Durante o Exame de Qualificação (realizado em 08 de outubro de 2014), antes da exposição de cunho teórico-metodológica, senti uma necessidade ―experiencial‖ de compartilhar uma breve apresentação de Butô (com duração prevista de 30-40 minutos), a propósito das intensidades que, sob outro formato/linguagem, ressoaram nas Cartas que escrevi para o Eve Brèal. Compartilhar sensações e forças de vida requisitaria, de início, a composição de outro repertório de intensidades, de invenção para uma textura que não se empresta à representação/tradução pelo discurso, de invenção para outro suporte que se distingue do texto/da Carta.
Assim, me vali de elementos do corpo, das energias e da linguagem estética do Butô para mover, no campo do Rito, forças de sombras: ―(...) Um grito de estrela vem do infinito/ E um bando de luz repete o grito/ Todas as cores e outras mais/ Procriam flores astrais (...)‖ – Flores Astrais, Ney Matogrosso.
A proposta foi um trabalho complexo de grupo, onde estivemos dividindo a cena: eu, Sílvia Moura e Wellington Gadelha, com diferentes participações gestuais e faladas, em ações individuais e outras compartilhadas, incluindo as presenças de Aliatá Ricelli que estava de pé, cantando a capela, um set específico de Maria Bethânia e Leonardo Albuquerque, sentado, no acompanhamento de percussão (sinos, tambores, flautas etc).
Estávamos maquiados (pancake branco aplicado de esponja, sombras e lápis, talco etc), os quatro com vestidos femininos de corpo inteiro em temas de florido- desbotados e eu com um mínimo de roupa coberta – corpo branco e raspado. Sílvia Cavalcante e Fabíola de Paula ajudaram na maquiagem. Caio Mayrink ajudou nas informações para o público. Herley Lins, Pautylla Lira, Kátia Savioli e Emanuel Moura contribuíram nos detalhes da produção. Uma parcela do material utilizado foi doada, e outra foi comprada (com orçamento de R$ 1.500).
A atividade aconteceu em uma sala de aula regular, no primeiro andar da Faculdade de Medicina (UFC – Campus do Porangabuçu, Fortaleza). Tínhamos setenta e cinco lugares sentados em carteiras de estudantes, ocupando uma sala quadricular de cimento, fechada com ar-condicionado, janelas vedadas de papel contra o sol, sem palco, iluminação ou projeto de som específico/diferenciado.
No texto entregue (o projeto de dissertação) à Banca de Avaliação constava que haveria uma apresentação de dança-performance, embora os Membros desconhecessem qualquer detalhe sobre a natureza estética da atividade. Quem atendeu ao convite dessa atividade, recebeu, na fila de entrada, uma tentativa de ficha técnica (vide cartão abaixo). O evento era gratuito, com inscrições limitadas.
166 O evento foi divulgado na minha própria conta do Facebook (vide abaixo), durante o mês de setembro de 2014, solicitando inscrições (declarações de interesse) para o meu e-mail pessoal – no intuito de
organizar/otimizar a disposição das cadeiras no espaço que seria também compartilhado por uma intervenção artística. Professores foram convidados, diretamente pelo Orientador, em reunião do Colegiado do próprio Mestrado; outros professores da Universidade Federal do Ceará foram convidados, por mim, em atividade paralela, promovida no âmbito do Projeto CASAS da UFC (Casa de Arte/UFC, Casa de Religião/UFC).
167 Além dos Professores da Banca de Avaliação (Orientador e dois membros Avaliadores da própria Universidade), compareceu um público de adesão espontânea, superior ao número das cadeiras (que se dispuseram sentados ao chão, e de pé, atrás das primeiras cadeiras, próximo do único acesso lateral). Eram estudantes da graduação e do mestrado, professores e profissionais diversos, da própria Faculdade de Medicina e de outras instituições da Cidade.
Incomodado pelo barulho invasor que se sobrepunha à explanação técnica, um catedrático na sala vizinha (da disciplina de Cirurgia ou semelhante), solicitou que seus bolsistas viessem dialogar a redução na interferência sonora para sua aula. Os respectivos estudantes, identificados por seus jalecos brancos com inscrições bordadas das Ligas Médicas que pertencem, chegaram até a porta da nossa atividade: a sala já estava lotada, completamente escura, a natureza do barulho e da atividade era completamente ―inesperada‖ para o contexto médico... de maneira que, ao retornar de forma discreta, interpelados sobre o êxito da reivindicação, os referidos estudantes não conseguiram ―explicar‖ ao Senhor-Professor que tipo de ―atividade‖ ocorria em paralelo.
