Em 2000, Carlinhos teve sua primeira experiência em albergue na cidade de São Paulo: esteve no Albergue do Pedroso.
E fui percebendo na minha história que esse tipo de relação sempre me afundou! Fiquei sem chão uma época que caí no albergue, porque trabalhava de segurança somente três vezes por semana e o salário só pagava o aluguel de quarto no centro da cidade. Tive que ir pro albergue! Saí depois de um ano, quando consegui emprego de pedreiro. Essa história que eu quero contar, pra você entender.
Tem muita coisa que eu não posso contar, mas vou contar aquelas que podem. Eu morava aqui no Centro, num quarto alugado. Tocava em um barzinho da região e, numa noite de pagode, conheci a Otaviana.
Neste tempo meu nome artístico era Jony Ita. Já tive muitos nomes e você vai entender por que Carlinhos Luz.
Bem, comecei a dar aulas de violão para Otaviana nesse quartinho que eu alugava. Ela me disse que morava com seu ex-marido, mas estavam separados e, por isso, topei começar um relacionamento com ela. Mas fui percebendo que tinha algo estranho... descobri que ela saía com outros caras, e, por uma série de atitudes, entendi que o problema não era ela. Aí eu descobri que a mulher tinha um monte de espírito ruim, Pombagira. Tem gente que pensa que Pombagira atua na área do sexo. Usa o sexo, mas, na verdade, a função da Pombagira é separar casamento.
O que eu fiz? Dei uma Bíblia de presente. Seu ex-marido soube e se aproximou de mim, ficamos amigos e esclareci a situação com ele, parei de sair com Otaviana e nossos encontros se resumiam às aulas de violão. Ela começou a ficar muito irritada, mas eu já sabia que era o coisa-ruim atuando. Uns tempos depois, em 2006, eu estava trabalhando como pedreiro na empresa Monte Azul e tinha conseguido comprar um barraquinho na favela do Moinho. O trem passa no meio da favela e eu estava a caminho do trabalho. Otaviana me ligou dizendo que ia sair de casa, eu ouvi o apito do trem, me afastei, mas não foi suficiente... Bum! Meus amigos disseram que a alça do trem me acertou, que eu não tinha sinais vitais. Fiquei desacordado, enquanto eles buscavam ajuda, mas a minha experiência foi outra.
De repente, umas luzes muito lindas, coloridas, um raio, um facho assim... e uma pessoa fez um gesto de aproximação. De um lado vi umas fumacinhas, gritos e muito gemido, que eu denomino de inferno. A definição de inferno para mim é estar atormentado por algo que não fez e deveria ter feito e passar toda a eternidade assim! E tem outros infernos físicos, como, por exemplo, o cara que mora embaixo do viaduto, que pede esmola, que depende dos outros. Bem, essa história eu não conto, pois ninguém acredita, nem na Igreja! Mas voltando para a luz... então, aquela luz, eu chamo de Jesus. Eu vi vultos, formas humanas mal definidas e ouvi aquela voz, que na verdade, eu sempre ouvi! Foi a mesma voz que ouvi quando fumei Cannabis
sativa pela primeira vez. Fui entrando, a voz dizia “por aqui, ali não te pertence”, e após um flash de luz, pude ver muitas árvores, animais, um lugar muito bonito que chamo de paraíso. Aproximei-me de uma pessoa e ela me disse que minha missão era ser músico (o que a voz tinha me dito aos 14 anos), tocar reggae e usar o nome de Carlinhos Luz.
Depois disso eu acordei, com meus amigos em volta, um médico, e eles diziam: “mas você estava morto!”. Eu falei: “pois é, se eu morri, não sei, mas eu tenho umas coisas tremendas, mas eu não vou contar pra vocês. Eu não posso”. E você foi uma das poucas pessoas que ouviu a história completa.
novamente a pombagira foi acionada para contar a trama dos conflitos, sobre os quais não nos debruçaremos aqui. Basta saber que, antes de sua saída, conseguiu uma indenização. Segundo ele, recebeu uma carta de crédito para compra de imóvel após sentença em uma ação de usucapião urbana coletiva ter manifestação favorável à comunidade55.Tal indenização lhe permitiu iniciar a compra de um imóvel no Litoral Sul paulista.
Entre 2010 e 2011, Carlinhos passou quase todo o tempo em albergues ou permaneceu na rua, em São Paulo, até conseguir se mudar para o litoral. Nesse período, ao saber de um sarau que aconteceria no Ponto de Encontro e Cultura/USP, foi conhecer o espaço e passou a frequentá-lo. Era participante assíduo, em especial dos saraus, os quais também ajudava a organizar. Através do apoio do Projeto Metuia, da Associação Rede Rua e do Ponto Cultural Ocas, produziu seu novo disco, intitulado Eu estou na paz, clareou. A canção Clareou56era uma das mais tocadas no sarau do PEC e no piano da Estação da Luz, e diz:
Escureceu Chegou a noite A lua vem clarear Clareou a minha vida Clareou o meu viver
Clareou a minha vida de amor, e de paz e de luz Por isso eu vou sair comigo
Vou me levar para passear Levar um lero comigo
Me ouvir, saber o que eu preciso Eu vou ser o meu melhor amigo Clarear, clarear, clareou
Clareou a minha vida Clareou o meu viver
Clareou a minha vida de amor, e de paz e de luz