5.1 Presentasjon av barnehager
5.2.3 Å spise sammen er koselig
Cydoka, 64 anos, nasceu em Ituverava, interior de São Paulo, no circo em que seus pais trabalhavam. Seus pais foram artistas de circo: seu pai foi sanfoneiro e sua mãe, atriz. Deste modo, Cydoka os acompanhou desde cedo nas artes circenses e na vida itinerante. Aos 5 anos, começou a cantar e interpretar sob orientação de sua mãe. Após alguns anos decidiram fixar residência em uma cidade chamada São Jorge, no Paraná, pois a família tinha crescido muito. A cada circo que passava pela cidade, a mãe de Cydoka negociava suas apresentações. E assim permaneceu cantando e atuando durante alguns anos. Passou também a cantar em bares e clubes noturnos até seu casamento.
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“Depois eu resolvi fazer família. Pra quê? Paguei 34 anos... de sofrimentos”, resumiu Cydoka, que parou de cantar e atuar e dedicou-se aos trabalhos domésticos e ao trabalho como faxineira. Quando foi cantar na cidade de Santos, apaixonou-se por um marinheiro paquistanês, que fora deportado quando estava grávida do seu segundo filho.
Trabalhou como cobradora de ônibus, passadeira, faxineira, vendedora de cafezinho e criou os filhos sozinha. As dificuldades financeiras que se impuseram com o avanço da idade pela impossibilidade de trabalhar, assim como a ausência de outras redes de apoio levaram Cydoka à situação de rua.
Cydoka revelou que sempre fora religiosa e chegou a experimentar algumas práticas como Seicho-No-Ie e Igreja Evangélica Paz e Vida, a qual ainda frequenta esporadicamente. Quando perguntei a Cydoka se tinha alguma religião, respondeu-me: A música é minha religião!
Eu tenho uma coisa espiritual, só minha, que eu sinto em relação à música. Agora, no relacionamento pessoal eu estou no lugar errado. A filosofia diz: cada qual em seu devido lugar. Mas eu não estou morando no meu devido lugar. Eu estou sim, na música. A música é meu lugar. Mas a moradia, não.
3.2.2.1 O reencontro com a música
“A música é minha religião”, afirmou Cydoka parafraseando Hermeto Paschoal. Foram 34 anos sem cantar, relembra, e nos últimos anos retomou seu projeto com a música e de forma autodidata aprendeu a tocar piano. Em entrevista à TV Estadão, realizada na Estação da Luz, declarou:
Eu sou ainda uma moradora em situação de rua. Eu estava em um albergue em Pinheiros e como um sonho apareceu um piano lá no Largo de Pinheiros, e a turma da rua, meus conhecidos, falou: Ô, tia, toca alguma coisa! Aí comecei devagarzinho até que saiu alguma música. E no prazo de dois anos aprendi a tocar algumas músicas, neste piano, e a me acompanhar.
As pessoas me veem tocando piano e pensam que sou de classe média, mas mal sabem eles que para mim, cantar, tocar é a coisa mais comum que tem. O meu maior desejo no mundo é voltar a ter a minha moradia. Porque quando eu voltar a ter a minha moradia, eu posso procurar meu filho! (TV ESTADÃO, 2011).
Durante três anos, Cydoka frequentou quase diariamente o piano na Estação da Luz60, onde procura divulgar seu DVD produzido artesanalmente. Compreende que a música é
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uma missão designada por Deus, que se comprova pelo fato de ter aprendido a tocar piano em pouco tempo e de forma autodidata. Percebe que ao realizar tal missão, consegue atrair para si acontecimentos positivos, em constante relação com o que denomina de entidades (espíritos) boas e ruins, as quais interferem em seu cotidiano e em suas projeções para o futuro61.
Tenho uma missão. Porque se eu passar uma semana sem tocar, aí é que começa acontecer coisas piores do que as que estão acontecendo. Isso aí, por quê? Porque quando eu venho tocar, principalmente quando tem público assim, aquelas pessoas são alegres elas falam pra mim que saem de alma lavada. Então eu acredito na espiritualidade, aquela energia positiva, eu capto. Graças a Deus.
O apoio para a música veio inicialmente de uma amiga que a filmou e postou o vídeo no YouTube, além de colaborar com a produção de um DVD de suas canções. Tem se apresentado em atividades culturais ligadas às pessoas em situação de rua, como o Natal Solidário, organizado pelo MNPR, e o já tradicional encontro de final de ano com a presidente Dilma, organizado em parceria por MNPR, Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) e organizações sociais.
A presença constante no piano da Estação e contatos com outros artistas que estiveram em situação de rua, levaram a TV Estado62a se interessar pela história de Cydoka, que teve ainda mais duas participações na grande mídia, uma na TV Globo (Programa do Jô)63, outra na TV Record (Coral da Rua)64.
