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A propósito dos acontecimentos que marcaram a história paraguaia, este país passou por duas guerras muito significativas, que marcaram a formação do seu caráter e da sua forma de ver o mundo (pelo menos seu entorno mais próximo): a da Tríplice Aliança40 e a do Chaco. A primeira, ocorrida entre 28 de dezembro de 1864 e 08 de abril de 1870, deixou marcas indeléveis na sociedade, na história, na política e na cultura paraguaia.

A participação do Brasil na Guerra do Paraguai foi sempre um dos motivos utilizados pelos vizinhos latino-americanos para criticar a atuação brasileira, tida como impiedosa (MIYAMOTO, 1999). Por meio de uma abordagem crítica, não romântica nem xenófoba do evento, Chiavenato (1988) classificou a guerra como o “genocídio americano”. Segundo ele,

os motivadores principais da explosão da guerra teriam sido os interesses do capital inglês àquela época e a subordinação aos mesmos dos governos argentino, brasileiro e uruguaio. Ao desenvolver uma longa pesquisa a respeito da guerra da Tríplice Aliança e enfrentando muita dificuldade de acesso aos documentos oficiais, Chiavenato (1988, p. 10-11) assim resume o fato histórico:

Porque o acesso aos documentos sobre fatos que nos levaram à Guerra do Paraguai e a própria documentação durante a guerra revelam o grau de vilania, eles são escamoteados ao povo. Não se pode dar ao conhecimento do povo, na visão estreita e xenófoba dos herdeiros dos destruidores da emergente República do Paraguai, os motivos por que se fez a guerra. Isso seria revelar os métodos que a Inglaterra usou, em última análise, para impor ao Brasil a dominação do capital estrangeiro: que perdura até hoje, mudando apenas o endereço dos bancos [...]. Substitui-se então uma história crítica, profunda, por uma crônica de detalhes onde o patriotismo e a bravura dos nossos soldados encobrem a vilania dos motivos que levaram a Inglaterra a armar brasileiros e argentinos para a destruição da mais progressista República que já se viu na América Latina. Uma República, a do Paraguai, que se não fosse destruída, assassinada junto com seu povo, modificaria por completo a própria história dos americanos, que teriam, muito provavelmente, todos os elementos para se libertar do jugo de tiranos mistificados de civilizadores como Mitre, de caudilhos criminosos como Venâncio Flores ou de meros joguetes nas mãos do capital internacional como Pedro II.

Para traçar a dramaticidade que foi a Guerra da Tríplice Aliança, onde teria morrido mais de 99% da população masculina adulta do Paraguai, Chiavenato (1988) comenta que a barbárie cometida pelos aliados chegou ao ponto de, segundo ele, Duque de Caxias ter afirmado ao Imperador Pedro II que a vitória final teria de ser cruel, para dizimar a população paraguaia “para matar até o feto do ventre da mulher” (CHIAVENATO, 1988). O Quadro 12 mostra os principais números de mortos (em combate, de fome ou de pestes) durante a guerra, os quais indicam o tamanho do genocídio cometido, e falam por si sós a respeito de como essa guerra marcou a alma dos paraguaios, até os dias atuais.

Quadro 12 – Distribuição Populacional do Paraguai Antes e Depois da Guerra (1864-1870)

Distribuição Populacional do Paraguai Antes e Depois da Guerra (1864-1870)

População paraguaia no início da guerra 800.000 100,00%

População morta durante a guerra 606.000 75,75%

População do Paraguai após a guerra 194.000 24,25%

Homens sobreviventes 14.000 1,75%

Mulheres sobreviventes 180.000 22,50%

Homens sobreviventes menores de 10 anos 9.800 1,22%

Distribuição Populacional do Paraguai Antes e Depois da Guerra (1864-1870)

Homens sobreviventes maiores de 20 anos 2.100 0,26%

Fonte: Chiavenato, (1988, p. 158).

Como não é de cunho histórico o objetivo deste trabalho não foi realizada uma análise profunda da literatura especializada. A eloqüência dos números é tanta – especialmente frente ao descaso da área de gestão estratégica com análises históricas – que, mesmo que se corte a metade ou a um terço, não diminui a significância da tragédia que foi a guerra para o país41. Outra conseqüência da derrota foi a perda de 140.000 km² de território, em favor do Brasil e da Argentina, o que é relevante demais para uma nação que tem hoje 406.750 km².

O objetivo desta breve narrativa é trazer à tona um contexto histórico – tipicamente ignorado pela literatura de gestão estratégica e pelos correspondentes discursos economicistas promovidos pela área de gestão e pelo capitalismo gerencial – que marca a memória paraguaia em relação aos aliados: i.e., argentinos, uruguaios e, em particular, brasileiros. Ainda hoje este evento é presente em maior ou menor grau na nação guarani, fato que contribui para que ainda sejamos, os brasileiros, considerados como “imperialistas” (ABC COLOR, 2010) ou “bandeirantes” (SAGUIER, 2012).

