esta realidade também se prolongava dentro da câmara e sob a área de contraforte U14.
- A quase inexistência de contraforte no lado oeste deverá ter resultado da extracção do esteio que ali existiu. Esta abertura terá permitido o acesso ao interior da câmara (antes da queda do esteio dos esteios no seu interior), bem como facilitou o desmonte localizado do contraforte. Os blocos U6, U7 e U21 (ainda que possíveis fragmentos de esteios) jaziam soltos sobre as U10 e U19. O “alvéolo” do esteio desaparecido (U40) foi aberto no substrato calcário, ou pelo menos na argila acastanhada, o que condicionou a sua profundidade e delimitação, situação semelhante detectada para a implantação do esteio U8.
Onde era mais visível, o contraforte (U57, U34, U27 e U41) apresentava as mesmas características da U14 (descrito por Era – Arqueologia, 2001, fig. 13), tendo sido utilizadas pedras de calcário e basalto na sua construção, entre as quais se detectaram alguns elementos talhados em sílex.
A inclinação acentuada dos esteios U3 e U4 terá sido em parte a consequência da queda do esteio de cabeceira (U5), ao qual a U4 se encostava. Esse episódio terá originado os contextos U25 e U26, que são o resultado do preenchimento, primeiramente imediato, e depois gradual dos vazios criados, por elementos das unidades U1, U10, U13, U27 e U34.
Situação semelhante, de arrastamento parcial do contraforte, parece ter ocorrido com a queda do esteio U5. Este esteio ao tombar para o interior da câmara terá arrastado o topo do seu contraforte (U57) mas, também, ao expor a estrutura contribuiu para a sua degradação natural e gradual, dando origem à U23, que cobriu a face exterior da sua base.
O tombo da U5 arrastou ainda os blocos U17 e U18. Estes terão funcionado como lajes de tapamento do interstício sul do esteio de cabeceira, o que põe de lado a hipótese aventada em 2001 de um qualquer tipo de divisão dentro da câmara. Aliás essa função de tapamento repete-se nos interstícios entre os esteios U5/U4, U4/U3, U3/U2 e U9/U8, nos quais foi possível verificar a existência de blocos tendencialmente maiores que os restantes, mas de dimensões semelhantes aos blocos U17 e U18.
Após o esclarecimento suficiente da área exterior aos esteios da câmara, avançou-se com a extracção daqueles monólitos que impediam a escavação dentro da câmara, nomeadamente os blocos U4, U5, U6, U7, U8 e U21. No caso do esteio U8, apenas foi retirado o fragmento caído no interior da câmara, permanecendo in situ a sua base, ainda que ligeiramente inclinada. Este esteio apresentava ainda na sua área de fractura 3 entalhes realizados para o quebrar, parecendo notar-se uma possível “covinha” um pouco abaixo daquela linha.
A extracção de alguns dos monólitos com uma grua móvel permitiu registar algumas das suas dimensões (Quadro 2), permitindo apreciar o esforço envolvido no seu transporte.
Quadro 2: Dimensões dos esteios da anta de Pedras Grandes.
Esteio / bloco Peso (em toneladas) Comprimento (m) Largura (m)
U3 6,8 4 1,80 / 1,60
U4 2,5 2,30+ 1,30 = 3,60 1,30 / 1,10
U5 + U5 4,7+2,2 = 6,9 2,50 + 1,40 = 3,90 1,90 / 2
U8 (frag) 1,2 - 2
U21 0,4 - -
Os blocos U6 e U7 foram retirados manualmente numa fase anterior da escavação, pelo que não foram pesados. De qualquer forma pelas suas dimensões terão pesos semelhantes, ou menores, ao bloco U21.
Apreciando as características dos blocos utilizados na construção, verifica-se que estes afloram ainda a cerca de 20 metros a norte da anta, pelo que a seu transporte apesar de esforçado, não terá sido longo (Fig. 72: 1).
O grau de preservação do interior da câmara revelou-se aquém das expectativas.
Sob o esteio de cabeceira (U5), que cobria a maioria da câmara, registou-se bastante lixo recente, ali acumulado: 1 ténis Adidas, plásticos, embalagem de iogurte, latas de conserva, vidros de garrafas, mas também alguns elementos em sílex.
Uma concentração especial de terra solta e escura (U45), também com lixo recente, inclusive um boneco do pato Donald, tornou-se evidente na área correspondendo ao pequeno espaço entre a U8 e, parcialmente, sob as U5, U17, U18 e U21. Esta realidade parece apontar para uma intervenção numa das poucas áreas acessíveis, talvez por C. Ribeiro. Contudo, um morador do Casal Novo recordava-se de, por volta de 1977-78, dois indivíduos terem passado um dia inteiro a cavar dentro da anta, por entre as pedras. Ora, sendo o lixo de carácter muito recente, e na área junto à anta se registar uma festa anual do tipo feira, é provável que este segundo episódio esteja mais próximo da causa. Reforçando esta explicação, para o lixo recente sob pedras caídas antes de 1880, pode presumir-se uma cavação em galeria, e a acção de roedores e répteis no local. Estes animais, ao produzirem os seus redutos sob as pedras criaram espaços vazios que foram posteriormente preenchidos por lixo. O estudo das faunas recolhidas (ver anexo) parece reforçar esta ideia.
