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Alternative finansierings-

3.3 Finansiell teknologi

3.3.4 Alternative finansierings-

Retomando a problemática da circulação das ideias e da crítica da oposição centro- periferia, nota-se o fato após os episódios da consultoria do Edifício-sede do MES e da Cidade Universitária do Brasil que o contato entre a produção arquitetônica brasileira e a de Le Corbusier praticamente cessou. De acordo com o tomo de correspondências de Le Corbusier (1987), a datação da sua última carta endereçada ao Brasil consta do dia 29 de junho de 1939. Só reapareceriam correspondências em 1946, ou seja, com o término da Segunda Guerra Mundial. Eis um dos fatos que contribuíram para a autonomização da produção brasileira, na medida em que as consultorias foram interrompidas e os arquitetos engajados nos projetos modernistas praticamente tiveram que se virar sozinhos sem o aval dos mestres europeus.

Anteriormente à Guerra, ao se analisar o conteúdo das cartas, observa-se que os arquitetos do Grupo Carioca colocavam-se claramente na posição de aprendizes de Le Corbusier e, em projetos de porte monumental e função social, a opinião ou consulta do mestre era sempre pedida. No paradigmático caso do projeto do MES, a contratação do escritório de Lucio Costa com a consultoria do arquiteto franco-suíço parece ter sido uma decisão de fachada de Capanema, pois desde 1930 a legislação proibia a contratação de

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Nos meios acadêmicos brasileiros, o periódico importado circulava e as ideias de Le Corbusier já eram conhecidas por um público restrito, filiado às redes da intelligentsia modernista de São Paulo, mas era praticamente desconhecido do público carioca. Isso pode explicar a falta de atenção de Lucio em relação à Conferência de Le Corbusier no Rio de Janeiro em 1929.

arquitetos estrangeiros para obras públicas. O Ministro Capanema – que já havia se esquivado em realizar o Projeto do MES do vencedor do concurso Arquimedes Memória – mais uma vez encontra um “jeitinho”, agora para que Le Corbusier trabalhasse no Brasil: Consultoria de Le Corbusier por meio da formulação de pareceres para a equipe de arquitetos brasileiros (LE CORBUSIER [Parecer] a Gustavo Capanema 10 ago. de 1936. In: Santos et al., 1987, p.169).

Porém, porque apesar de ter havido essa contratação por meio de pareceres de extremo detalhamento que faziam de Le Corbusier praticamente o arquiteto chefe da obra, o projeto do MES não foi de fato um projeto de Le Corbusier? Um pouco de arrogância pessoal e vaidade explicam.

De forma sucinta, na segunda viagem de Le Corbusier (que na verdade tinha como motivação principal a feitura indireta do projeto do Edifício-sede do MES pelo vetado arquiteto estrangeiro) lhe foi apresentado um terreno no Centro do Rio de Janeiro, cercado por construções que limitavam grandes intervenções no sentido horizontal. Le Corbusier detestou o terreno e, aproveitando que estava na cidade, procurou e achou um outro sítio à beira-mar. Le Corbusier desenhou todo o seu projeto assentado nesse terreno litorâneo próximo ao antigo aeroporto, atual Santos Dumont. No próprio parecer de Le Corbusier (Ibid.), ele escreve a Capanema pedindo pela mudança do terreno, tendo em vista que esse terreno à beira-mar estava desocupado.

Essa atitude do arquiteto francês demonstra a forte crença no poder de barganha com o campo político e, principalmente, uma grande aposta na sua autoridade ou capital simbólico. No final por razões burocráticas e imobiliárias, o terreno no centro do Rio foi mantido com o argumento de ser o único disponível e nele foi construída a obra final. Nota-se que a grande aposta de Le Corbusier lhe custou a impossibilidade de realização de um único projeto no Brasil pelo simples fato de o projeto não caber no terreno real. Isso significa que Le Corbusier deslumbrou-se com seu próprio reconhecimento desenhando um projeto sobre um terreno de faz de conta, um projeto que por causa da implacável realidade se tornou imaginário, uma fugaz imagem de utopia.

