PART III: METHODOLOGY
3.5 D ATA COLLECTION
Diante do que já foi exposto sobre os problemas existentes em relação ao não cumprimento da lei pela empresa, o sindicato é ou deveria ser um dos meios utilizados pelos trabalhadores para reivindicarem seus direitos. Por este motivo foi questionado como se dá a relação do sindicato com a empresa, se de forma conflitiva ou aberta à negociação. De maneira geral, o acesso dos sindicatos à empresa, previsto em lei, se dá sem obstáculo. É o que afirma um trabalhador da empresa, hoje afastado, dirigente sindical:
[...] tem na nossa convenção coletiva, existe uma cláusula que a gente tem acesso à empresa, certo? Então, a gente pode entrar, pode colocar o folhetim lá, só não fazer política, né? partidária, mas sempre tem a reunião com o pessoal, toda vez que tem algum, eles vão lá e dizem eu quero discutir o banco de horas, aí pronto, aí você vai liberar o pessoal, lá no auditório, a gente vai consultar o pessoal, se o pessoal aceita e tal. Então a gente tem esse acesso aí, até porque eles tem interesse também, porque se a gente não aprovar o banco de horas, se o sindicato não aprovar, então o banco de horas não existe. E se eles fizerem isso, o ano passado eles tentaram fazer diferente, aí nós fomos parar no Ministério do Trabalho. Então, foram pagos todo, mesmo o pessoal que folgou recebeu o dinheiro, o Ministério do Trabalho, ou, então, autuava. Mas, existe, aqui em João Pessoa, existe uma certa, eles entendem que é necessário, né... B3G1.89 (ex-gerente – dirigente sindical)
[...] porque existe um temor ... é quase como se fosse forçado, é porque, se num negociar, não acontece, teve um ano aí que não negociar, foi parar no Ministério do Trabalho, né, aí eles viram que não era vantagem, entendeu? Então, é isso aí, num tem, num é porque eles são bonzinhos, que eles concordam, não pelo contrário, tem canto aí que ele não quer nem ver o sindicalista. Campina Grande, por exemplo, o pessoal vai pra lá pra frente com faixa, entregando panfleto aos clientes, oh, aí o supermercado que vocês compram não tá pagando os direitos do trabalhador e tal, aí eles abrem né. B3G1.92 (ex gerente)
A respeito do acesso do sindicato à empresa, o gerente (G3) relatou que o sindicato realiza uma reunião anual na empresa com os trabalhadores e os representantes sindicais. Existem também os representantes do sindicato que trabalham na empresa, que repassam informações e orientam quanto às dúvidas dos trabalhadores, sobre seus direitos. Porém, para alguns trabalhadores só é possível defender esses interesses porque possuem a estabilidade de dois anos, pois fazem parte da CIPA, podendo reivindicar sem correr o risco de serem demitidos. A empresa também não pode impedir o trabalhador de ir até o sindicato, pois este é um direito legal:
[...] consegue, porque a gente tem estabilidade, a lei determina isso e dá estabilidade a gente, pra que a gente possa fazer a nossa função, a gente num pode ser um super- herói, num pode ser, entendeu? De acordo com as possibilidades da gente, quando a gente é barrado, a gente é, convoca, no caso, a diretoria, a diretoria toma providência e a gente executa a nossa função lá dentro... B3S6.7
[...] a gente tem uma relação muito boa com o sindicato, a gente consulta o sindicato pra algumas situações, tem uma abertura, até porque, a gente tem que ter pessoas que façam parte do sindicato pra tá fazendo parte do orgânico da nossa loja, aí tem o vice presidente do sindicato, que trabalha na frente de loja, é vice presidente do sindicato do comércio, existe outros, né. Em toda a unidade do [...nome da empresa...] tem membros do sindicato e a gente lhe da muito bem com essas pessoas e com o sindicato, também a gente tem uma relação boa. B3G6.71 (gerente)
Apesar de se constatar, nos depoimentos acima, que a empresa abre as portas para o sindicato e que é importante à presença de dirigentes sindicais, alguns desses dirigentes apontam que a relação entre empresa e o sindicato não é tão aberta e que existe certa discriminação quanto aos trabalhadores que são dirigentes sindicais ou ligados ao sindicato:
[...] esse representante do sindicato no [...nome da empresa...] era o funcionário mais mal visto da empresa, normalmente, era aquele agitador, que não gostava de trabalhar, que tava ali porque era do sindicato, era assim que era visto, ele não tem nenhuma, nada que estimule a organização coletiva dos funcionários não, eles num, se você quiser ir ao sindicato, você procura o sindicato lá, mas dizer que a empresa abre portas para o sindicato, isso eu vi, eu nunca, nunca eu tive lá, sete anos do [...nome da empresa...], nunca um sindicato esteve dentro da empresa pra nada, nada, nesse sentido, não. B3G2.99 (ex gerente)
Esse ex gerente (G2) foi enfático em dizer que o sindicato não aparecia nem mesmo para realizar algum tipo de negociação com a empresa ou para algum tipo de campanha, para, por exemplo, melhoria de salário ou melhores condições de trabalho. Outros relatos, no entanto, afirmaram sobre a presença do sindicato em alguma ocasião, mesmo que só anualmente. O ex gerente também destaca que a referida empresa chega a ter uma influência muito grande no sindicato dos comerciários:
O [...nome da empresa...] tem uma influência muito grande no sindicato e eu não sei porque, talvez tenha lá os motivos que a gente não sabia, mas o sindicato num... acontecia esses desmandos todinho dentro do [...nome da empresa...] e nunca se viu lá Ministério do Trabalho, nunca se viu sindicato, nunca se viu nada, nesse sentido, lá dentro da empresa, buscando defesa de funcionário, não ... B3G2.100 (ex gerente)
O relato acima aponta para uma realidade histórica do sindicato dos comerciários: a sua fraca atuação e a baixa capacidade de organização coletiva dos trabalhadores, isso só vem a confirmar o que explana Santos (2006 apud Antunes, 2006a), traduzindo a dinâmica da acumulação flexível, em que se expressa pela crise do sindicalismo, pois, essa crise afetou a capacidade organizativa dos trabalhadores, que agora lutam de forma mais individualiza. Por este e por outros motivos ocorre o descrédito dos trabalhadores em relação aos sindicatos e, no caso da empresa estudada, os trabalhadores não conseguem perceber a atuação do sindicato nas negociações realizadas pela empresa. Neste sentido,
muitos têm vontade de se desvincular do sindicato, por sentirem-se insatisfeitos, principalmente com a questão salarial.
Por outro lado, a literatura aponta que a empresa estudada tem tradição de ser anti-sindicalista (GATTI, 2007). No entanto, os trabalhadores ainda acreditam que somente com a atuação dos sindicatos, de forma mais ativa, é que conseguem ter seus direitos preservados. A empresa, por sua vez, usa de todos os recursos para resolver os problemas internamente, e como afirma Linhart (2007), em relação às políticas de gestão que visam à dissolução dos conflitos internos, mantendo os trabalhadores longe dos valores contestados, ou seja, procurando resolver os problemas internamente.