Ainda que Cydoka tenha conseguido certo destaque na grande mídia, e que este fato tenha aumentado suas expectativas de mudança em sua vida, sua relação com a moradia permanece inalterada. Ela se sustenta na fé em Deus e compreende que os acontecimentos até agora, em especial o fato de ter aprendido a tocar piano de forma autodidata em um tempo curto, são sinais de que tempos melhores virão. O piano da Estação da Luz continua sendo um lugar fundamental para a organização de seu cotidiano, espaço de trocas econômicas, afetivas e simbólicas.
iniciado em outubro de 2008.
61 A compreensão sobre as entidades (espíritos) será mais bem detalhada no Capítulo 4.
62 http://economia.estadao.com.br/videos/videos,a-melodia-da-rua-sem-teto-canta-e-toca-piano-na-estacao-da- luz,128728,,0.htm?pagina=1 63 http://globotv.globo.com/rede-globo/programa-do-jo/v/moradora-de-albergue-cydoka-fala-de-sua- vida/1562028/ 64 https://www.youtube.com/watch?v=PU2n_CCAq7Y
Sem frequentar nenhum ritual religioso, reivindica uma relação direta com Deus e permanece atenta aos sinais que possam lhe guiar à conquista de seu grande sonho: voltar a ter uma moradia.
3.2.2.2 Moradia, um direito?
Em muitos momentos de nossos encontros, Cydoka desabafou e analisou criticamente a situação em que vivia no albergue. Suas reflexões conduzem-nos a pensar no sentido de morar e na qualidade das relações desenvolvidas nos serviços de acolhimento para pessoas em situação de rua, pois se sentia profundamente desrespeitada. Cydoka também busca explicações, tanto para a “queda na rua”, como para as dificuldades que enfrenta no albergue manejando símbolos religiosos que agrega elementos espiritualistas, das filosofias do Seicho-No-Ie e dos evangélicos, em especial da Igreja Paz e Vida.
Quatro anos. É muita coisa. Mas tem hora que eu me lembro da minha casinha como se fosse agora, sabe. E hoje tenho que aturar grito todos os dias pra cima de mim. Outro dia fizeram um relatório enorme sobre a minha desorganização no quarto. Agora, pensa bem, vocês que me conhecem, o que eu faço, eu vou ter quarto bagunçado? Dá pra acreditar? E lá tenho que tomar remédio pra dormir, remédio pra depressão, remédio pra ansiedade, mas só lá. Quando peço dois dias de ausência e que eles autorizam, vou dormir na casa de uma colega minha que mora em Itapevi, eu não preciso tomar nenhum remédio pra dormir, nem pra estômago, nada!
Nunca imaginei, que a essa altura de minha vida, precisaria me submeter a uma situação como essa. No albergue tenho mais apoio das moradoras do que dos funcionários, ninguém acredita e valoriza o meu talento. Querem que eu faça passeio ao museu, participe das reuniões de apoio, mas isso não faz sentido nenhum para mim. Quero poder estar no piano da Luz, da Sé, estudar mais música. Sabe o que falta? Falta espaço para a voz de cada um. Tenho uma companheira de albergue que tem momentos de muita lucidez! Ela me disse outro dia: isso aqui é o governo, você esquece o governo. Vem pra dormir. Se você for mexer com essa parte, você vai deixar de ser Cydoka e vai virar dona Cida de novo, perder tempo. Então, eu entrego pra Deus, até a hora que Deus abençoar que já tá abençoando. Porque os contatos vão indo, você sabe que eu ganhei o teclado? O cara me viu tocando só uma vez, tinha um teclado parado e me deu! De repente pode aparecer algum aí que tenha um apartamento fechado e quer ficar um ano na Europa, e ele tem medo de alugar. De repente ele pode falar: ‘opa, vamos ajudar essa mulher aí! Esse é o meu maior sonho, o que eu mais queria. Ter minha casa de volta. Você sabe o que é ter sua casa, na qual você manda, você decide o que fazer, a hora em que fazer? Eu já não faço meu próprio café há 5 anos!
E você imagina pessoas estranhas gritando comigo diariamente, ameaçando de me desligar do serviço, pessoas que têm idade para serem minhas filhas? Você pode imaginar que humilhação?
E você sabe que os albergues concentram os espíritos das trevas, sempre converso com minhas colegas sobre isso. Porque os espíritos das trevas
jogam a gente lá, eles que fazem a gente cair. Os albergues precisavam de exorcismo semanalmente!
Por isso que eu canto, e toco e faço as pessoas se desestressarem, de modo que consigo, assim, captar toda energia positiva para me proteger!
Assim como os ensinamentos do Seicho-No-Ie, Cydoka acredita em Deus, que todas as religiões podem ser luzes de salvação que emanam de um único Deus e, sobretudo, que o mundo da matéria é projeção da mente. Com fé, música e muita paciência, Cydoka administra as redes invisíveis e concretas, e segue ampliando seus contatos e usufruindo da melhor forma possível da dinâmica que os pianos que se encontram no espaço público propiciam, respondendo ao chamado “Toque-me, Sou Teu!65”.