2.3.1 Estado sanitário. Resistência física. Rusticidade
O mau estado sanitário em Angola tem prejudicado o bem-estar físico, mental e social dos cidadãos. As empresas privadas que tratam da recolha de lixo e dos esgotos estão concentradas nas principais cidades (Luanda, Benguela, Huambo e Lubango), e nas restantes províncias a recolha é efetuada por empresas públicas que funcionam sem meios adequados.
Nos arredores de Luanda, podemos encontrar pessoas que vivem e que praticam a atividade comercial junto ao lixo e águas paradas, o que contribui para a proliferação de doenças como a malária e infeções por enteroparasitoses (diarreia, infecção intestina, etc.), que afetam principalmente as crianças e prejudicam o ambiente envolvente.
A falta de higiene em Angola tem causado problemas de saúde e a morte de muitos cidadãos. Segundo os dados do World Factbook, o governo angolano gastou, em 2009, 4,6% do PIB em despesas de saúde. Este gasto podia ser evitado, se o governo fiscalizasse o
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funcionamento das empresas que tratam do saneamento e colocasse em prática campanhas de sensibilização que incentivassem a população a manter os seus bairros limpos.
Em muitos bairros de Luanda, a população carece de água tratada e de canalização. No bairro do Palanca, a falta de água canalisada, leva os moradores a comprarem água nas cisternas ou mesmo a utilizar água salobre. As estimativas efetuadas pela CIA mostraram que em 2008 50% da população angolana tinha acesso a água potável, mas que 82% da população rural e 14% da população urbana não tinha condições de saneamento.
Quanto à resistência física, o angolano sempre esteve habituado ao sofrimento e sacrifício ao longo dos séculos. Primeiro com a escravidão, acorrentados e obrigados a trabalhar quase sem descanso longe dos seus, depois com os trabalhos forçados, submetidos pelos colonos, e a seguir à independência, com os longos anos de guerra civil.
Relativamente à rusticidade, esta qualidade encontra-se mais no interior do país, onde o povo segue as tradições mais afincadamente e onde a guerra civil impediu de alcançar o nível de desenvolvimento alcançado nas áreas do litoral.
2.3.2 Patriotismo. Crenças.
Desde que o país foi descoberto pelos portugueses, o povo angolano começou a sua longa caminhada rumo ao sofrimento. Devido às diferentes fases de sofrimento e sacrifício referidas no ponto anterior, as diferenças étnicas esbateram-se e nasceu o patriotismo no seio do povo, que se juntou para combater em nome da independência e segurança da nação.
Hoje o espírito patriótico não é sentido muito entre os jovens, cada um anseia lutar pelos interesses próprios, mostrando uma certa apatia em relação à realização dos interesses comuns dirigido pelo Estado. Apesar de todos desejarem uma Angola melhor e sem carências, os jovens angolanos ainda não perceberam que o patriotismo une o povo em solidariedade para o bem comum e para a defesa da nação.
Em relação às crenças, os angolanos ainda não acreditam numa Angola melhor, estando desiludidos com os seus dirigentes e com o funcionamento das suas instituições para resolver os problemas sociais e satisfazer as necessidades dos cidadãos. Contudo, existem as crenças religiosas que dão esperança de uma vida melhor.
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2.3.3 Elites. Correntes de opinião
Angola é um Estado pós-colonial, que substituiu a maioria da elite do tempo colonial por uma nova elite saída dos três movimentos de libertação.
O Estado nacionalizou todos os meios de produção, ficando o MPLA com o controlo de todas as áreas da sociedade, pois o país estava em guerra civil e a União Nacional de Independência Total de Angola (UNITA) e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) encontravam-se nas matas.
A elite política do MPLA passou a ser também a elite económica e militar, da qual faziam parte os generais. Em 1991, com o fim do partido único e do centralismo de mercado, os outros grupos políticos, passaram a participar do poder político, e foi-se criando uma nova elite económica. Apesar desta situação a elite angolana não se renovou, só possibilitou que mais pessoas passassem a ter o poder político e económico.
A elite angolana, por norma, segue o princípio da hereditariedade, formada por políticos e timocratas - a classe dos generais que enriqueceram durante a guerra civil e assumiram as pastas do governo, se tornando detentores do poder económico (Lara, 2009, p. 224).
A igreja católica também pertenceu à elite, mas viu os seus bens confiscados e a sua autoridade enfraquecida pelo Estado no tempo do partido único. A sua relação com o poder político foi restaurada, mas encontra-se submetida à elite política e não voltou a ter o poder que possuía outrora.
Nas zonas rurais existem as elites tradicionais, que têm como objetivo proteger o povo e emitir mensagens sobre o que acontece no mundo urbano à população das aldeias (Graça, 2009, p. 35).
A elite angolana não tem uma visão de modernidade para a nação, é uma elite ligada aos seus interesses, que deixa as massas excluídas.
As correntes de opinião em Angola ainda não estão totalmente liberadas, apesar de a constituição prever a liberdade de opinião e de expressão de pensamento, de valores políticos, culturais e linguísticos, a maioria do povo angolano ainda não se sente à vontade para manifestar a sua opinião, devido ao trauma do partido único e das perseguições de outrora (do partido MPLA). Por isto concluímos que a opinião pública em Angola ainda não tem um papel importante.
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2.3.4 Adaptabilidade
Depois de sofrer quase 40 anos de guerra, o povo angolano aprendeu a adaptar-se às diferentes situações da vida, tendo capacidade para se ajustar e resistir em condições adversas. Talvez esta capacidade também se deva ao sentimento da impossibilidade de mudar o sistema, de atingir os seus objetivos, ou por serem um povo sofrido para quem a única saída é a adaptação às circunstâncias.
2.3.5 Coesão social
A coesão social para o povo angolano ainda é uma miragem, pois depois de tantos anos de guerra, o país ainda se encontra em condições de garantir a equidade social, uma vez que a proteção social ainda é ineficiente. Nem todos os indivíduos dos grupos mais desfavorecidos têm acesso à segurança social e a falta de coesão entre os grupos sociais se reflete no aumento da violência, uma vez que as disparidades podem dar origem a convulsões sociais, que prejudicam a segurança e o bem-estar da nação.
A maior parte da população vive em condições de instabilidade económica e não vê os seus direitos a serem garantidos, prejudicando deste modo, na formação de um povo coeso e solidário que trabalha em prol dos interesses comuns.
A pobreza é um dos principais fatores de falta de coesão num país, e segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas de 2010, em Angola 54,3% da população vive abaixo do limiar da pobreza e o fosso entre ricos e pobres está cada vez mais acentuado. Esta realidade leva ao aprofundamento da violência que dá lugar às estratégias de
apartheid social, em que os ricos se recolhem nos condomínios fechados por grandes muros,
dividindo o mundo dos ricos e dos pobres (Dumbo, 2012, p. 59). Podemos então concluir que a coesão social em Angola tem vindo a diminuir, o que prejudica o seu desenvolvimento, tanto económico como social (The World Bank, 2011).
Hoje, depois de Angola alcançar a paz, os angolanos ainda estão a trabalhar para manter o povo coeso, pois devido às desigualdades dos diferentes grupos sociais, em que uns são mais favorecidos que os outros, os angolanos estão mais preocupados em correr atrás da satisfação das suas próprias necessidades, sem pensar no bem comum. Apesar de haver um sentimento de solidariedade entre os diversos grupos étnicos, devido ao sofrimento causado pela guerra civil, a coesão social está difícil de ser alcançada.
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