Apesar disso existe uma relação cultural estreita com o Brasil, o hábito de passar férias em muitas praias brasileiras, Camboriú em particular. O Executivo 2 comentou que paraguaios sempre lembram da Guerra da Tríplice Aliança. Recentemente, por ocasião da suspensão temporária do Paraguai no MERCOSUL, esses ressentimentos afloraram por completo, pondo em manifesto que as feridas ainda estão abertas, tal como expressa o ex- embaixador paraguaio na OEA, Hugo Saguier (2012):

En cuanto a la presidenta del Brasil, Dilma Rousseff, de tanto en tanto agita el fantasma perverso del Conde d’Eu, instigador de uno de los genocidios más brutales que consigna la historia universal. La metodología de la doctrina pirata de los bandeirantes parecía relegada al basurero de la historia; sin embargo, ella ha sido reeditada con un sesgo diferente, mimetizada bajo el ropaje de la fraternal integración hemisférica, pacificadora y progresista, cuando en realidad encarna un mercenario y siniestro intervencionismo crematístico que tiene como principal cometido la tarea de ejercer rapiña, inequidad y usurpación en los países de menor desarrollo.

41 Goiris (2010) indica que a população paraguaia antes da guerra seria de aproximadamente 1.300.000

habitantes, dos quais teriam sobrevivido pouco mais de 20%, ou cerca de 300.000 pessoas, sendo maioria mulheres e crianças.

Não por acaso o Executivo 1 (2012) afirmou que a entrada da Petrobras em países como a Bolívia, e mais particularmente o Paraguai, costuma suscitar duas percepções antagônicas:

A 1ª é positiva, tida como uma excelente notícia, no sentido de que uma das maiores empresas de capital aberto do mundo, um exemplo de sucesso de empresa estatal (economia mista), vai investir e aportar tecnologia ao país;

A 2ª é pessimista ou mais crítica, no sentido de que o Brasil, nas últimas décadas, está crescendo a nível acelerado e passa novamente a ser visto como imperialista, especialmente naqueles países de economia de menor escala, com a percepção que a empresa ou o país vai intervir de forma abusiva no equilíbrio da equação daquele mercado. Essa percepção teria existido, segundo o Executivo 1, na Bolívia, no Paraguai, no Uruguai, ou seja, nos países de menor escala, e é corroborada por Magnoli (2009):

Os governos engajados na reativação da tese do ‘imperialismo brasileiro’ não podem ser, apropriadamente, enquadrados num conjunto ideológico monolítico. O chavismo tem evidentes repercussões políticas e diplomáticas internacionais, mas não constitui a fonte inspiradora dos governos de Evo Morales, Rafael Correa ou Fernando Lugo, que são fenômenos caracteristicamente nacionais. Entretanto, apesar das diferenças fundamentais que os separam, todos estes governos acalentam uma dupla aversão aos EUA e ao Brasil. No caso de Chávez e, em menor escala, de Correa, uma relevante matriz ideológica dessa dupla aversão encontra-se no programa de edificação de um capitalismo de Estado. Sob o ponto de vista deles, as empresas brasileiras são elementos do conjunto imperialista constituído pelas multinacionais. A Petrobrás, embora controlada pelo Estado, é classificada na mesma categoria, por ser uma empresa de capital misto.

O segundo evento que marcou a história paraguaia foi a Guerra do Chaco, que ocorreu de junho de 1932 a junho de 1935. O Paraguai foi obrigado a declarar guerra à Bolívia, por conta da invasão desta à região do Chaco pertencente aos paraguaios onde, supostamente, haveria importantes reservas de petróleo. Há historiadores (SEIFERHELD, 1983) que afirmam tal guerra ter sido fomentada por companhias petrolíferas mais especificamente, a Standard Oil ‘defendendo’ a Bolívia e a Royal Dutch Shell ‘apoiando’ o Paraguai (GOIRIS, 2010). Ao contrário da guerra da Tríplice Aliança, o Paraguai venceu a guerra do Chaco, derrotando um exército boliviano muito mais numeroso, porém pouco organizado. Como conseqüência da guerra, o Paraguai ampliou seu território, ficando com três quartos do Chaco Boreal, enquanto à Bolívia coube a outra parte. Mais de 90 mil paraguaios morreram nesta guerra e o país ficou devastado economicamente, destroçado socialmente e esmagado animicamente (GOIRIS, 2010). Posteriormente, estudos aprofundados revelaram que não havia reservas importantes de petróleo naquela região.