Assim sendo, o problema foi jogado para as mãos dos jovens arquitetos brasileiros que tiveram que fazer um novo projeto para o MES de acordo com o terreno real. É interessante notar que essa inusitada situação abriu a oportunidade dos arquitetos ao redor de Lucio Costa de empreenderem a primeira obra pública modernista de cunho monumental. Mas, principalmente, essa situação os forçou a procurar soluções novas, certa autonomia iconográfica, mas ainda dentro dos princípios da arquitetura modernista ou das ideias de Le Corbusier ou como costumava dizer Lucio Costa, “a partir do risco de Le Corbusier”. De qualquer modo, com o Projeto concebido e estruturado, Costa enviou a Le Corbusier os croquis do projeto brasileiro, pedindo-lhe a opinião. Le Corbusier, amistosamente, acreditando que o projeto ainda era uma mera adaptação do seu, elogia as adaptações. Entretanto, para os arquitetos brasileiros o Projeto do MES foi mais do que uma mera adaptação. Surge o problema da indefinição da autoria.

Após a Guerra, ocorreu um enorme mal-estar entre Le Corbusier e os arquitetos brasileiros causado pela publicação, em Oèuvres completes (1938) de Le Corbusier, de um desenho do projeto do MES como sendo uma das obras do arquiteto europeu. A polêmica da autoria do Prédio do MES possui três hipóteses (SANTOS et al., 1987). A primeira é de que tenha havido um mal-entendido, porque o croqui publicado teria sido apenas um dos possíveis desenhos de estudo apontados por Le Corbusier quando visitou o terreno antigo. A segunda hipótese tem a ver com o problema do pagamento de honorários26, haja vista que o Governo Brasileiro não havia pago a consultoria por completo, então, esse ato teria sido uma reação de Le Corbusier ao calote que sofrera. Por fim, levanta-se que a polêmica teria sido gerada pela crença de Le Corbusier de que o Projeto era de sua autoria e que os brasileiros teriam feito retoques e adaptações, tanto que o cálculo do montante que ele acreditava ser devido a ele (1,2% do custo total da obra) ia além da remuneração de consultor e se aproximava do montante de um arquiteto chefe e não de um simples consultor.

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Le Corbusier, com base nos honorários pagos pela Ordem dos Arquitetos da França, cobrava os seguintes valores: “Honorários previstos para anteprojeto: a) Estudo preliminar – 10% dos honorários; b) Anteprojeto – 10% dos honorários. Os honorários para um prédio desta natureza são estimados em 6% dos custos, minha participação seria então 20% de 6% dos honorários dos custos; minha participação seria então 20% de 6%, ou seja, 1,2% de honorários sobre o custo total da obra” (LE CORBUSIER [carta] de 28 de novembro de 1949 [para] BARDI, in: SANTOS et al., 1987, p. 201).

De qualquer maneira, essa publicação causou tristeza a Lucio Costa, que tendo visto o desenho publicado em questão, escreveu para Le Corbusier pedindo explicações:

P.S: O esboço feito a posteriori, baseado nas fotos do edifício construído e que você publica como se se tratasse de uma proposição original, nos causou, a todos, uma triste impressão (COSTA [carta] de 27 de novembro de 1949 [para] LE CORBUSIER, In: SANTOS et al., 1987, p. 200).

Le Corbusier responde a Lucio Costa, justificando o episódio como uma infeliz coincidência, porque quando fora informado posteriormente de que o terreno seria aquele do centro da cidade, teria tratado de redesenhar por conta própria um novo projeto, fazendo o edifício se elevar na vertical, solução análoga àquela encontrada pela equipe carioca:

Tomei o prédio em comprimento e o reagrupei em altura. Você parece dizer que não fui eu que tive a ideia dessa operação porque publiquei um pequeno croqui na “Obra completa” edição Girsberger, 3° vol. página 81. Assim, aparentemente teria feito um abuso atribuindo-me a invenção da ideia. Conhecendo-me e conhecendo-o, é a tese da libertação do solo pela altura do edifício. É-me absolutamente impossível saber se meus croquis foram feitos a partir da maquete como você parece dizer; não tenho a menor sombra de uma lembrança de ter tido a intenção de instalar os marcos de uma polêmica nessa história. (LE CORBUSIER [carta] de 23 de dezembro de 1949 [para] COSTA, In: SANTOS et al., 1987, p. 203).

O fim da polêmica se encerra quando Lucio Costa envia uma foto da placa de inauguração do Prédio do MES colocando os arquitetos brasileiros como autores, mas ressalvando que foram orientados pelo “rabisco” do mestre Le Corbusier.

