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Acerca do valor dado ao espetáculo e aos elementos dramáticos no teatro, John Gassner afirma que:

Aristóteles teve o bom senso de perceber que o efeito visual – ou espetáculo – era importante, visto que uma peça para o palco é uma estória mostrada diretamente a uma platéia. E o teatro grego fez uso abundante do espetáculo. Não obstante, Aristóteles acertadamente considerava o espetáculo subordinado aos elementos dramáticos intrínsecos de uma peça (Gassner 1997 p.88).

Gassner conclui que Aristóteles considera o espetáculo como a soma das esferas visuais e dos elementos dramáticos. O que Gassner entende como elementos dramáticos provavelmente esteja relacionado à literatura dramática. Contudo, em relação ao que foi desenvolvido até agora no presente Capítulo, pode-se considerar os elementos dramáticos como esferas acústicas. Dessa perspectiva, o visual (espetáculo) poderia encontrar-se subordinado as esferas acústicas.

No parágrafo 29 do Capítulo VI, Aristóteles apresenta as seguintes considerações sobre a melopéia e a elocução:

Como esta imitação é executada por actores, em primeiro lugar o espectáculo cênico há de ser necessariamente uma das partes da tragédia, e depois, a melopéia e a elocução, pois estes são os meios pelos quais os actores efectuam a imitação. Por ‘elocução’, entendo a mesma composição métrica, e por ‘melópeia’, aquilo cujo efeito a todos é manifesto (Aristóteles 1994 p.110).

Melopéia (do grego melopoiía que significa melodia, música e teoria musical) é relativa à arte de compor melodias a partir de seus elementos: sons, intervalos, modos, tons de transposição. Acima, na sub-sessão ‘A estruturação da tragédia e o coro’, observamos o lugar da melopéia e sua inerência ao coro, como constituinte da dinâmica da tragédia. No parágrafo 38 do Capítulo VI consta: ‘das restantes partes, a melopéia é o principal ornamento’ (Aristóteles 1994 p.113). Aristóteles sugere ainda que os poetas trágicos antigos fossem mais melopoiói, do grego compositor de melodias, do que poetas (Roque in Aristóteles 2001 p.103 ‘notas’).

Estas referências na Poética e no Livro XIX de Os Problemas consolidam a aproximação entre constituição e ornamentação aplicada à arte por Aristóteles, neste caso, especificamente através da melopéia. Uma vez que a melopéia e a elocução são os meios pelos quais os atores atuam, Aristóteles frisa a hierarquia da melopéia e da

elocução, relativa às esferas acústicas, sobre o espetáculo, onde as esferas visuais dependem e resultam de esferas acústicas.

Por outro lado, no parágrafo 31 do Capítulo VI Aristóteles escreve que [...] ‘é, portanto, necessário que sejam seis partes da tragédia que constituam a sua qualidade, designadamente: mito, carácter, elocução, pensamento, espetáculo e melopéia’ (Aristóteles 1994 p.111). Carlson aponta que essas partes constitutivas da tragédia destacadas por Aristóteles, são desenvolvidas individualmente, em ordem decrescente de importância, do Capítulo VII ao XXII, contudo a melopéia e o espetáculo, segundo Carlson não são examinados (Carlson 1997 pp.16-7).

É possível que a ausência de capítulos destinados ao espetáculo e a melopéia na Poética de Aristóteles tenha influenciado o discurso freqüente nos estudos teatrais de que essa normativa trata predominantemente do texto literário e não da linguagem cênica como um todo. No entanto, ao examinarmos o lugar da música não somente no teatro grego, mas na formação do homem grego somadas a como era considerado o espetáculo nesse contexto, percebe-se que essa tendência pode ser reconsiderada.

No parágrafo 183 do Capítulo XXVI intitulado ‘A epopéia e a tragédia. A tragédia supera a epopéia’, Aristóteles atesta a superioridade da tragédia sobre a epopéia pela presença na primeira da melopéia e do espetáculo cênico.

Mas a tragédia é superior porque contém todos os elementos da epopéia (chega até a servir-se do metro épico), e demais, o que não é pouco, a melopéia e o espectáculo cênico, que acrescem a intensidade dos prazeres que lhe são próprios (Aristóteles 1994 p.147).

Ao procurarmos diferenças entre a melopéia e a elocução esta última relativa ao ato de falar, maneira de fala ou modo de expressar-se, oralmente, por exemplo, esbarramos em outro problema. Ambas são compostas por linhas melódicas, tendo a melopéia a priori um rigor maior na definição das freqüências que a elocução. No entanto, ao tratarmos de palavra e principalmente em uma língua tonal, a melodia do que esta sendo dito, se não for precisa por parte do performer, não concluirá o sentido do texto, ou seja, a eficiência da palavra prescinde exatidão melódica. Em sessões acima levantamos relações entre os modos utilizados e as intenções dos atores, com indicações do próprio Aristóteles do uso de modos específicos para funções determinadas. Tal dado nos leva a aproximar, nesse contexto, a elocução da melopéia reforçando que ao ouvir a forma chega-se ao sentido.

