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N. B. SEE ALSO 9D004

Primeiramente, julgo necessário esclarecer alguma confusão que se tem vindo a registar quanto à presença de sepulcros megalíticos na plataforma imediatamente a

nordeste do relevo conhecido por Alto da Toupeira. Sobretudo, no que se refere as suas designações: “Anta do Alto da Toupeira”, “Anta da Toupeira” ou “Dólmen de Salemas”?

A anta do Alto da Toupeira (CNS-30076) corresponde ao sepulcro ainda hoje existente, constituído por cinco esteios visíveis, formando uma grande câmara, aparentemente poligonal, ainda que não se conheça vestígios de corredor (Fig. 74: 1). Este sítio surge também designado por “Alto do Toupeiro” (ALeisner, Leis: 61), “Dólmen de Salemas” (IPPC, 1986, p. 47; CNS-2754) a que, recentemente, se juntou “Toupeira” (Oliveira et al., 2000, p. 44).

A outra realidade, possivelmente megalítica, foi identificada e descrita por O. V. Ferreira (1963): “Quando explorávamos a gruta das Salemas, em Ponte de Lousa, encontrámos nos terrenos da parte superior da cornija de calcários do Turoniano que servem de cobertura à gruta, alguns objectos que pertencem à cultura do vaso campaniforme e que pensamos terem feito parte dum monumento destruído. Ainda se nota na pequena chã uma elevação que poderia muito bem ter pertencido ao «tumulus» assim como fragmentos de grandes lajes de calcário, semelhantes às que constituem os esteios do monumento megalítico do Alto da Toupeira que dista cerca de 250 m para sul”. Em seguida lista alguns materiais (ídolo cilíndrico em calcário, machado de xisto anfibólico, escopro de cobre, ponta de seta com aletas e espigão, em cobre, e pendente de calaíte), a que serão posteriormente acrescentados, agora no designado sítio da “Toupeira” (Ferreira, 1966, p. 52-53), mais um largo bordo de taça tipo Palmela com decoração incisa e uma pequena placa calcária amorfa com perfuração e gravação quadriculada. Apesar das reservas que é aconselhável ter para esta realidade, é plausível a existência de um segundo sepulcro megalítico nesta área. Contudo, na visita à área referida, no topo da cornija da gruta das Salemas, ainda que tenha sido possível verificar a chã com um suave montículo, onde se avistavam objectos arqueológicos atribuíveis a vários períodos, não se encontraram as lajes calcárias mencionadas. Também, a corresponder à realidade apontada, esta dista apenas 100 metros da anta do Alto da Toupeira, e não os 250 metros referidos. Outra questão, talvez um equívoco, tem a ver com o grande machado em xisto anfibólico (MG459.6), pois, apesar de atribuído por V. Ferreira (1963 e 1966, p. 52-53; Leisner,

1965, taf. 19: 3) ao possível sepulcro, este surge também indicado por aquele autor e L. Castro (1967, est. II: 22) como proveniente do povoado das Salemas.

Após as notícias referidas acima, V. Leisner (1965, p. 27 e taf. 19: 1 e 3) apresenta a planta de Alto da Toupeira, bem como o espólio encontrado próximo daquele sepulcro, “3.Streufunde bei Alto da Toupeira”, recolhido por O. V. Ferreira. Apesar daquela distinção, leitura menos atenta fundiu aquelas duas realidades sob uma mesma designação (Oliveira et al., 2000), o que importa destrinçar.

Assim, torna-se de facto importante clarificar definitivamente aquelas duas realidades, pelo que passarei a designá-las, respectivamente, pela ordem de descoberta, Alto da Toupeira 1 (ainda existente) e Alto da Toupeira 2. O/s povoado/s do Alto da Toupeira (Oliveira et al., 2000, nº 25), referido na Carta Arqueológica de Loures corresponderá ao povoado/s das Salemas (Oliveira et al., 2000, nº 27), pois é ainda possível observar vestígios de ocupações de diversa cronologia na plataforma sobrevivente, inclusive na já referida área de Alto da Toupeira 2.

A anta do Alto da Toupeira 1 (CNS-3007) teve a sua planta desenhada primeiramente durante a visita do casal Leisner, no dia 17 de Janeiro de 1944 (Fig. 74: 2), durante uma jornada que implicava o reconhecimento desta, segundo informações não especificadas de Mesquita Figueiredo e Carlos Ribeiro (ALeisner, Leis61). As imagens fotográficas então obtidas mostram que o sepulcro não sofreu grandes alterações até hoje. Mas, também, é possível vislumbrar parcialmente a norte daquele sepulcro, o lapiás, anos mais tarde destruído pela lavra da pedreira e em cuja área foram recolhidos vestígios de épocas diversas, nomeadamente de enterramentos datáveis do Neolítico antigo, nas diáclases daquele substrato, (Castro e Ferreira, 1959; Ferembach, 1964-65; Ferreira e Castro, 1967; Zbyszweski et al., 1980-81; Cardoso, 1993, p. 88-89; Cardoso e Carreira, 1996).

Posteriormente, à visita do casal alemão, no I Congresso Nacional de Arqueologia, em 1958, O. V. Ferreira (1959), inclui a anta no seu inventário dos monumentos megalíticos de Lisboa. Refere então que este sepulcro teria sido já sondado por um médico da região, que retirou algumas peças, bem como por Carlos Ribeiro, informação obtida provavelmente a partir de algum apontamento dos Serviços Geológicos. Apesar disto, anunciava a sua intervenção naquele sepulcro para breve, o que se veio a verificar.

