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6.1 Diskusjon av funn

6.1.2 Å være barn i måltidet

Salvador narrou em detalhes sua chegada à Missão Belém no início do ano de 2009. Compartilhou as nuances de uma experiência cotidiana que envolveu a solidariedade, a necessidade de produzir soluções para o abrigo e a alimentação, o conhecimento que se adquire por fazer parte de determinados circuitos e as alternativas possíveis. Após alguns percalços, narrou sua chegada à sede da Missão Belém, onde recebeu uma “canjinha deliciosa”. Um alento naquele momento, sua expressão ao relembrar a cena, não deixou dúvidas! As ambiguidades desta experiência também são relembradas neste trecho de entrevista textualizada que segue:

Eu já tinha parado de consumir drogas, pois estava num bom senso que acredito que nunca me abandonou. E eu estava no albergue Pedroso, o prazo de seis meses se aproximava. Não, não é cabalístico, seis meses é uma referência e é um prazo. [...] Até que um dia, fui pegar um rango lá no Largo São Francisco, vejo o Peter, o sul-africano que tinha morado comigo na Kombi. Ele estava com Christian, outro sul africano, que tinha acabado de sair do sistema penitenciário, tinha acabado de pegar quatro anos por tráfico aqui no Brasil, e só estava com 20% de visão. Disse o Christian que no terceiro mês de cadeia, apagou a visão. De uma hora para outra.

Pensei: o cara não fala português direito, na rua, sem enxergar? Conclusão: fui dormir uma noite com ele e vamos lá ajeitar a história para o Christian. Peter sumiu de novo. Bem, pensei em procurar encaminhamento para cuidar do problema dos olhos do Christian, aproveitando para conseguir meus óculos também.

Conhecemos então outro “maloqueiro” que nos indicou o Instituo Padre Chico. Ficamos então entre o Padre Chico e a Missão Belém, esta eu já conhecia da abordagem dos missionários na rua. Na Missão conseguiria dar um tempo, descansar. Liguei dali do Pátio do Colégio mesmo e consegui o contato com a Missão Belém: Ah, pode vir, a gente tem nossa sede na avenida Celso Garcia.

Na rua Nelson Cruz tem o barraco do Gianpietro, o padre, e é a sede oficial da Missão Belém. Então resolvemos dormir e caminhar pela manhã do dia seguinte para pegar o encaminhamento com eles. Quando acordamos, fomos em direção ao São Martinho de Lima80 para almoçar, chegamos ao meio-dia

e cinco e já não tinha mais almoço. Estava varado de fome! Difícil andar com o cara, porque anda devagar e não enxerga direito! E eu naquela pilha de rua! Tentando apressar! Nós fomos andando, tomamos o café e saímos. Então andamos mais um pouco até a sede da Missão Belém no bairro do Belenzinho. A Missão acolhe moradores de rua, drogaditos, egressos, alguns imigrantes e não sei mais. Fomos acolhidos, ganhamos uma canjinha deliciosa e o dinheiro para o trem. Fomos até Rio Grande da Serra [SP],

80 Compõe a rede de atenção a adultos em situação de rua na cidade de São Paulo, caracterizado como Núcleo de

convivência para adultos em situação de rua. Foi a primeira casa de convivência a ser conveniada em 1990 com

onde está localizada a casa da Missão Belém e que ocorre a triagem inicial. Seguimos então para Jarinu [SP], o primeiro bonde81 a gente nunca se

esquece! Então chegamos ao Mosteiro São Miguel Arcanjo, uma das casas da Missão Belém, onde eu fiquei durante sete meses e meio e saí, pois não suportei a perseguição imposta à minha pessoa, e voltei para rua.

Quando fui para lá, pensei em passar um tempo, acompanhar o Christian, ver se poderia ajudar, essa era a minha missão. Mas aí o Christian sempre na negativa: “ah, é uma porcaria esse lugar!” Mas eu fui ficando. Quando eu posso sair? Três meses. Tá. Consegui segurar dois dias de visita direito, saí, passei cinco dias visitando a família, convidei-os para me visitar, foram todos: cunhado, irmã, sobrinha, que deve estar com 14 anos e sobrinho com uns 18 anos. Voltei e passei mais esse período, fui até subcoordenador da horta.

Porque lá acordávamos às 6h íamos para a tenda louvar a Deus, voltávamos para o café e depois era laborterapia, almoço, laborterapia, descanso e mais orações até o jantar.

Eu costumo dizer que tomei vários tipos de choques anafiláticos: 6 volts, 12 volts, 110, 220, 1000 volts, vários choques. Eu jamais pensei que eu ia entrar no mosteiro! Eu gostava de ler a palavra e no final era sempre escalado para essa atividade, pois eu interpreto, né? Brinquei um pouquinho lá de encenação das palavras, em um ritual chamado Ye-shua, é um dia de trabalho com quem é acolhido, por exemplo: tem gente que não é batizado, aí parte para o catecismo antes de ser batizado, e tem uma série de atividades, como encenações das palavras de Deus e dinâmicas.