1.7. Da elocução

Dos parágrafos 116 ao 124 do Capítulo XX, ‘A elocução. Partes da elocução’ Aristóteles define as consideradas partes da elocução, que hoje equivalem a outras áreas de conhecimento nos estudo da lingüística. Ele aborda a letra, suas classificações em vogais, semivogais e mudas, além da definição de sílabas; e levanta questões sobre classes de palavras tais como, substantivo, verbo, conjunção, artigo; e ainda elementos da sintaxe como a ‘flexão’ equivalente às frases e a ‘proposição’ equivalentes a orações.

Hoje, apesar dos estudos da Fonética e da Fonologia serem mais dedicados aos sons que formam a língua, o foco dos mesmos parece muito direcionado ao texto escrito e a sua representatividade simbólica. Ao definir as partes da elocução citadas acima, Aristóteles indica cada uma dessas partes como som. ‘A letra é um som indivisível...’ [...] ‘Silaba é um som...’ [...] ‘Nome é um som significativo’... [...] ‘Verbo é um som composto...’ [...] ‘A proposição é um som composto e significativo...’ (Aristóteles 1994 pp.131-3). Aqui temos outros indícios da consideração das palavras não como símbolo, mas como som.

Ainda sobre a elocução foram transcritos os parágrafos 37 do Capítulo VI, ‘Definição de tragédia. Partes ou elementos essenciais’, 112 do Capítulo XIX, ‘O pensamento. Modos de elocução’, 118 do Capítulo XX, ‘A elocução. Partes da elocução’, 159 do Capítulo XXIV, ‘Diferença entre a epopéia e a tragédia quanto a episódios e extensão’ e 168 do Capítulo XXV ‘Problemas críticos’.

Quarto, entre os elementos (literários), é a elocução. Como disse, denomino ‘elocução’ o enunciado dos pensamentos por meio de palavras, enunciado este que tem a mesma efectividade em verso ou em prosa [...]. O que respeita ao pensamento tem seu lugar na Retórica, porque o assunto mais pertence ao campo desta disciplina. O pensamento inclui todos os efeitos produzidos mediante a palavra; dele fazem parte o demonstrar e o refutar, suscitar emoções (como a piedade, o terror, a ira e outras que tais) e ainda o majorar e o minorar o valor das coisas [...]. Depois, diferem as letras de cada um destes grupos, pela conformação da boca na pronúncia, pelo lugar da boca em que se produz o som, e ainda conforme são ásperas ou brandas, longas ou breves, agudas, graves ou intermediárias; mas estas particularidades são da competência da métrica [...]. Importa, por conseguinte, aplicar os maiores esforços no embelezamento da linguagem, mas só nas partes desprovidas de acção, de caracteres e de pensamento: uma elocução deslumbrante ofuscaria caracteres e pensamento [...]. Para conhecer se bem ou mal falou ou agiu uma personagem, importa que a palavra ou o acto não

sejam exclusivamente considerados na sua elevação ou baixeza; é processo também observar o indivíduo que agiu ou falou, e a quem, quando, como e para que, se para obter maior bem ou para evitar mal maior (Aristóteles 1994 pp.112, 130, 132, 142, 144).

As transcrições são de parágrafos de cinco capítulos distintos sendo o XX, o XXI e o XXII destinados estritamente à elocução. A primeira e segunda citação contém a definição de ‘elocução’ como o enunciado dos pensamentos por meio de palavras. Aristóteles considera a palavra como meio de viabilização da produção intelectual seja no intuito de demonstrar, refutar, suscitar emoções e ainda valorar coisas.

Na terceira cita Aristóteles aborda questões como a pronúncia e a qualidade dos sons emitidos em parâmetros como a altura e o ritmo. No quarto trecho transcrito, ele valora o embelezamento da linguagem, e apresenta ressalvas em que o excesso no ato da elocução pode ofuscar elementos da tragédia como caracteres e pensamento. Aristóteles indica nesse parágrafo a necessidade da justa medida também na elocução, esboçando questões referentes à atuação dos atores.

Nessa quinta referência Aristóteles assinala parâmetros que auxiliam no julgamento da boa elocução que extrapolam elevação ou baixeza de seu caráter. Esse processo inclui a observação do indivíduo que agiu ou falou, e a quem, quando, como e para que. Esses parâmetros para o julgamento da elocução estão também diretamente associados a critérios básicos de apreciação da interpretação dos atores.

Nesse sentido, é possível discordar de Pavis, quando no verbete relativo à poética o mesmo afirma que ‘a poética de Aristóteles fracassou na pretensão de elucidar duas relações essenciais: a da representação para o espectador e a do trabalho teatral para o ator’ (Pavis 1999 p.296). Ao nos aproximarmos da obra de Aristóteles, percebemos algumas das relações entre a linguagem, à música e a elocução instâncias consideradas como predominantemente acústicas e do espetáculo considerado como predominantemente visual. Questões associadas à representação perante o espectador e ao trabalho do ator aparecem em Aristóteles como vinculados às esferas acústicas da cena.