Da perspectiva discursiva, a polêmica indica algo mais. Os arquitetos brasileiros buscavam delimitar e autonomizar sua produção. Evidentemente, em 1936 a obra do MES não parecia internacionalmente relevante, contudo no período pós-guerra, as publicações específicas começam a expor artigos sobre a arquitetura modernista e o Edifício-sede do MES aparece como um dos grandes sucessos da nova arquitetura e era fácil associá-lo à figura de Le Corbusier. Como se sabe, desde sempre a não realização de um projeto concreto atormentava Le Corbusier, que nesse momento achava que suas ideias estavam sendo apropriadas por todos e que ele não tinha obtido o reconhecimento máximo que era a

concretização de um projeto seu em escala monumental. Igualmente, plausível é supor que para a imprensa especializada internacional a autoria do prédio do MES era de Le Corbusier27. A geografia do poder ainda ditava as regras e se apostava ainda na hipótese de uma espécie de colonialismo cultural, hipótese que, nos anos de 1980, viria a ser retomada na observação de James Holston (1993) a respeito de Lucio Costa: de que este seria um genial bricoleur de imagens, em grande parte, estrangeiras.

Porém, à maneira brasileira parece ter sido pouco compreendida pelos historiadores norte-americanos28 e a própria história se encarregaria de demonstrar que a circulação das ideias e – não o imperialismo cultural – tinha produzido um salto qualitativo e se tornado alguma coisa além no tocante à arquitetura modernista produzida no Brasil:

Ao lado de linhas retas nítidas, verticais e horizontais... Fiz uso das tão decorativas telhas coloniais e creio que consegui idear uma casa muito brasileira pela sua perfeita adaptação ao ambiente. (WARSCHAVCHIK, [entrevista para o Correio Paulistano] de 8 de Julho de 1928 apud PEREIRA Op. Cit., p. 73).

[...] a tradicional posição de dependência em que vivíamos, nesse particular, para com a Europa e a América, de um momento para outro, se inverte: são agora os mestres arquitetos dos Estados Unidos da América e do Império Britânico que se abalam dos respectivos países para virem até aqui, apreciar e aprender. Que estranho encadeamento de circunstâncias tornou possível tal milagre? (COSTA [carta] s.d. [para] CAPANEMA. In: SCHWARTZMAN, 2000, p. 373).

O segundo salto qualitativo em direção à autonomização da produção arquitetônica brasileira viria a ocorrer em seguida com a proposta culturalista de Lucio Costa. Resumidamente, o processo de busca pela autonomização da produção arquitetônica brasileira pode ser dividido em duas fases. A primeira é a fase antropofágica, em que a figura de Lucio Costa é central. Nesse período, a arquitetura modernista brasileira insere-se

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A autoria do Prédio do MES é novamente dada a Le Corbusier pela revista Archittecture d”Aujourd’hui, número especial, p. 12-13, em que o croqui vertical do Prédio do MES aparece como obra do arquiteto franco-suíço.

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Refiro-me pontualmente à comunicação do professor Farès El-Dadah, da Rice University dos Estados Unidos que sustentou a bricolagem como hipótese para a construção do artigo Lucio Costa ‘antropófago’?, apresentada em 28/07 de 2010 no Seminário Lucio Costa – Arquiteto no auditório do Museu Nacional da República de Brasília. Fato é que em terras norte-americanas o professor tornou-se referência em arquitetura modernista brasileira, com certa proximidade com a posição de Holston.

no simbolismo e na estética ligados ao folclorismo da Geração de 1922. Lucio Costa, portanto, pesquisa e constrói uma leitura muito própria sobre a nova-arquitetura, inspirado nos monumentos da arquitetura colonial brasileira e na antropofagia dos princípios modernistas propostos pelo discurso culturalista. A fase subsequente pode ser definida como a fase plástica ou da arquitetura-arte que é realizada por Oscar Niemeyer, através da nova relação que ele estabelece entre arquitetura e artes plásticas. Uma nova função é dada à arquitetura, que deixa a sua função social em prol de uma “função” plástica.

É claramente visível que os arquitetos brasileiros, especificamente os vinculados ao Grupo Carioca, trilharam um caminho diferente do debulhado pelos arquitetos europeus, entorpecidos pela proposta modular de Le Corbusier e pelos norte-americanos, estes presos a proposta funcional minimalista do Weniger ist mehr (o menos é mais) de Mies Van der Rohe com suas austeras torres verticais de vidro. De qualquer forma, Le Corbusier parece digerir alguns elementos iconográficos brasileiros e incorporá-los à formação do discurso modernista. A correspondência intensa entre Le Corbusier, Lucio Costa, políticos e intelectuais brasileiros expõe a mestiçagem ou o pedigree mestiço da contribuição de Le Corbusier aos CIAMs.

Capítulo III –

As imagens do Brasil colonial e sua reinvenção no plano urbanístico de