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O presente estudo visou analisar de que maneira trabalhadoras da construção civil na cidade de Fortaleza – CE estão socializadas organizacionalmente, levando-se em consideração três perspectivas (organização, grupo de trabalho e emprego) que estiveram baseadas em cinco categorias de análise (história; políticas, objetivos e valores; integração social; domínio da linguagem; e proficiência do desempenho).

O trabalho buscou investigar a socialização organizacional de mulheres que estão inseridas em um ambiente de trabalho primordialmente masculino, contemplando os aspectos citados anteriormente.

Para o estabelecimento dessas categorias de análise, levou-se em consideração modelos de mensuração do grau de socialização organizacional propostos por Ostroff e Kozlowski (1992); Chao et al. (1994); Taormina (1994); e Borges (2010). Além disso, a proposta de ser analisar a socialização por meio de três óticas distintas é proveniente do trabalho de Haueter, Macan e Winter (2003).

A fim de executar este trabalho, foram realizadas entrevistas, tendo como base um roteiro semiestruturado de perguntas. A amostra foi de 14 (quatorze) mulheres, provenientes de 3 (três) construtoras distintas da cidade de Fortaleza, Ceará. O tratamento dos dados coletados teve como método a análise de conteúdo (Bardin, 1977) e utilizou-se o software de análise de dados qualitativos Nvivo (NVIVO, v. 10.0).

Para responder ao objetivo geral, houve a necessidade de se compreender cada um dos objetivos específicos.

O primeiro deles visou identificar o conhecimento possuído pelas trabalhadoras sobre a história da organização, sua cultura e suas tradições, partindo do pressuposto de que este é adquirido durante o processo de socialização do indivíduoPara isso, analisaram-se primeiramente aspectos relativos à história da organização, como informações relativas ao surgimento, ao crescimento e às atividades exercidas pela empresa, bem como o contexto pelo qual as trabalhadoras se inseriram nesse segmento.

Percebeu-se que antes do ingresso na empresa, não se sabia nada sobre ela, à exceção de duas das entrevistadas. O conhecimento foi sendo adquirido durante o processo de socialização, no entanto, nem todos os aspectos relacionados à história da organização (caso do surgimento e do desenvolvimento ao longo do tempo da empresa) são do entendimento das funcionárias, o que aponta uma lacuna inicial que não foi completamente preenchida após o ingresso na organização.

O modo pelo qual elas começam a trabalhar na empresa é o mesmo entre as serventes, as zeladoras e a técnica de segurança do trabalho, ocorrendo por meio da indicação da oferta de emprego proveniente de alguém próximo a essas mulheres. As auxiliares administrativa e de setor pessoal ingressarem por meio de uma agência de estágios que ofertou vaga de aprendiz dentro da construtora. Já a gerente de Recursos Humanos deu entrada no setor da construção civil por meio de uma experiência prévia em uma consultoria.

Com relação às culturas e tradições, por serem inerentes à organização, seu conhecimento só ocorre após o ingresso na empresa, contribuindo e fazendo parte do processo de socialização. Diante do obtido com as entrevistas, foi possível perceber que existem comemorações e celebrações que ocorrem com regularidade na organização das quais as trabalhadoras estão cientes e que auxiliam no processo de socialização organizacional. Houve, inclusive, a menção à atividades específicas da empresa, como os dez minutos diários sobre segurança no trabalho (P12) e as mensagens semanais voltadas para os líderes gestores (P11).

Desse modo, com relação ao primeiro objetivo específico, este foi atingido por ter sido possível identificar o quanto da história, da cultura e das tradições é de conhecimento das trabalhadoras. Sobre a socialização vista sob a ótica da organização, ressalta-se que ainda há uma necessidade de um maior conhecimento sobre a organização como um todo, mas no que concerne ao que está mais próximo da realidade das trabalhadoras, o grau de conhecimento possuído por elas é satisfatório.

O segundo objetivo específico propôs relatar como as trabalhadoras percebem a estrutura, o funcionamento de seu grupo de trabalho e as relações de trabalho existentes, partindo do pressuposto de que a percepção das mulheres acerca desses tópicos é um indicativo de seu grau de socialização. Para isso, duas categorias de análise buscaram compreender tal objetivo: políticas, objetivos e valores e integração social.

Dentro das políticas, objetivos e valores, avaliaram-se aspectos relacionados ao funcionamento e à estrutura do grupo de trabalho. Percebeu-se que as trabalhadoras têm consciência de suas tarefas e sabem também a quem devem recorrer ao necessitarem de algo para sua execução. Acerca dos valores da organização, pela ótica da gerente de recursos humanos estes se encontram bem fixados pelos funcionários, no entanto não se pode afirmar até que ponto os valores mencionados pelos funcionários são provenientes de sua opinião ou do repasse fornecido pela organização.