Além de notar-se novamente a importância das esferas acústicas no teatro grego, as apreciações consideradas permitem deduzir a necessidade da técnica e do controle por parte dos atores no ato da elocução para que a performance aconteça em sua plenitude, evidenciando a proximidade, nesse contexto, da elocução com o rigor musical.

1.8. Ação

Em Pavis são apresentadas diversas as acepções de ação. Ele descreve os níveis de formalização da ação como ação visível e invisível, a definição tradicional e a definição semiológica. Quanto à ação das personagens, ele apresenta a concepção existencial e a concepção existencialista. Ainda encontramos seções sobre a dinâmica da ação, relação entre ação e discurso, elementos constitutivos da ação e formas de ação (Pavis 2003 pp.2-5).

Pavis apresenta a noção de ação segundo Aristóteles: ‘A passagem de um a outro estágio, de uma situação de partida a uma situação de chegada descreve exatamente o percurso de toda ação. Aristóteles não estava dizendo outra coisa quando decompunha toda fábula em início, meio e fim’ (Pavis 2003 p.3). A partir de Pavis nos parece que Aristóteles define ação como uma transformação ocorrida por um percurso determinado.

No Capítulo VI parágrafo 32, da Poética, a ação é enfatizada por Aristóteles como o motor da tragédia, uma vez que ações e mito constituem para ele a finalidade da tragédia:

Daqui se segue que, na tragédia, não agem as personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para efectuar certas acções; por isso, as acções e o mito constituem a finalidade da tragédia, e a finalidade é de tudo o que mais importa (Aristóteles 1994 p.110).

Nas palavras de Aristóteles: [...] ‘o mito é a imitação de ações, e, por mito entendo a composição dos actos’ (Aristóteles 1994 p.111). Cabe-nos então investigar sobre o conceito de ação em Aristóteles uma vez que ela constitui o mito e que ambos são, para Aristóteles, o que mais importa na tragédia.

Para apresentar a concepção existencial de ação, Pavis parte da referência em Aristóteles [...] ‘sem acção não pode haver tragédia, mas pode havê-la sem caracter’ (Aristóteles 1994 p.111). ‘As personagens não agem para imitar os caracteres, mas recebem seus caracteres por acréscimos e em razão de suas ações’ (Pavis 2003 p.4).

Partindo de Aristóteles, Pavis diz que as particularidades das personagens, ou seja, seu caráter (do grego kharaktêr significa sinal gravado, marca, traço particular do rosto, natureza particular de alguém, marca de estilo) no caso do teatro, somente chega ao público por meio de ações. Também afirma que não pode haver tragédia sem ação.

Conforme Abbagnano, na filosofia a definição de ação esta coberta da categoria aristotélica do ‘fazer’, cujo oposto é a categoria da ‘paixão ou da afeição’. Aristóteles também foi o primeiro a tentar destacar desse significado genérico de ação um

significado específico pelo qual o termo pudesse referir-se somente às operações humanas. Assim, Aristóteles começou excluindo do âmbito da palavra as operações que se realizam de modo ‘necessário’, isto é, de um modo que não pode ser diferente do que é. A matemática, a física e a filosofia pura referem-se, segundo Aristóteles, a essas realidades. Fora delas esta o domínio do ‘possível’, isto é, do que pode ser de um modo ou de outro; mas nem todo o domínio do possível pertence à ação. Dele é preciso, com efeito, distinguir o da ‘produção’, que é o domínio das artes e que tem caráter próprio e finalidade nos objetos produzidos (Abbagnano 2003 pp.8-9).

Partindo de princípios aristotélicos, Abbagnano delimita genericamente ação como ‘fazer’, enquanto ‘sentir’ é o seu oposto, ou seja, a não ação. Direcionado às operações humanas, Aristóteles também classifica a ação de modo ‘necessário’ e a ação do domínio do ‘possível’.

Nas sub-sessões acima destacamos o lugar dado por Aristóteles em sua obra à palavra, à música, e à elocução. Gostaríamos de apontar algumas características comuns às tragédias gregas. Entre elas, a presença de personagens nos prólogos que contam os acontecimentos anteriores ao início da peça e o que acontecerá durante a mesma, o jogo dos protagonistas que exprime em seu conjunto mais um percurso de tensões, e também a função dos Mensageiros que relatam às grandes mudanças ocorridas nas personagens, normalmente envolvendo ações violentas que não poderiam ser realizadas em cena. Ou seja, na tragédia é por meio da palavra que se adverte e aumenta a intensidade do pathos,(do grego páthos,eos que significa sofrimento ou sensação intensa) o caráter das personagens e o mito. Poder-se-ia dizer que na tragédia grega clássica a palavra é, numa situação extrema, o lugar da ação. Conforme Aristóteles sem ação não há tragédia, onde se pode concluir que sem palavra não há tragédia.