5. METODE
5.2 V ALG AV MODELL
Para os jovens a experiência da escolaridade média é vista como possibilidade para a continuidade de estudos em nível técnico e/ou superior. De fato, ao serem questionados sobre a percepção da vivência do ensino médio 97,5% deles avaliam que foi muito importante para a continuidade dos estudos. Nessa perspectiva, os estudantes valoram
104 Em maio de 2011, aprovou-se o Parecer CNE/CEB nº. 5/2011 estabelecendo novas Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM).
105 Em março de 2004, por meio do Parecer CNE/CP nº. 3 e a Resolução CNE/CP nº. 1, institui as Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (DCNERER). No texto das DCNERER traz orientações para se tratar a ERER na educação básica, bem como no ensino superior.
a experiência social e escolar recebida. Mas essa valoração não é de maneira alguma consensual entre eles. Observa-se que os discentes confrontam a experiência escolar com as suas expectativas (imperativas e cognitivas). O valor dessa experiência, nesse caso, irá depender, então, das expectativas que os estudantes possuem.
A expectativa pela continuidade de estudos foi também verificada na pesquisa realizada por Dayrell e Carrano e outros (2010), em que eles investigaram os projetos de vida de jovens paraenses. É interessante notar que os resultados obtidos pelos pesquisadores parecem em parte aproximar com os dados por nós coletados. Ou seja, o perfil dos jovens que ambicionam a continuidade de estudos trata-se daqueles que estão na idade/série adequada e que se encontram matriculados no 3º ano diurno. Os pesquisadores constataram que a maior parte desses jovens busca ingressar no curso superior. Para tal, os discentes não mencionam que irão utilizar qualquer recurso de política de ação afirmativa como, por exemplo, cota social e racial, tendo em vista promover o seu ingresso. Outro aspecto observado é que a meritocracia aparece marcadamente no discurso dos jovens. Os pesquisadores a identificam no momento em que os estudantes atribuem o esforço pessoal à maneira de superar as dificuldades sociorracial e educacional a ser enfrentadas por eles: “a consciência das dificuldades que vai enfrentar diante das quais acredita superar pelo esforço pessoal, uma representação muito comum que embasa a meritocracia, e pelo apoio da família”. (DAYRELL; CARRANO, et. al., 2010, p. 81)
O desejo pela continuidade de estudos é também mencionado na conversação dos jovens. Ele resulta do trabalho do ator com as expectativas imperativa e cognitiva. A experiência escolar é entendida nesse sentido para alguns deles como um meio para se atingir o fim último que é o ingresso no curso superior. Embora para outros o horizonte da faculdade, naquele momento, não é assim tão evidente. De fato, a cobrança que é feita por diferentes instituições sociais (família, escola, mercado de trabalho, meios de comunicação, etc.) sobre os jovens para a continuidade de estudos, de preferência, no curso superior, trazem efeitos sociopsíquicos106 para eles. Esses efeitos nem sempre são levados em
consideração por eles, conforme podemos observar.
Edimilson (Branco): Acho que os dois.
Miriam (Parda): Acho que o meio influencia muito. Machado (Pardo): Um pouco dos dois.
106 Sobre o entendimento sociopsíquico do sujeito, valemo-nos das reflexões desenvolvidas por Vincent
Gaulejac (2005), que reconhece a necessidade de se pensar o sujeito a partir da tensão permanente entre a vida social e a vida psíquica vivenciada pelo indivíduo. De modo que, em ambas as dimensões social e psíquica, estão o sentido das nossas existências, argumenta o autor.
Miriam (Parda): Né, porque hoje o mundo está querendo que você termine o mais
rápido possível pra engrenar já numa empresa e ser uma boa engenheira. Ou entrar, é, num hospital e ser um excelente médico. Mas, às vezes, o tempo do mundo não é o seu. Mas aí você se auto se cobra pra poder estar no mesmo tempo de todos.