Assim como Salvador, outras pessoas puderam encontrar em igrejas, templos, mesquitas e terreiros espaços de abrigo e proteção noturna. Cada sistema religioso e cada narrativa mostrou experiências diferentes, como pudemos acompanhar nas trajetórias de Ali Mansour e Solange, por exemplo, em que a adesão a determinado sistema resultou na possibilidade de uma morada, ainda que por um período provisório. Nestas situações, semelhantes à de Salvador, foi a capacidade criativa que, apoiando-se nos espaços e discursos institucionais, resultou na construção de redes de pertencimento. Pude, também, observar experiências anônimas, como a participação em vigílias noturnas e a dinâmica da Igreja Mundial do Poder de Deus, localizada na região do Brás, nas proximidades do PEC/Metuia. Tal vigília era procurada não apenas por aqueles que se identificavam com o sistema religioso, mas também por ser percebida como alternativa possível para a proteção noturna, como um recurso a mais a ser acionado na gestão do cotidiano, por exemplo, na ausência de vaga em albergue.

A narrativa de Salvador e as andanças pelo centro da cidade de São Paulo levaram- me à Missão Belém. Apesar de estarmos dialogando com o universo católico, as duas

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Explicação do entrevistado: “Bonde é aquela gíria de quando sai a carreata de carros de polícia com a sirene para fazer uma missão. Aqui no Brás a gente vê bastante, quando saem aqueles carros ali da antiga Febem, sai um camburão, e sai um, dois, três, quatro carros fazendo batedouro.”

experiências aqui apresentadas guardam distâncias expressivas. Não foram encontrados estudos específicos sobre a Missão Belém, e o material disponível para pesquisa é mais escasso do que aquele encontrado em torno do trabalho da Pastoral. Entretanto, panfletos e vídeos de divulgação estão disponíveis e foram indicados como materiais para consulta. Haveria necessidade de um estudo específico sobre esta obra religiosa, mas o que se pretende nesta tese é apenas chamar atenção para mais uma metodologia de trabalho desenvolvida na cidade de São Paulo, tendo como alvo de práticas e discursos a população em situação de rua.

A Missão Belém está ligada à Igreja Católica e foi instituída canonicamente em 2010 pelo cardeal de São Paulo, d. Odilo Pedro Scherer. Também se especializou no que definem como “povo de rua”. Foi criada em 2005 e se apresenta da seguinte forma:

[...] seu objetivo principal é “Evangelizar”, quer dizer “anunciar o evangelho”, ao Povo de Rua, que tem direito a receber as fundamentais verdades cristãs a partir de uma metodologia específica. É nossa profunda convicção de que a vivência do Evangelho resgata por si mesma, oferecendo valores humanos suficientes para iniciar uma caminhada de restauração que afaste de qualquer vício. Por isso realizamos, ininterruptamente, Missões na rua e os membros da Missão Belém vivem inteiras semanas, junto ao Povo de rua, passando dia e noite com os irmãos de rua, dormindo com eles nas calçadas, a fim de partilhar em tudo sua vida sofrida e propor os novos valores evangélicos (MISSÃO BELÉM, 2013).

A presença dos missionários no centro da cidade é marcante, em vários momentos do dia e da noite. Em situações de extrema dificuldade, como no caso de pessoas em situação de rua que necessitam de recuperação após internação por motivos de saúde ou pessoas idosas, e onde há omissão ou falha nas políticas propostas pelo Estado, a Missão costuma ser acionada.

Os próprios órgãos públicos, muitas vezes se encontram em dificuldade diante do tamanho dos problemas e acreditamos que a nossa pequena obra religiosa possa ajudar a realizar quando lemos na CF (Constituição Federal): criar uma “Sociedade Fraterna, fundada na harmonia social, sob a proteção de Deus.”

Nesse caso o Santo Evangelho nos impulsiona a ter o mesmo comportamento que encontramos no Código Penal (art 133-135): não omitir o nosso socorro. Por isso o nosso lar, se torna o lar desses “infelizes”, que, depois de ter utilizado as estruturas de saúde pública e ter recebido alta, retornam para as nossas casas: nós somos a família de todos os que não têm. Quem recuperou sua saúde se sente grato a Deus que o libertou e o salvou, tirando-o do “fundo do poço” e deseja restituir esse amor ajudando os que necessitam: “Náufrago salvando náufrago!” Esse é o nosso lema (MISSÃO BELÉM, 2014).

a pessoa deve mover-se no sentido de “descobrir Jesus e o Evangelho”, confunde-se e se sobrepõe com a noção de cidadania e da assistência social como um direito, como previsto no ideário do Sistema Único de Assistência Social. Se, por um lado, a Missão prega a solidariedade e a noção da não omissão perante o sofrimento do outro, por outro, as pessoas em situação de rua são apresentadas como quem necessita de um resgate e não como sujeitos que tiveram direitos violados. A defesa do direito recebe novo significado, pois se trata do direito das pessoas em situação de rua de receber as fundamentais verdades cristãs.

Vale lembrar que, um dos focos do trabalho da Missão Belém é a região que os paulistanos costumam chamar de Cracolândia82,tendo estabelecido convênio com o governo estadual de São Paulo para a realização de ações na região, desde 2012. Trata-se de trabalho de convencimento de saída da rua e internação voluntária em uma de suas casas de acolhida no estado de São Paulo, de modo que os agentes desta interlocução são também pessoas que passaram pelo mesmo processo pela Missão Belém.