oficiais, além de continuarem sendo privilegiadas, se tornaram institucionais. Nomes raramente são citados. A maioria dos textos analisados menciona a “Polícia Militar” como fonte principal. Até mesmo o nome do advogado de defesa, que não é uma instituição, mas uma pessoa, não é citado. O G1 chega a atribuir a informação de que ele é técnico de enfermagem à “Justiça”, apenas, não referenciado o órgão onde a informação foi obtida. Outra prática que tem se tornado comum entre os meios de comunicação é a menção a outros veículos, como se isso eximisse a responsabilidade pelo que é dito.
Os meios de comunicação podem não ter tido a intenção de difamar, mas, como visto em alguns casos, a imagem e o nome do jovem foram expostos à opinião pública sem a observância de todas determinações do Código de Ética dos Jornalistas, do Código Civil, da Constituição Federal do Brasil e da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esta última traz, no Artigo 5°: “Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”. Por muito tempo, consideramos tratamentos desumanos àqueles contra o corpo físico. Embora a divulgação de informações não agrida diretamente o corpo físico de uma pessoa, consideramos que as consequências podem ser ainda mais danosas do que qualquer outro tipo de lesão. Neste sentido, o jornalismo pode desumanizar.
Conforme as notícias e o boletim de ocorrência registrado por um familiar, o corpo do jovem foi encontrado junto com medicamentos antidepressivos e a suspeita é que ele tenha se suicidado. Se pensarmos que a intenção de quem ingere antidepressivos é se sentir melhor, como saber - já que seu depoimento não foi, nem será mais ouvido - que sua intenção era realmente acabar com sua vida?
Os avanços tecnológicos trouxeram mudanças importantes, como o acesso a diferentes meios de comunicação e agilidade nos processos. Mas essa mesma agilidade, bem como a demanda por informações, fez com que os profissionais passassem a atuar pressionados pelo tempo, pela necessidade de publicar antes da concorrência.
Isso, embora não justifique, talvez explique tantas notícias praticamente iguais, sendo que alguns textos parecem ter sido copiados, colados e reescritos centenas de vezes. Essa repetição de dadosem praticamente todos os sites revela uma apuração, no mínimo, limitada. Todos fizeram as mesmas perguntas à polícia? Só havia aquelas perguntas a serem feitas? As contradições entre uma reportagem e outra demonstram que alguém errou ou não apurou de forma adequada. As fontes? Ou os jornalistas?
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A possibilidade de reprodução rápida de textos, sem uma apuração própria, é um dos aspectos que ocorrem na internet e que precisam ser problematizados. Se é que apenas o trabalho de copiar e colar ou copiar e reescrever poderia ser chamado de jornalismo. Trata-se de uma ética do meio de comunicação, mas também de cada profissional.Partimos da tese de que o compromisso com o jornalismo é com o público e a defesa dos Direitos Humanos e a cidadania. Porém, diversos exemplos, como este, demonstram que o jornalismo, quando se afasta desses objetivos, pode desumanizar. Pode também matar? Embora seja um questionamento sem resposta, serve de alerta. Afinal, se o jornalismo deixa de fazer seu papel, deixa também se ser útil. Em muitos casos, percebemos que deixa até mesmo de ser jornalismo. Torna-se outra coisa, feito de outra maneira, que não aquela que transforma informações em notícias importantes, com compromisso com a apuração dos fatos, a ética e a verdade. Neste caso, o jornalismo também pode morrer?
Apesar disso, uma democracia consistente depende do acesso à informação, que, conforme vimos na legislação consultada, também é um direito. Com esta perspectiva, encaramos de forma otimista as possibilidades. O público, neste sentido, precisa do jornalismo. Qual jornalismo? Aquele que, não obstante as tecnologias e, muitas vezes, a distância física, olha com empatia para o público e as fontes e, com isso, se aproxima do fato e pode assim cumprir seu compromisso com a sociedade.
Referências
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PORTAL ÚLTIMO SEGUNDO. Jovem que se dizia “formado em Greys Anatomy” é preso ao se passar por médico. Disponível em
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