Portanto, há vários modos de perceber os movimentos e a ocupação daquela sala, naquela manhã. Um participante traduziu a composição do espaço como o registro de um fantasma morto na família dos fantasmas – com dois irmãos fantasmas que chamam (olhando e vasculhando o nada) o irmão levado pela morte, com uma irmã que vaga com os restos (cabelos que sobrevivem à morte), com uma tia que borda e transborda essa perda-distância do fantasma tragado.
Outro participante traduziu o espaço como uma sensação de penitenciária, de várias jaulas que se abriam para um galpão de almas condenadas, de gente que suspende a vida, errando/vagando entre os mortos: ―vocês não precisam estar aqui, há luz do lado de fora‖, uma das atrizes, dizia ao final, antes que todas as cadeiras fossem ao chão: atrito do metal, barulho da queda, das carteiras reviradas. Há quem visse uma criança com fraldas, e nos panos finos bordados, um contingente de mais fraldas...
...molhar, secar, esvair, duvidar, diluir, impossibilitar, machucar, doer, transmutar, profanar, abrir, expor, curar, macular, conter, isentar, limpar, sujar, proteger, cuidar, cair, derramar, amar, morrer, sujar, achar, rasgar, seguir, estar, compor, partir, reunir, quebrar, perder, ruir, findar, estranhar, cortar, doer, escorrer... os verbos-sombra.
Para além dos relatos ―integrados‖ como sentidos ou totalidades, talvez seja interessante uma descrição fragmentada de elementos disponíveis – opção que, talvez, estivesse mais próxima das minhas próprias sensações naquele excedente de experiência.
As minhas mãos traziam um par de sapatilhas que pertenceram ao Brèal (e que me foram remetidas pela família dele, após a sua morte). Sapatos de ballet são conexões de carne e de sangue, de ferida disciplinar para qualquer bailarino clássico. Tínhamos um projeto comum, denominado ―Cahiers (para além da Dança)‖, com apontamentos que o corpo dele ensinava-me: ―a dor lembra que você está vivo‖; ―o
sangue lembra que você tem um corpo‖; ―o cansaço só disse que você fez o que poderia, por enquanto‖ – (by @Evandro Brèal)
168 Além de cartas, mensagens, textos e objetos de memória, de invocação, de força... Para aquela dança do Butô, limpei do meu corpo, retirei do pescoço e braço, todos os cordões de proteção e salvaguarda espiritual; dois dias antes, também suspendi todas as minhas orações diárias de barreira/fronteira espiritual. Naqueles quinze dias que antecederam a nossa atividade, sentia a chegada gradual de visitantes – que vieram, em número de sete ou menos que nove, em dias espaçados; eram seres velhos, e de estatura média, que já se abrigaram no meu corpo, em outras ocasiões; vieram e, também como antes, depois partiram. Não sei quem eram, ou como vieram. Sei que auxiliam nos Ritos. Não voltei às minhas orações, desde então: parei com os 50 mil mantras. Não encontrei mais sentido em mim.
Outro evento significativo, associado às sapatilhas, dizia respeito à minha procura por uma boneca bailarina (um tipo de Barbie bailarina, ou semelhante) – tendo em vista que o próprio Brèal, além de desenhar bailarinas de próprio punho, também mantinha uma pequena coleção de bonecas dançarinas. Além do versinho curto (uma formulação em sonho) que me
acompanhou desde a primeira versão do Butô (―... há extintores por todos os lados, menos no meu coração...‖), talvez a fonte principal de mobilização anterior, de investigação de
referências/sensações e busca de matizes amorosos, tenha ocorrido nessa procura cuidadosa das
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Vídeo 1, Espetáculo ―Caleidoscópio‖ – Centro de Dança Laura Flores (CDLF), Florianópolis, 20/12/12:
https://www.youtube.com/watch?v=IprLDxm9hh0
Vídeo 2, Javier Pérez - EN PUNTAS (extracts): http://vimeo.com/66721776
170 Circulei a sala cinco, sete vezes, com as sapatilhas girando no espaço, presas entre os meus dedos. Convidei quem desejasse aproximar-se ou participar diretamente da atividade, através de sons ou notas arcanas de vibrações demoradas – que não apenas atravessavam o corredor imediato da Faculdade, onde havia uma fila de pessoas aguardando; bem como, saltavam na rua, do lado de fora do muro no térreo para a avenida lateral, também os vendedores ambulantes escutavam o compasso de tais sons indiscerníveis. Eu não encontrei a boneca que procurava. A artista plástica Técia Rabelo, depois de ler todas as Cartas que escrevi, aceitou a encomenda de produzir uma ―Bailarina da Sombra‖. A música começou, ladeando os sons fora de partitura, melodia e letra.