A remoção dos restos da U19 e das terras soltas dentro da câmara (originadas pela extracção dos monólitos), permitiu evidenciar algumas realidades de interesse, notando-se uma concentração de vestígios arqueológicos numa área central de formato aproximadamente circular (U49 e U51) e segmentos de um anel pétreo pelo lado interior dos esteios (U53, U54, U61), excepto na área relacionada com o esteio U5 e junto aos esteios U2 e U9 (estes dois últimos esteios não foram extraídos nem os seus alvéolos escavados).
Ainda que inicialmente se tenha considerado a U58 como uma realidade arqueológica, pois apresentava bolsas de terra acastanhada com materiais, verificou- se posteriormente que a sua consistência argilosa de cor amarelada correspondia já ao substrato geológico – mas somente após a remoção da U49 e da raspagem
aprofundada das áreas limítrofes se tornou evidente essa situação, na qual revolvimentos antigos haviam misturado o sedimento geológico com terras e materiais arqueológicos. Assim, a mancha de terras sob a U49 foi classificada como uma nova unidade, a U58A. Estas duas unidades, juntamente com as U19, U61 e U59, continham a maioria do material arqueológico associável ao sepulcro, nomeadamente alguns elementos de sílex trabalhados e ossos humanos. Por outro lado, a U58A preenchia a referida área central da câmara, a uma cota inferior face aos topos da U58, que eram simultaneamente os bordos internos dos alvéolos dos esteios da câmara. Essa depressão poderá ter sido escavada e utilizada daquela forma intencionalmente, ainda que posteriormente tenha sofrido perturbações, de tal forma que no fundo desta se recolheram fragmentos de cerâmica vidrada verde (p. ex. PG(04)J7-28 e PG(04)I7-28) junto com artefactos em sílex (PG(04)I7-26 e PG(04)J7-32) e restos humanos.
No lado sul da câmara as unidades U61 e U59 ainda continham restos do espólio sepulcral, mas muito fragmentário.
A U61 apresentava-se remexida com materiais arqueológicos, grandes lascas da fractura do esteio U8 e ainda alguns blocos calcários e basálticos do que terá sido o enrocamento interno do alvéolo desse esteio. Aliás, como já foi referido acima este esteio tinha sido quebrado intencionalmente já muito próximo da sua base. Por outro lado porque assentava na área de substrato calcário não tinha um alvéolo muito aprofundado – a cota do afloramento rondava os 271,70-90 m, acima do topo do preenchimento da U58A, mas muito abaixo do fundo da U59. Quase sob a base do esteio U8, numa falha mesial, recolheu-se um percutor esferoidal em seixo de quartzito.
A U59 assentava no substrato geológico argiloso (U58) a uma cota aproximada de 272,20-30 m, o que coincidia com a cota do lado norte do mesmo substrato junto ao bordo dos alvéolos e com a entrada da câmara. É provável que esta cota tenha sido o nível aproximado da câmara, com uma depressão central que terá atingido a profundidade mais baixa de 271,08 m (cota de recolha de uma cerâmica vidrada PG(04)I7-28).
Como já foi referido atrás, o esteio de cabeceira (U5) selou a maioria da área da câmara quando caiu. No entanto, quebrou o seu topo porque embateu no esteio U9
e no substrato argiloso na entrada da câmara, ambos em cotas superiores ao bordo interno detectado do seu alvéolo. Isto parece significar que quando U5 tombou, a câmara já se apresentava parcialmente deprimida no lado oeste-sudoeste. Apesar da localização do alvéolo da U5 ainda no substrato argiloso, o que permitiu uma maior profundidade (c. 271,60 m), o seu bordo encontrava-se extremamente rebaixado – cerca de 271,80 m em vez de 272,20-30 m como nos bordos dos outros alvéolos (Fig. 73: 1). Outra característica associada ao esteio U5 é a sua base assimétrica - apesar de apresentar cerca de 2 metros de largura média, a sua base tinha um recorte com cerca de 1 m por 0,50 m de altura. Perante a situação descrita, a que se deve juntar a ausência de apoio do lado sul (o esteio desaparecido que se fincava na U40) e a pressão dos esteios do lado norte (U4 e U3), percebe-se o conjunto de eventos que terão contribuído para a sua queda.
Resta ainda descrever em pormenor o anel de enrocamento associado aos alvéolos dos esteios U4 e U3, respectivamente U42 e U56. Situando-se os alvéolos no substrato argiloso, estes apresentavam profundidades de cerca de 271,70-80 m, bem como o rebordo interno preservado (cerca de 272,20-30 m). Em ambos os alvéolos, na face interna, registou-se a concentração de blocos calcários e basálticos de dimensões similares (20-30 cm). No entanto, apresentavam-se numa formação espalmada, o que deve relacionar-se com a inclinação acentuada dos esteios e a maleabilidade natural da argila (inclusive originando no alvéolo U56 uma série de “espelhos de falha”).
A identificação dos dois ortóstatos marcando a entrada para o sepulcro (U11 e U12), emparelhados e orientados a sudeste, colocava a hipótese de um possível corredor que poderia prolongar-se, com ou sem estrutura pétrea, à semelhança de outros sepulcros da região, nomeadamente Monte Abraão (Ribeiro, 1880) e Casaínhos (Leisner, Zbyszweski e Ferreira, 1969). Contudo, isso não se registou, pelo que parece mais adequado designar esta componente da arquitectura do sepulcro como um portal: os dois esteios funcionariam como postes ou marcadores da entrada, impedindo o colapso do contraforte (o que poderia bloquear o acesso à câmara) e / ou poderiam sustentar uma laje em cutelo, que fecharia o espaço superior entre os dois