Elisa (Parda): Você se cobra também em relação... é, você compara. Fala: nossa,
esse menino formou e já entrou e eu estou aqui até hoje. Gente, a um tempão. Aí a gente fala: poxa, a pessoa já... Aí assim, já tem aquela cobrança. Tanto externa,
que você vê que todo mundo está meio que conquistando as coisas, já com uma faculdade ou está fazendo um curso profissionalizante. Então você fala: Não, eu quero isso pra mim também. Quero estar num estágio bom para o mercado. Eu quero estar, né.... Então eu acho que acontece isso tanto interna quanto externa. Machado (Pardo): Eu acho que o externo não é bem isso. Eu acho que não
influencia tanto sabe, você comparar: ah, essa pessoa está formada e eu não, porque desde pequeno eu falava que ia fazer faculdade até chegar esse ano e eu pensar em não fazer mais isso, mexer só no ramo que não envolve a faculdade, né. E acho que o meio externo, eu não importo não. Mas eu acho que o que leva mesmo a estar buscando mais, né, e a estar é... tentar buscar mais rapidamente as coisas... o dia a dia, né, por exemplo, querer uma certa independência. É, a vida nem sempre está tão fácil, querer ir se virando, ganhando dinheiro pra poder estar dando uma engrenada. Né, desde novo pra poder está... aí pra frente tá com responsabilidade também uma experiência de vida, né. Você vê tantas pessoas passam necessidades aí e tal. Tipo, eu não vou naquele erro ali que acontece e desde novo tá tentando buscar um caminho pra poder sair dali. (GDE2, grifos nossos)
No diálogo estabelecido entre os jovens é possível perceber as diferentes maneiras de como eles e elas lidam com a autocobrança social sobre si. Todavia, a influência das expectativas externas não é de maneira nenhuma consensual entre eles. No caso das jovens Miriam e Elisa, elas sentem o peso maior dessas expectativas. As jovens argumentam que elas influenciam sim as suas expectativas em relação à continuidade de estudos. Já o jovem Edimilson considera que tanto as expectativas internas quanto as externas são capazes de influenciar a decisão pela continuidade. Machado apresenta o discurso ambíguo, a esse respeito. Inicialmente, ele argumenta que se considera isento do efeito das expectativas externas. Dizendo que, desde a fase da infância, já pensava em fazer a faculdade por si mesmo. Porém, ele reconsidera hoje esse “desejo” em seus projetos de vida buscando investir naquilo que lhe dá mais prazer.
Interessante notar que as expectativas pela continuidade de estudos são discutidas pelos jovens, no primeiro momento, como se fossem livres escolhas, bastando apenas eles e elas próprios(as) decidirem o rumo de seus destinos. No entanto, a tensão, o conflito e a ambiguidade faz parte dessa construção, conforme se pode notar presente em seus discursos. No caso das jovens negras isso parece ficar evidenciado quando elas externam o sentimento de angústia sobre a exigência que vem sendo hoje realizado pelo mercado de emprego.
A esse respeito, parece que a jovem Miriam compreende os atuais efeitos das desigualdades provocadas pela globalização do mercado financeiro mundial ao se referir que “o mundo está querendo que você termine o mais rápido possível pra engrenar já numa
empresa”. Em contrapartida, Elisa estabelece como parâmetro a observação da “realidade” em sua volta. A impressão que a jovem possui é que está ficando para trás, caso opte pela não continuidade de estudos em nível técnico e/ou superior.
Nota-se que nenhuma das jovens pondera sobre outros pré-requisitos que fazem parte também das atuais exigências do mercado de trabalho. Para exemplificar poderíamos dizer o domínio de outro idioma. Nesse sentido, percebe-se que a real situação de desigualdades sociorracial e de gênero em que se encontra a maior parte dos jovens negros(as) brasileiros não é ponderada por elas. Apesar de não sabermos se as jovens têm conhecimento de outros idiomas, a nosso ver, não dá para desconsiderar outras variáveis que apenas o diploma em nível técnico e/ou superior como sendo necessário para se inserir no mercado de trabalho.