Além de nós cinco, havia um fotógrafo (Bruno Aboim), Fabíola e Sílvia (com a finalização da maquiagem – a despejar muito talco como uma água para despertar os demônios, no contrário das pias bentas), a secretária-geral do Mestrado (apontando o atraso de quinze minutos, com a Banca aguardando do lado de fora), um funcionário da Universidade que pretendia um registro institucional e uma moça também solicitada no registro visual por uma participante.
Quando senti que estávamos prontos para iniciar, amarrei as sapatilhas: penduradas, esse objeto do chão, agora flutuando acima das tantas cabeças. A porta abriu-se, o público chegou ao ―nosso‖ círculo mágico. Bordados em vermelho para os
171 sacos/panos de chão, além dos vestidos/figurinos para os cinco atores, vieram com a produção da artista Patrícia Carla.
Estava sentado em um banco quase rasteiro, enquanto Sílvia cortava três chumaços com as mãos dentro do meu cabelo – imediatamente atrás, e imóvel, um pequeno refletor na mão-fixa de Wellington. Havia muito pó de talco suspenso no ar, que caia dos nossos cabelos em movimento. Havia uma montanha de panos bordados, e o cheiro desse algodão cru. Depois desse marco no tempo, já não posso lembrar-me com exatidão. Sei que entraram, e já estávamos no círculo mágico. Sei que se foram, e nós ainda continuávamos no círculo mágico. Eles que vieram e que se foram, mas não houve início ou fim. Nunca houve palmas. E nós estávamos em torno das cadeiras – não exatamente as cadeiras em torno de nós.
172 Não havia roteiro, apesar das marcações espaciais: a zona de um pequeno tronco de madeira (com altura de 15, 20 cm), para (des)equilibrar-se e derramar líquidos sobre o corpo; havia uma zona doméstica, como o interior de uma casa, com mobília e seus objetos internos (terno, xícara etc; uma morada alheia cujos objetos íntimos tornaram-se de todos, a ―nossa‖ casa sombria) – uma vela grande (e perfumada) estava acesa, próxima a um arranjo de flores naturais; havia uma zona de galhos, onde os músicos estavam; havia uma zona de memórias, meio de baús ou caixotes, com a boneca bailarina (que guarda as Cartas de Amores Mortos), cartões postais, cadernos, livros, um chapéu e bengala etc; havia um ponto, e não exatamente a zona, onde estava a sapatilha; havia outro ponto, onde estava pendurada a Mandala com fios coloridos de lã; pequenos vasos de flores coloridas dispersas, e havia duzentas velas pequenas (a sala permaneceu sombria, quando as velas deixaram de ser luz), acesas na sala escura – sensação de interioridade, de introspecção, de uma beleza grave, de calor (as velas obrigaram o desligar do ar-condicionado).
Havíamos todos nós, e éramos muitos... muitos, muitos e muitos, em cadeiras, e
dois grandes corredores. As cadeiras não olhavam para o ―mesmo‖ lugar; não era também
possível olhar para tudo, ou qualquer ponto – especialmente, não estando claro. As cadeiras permitiam e ocultavam acessos. Havia cadeiras no perímetro quadricular das paredes, olhando para um centro. E havia um núcleo central de cadeiras, duas filas, cadeiras de costas para costas, olhando, com suas frentes para as áreas internas dos corredores criados – com a visão impedida para o que ocorria atrás. Criou-se essa conformação de espaço.
Dentro da nossa sala-casa, de portas fechadas, há quem emudeceu, quem se desorientou, quem se descontrolou, quem chorou, quem vomitou. O sangue dos meus cortes, consagrou o chão antes secular; ato que profana, na medida em que converte o mundo do cimento e da técnica em território sagrado. Mundo medo, Medo mundo, Mundo Mudo Medo... cheiro de pêlo queimado, resto de velas amassadas que não apenas um lixo.