Já no processo de integração social, foram considerados aspectos relativos à percepção das trabalhadoras sobre o apoio recebido e a aceitação dentro da organização, bem como as relações de trabalho. Notou-se que existem também deficiências com relação à

socialização dos novos membros, já que, embora se sintam integrados à organização, a apresentação ao seu grupo de trabalho foi ausente ou parcial. A propósito da relação com os homens, é possível detectar a presença de preconceito em alguns momentos, bem como de piadas, diferença de tratamento e cantadas durante o trabalho, comportamento relevado e aceito como normal por parte das trabalhadoras, como sendo uma característica inerente aos homens e que nada tem a ver com o tipo de organização em estudo.

Além disso, apesar de sofrerem certa relutância por parte de pessoas próximas, as mulheres demonstraram que isso não afeta a socialização delas com o seu emprego, alegando estarem felizes e satisfeitas com o que fazem.

Desse modo, no que concerne ao segundo objetivo específico, este foi atingido por ter sido possível compreender de que maneira as trabalhadoras enxergam os tópicos abrangidos. No entanto, ao se tratar do processo de socialização organizacional, os resultados também apontam para um grau de deficiência, já que o processo inicial de integração e apresentação ao grupo de trabalho possui lacunas e as relações de trabalho, apesar de serem vistas como respeitosas, também apontam para certos comportamentos que podem afetar as trabalhadoras.

O último objetivo específico diz respeito à análise do domínio e a aprendizagem das características necessárias para a execução das tarefas pelas trabalhadoras, partindo do pressuposto de que estes surgem com o processo de socialização. Buscou-se analisar a compreensão e utilização da linguagem técnica e da organização, bem como se compreender melhor a execução das tarefas e a maneira pela qual as habilidades e as capacidades necessárias para o correto desenvolvimento de seu emprego são aprendidas.

Antes de iniciarem seus trabalhos nas construtoras, as trabalhadoras não tinham conhecimento dos termos específicos da profissão, que passou a ser adquirido no cotidiano do emprego, ou por observação, ou com o auxílio de colegas.

Sobre o aprendizado relativo às tarefas, a empresa forneceu treinamento inicial sobre a organização e sobre segurança do trabalho, mas ainda há a carência de treinamentos. Os colegas de trabalho apresentam-se como figuras de auxílio durante esse processo de aquisição. Além disso, também existem atitudes proativas das funcionárias, que solicitam ajuda ou perguntam quando sentem a necessidade.

Assim, o terceiro objetivo específico também foi atingido, já que foi possível verificar que o domínio da linguagem passou a ser desenvolvido com o ingresso na organização e a aprendizagem daquilo que é importante para a execução das tarefas se deu por meio de treinamentos iniciais e, principalmente, por auxílio de um colega de trabalho. Em se

tratando da socialização organizacional, percebe-se que os treinamentos são importantes para situar as trabalhadoras dentro da organização. No entanto, o processo de socialização não ocorre somente quando um indivíduo ingressa na empresa, o que atenta para a falta de treinamentos posteriores para uma melhor socialização da mulher dentro de sua função específica na empresa.

Em suma, percebe-se que a socialização organizacional dessas mulheres dentro da construção civil está acontecendo. No entanto, o processo ainda apresenta deficiências que, não necessariamente, estão ligadas ao setor de atuação delas, como a consciência da história e dos valores da empresa, a carência de treinamentos após o ingresso na empresa e a lacuna de uma melhor apresentação do grupo de trabalho. Sobre as relações de gênero, foi possível perceber que atitudes como receber cantadas durante o trabalho são consideradas normais e recorrentes, que eventualmente existem comportamentos preconceituosos e que algumas mulheres têm de assumir uma posição mais masculinizada para poder impor um maior respeito. Além disso, apesar da satisfação das trabalhadoras, o trabalho delas ainda não é completamente valorizado e apreciado, inclusive – e especialmente – por pessoas próximas a elas, como parentes e cônjuges.

Com base nos resultados obtidos e visando à continuidade e aprofundamento dos estudos sobre as mulheres que atuam no setor da construção civil, sugere-se para pesquisas futuras que se realize novamente a pesquisa, ampliando-se a amostra, para a obtenção de resultados mais completos, o que permitiria também dar início a outra perspectiva de pesquisa, na qual se contraste a visão das mulheres em diferentes posições de atuação dentro desse segmento da economia. Por fim, outra sugestão seria a de verificar as percepções dos homens que trabalham junto a essas mulheres, visando comparar as duas dimensões.

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APÊNDICES

APÊNDICE A – Roteiro de entrevista aplicado às trabalhadoras da construção civil da cidade de Fortaleza-CE que participaram deste estudo

ROTEIRO DE ENTREVISTA APLICADA COM AS TRABALHADORAS DO SETOR