E mais, o valor da escolarização média para as jovens advém de um imaginário social que estabelece uma intrínseca relação entre educação escolar, renda e status. A esse respeito, vale a pena lembrar o estudo clássico realizado por C. Wright Mills (1964 [1951]), o qual intentou compreender no contexto da sociedade norte-americana, a crença do valor de uma educação escolar como elevador, isto é, propulsora de mobilidade social. O período histórico por ele analisado era a passagem do capitalismo liberal de pequenas propriedades para um sistema corporativo de capitalismo monopolista, o qual impulsionou a transição de uma nova sociedade, sendo que o significado da educação escolar saiu das esferas política e da posição social para as econômicas e ocupacionais. Naquele momento, Wright Mills (1964 [1951], p. 275) já constatava que, “como um ‘capital’, a educação tem, entretanto, uma limitação que as fazendas e negócios não possuem: sua operação e utilização estão na dependência daqueles que controlam e dirigem empregos”.
Em se tratando de compreender a escolaridade, enquanto propulsora de mobilidade social no contexto social brasileiro, é preciso levar em consideração também o peso das desigualdades sociorracial e escolar. De fato, as jovens se autoresponsabilizam o êxito de adquirir “sucesso” na carreira profissional. Isso parece ficar evidente quando se percebe em suas falas o desenvolvimento de uma reflexão em nível mais individual do que social, conforme Elisa comenta: “eu quero isso pra mim também”.
Para além de uma autorresponsabilização individual meritocrática contido no discurso das jovens negras pela busca da “competência” técnica-profissional, a nosso ver, a problemática sobre o entendimento da especificidade de inserção de jovens negros e negras no mercado de trabalho é outra. Ela diz respeito à estrutura hierárquica sociorracial
verificada no contexto social brasileiro. A esse respeito, as pesquisadoras Santos e Scopinho (2011, p. 34) entendem que,
O critério racial tem balizado as possibilidades dos jovens negros acessarem o mercado de trabalho, apontando para maiores dificuldades. Desse modo, para os jovens negros há um sinalizador de desvantagem: sua própria classificação racial. Tais disposições atrelam-se à gama de varáveis que interferem na relação dos jovens com o trabalho e intensifica tensões e sofrimentos. A raça é algo que predetermina julgamento e delimita a atribuição de alguns perfis. Contudo, a raça é também algo de que o sujeito negro não tem escape, não pode engendrar estratégias práticas que revertam imediatamente as desvantagens por ser negro, destituindo-se deste fator que gera vulnerabilidade. De modo que o processo de aniquilação da vulnerabilidade atribuída à raça deve ser marcado por políticas públicas e pela promoção de diálogo entre os diferentes setores da sociedade, com vistas à superação dos estereótipos que desqualificam os negros e os impedem de gozar de seus direitos.
Diante dessa constatação indagamos, o que motiva o imaginário dos jovens pela continuidade de estudos em nível técnico e/ou superior como sendo uma das principais estratégias de sobrevivência vislumbrada a ser adotadas por eles após o término da escolaridade média? Porque será que a estrutura hierárquica sociorracial não é considerada nem pelos(as) jovens negros(as), e muito menos ainda, pelos(as) jovens brancos(as)? A esse respeito, Fátima Belchior (2007), pesquisadora do Ipea, identifica que, nos últimos 20 anos, aumentou o número de anos de escolaridade da população brasileira. Os brasileiros têm estudado mais do que as gerações anteriores. Segundo Belchior (2007), a equação: o maior grau de estudo corresponde o maior rendimento socioeconômico é amplamente difundida no contexto social brasileiro. Sendo assim, o valor do diploma é tido não só enquanto um valor simbólico, mas ele é visto também enquanto possiblidade de retorno financeiro. Nesse sentido, a fórmula certificação e rendimento se dão de maneira aparentemente mágica e mecânica. O efeito dessa fórmula mágica parece que paira sobre o imaginário desses jovens.
De fato, por mais que a elevação dos níveis de escolaridade permita o status social de prestígio e, inegavelmente, o maior rendimento financeiro, o entendimento sobre a produção e reprodução das desigualdades sociorracial e escolar extrapola essa compreensão. Significa entender que a situação sociopolítica, histórica e educacional a qual foi relegada a maior parte da população negra brasileira não as coloca em condições de pleitear em pé de igualdade posições de alto prestígio social no mercado de trabalho (HENRIQUES, 2001; HERINGER, 2003; PAIXÃO, 2010).