Na sequência do avanço da lavra da pedreira mencionada atrás, em 1959, foi identificada a gruta das Salemas (CNS- 1707), com vestígios de utilização do Paleolítico e do Neolítico (Zbyszewski et al., 1962; Roche et al., 1962; Roche e Ferreira, 1970; Castro e Ferreira, 1972). A exploração inicial realizou-se em Setembro e Novembro daquele ano (sobretudo os depósitos neolíticos de superfície), mas foi no seguinte, entre Outubro e Dezembro, que a exploração daquele espaço foi intensificada e concluída. Como já foi mencionado acima, é durante os trabalhos na gruta das Salemas que se identifica o sítio do Alto da Toupeira 2.

Entretanto, aproveitando as sinergias envolvidas na intervenção da gruta, V. Leisner, em colaboração com O. V. Ferreira, procede à escavação da câmara da anta de Alto da Toupeira 1, durante os dias 12 e 18 de Novembro de 1959 (Fig. 74: 3-4), ainda que só os primeiros três tenham sido dedicados verdadeiramente à escavação (ALeisner, Leis61). Porém, os resultados ficaram aquém das expectativas criadas pela dimensão de tal monumento, registando-se apenas três estratos estéreis: uma camada de terras escuras com pedaços de basalto, sobre outra acinzentada com restos de calcário, que assentava em substrato argiloso avermelhado (Leisner, 1965, p. 27; ALeisner, Leis61).

A planta realizada em 1944 é rectificada e produz-se um alçado da câmara (Leisner, 1965, taf. 19: 1). Assim, V. Leisner classifica este sepulcro como uma câmara poligonal, aparentemente sem corredor observável, com cerca de 5 m por 5,5 m de área e uma altura máxima registada de 2 metros, no esteio B (Leisner, 1965, p. 27; ALeisner, Leis61). Os cinco esteios (A-E) identificados são todos de calcário Cretácico, presente no substrato imediato, do Cenomaniano superior (SGP, 1981), mas anteriormente atribuído ao Turoniano (Ferreira, 1959; Zbyszweski, 1964). Curiosamente, perante os fracos resultados no interior da câmara, o interesse em perscrutar a potencial área do corredor limitou-se a um pequeno alargamento da área escavada naquela direcção, procurando detectar o seguimento da estrutura. Como tal não terá ocorrido no imediato assumiu-se a sua inexistência. Apesar disso é detectado um bloco pétreo do lado sul, delimitando o que seria a entrada. Também, no caso da envolvente exterior, é apresentado um alçado evidenciando o desnível da câmara, sem que se tivesse procedido a uma vala de sondagem.

no Museu Geológico sob a designação “Monumento entre Alto da Toupeira e Salemas” (MG459). Contudo, os dois artefactos metálicos, o cinzel e a ponta com aletas e espigão, apesar de inventariados correctamente, encontravam-se expostos sob a designação de “monumento perto do tholos das Salemas”.

Portanto, apesar da riqueza em vestígios arqueológicos nesta plataforma, a leitura dos seus sepulcros megalíticos queda-se por várias interrogações e inferências indirectas, sobretudo a partir dos dados obtidos dentro da gruta das Salemas e na possível anta de Alto da Toupeira 2. Para esta última, a ter sido de facto um sepulcro megalítico, os objectos recolhidos, nomeadamente o ídolo calcário e o machado de xisto anfibólico com gume intacto, parecem apontar para uma utilização no 3º milénio a.n.e., enquanto a cerâmica campaniforme e os objectos metálicos indiciam momentos posteriores, provavelmente no último quartel daquele e/ou já no 2º milénio a.n.e..

Mas a gruta das Salemas permite outras ilações. Aí, a presença de um espólio de cariz antigo (Ferreira, 1965; Ferreira e Castro, 1972), parece apontar para aquele espaço ter sido utilizado como necrópole, pelo menos, entre o segundo e o terceiro quartel do 4º milénio a.n.e., no qual se enquadra a datação Beta-233282 de 3660- 3380 cal BCE (com 93,8% de probabilidade, restringe-se a 3660-3510 cal BCE), obtida sobre úmero humano feminino (MG270.538; Anexo 3, Quadro 2). Este balizamento cronológico poderia então significar uma mudança na estratégia de sepultamento dos indivíduos da comunidade, o que teria implicado a construção de estruturas megalíticas. Assim, se Alto da Toupeira 1 e 2 foram construídas em momentos finais, ou posteriores, à utilização da gruta, admite-se a hipótese, de um uso na segunda metade do 4º milénio ou já na sua transição. Mas, como mera hipótese de trabalho, pois necessita de fundamentos materiais ainda não adquiridos, se for possível obtê-los! No momento em que escrevo estas linhas paira a ameaça de instalação de um aerogerador para produção de electricidade na plataforma em causa!

Mas, pelo menos, é possível falar de um conjunto de antas integradas num espaço aparentemente necropolizado ao longo do tempo – não só pelos sepulcros referidos, mas também com inumações no lapiás local, datadas (ICEN-351) entre 5300-4610 cal BCE (Cardoso, Carreira e Ferreira, 1996, p. 10), evidenciando

práticas anteriores com características distintas.