173 Meus pés que esmagavam as centenas de velas foram perfurados contra o m(et)al que acomoda a cera quente – pisá-las faz respigar calor que fere, que me fere e também fere outros, que se derrama pelo chão, que funde/confunde/fusiona um conjunto de vestígios abandonados/capturados: poeira, talco, sujeira dos sapatos, suor, sangue, terra dos vasos etc. Essa era a zona indiscernível do sagrado, da cera que fossiliza os líquidos de libação, os restos de cabelos cortados e de unhas quebradas, uma poeira constante que ninguém toca mas se vê (que se move, e que assusta), vidro quebrado, adubo com raízes, queimaduras de pele e de papel, hematomas, arranhões, cortes, riscos de unha no chão, pinicões do corpo depilado... O
174 Levou-se um tempo para transfigurar esse grande terreiro e seus objetos mágicos (cadeiras, paredes, participantes etc). Evento que insurge contra os usos determinados pelo poder, que convoca outro lugar de corpo na saúde, outra intensidade na biomedicina. Dessa muita gente, aglomerada do lado fora, afinal, se transcorre uma sucessão de estranhamentos para
quem chegava: ―é todo mundo para uma mesma apresentação?‖. Manhã supostamente inocente, no espírito de quem segue para um ―ritual‖ acadêmico; desconforto de expectativa, adentrar
uma sala escura, disposição irregular das cadeiras, como quem está completamente cego, na literalidade das camadas de ofuscamento. Há uma música bastante suave, com gestos de uma dança ainda tranqüila...
Um homem sai da cadeira, busca fotos bem próximas dos atores. Um animal selvagem, uma fera, um bicho que caça, vai para o pescoço do senhor. O homem sente dor, coloca a mão sobre o peito esquerdo. Parece ensangüentado. O peito dele segue doendo, ele não
vai embora. ―É apenas um senhor, calma, calma, por favor, por favor‖, alguém sussurra para si
na platéia. A máquina de fotografia não consegue reconhecer uma dança mágica de partículas, suspensas e sensíveis ao mover dos ventos na sala: pairando, leves e anti-registráveis. O espaço está ocupado por uma companhia de atores que circula em todos os cômodos.
175 Na música, um amor tão triste, como um passarinho de gaiola: essa voz que
invadiu... Uma mulher transparece uma dor terrível, rasga o corpo de quem a via... ―Aquela mulher deve estar passando uma depressão terrível..., será que ela vai ficar bem?‖. Molhar-se
com leite (gala), muito e fartas... garrafas de leite. Comer terra... a boca cheia de terra, de adubo
nos dentes, o cheiro e o gosto forte dos miolos da terra. ―σão é uma interpretação, não é teatro, não é um roteiro‖, alguém comenta apreensivo. τ passarinho que enternecidamente cantava,
lança seus dejetos em sobrevôo.
Muitas quedas. Esmagar da vela, com a força que faz tremer uma laje de cimento, o chão sacode. Respirar cera quente, grudar e queimar, partilhar o calor incendiário na outra pele. Um cachorro: cheirar, vir e lambeu... derramando sobre quem encontra, o próprio corpo molhado de líquido branco, de talco branco, de maquiagem branca. Uma garrafa de vidro é
arremessada contra a parede. ―Meu Deus, de onde veio essa gente? Que medo! Existem outros como eles...?‖
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Ambiente melancólico: cheiro do talco, da magnésia, da terra, do suor, da vela...
Uma carta foi rasgada, perdida para sempre, pedaços queimados... ―Por favor, não apaga todas as luzes... eu vou lutar e proteger pelo menos uma, essa luz aqui‖. Muitos sentimentos juntos... ―Querer dividir o sofrimento, retirar esse outro de tanto sofrimento, acolher e oferecer uma maternagem‖. Enfrentar o choque: arregalado, assombrado... Uma porta abriu. ―Por favor, pede para eu sair, eu quero ir agora‖. Chorando, perturbador... ―Por favor, não fecha a porta novamente, não me deixa aqui dentro‖.
Tentar expulsar os participantes. Não conseguir se mover da cadeira, enraizadas... Arrastar de cadeiras ocupadas na diagonal inteira da sala. Documentos originais da Qualificação permanecem, pasta soterrada nos escombros da sala... Nunca foram assinados: qualificação- desqualificada, um tempo-limbo, onde há um não-lugar, onde não cabe instituição e assinaturas;
provocação de nenhum ―acceptable state for the State‖. Empurrar e derrubar participantes... ―σão está mais em si, por favor, vai matar todo mundo aqui dentro‖. Sim, vocês precisam ir todos embora... Vamos morrer! ―Sonhei que você iria morrer‖.