Assim sendo, é preciso ponderar sobre os efeitos do racismo. Em geral, eles se efetivam no saber e fazer da vida cotidiana de maneira ambígua, silenciosa e (in)visibilizada (TELLES, 2003; BENTO, BEGHIN, 2005; MARCONDES et. al., 2013). Contudo, tudo isso
não se apresenta de maneira desvelada de fato para a sociedade. A fórmula socialmente divulgada sobre o valor do diploma relacionada ao retorno socioeconômico só reforça, a nosso ver, a adoção de posturas individuais, autorresponsabilizadoras e meritocráticas. E mais, ela não evidencia também a hierarquia sociorracial, escolar, de gênero, entre outras, existentes em nosso país.
Com efeito, a busca pela “estabilidade financeira” permeia as expectativas dos estudantes. A continuidade de estudos pode ser entendida, então, por eles como uma estratégia de sobrevivência. E, nesse caso, a experiência escolar do ensino médio será valorada pelos estudantes na medida em que ela seja capaz de propiciá-los resultados satisfatórios nos testes como, por exemplo, o Enem, conforme veremos adiante.
Não obstante, a expectativa pela continuidade de estudo não é consensual entre os jovens. A esse respeito, é interessante notar o conflito vivenciado por Machado entre ter de decidir pela continuidade de estudos e de realizar os projetos com os quais ele realmente se identifica. Nesse sentido, por mais que o jovem diz não se importar com as cobranças advindas das expectativas externas, ele reconhece “[quero] uma certa independência. É a vida nem sempre está tão fácil, [é necessário] ir se virando, ganhando dinheiro pra poder está dando uma engrenada”. A independência mencionada pelo jovem parece está vinculada não somente ao fator financeiro, mas também a responsabilidade.
A responsabilidade é adquirida através da experiência de vida, segundo ele. É ela que dá condições dele se livrar das coisas ruins que são oferecidas no mundo social. É possível notar aqui que, sem muita orientação, por exemplo, da instituição familiar, o jovem responsabiliza a si próprio a tarefa de experimentar e de construir a sua experiência social e escolar. Assim sendo, verifica-se que a construção dessa experiência para os jovens se dá, na maior parte das vezes, de modo individualizada. O valor atribuído pelos atores a essa experiência resulta, então, da interação intersubjetiva deles com as diferentes instituições sociais. Com efeito, o conflito pela autenticidade, no caso de ter de decidir a “melhor escolha”, gera sentimentos de indecisão, confusão, medo, frustação, conforme está presente no depoimento do jovem Machado.
Os jovens são forjados socialmente a tomar decisões quase que o tempo todo. Não obstante, ante o cenário de limitadas opções de escolhas e sem nenhuma garantia e certeza dos caminhos a seguir, eles vivenciam um verdadeiro dilema no que concerne à cobrança social acerca da passagem da condição juvenil para a fase adulta. Em se tratando de entender a experiência social e escolar de jovens negros(as) e brancos(as) percebe-se que alguns deles se sentem tranquilos com relação a isso, pois dispõem de uma infraestrutura
mínima socioeconômica, cultural e familiar que os asseguram a realização de uma passagem mais segura e confortável. Já outros jovens se sentem mais inseguros, pois não possuem o mesmo suporte sociocultural. Há também outros deles(as) que esperam ver como as coisas irão ficar após o término da escolaridade média. De fato, a continuidade de estudos em nível técnico e/ou superior de maneira implícita ou explícita faz parte das expectativas cognitivas da maior parte deles(as). Os estudantes entendem a continuidade de estudos como uma possível forma de ingressar no mercado de trabalho de maneira mais digna, estável e segura.
Resulta daí o valor que alguns deles atribuem à experiência social e escolar do ensino médio. No entanto, para aqueles(as) jovens, os quais ajuízam que as práticas de ensino realizadas na escola são incapazes de propiciá-los êxito nos testes, a saber: Enem, vestibular, etc., essa experiência é, por assim dizer, desvalorizada por eles. É sobre a desvaloração da experiência social e escolar do ensino médio pelos estudantes que iremos discutir a partir de agora.