177 Desfazer o norte, a jornada catártica de evocação e de revivência, remexer das paixões selvagens e tristes. Da arte que suscita, por vias do estético e do sensível, o
interdito/terror e a purgação/exorcismo das paixões – uma limpeza da ―alma‖, nos termos de Aristóteles? Não completamente um rito da terapéia (um modo de cura da psykhês, da alma), uma vez que não se vislumbra um ponto de finalização: corta, suspende... vai embora. Vai, e deixa uma vibração do eterno.
σinguém sabia de nada... ―Agora vai partir na porrada para cima de alguém‖. Está tudo bem? Era isso, mesmo?! ―Meu filho, vamos embora disso‖. Um grito, um urro, um desgosto... ―Meu filho, porque você fez isso comigo?‖. Acabou? Pessoas encostadas no
parapeito do corredor. Pessoas chorando, no chão. Pessoas de pé, também chorando. Transtornadas. Aflitas. Silêncio. O que aconteceu? Vamos voltar? Era para acontecer, assim? Vai ter explicação?
178 Tempo do fim da sessão, Áion de Lacan
Sertanias do Corpo: ou fragmentos de avessos
―Se houvesse alguma coisa de dança ali eu saberia reconhecer. É outra coisa.‖ (Doutor 1) ―Sempre que te sinto, escuto, vejo... Algo morre em mim e uma energia nova brota
intensamente. Não sei descrever... minha gratidão por toda generosidade, profunda transmutação e por ser o canal de tanta mutação em mim. Misturada à gosma, entre desejo de morte e morte, eu via cores e não sentia dor.‖ (Doutor 2)
―σem sabia de Butô, nem de coisas que doíam... podia até imaginar sua capacidade de
chafurdar... mas não daquela forma! certeza mesmo, só da sua genialidade, meu irmão. Que
os deuses te conservem assim.‖ (Doutor 3)
―τs mortos ontem passaram o resto do dia comigo – não dá para mandar eles irem embora?
eu vi um bicho muito ferido no teu Butô. uma alma antiga e muito dolorida ainda. pareciam acúmulos. e aquele rapazinho, cantando o repertório da MB - pôxa, que lindeza! o sagrado
da coisa. ele cantou lindamente, e olhe que sou crítico quando se trata do repertório dela.‖
(Profissional 1)
―τntem, depois da apresentação, eu cheguei aqui esgotado. 22h eu já estava dormindo e, hj
de manhã, me senti renovado (curioso, né?). Parece que existe uma mudança muito importante em curso na minha vida, nas minhas relações e, tvz ontem, tenha sido um ponto de inflexão (apesar de não ser claro - naturally). Ontem, eu te vi em muitas coisas. Não sei, pequenas coisas. Mas hj, o dia está mt solar. Como um domingo! As coisas ainda vão condensar... É que parece que vc está ferido de morte, André (é visível, nota-se). E existe uma demanda de quem ama alguém (tvz, a única, q não dá pra se desfazer): que esse outro (amado) não deve se matar! Ele pode amar outras pessoas, ir embora, botar o terror etc. Tvz, seja pedir demais, amigo. Eutanásia, Ortotanásia só são cogitáveis qndo algo nos mata. Qndo se morre, de fora para dentro. O contrário, tvz, seja demais, para nós, Ocidentais. ´With no sorrow, ask no greater pardon than the pattern time is carving in your skin´, Laura
Gibson‖ (Profissional 2)
―Eu não conheço meus mortos... não! na verdade, os conheço bem e, por isso, eles estão
bem enterrados... para que nenhum fio da estopa do seu cabelo reavive todo o traçado da lembrança, e toda a textura do que vai se dissolvendo nas mãos... eu olhei nos seus olhos e
179 disse que nunca... NUNCA! ficaria prostrada por isso, de novo. Mas, como cupim que rói a madeira, a estrutura vai virando pó. Então, eu me deito, olho pro teto; então, me pergunto, porque olhar o teto e eu percebo que não há necessidade de olhar o teto; então, fecho os olhos e a respiração vai diminuindo, porque ela também não é mais necessária, como se só existisse como um sopro de mim. e eu mesmo, não sou necessária‖ (Profissional 3)
―...chafurdar: bagunçar, gritar, chorar, permitir-se dor é libertar, compartilhar é ser irmão... eita! que tem palavrinhas muito lindas nessa nossa língua!‖ (Profissional 4)
―Passei o dia falando de ontem; na verdade o dia seguinte insistiu no ontem‖ (Estud. 1) ―A Faculdade ficou impressionada. A discussão seguinte, sobre Foucault, ao menos a